Perspectivas
após um ano de mandato
Edulcorado
pelo IBGE, o desemprego ficou em 12,9% em
outubro de 2003, superando os 11,2% de há um ano. O
rendimento médio dos assalariados caiu 15,2% no período. O
desemprego na região metropolitana de São Paulo (DIEESE) subiu
de 19% para 20,4%. O IBGE diz que o PIB real do 3º trimestre de
2003 foi inferior em 1,3% ao 3º trimestre de 2002, o que
implica queda de 3,3% do PIB por habitante. Mas o tombo é
maior, pois os índices de atualização monetária do
IBGE não são satisfatórios, e ele só apontou os
valores correntes até o 1º semestre de 2003. Com esses
valores, verifiquei que entre o
1º semestre de 2002 e o de 2003, houve variação
negativa do PIB: 1,3% pelo IPCA e 11,9% pelo IGP-DI. Excluídas
as exportações, o declínio atingiu 7,45% pelo IPCA e 17,4%
pelo IGP-DI.
A
situação é ainda pior do que a retratada pelas cifras de
2003, já que o PIB
estagna ou declina há muito. Nos oito anos de 1996 a 2003,
somente em um (2000, com
3%), a taxa oficial de crescimento real do PIB foi superior à
do incremento populacional. Avalia-se, assim, como se acelerou a
trituração das pequenas e médias empresas, a dos autônomos e
a dos assalariados. Em conjunto resultam graves danos
estruturais: atividades abandonadas e dezenas de milhões de
pessoas desaprendendo suas especializações.
Entretanto,
foram espantosos os lucros dos bancos e os de algumas das
maiores empresas, sobretudo
as com alto coeficiente de exportações, como
as siderúrgicas e as do agronegócio. Das companhias
voltadas principalmente para o mercado interno, poucas, tiveram
ganhos expressivos, como a Petrobrás, que substitui importações
de petróleo, e produziu em novembro mais 15,4%
do que há um ano. Não me referi às transnacionais,
porque seus lucros não figuram nos balanços, transferidos que
são para fora do País, por meio dos preços de exportações e
importações e de despesas com
o pagamento de serviços superfaturados ou fictícios.
Não
há como reverter a tendência entrópica sem a substituição
completa do modelo econômico. Entretanto, o Executivo empossado
em janeiro de 2003 não só manteve, como radicalizou as políticas
de seu malfadado antecessor: 1) As taxas de juros da SELIC,
aplicada à dívida mobiliária, permaneceram em patamar altíssimo,
e as do crédito às firmas e indivíduos, em níveis ainda mais
intoleráveis. 2) O BACEN alega, falsamente, que essas taxas são
para conter a inflação, o que é desmentido pela expansão de
34,6% da base monetária no período de 12 meses até novembro
último. 3) O superávit
primário ultrapassou 5% do PIB: bem mais que os absurdos 4,25%
do “acordo” com FMI (no
de FH eram 3,75%). 4) Como nunca antes, foram draconianos
os cortes no gasto público não destinado ao serviço da dívida
pública, e ainda assim, o estoque dela cresceu. 5) Tal é
dimensão da dívida e tão altas as taxas de juros, que grande
parte destes é capitalizada, aumentando-lhe o montante, apesar
de o Tesouro e o BACEN pagarem juros cada vez maiores. 6) A
depressão da economia interna é também propulsada pela
voracidade fiscal, de que são exemplos contundentes: a) o
aumento da alíquota da COFINS de 3% para 7,6%, nem de longe
passível de ser compensado pela supressão da cumulatividade;
b) a recusa do Executivo a qualquer revisão monetária da
tabela do imposto de renda de pessoa física, a qual já acumula
defasagem superior a 95%, conforme o IGP-DI.
Estão
louvando o crescimento das exportações. Mas ele decorre do
aniquilamento do mercado interno. Já o câmbio, apesar
da recuperação em 2003, está desvalorizado em 24% em comparação
com o final de 2001. Saiu-se de um déficit de transações
correntes com o exterior de mais de R$ 20 bilhões/ano para um
superávit de US$ 3 bilhões, o que possibilitaria reduzir a dívida
externa. Triste e curiosamente, porém, deu-se o contrário: em
2003, até junho, ela aumentou US$ 8,1 bilhões, para US$ 235,8
bilhões. Isso se deu porque, não obstante grandes ingressos de
capital estrangeiro em carteiras de ações e opções, o grosso
das entradas proveio da captação de títulos pelo setor
privado e pelo Tesouro. Os investimentos diretos caíram para R$
9,4 bilhões nos últimos 12 meses, e os bancos situados no
Brasil enviaram consideráveis recursos para o exterior.
Portanto,
o setor externo não goza de boa saúde, embora seja prioridade
absoluta do Executivo, cuja meta única é ter boas relações
com o sistema financeiro internacional. Os índices Bolsas de
Valores sobem quando a economia se deteriora. Sádicos, os
“mercados” exultam ao ver aprovadas as “reformas”
impostas pelo FMI, a grave dano do País. O governo funciona
como agente do mega-capital globalizado ou considera preferível
ceder a enfrentá-los. Num ou noutro caso, o resultado é
dilacerar o País.
Novo
“acordo” aumenta para U$
32 bilhões a dívida com o FMI. Crescem as reservas brutas, mas
as líquidas ficam em baixo nível: US$ 15 bilhões. São
liberados US$ 6 bilhões afora os US$ 8,2 bilhões que o
País podia sacar pelo “acordo”
anterior. São adiados para 2007 pagamentos que venceriam no
mandato do atual Executivo. Sem isso as parcelas devidas ao FMI
em 2005 e 2006 somariam US$ 20 bilhões.
O sentido é: 1) livrar bancos comerciais estrangeiros de
sua exposição no Brasil; 2) assumir mais dívida e alongar
prazos, em detrimento do sucessor; 3)
pagar mais juros. No
total prevêem-se até 2007 amortizações de US$ 125 bilhões,
sendo US$ 55 bilhões do setor público e US$ 70 bilhões do
privado.
Inviabilizada
cada vez mais a estrutura produtiva
e a taxação elevada a extremos absurdos, a fim de pagar
juros e amortizações, o equilíbrio, além de precário,
situa-se em patamar muito baixo. É tão precário, que houve
cinco crises cambiais nos últimos seis anos. Ademais, depende
da demanda mundial, em meio a depressões e recessões nos países
“desenvolvidos” e na grande maioria dos “emergentes”,
exceto China, Índia, Rússia e Argentina.