A
Educação ficou devendo
No
final de 2002, dois dias antes da posse do presidente Lula,
publiquei, no Correio Brasiliense,
artigo com previsões
sobre o novo cenário que se abria com a posse de um
ex-dirigente sindical e presidente de honra de um partido político
que estava assumindo compromissos muito claros em seu programa
de governo, com referência ao setor educativo. As novas esperanças
que então se anunciavam tinham como centro de gravitação a
rejeição do veto de Fernando Henrique ao dispositivo do Plano
Nacional de Educação, que previa a progressiva ampliação dos
recursos investidos no setor até chegar a um mínimo de 7% do
PIB, ao longo de 4 anos. O veto ainda dorme em alguma gaveta e o
que se viu, nesse aspecto, foi o contingenciamento de recursos
que todos sabem por que aconteceu e não pretendo retornar aos
argumentos que a mídia vem repetindo todos os dias.
Adicionalmente
a essa questão dos investimentos no setor educativo, chamei
atenção para outros indicadores que me pareceram importantes a
partir do quadro histórico da educação nacional e que se
referem: (i) ao restabelecimento do princípio federativo, com o
MEC no papel articulador e estimulador de ações nos estados,
municípios e grupos da sociedade organizada; e (ii) à questão
fundamental da valorização do professor, visto como
elemento-chave capaz de provocar a almejada melhoria da
qualidade da educação que se realiza na escola. Como
complemento da análise, alertava para o risco de prosseguimento
da linha política traçada pelo ministro Paulo Renato, que
procurou vincular a educação à assistência social, mesclada
com medidas “politicamente corretas” – de grande impacto
na mídia, mas de pouco efeito no conjunto do sistema – como a
adoção “cotas”, o apoio a propostas de “inclusão
educacional” e outras de muita visibilidade externa que, em
certa medida, ajudariam a mascarar a falta de vontade política
para enfrentar os reais problemas da educação nacional.
As
Demandas Retardatárias da Educação
Caso
comparemos a evolução histórica do Brasil com a de alguns
nossos vizinhos, como Argentina e Chile, por exemplo, veremos
que esses resolveram suas questões básicas de educação há
muitas décadas, no momento em que puderam investir fortemente
nesse setor e dessa maneira puderam receber os benefícios
sociais que se multiplicaram pelas áreas de saúde, saneamento,
emprego e renda, etc. A universalização da educação
fundamental nesses países se consolidou de maneira definitiva,
como conquista social ao longo do século vinte, e seus benefícios
perduram até os dias de hoje, com pequenas oscilações para
baixo mais visíveis no caso da Argentina, mas sem comprometer
os avanços sociais conquistados por esse país a partir do
final do século XIX.
O
Brasil teve inúmeras oportunidades (perdidas) ao longo do século
passado para investir em educação, e pouco fez para alterar o
quadro de injustiça educativa historicamente construído. Além
de insuficientes os recursos alocados, esses se tornam ainda
mais reduzidos devido a malversação, prática criminosa que
ocupa as páginas policiais dos jornais quase todos os dias.
Frente
às condições adversas que o país enfrenta diante da
globalização econômica, é possível que alguns estrategistas
governamentais estejam se perguntando a respeito da urgência a
ser concedida ao investimento educativo. Outros poderiam
questionar se ele é assim tão estratégico para enfrentamento
dos problemas políticos e sociais. Certamente, o presidente
Lula, como ex-dirigente sindical, não pode deixar de lado essas
questões no momento de tomar decisões relevantes.
Em
verdade, com a precarização das condições de trabalho,
tendendo para a informalidade, e a elevação das taxas de
desemprego, que para muitos se transforma numa questão
estrutural das novas formas de produção, a educação como
mecanismo de inserção do homem no mundo do trabalho já teve
importância maior da que se observa hoje no Brasil e em várias
partes do mundo. A Unesco, no Relatório Delors, já admite que
muitos jovens deverão ser estimulados pelas escolas ao trabalho
voluntário, mesmo porque uma parcela deles talvez não
encontre, ao longo da vida, oportunidades de exercer uma
atividade remunerada.
A
questão é complexa, pois seria utopia admitir que sozinha a
educação pudesse produzir emprego e renda, mas, no entanto, as
empresas já descobriram que para se manterem competitivas seus
funcionários precisam estar atualizados, e o trabalhador sabe
que para entrar e se manter no mercado é preciso estudar
sempre. Portanto, educação ainda é uma vantagem comparativa.
