O
protagonismo dos movimentos sociais
No
ano que se encerrou, os movimentos sociais brasileiros viveram
uma experiência inédita na sua longa e rica história. Após décadas
de intensa luta – que na fase mais recente foi marcada pelo
combate à ditadura militar e pela resistência ao
neoliberalismo –, as diversas formas de organização popular
passaram a atuar num cenário político totalmente novo. A vitória
e a posse do presidente Lula, um retirante nordestino que se
projetou exatamente na luta dos trabalhadores, sinalizaram para
uma expressiva viragem na correlação de forças no país,
tornando-a mais favorável ao campo popular e democrático.
Nunca o Brasil contou com um governo tão identificado com as
forças sociais que batalham por soberania, democracia e justiça!
O
primeiro ano da “era Lula”, porém, mostrou-se mais complexo
e truncado do que muitos idealizavam. Se medidas positivas foram
adotadas, com especial destaque para a nova postura ativa e
altiva da política externa brasileira, na área econômica o
governo manteve, no essencial, o destrutivo modelo neoliberal. O
“núcleo duro” das imposições do FMI – superávit primário,
arrocho monetário e libertinagem do fluxo de capitais – não
sofreu mudança. O resultado é que os indicadores financeiros
alegraram os banqueiros e os que se iludem com os humores do
mercado; mas a economia real continuou estagnada para a desgraça
dos trabalhadores, vítimas da explosão do desemprego, da
corrosão da renda e do corte dos gastos sociais.
Esta
curta experiência, que não justifica desistências
precipitadas, confirma que os trabalhadores elegeram o
presidente da República, mas não tomaram o poder político,
que continua sob domínio do capital; que o neoliberalismo foi
rechaçado nas urnas, mas que prossegue hegemônico. Diante
deste cenário, prenhe de possibilidades, mas também cheio de
obstáculos, os movimentos sociais precisaram reavaliar sua
conduta. Alguns setores resvalaram para a mais pura passividade,
num apoio incondicional ao governo que ofusca a autonomia das
organizações populares; já outros negaram a própria vitória
alcançada, deslizando para um voluntarismo que não leva em
conta a nova correlação de forças e corre o risco do
isolamento.
INTENSIFICAR
A PRESSÃO
Evitando
estes extremos, entretanto, o grosso do movimento social tentou
se sintonizar com o novo ciclo político aberto no país. Ao
mesmo tempo em que apóia o novo governo, partindo da avaliação
de que na atual conjuntura a sua derrota seria um desastre para
o conjunto das forças populares, ele procura também pavimentar
um campo de pressão para se contrapor às chantagens do
“deus-mercado” e para desbaratar os segmentos continuístas
dentro e fora do Palácio do Planalto. Neste esforço é que foi
organizada, já a partir de abril de 2003, a Coordenação dos
Movimentos Sociais (CMS), uma experiência inédita que agrega
as principais organizações populares do país, como o MST,
CUT, UNE, CMP, Conam, entre outras.
A
CMS já definiu, de forma democrática e unitária, o seu eixo
de atuação, concentrado na luta em defesa da soberania
nacional, do desenvolvimento econômico e da valorização do
trabalho. Também fixou como bandeira imediata a luta contra o
desemprego, que é a chaga mais cruel do neoliberalismo. Seus
primeiros passos visaram superar a fragmentação das lutas
populares, unificando a rica diversidade de movimentos. Sem
estruturas burocráticas, ela pretende ser um instrumento da ação
direta dos “excluídos” e também um fórum de reflexão
para elaboração de alternativas viáveis e avançadas para o
Brasil. Neste rumo, a CMS pode se tornar uma ferramenta estratégica
para impulsionar o protagonismo dos movimentos sociais.
Neste
ano, a luta de classes tende a se aguçar no país. Mantida a
ortodoxia neoliberal, os índices de desemprego continuarão nas
alturas; o reajuste do salário mínimo em maio será pífio; o
elevado superávit primário prosseguirá ceifando verbas nas áreas
sociais; os investimentos públicos não sairão do papel; e a
própria política externa independente ficará vulnerabilizada
pelo modelo interno dependente. Se depender do FMI e da equipe
econômica do governo, expressão maior do continuísmo
incrustado no Planalto, este será o cenário cinzento de 2004.
Conforme recente declaração do ministro Antonio Palocci, “se
depender da minha vontade o superávit ficará em 4,25% do PIB
pelos próximos dez anos”.
Só
que a realidade política não depende exclusivamente da vontade
dos tecnocratas de plantão. O desejo de mudança impôs a histórica
derrota eleitoral do neoliberalismo no Brasil – e também em
outros países do continente. O próprio governo Lula reflete
este fator subjetivo, enfeixando inúmeras contradições; no
seu interior há intensas disputas. O agravamento da crise econômica
tende a enfraquecer os que apostam na virtualidade do mercado
financeiro. A disputa eleitoral em 2004 também será um
ingrediente questionador da ortodoxia. Mas o fator decisivo que
poderá alterar os rumos do Brasil, consolidando a vitória
alcançada nas urnas, será o da pressão organizada da
sociedade. Daí a importância da CMS. Ela pode impulsionar o
protagonismo das lutas sociais, fortalecendo o governo Lula no
rumo das mudanças.