Retomar
investimentos anuais de cerca de 10% do PIB para a educação,
como defendem os educadores, exige uma decisão política que,
certamente, vai contrariar interesses em todas as esferas de
governo – federal, estadual e municipal. A lógica da
desvinculação, que parece estar consagrada na reforma tributária
que está sendo aprovada no final de 2003, põe por terra (ou
enterra de vez) os sonhos da geração formada segundo o ideário
da escola pública, universal, gratuita, obrigatória e de
qualidade para todos. Os novos tempos impõem outras questões
como parcerias, equidade, inclusão, segundo a semântica que a
massificação política das mensagens inculca em todos nós de
maneira massacrante.
Nessa
questão de recursos, portanto, o governo Lula ficou devendo a
todos nós. A seu favor conta, ainda, a promessa de chegar a 7%
do PIB ao final de seu governo. No entanto, pelas informações
que temos para 2004, o orçamento da União não contempla a
ampliação que seria desejável para garantir aporte
significativo dos investimentos nesse setor. Informações
veiculadas sobre o ano entrante indicam que alguns empréstimos
internacionais estariam dando prioridade à questão do
saneamento básico, área considerada estratégica para a geração
de emprego e renda para um imenso contingente de excluídos, sem
contar os benefícios adicionais que tais investimentos poderiam
agregar às áreas de educação e saúde, entre outras.
A
gestão Cristovam Buarque
Alertando
para o caráter indicativo desta análise de um ano gestão, em
que propostas estão sendo apenas enunciadas, sem que a maioria
delas tenha passado pelo crivo definitivo da execução e da
avaliação, é possível captar alguns traços marcantes da
maneira como as questões educativas foram conduzidas pelo
ex-reitor da UnB, guindado à posição de ministro de Estado da
Educação. Desde seu discurso de posse, em que confidenciou ao
antigo ministro Paulo Renato seu maior desejo – ser ministro
da Educação – Cristovam se mostrou um grande especialista em
criar fatos novos. Nesta tarefa foi imbatível.
A
geração de propostas em profusão, numa área que exige sólida
fundamentação e acurada discussão sobre mecanismos de
implementação das inovações, suscita dúvidas, especialmente
na educação básica, onde a quase
totalidade das iniciativas e das ações vai depender de
estados, municípios e da sociedade em geral. Ao longo do ano,
foram surgindo questões relativas a financiamento, execução,
supervisão, formação de quadros, entre outras, que não
tiveram respostas adequadas.
Muitos
programas foram anunciados sem um conteúdo formal definido em
termos de objetivos, metas e formas de articulação com os
eventuais parceiros e executores dos mesmos. E neste momento a
questão dos recursos tornou-se vital para que algumas
propostas, ao invés de se transformarem em políticas, fossem
adotadas em sua singularidade e na sua especificidade regional
ou local (municípios mais carentes, por exemplo). Nesse
sentido, a lógica da focalização – entendida como um
investimento localizado para produzir determinados resultados
bem delimitados – se impôs à norma da cidadania, que
considera todos os indivíduos em condições iguais para
atendimento educativo. E nesse aspecto, a lógica seguida pelo
ministro Cristovam é a mesma perseguida pelo seu antecessor
Paulo Renato. Com pequenas variações, as ações pontuais não
levam em conta o papel articulador e estimulador do Ministério
junto aos demais agentes públicos – estados e municípios.
Seria
natural que, numa conjuntura adversa e de escassez de recursos,
se buscasse utilizar o apoio e a colaboração de outras instâncias
públicas, em cada região e em cada Estado. Pouco se inovou
nesse aspecto. As universidades públicas, especialmente as
federais, principais centros de capacitação técnica instalada
em todo o território nacional, continuaram sem receber demandas
definidas para colaborar com as necessidades regionais, estão,
deliberadamente ou não, isoladas, ouvindo as críticas sobre
sua alienação e a necessidade de construção de um novo
modelo. As intervenções do Ministério em ações, como a
Escola Ideal (que timidamente inicia uma parceria com estados e
municípios), não configuram uma disposição de trabalhar
junto no sentido de buscar soluções que revelem uma autêntica
política de valorização da parceria entre os entes federados.
A
utilização dos poucos recursos disponíveis para repasses fica
condicionada ao cumprimento de exigências de natureza burocrática
que não levam em conta as necessidades reais de cada situação,
agravando mais do que ajudando a reduzir as profundas
desigualdades regionais de educação que vão se acentuando com
o passar do tempo. Nesta configuração geral do papel do MEC,
junto aos demais entes federados, pouca coisa mudou.
Antes, algumas outras se agravaram, como a promessa de se
instituir um exame nacional de certificação, assunto que dá
arrepios em muitos educadores preocupados com o futuro da
profissão.
A
impressão geral que fica, ao observar a quantidade de proposições
que surgem todos os dias – algumas exóticas como a utilização
de carteiros para distribuição de livros em casas para formação
de bibliotecas domiciliares – tem a ver com o fato de que não
há uma linha claramente definida para o Ministério na condução
da política educacional do país. Faltam estudos mais acurados
para definir claramente, a partir do texto constitucional de 88
e respectivas transformações nele operadas e da LDB em vigor,
o papel que deve ser exercido pelo Ministério, pelos estados,
pelos municípios e por demais agentes que executam a educação
escolar em nosso país. Pode-se pensar que o caminho trilhado
pela gestão Cristovam é o mesmo seguido pelos seus
antecessores. Antevendo um período de gestão relativamente
pequeno (Paulo Renato foi exceção absoluta ao ter permanecido
8 anos, quando a média histórica é de 1 ano no cargo), muitos
assessores – sempre eles – devem ter recomendado ações de
impacto.
Todos
sabemos que tal comportamento, nesta área, não funciona. As
medidas adotadas ficam, quase sempre, restritas ao efeito que
produzem na mídia, sem atingir a raiz dos problemas e adiando
soluções urgentes. Um exemplo concreto: os jornais estão
divulgando, atualmente, pesquisa encomendada pela CNTE
(Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação),
alertando que nos próximos 15 anos não haverá mais pessoas
interessadas em dar aulas nas escolas públicas do país. Esse
é um fenômeno que várias pesquisas e congressos organizados
por educadores vem alertando todos os anos e nada move os
gestores educativos a buscar medidas capazes de reverter tal
tendência, construída a partir de processos sistemáticos de
desvalorização social da profissão docente. O Inep (Instituto
Nacional de Estudos Pedagógicos), sobre esse assunto, diz que
está examinando os dados para ver o que fazer. Enquanto isso...
Para
concluir
Com
o intuito de colaborar, mesmo porque não se pode fazer juízo
definitivo de uma gestão educacional após um ano, creio que o
presidente Lula, ao confirmar a permanência do professor
Cristovam à frente do Ministério por mais três anos, deveria
discutir com ele os seguintes pontos :
·
definição de uma espinha dorsal de atuação do
Ministério junto aos estados e municípios para a expansão e
melhoria da qualidade da educação básica no país –
indicando recursos, atribuições, parcerias e tendo como
questão central a valorização do profissional da educação,
seja ele professor ou administrador. Com isso seriam evitadas ou
até suprimidas ações pontuais e extemporâneas, com melhor
aproveitamento de recursos e garantindo apoio ao trabalho do
professor, agente inquestionável de efeitos determinantes sobre
a qualidade do ensino. Tão importante quanto enunciar, seria a
maneira de fazer funcionar. Um caminho, entre outros, seria de
uma configuração de gestão que transformaria o ocupante do
Ministério num “ministro ambulante” para estar junto e
ajudar os parceiros a fazerem a coisa certa;
·
a partir do segundo ano de governo, vencida a etapa
de atendimento aos compromissos políticos de campanha
eleitoral, colocação de pessoas
do “ ramo” nos postos-chaves do Ministério. Apesar das críticas
que se possam fazer ao ministro Palocci, da Fazenda, não
escutamos nenhum reparo à competência dos dirigentes por ele
nomeados para as várias áreas do seu Ministério. Será que o
mesmo acontece na Educação? Evidentemente, no MEC há boas
exceções, mas queremos que seja implantada uma regra, nesta área
tão complexa e difícil como a da formação das novas gerações;
·
busca de mecanismos de valorização e expansão das
universidades públicas, especialmente as federais, mesmo porque
elas, no geral, concentram os melhores indicadores de qualidade
técnico-científica. O debate de novas formas de avaliação e
de gestão deve ser obrigação do poder público sem perder de
vista, entretanto, o papel estratégico que essas instituições
vem desempenhando para o desenvolvimento científico e tecnológico
do país.