2004:
um ano decisivo para o PT e o governo Lula
Depois
de um ano da grandiosa vitória eleitoral de Lula e do PT -
Partido dos Trabalhadores – bem como da formação de um
governo de coalizão com partidos até então considerados
adversários, os conflitos se intensificam no interior do
partido. O dia 14 de dezembro de 2003 ficará na história do PT
como uma mancha escura, um corte de imensas conseqüências em
sua tradição democrática: com base na acusação de repetida
“quebra da disciplina partidária” o Diretório Nacional do
PT decidiu (por 55 votos a favor e 27 contra) expulsar três
deputados federais – Luciana Genro (RS), João Batista Babá
(PA) e João Fontes (SE) – e a senadora Heloísa Helena (AL),
seguindo o parecer da Comissão de Ética do PT. Alguns membros
do Diretório Nacional, entre eles a Ministra do Meio Ambiente,
Marina Silva, decidiram não participar da reunião. A medida
adotada consegue, em seu objetivo,
ir muito além das quatro expulsões. Ela pode ser
compreendida como uma clara mensagem de combate às correntes de
esquerda no interior do PT, que não querem se adaptar à lógica
de flexibilização do partido, colocada em curso pelo grupo
dirigente e pela maioria dos ministros petistas no governo.
Os
quatro parlamentares expulsos – caracterizados como
“radicais” pela mídia brasileira conservadora – pertencem
a diferentes tendências de esquerda no interior do PT. A resistência
contra os rumos adotados pelo governo atingiu seu ápice com a
divulgação pública, por parte do deputado João Fontes, de um
vídeo dos anos 1980, mostrando imagens do próprio Lula e do PT
combatendo o que atualmente vem sendo apresentado como
“Reforma da Previdência” (centrada especialmente na
contribuição dos inativos e na elevação da idade mínima
para a aposentadoria); com o apoio de parlamentares a manifestações
de protesto dos funcionários públicos e aposentados; e com o
comportamento divergente dos parlamentares petistas durante as
votações no Senado Federal e na Câmara dos Deputados.
A
personalidade mais famosa entre os assim chamados dissidentes é
Heloísa Helena, 41 anos, eleita pelo Estado de Alagoas e
filiada ao PT desde 1985. Ela pertence à tendência interna
Democracia Socialista que, entre outros, congrega figuras
importantes do PT como o ex- prefeito de Porto Alegre, Raul Pont,
o atual prefeito, João Verle, o Ministro do Desenvolvimento Agrário,
Miguel Rossetto, bem como o vice-líder do PT na Câmara dos
Deputados, Walter Pinheiro. Oriunda de família pobre – sua mãe
trabalhava como empregada doméstica em casas de famílias ricas
–, a enfermeira e professora de epidemiologia ficou conhecida
pela sua luta contra a corrupta e poderosa oligarquia do
nordeste brasileiro. Em 1992 foi eleita vice-prefeita de Maceió
e em 1994 deputada estadual de Alagoas. Em 1998 ela foi eleita
como primeira senadora da história de Alagoas e do PT alagoano,
obtendo 55,92% do total dos votos. Em todo esse período, foi uma qualificada e comprometida
porta-voz da bancada do PT no Senado Federal, como integrante do
Diretório Nacional e da Direção Executiva Nacional do
partido. Nas eleições de 2002, Heloísa Helena se contrapôs
à política de alianças assumida pela direção do PT e à
composição de chapa com o PL – Partido Liberal que, em
Alagoas, especialmente, é majoritariamente representado por
lideranças corruptas ligadas ao ex-presidente da república
Fernando Collor de Melo, o que ocasionou a retirada de sua
promissora candidatura ao governo do Estado. Após a vitória
eleitoral de Lula e do PT ela manifestou sua discordância com o
apoio do partido ao ex-presidente da república, José Sarney,
para a presidência do Senado Federal, foi contrária à nomeação
de Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central e
negou-se a defender a “Reforma da Previdência”, que
recupera propostas de governos anteriores, mas que não tiveram
êxito precisamente porque houve resistência da esquerda, da
CUT – Central Única dos Trabalhadores – e de setores do
Judiciário. Um projeto de Emenda Constitucional foi votado, mas
ainda não está claro quando de fato entrará em vigor. Heloísa
defende as mesmas posições que o PT historicamente defendeu e
é favorável a uma reforma da Previdência que traga reais
benefícios à maioria da população e que não se coloque a
serviço da propaganda neoliberal contra os “super-salários”,
pregando a taxação dos inativos e ocasionando prejuízos à
maioria dos atuais aposentados. Apesar das massivas pressões da
direção do partido, a senadora não se dispôs a sacrificar o
acúmulo programático do partido às razões de Estado, às
“obrigações da governabilidade” e às trocas de favores no
Congresso Nacional. Não abriu mão, inclusive, das definições
tomadas no XII Encontro Nacional do PT em dezembro de 2001, em
Recife, as quais também já haviam sido, em parte, criticadas
pela esquerda petista.
A
acusação de desrespeito à “disciplina partidária”, que
recai sobre Heloísa Helena, é absurda porque a mudança de
rumos do PT no governo não está respaldada em nenhuma decisão
partidária e não houve discussões programáticas que pudessem
chegar a consensos nas instâncias do partido. Entre os próprios
parlamentares da bancada petista no Congresso Nacional, a
diferença de posições é enorme e, no caso da “Reforma da
Previdência”, os deputados foram pressionados a votar de
acordo com a proposta do governo, mesmo não havendo concordância
em vários pontos apresentados. No momento da votação, 25
deputados federais do PT declararam publicamente que somente
votariam a favor da Emenda Constitucional em respeito à
disciplina partidária e 8 deputados se abstiveram de votar, o
que resultou em sua suspensão da bancada por 60 dias. Entre os
partidos aliados, incluindo
os de direita, também houve divergências no momento da votação,
mesmo que motivados por razões distintas.
A
mesma lógica burocrática da ação do “núcleo duro” do PT
no governo também pôde ser verificada no conflito pela liberação
do plantio da soja transgênica. Apesar das imensas diferenças
no interior do próprio governo e na bancada do PT, o Presidente
da República assinou uma medida provisória que autoriza o
plantio transgênico por mais um ano, o que ocasionou fortes
protestos das associações de pequenos agricultores, do
movimento ambientalista e de defesa dos consumidores. Além
disso, o deputado federal Fernando Gabeira – há dois anos
ingresso no partido, provindo do PV (Partido Verde) –
abandonou o PT, manifestando seu descontentamento com relação
à política ambiental do governo.
Dezenas
de milhares de filiados e simpatizantes de todo o mundo
manifestaram sua solidariedade com os parlamentares expulsos do
PT. Imediatamente após a decisão da expulsão, vários
importantes intelectuais saíram do partido, em protesto, entre
eles o filósofo Leandro Konder, o jornalista e ex-deputado
federal Milton Temer, o sociólogo Francisco de Oliveira e o filósofo
e perspicaz analista político Carlos Nelson Coutinho. Para
eles, que já vinham criticando duramente a política do governo
e os rumos do PT há mais tempo, a expulsão dos quatro
parlamentares foi apenas “a gota d’água a transbordar o
copo”, como afirmou Coutinho. Eles não suportaram mais a
crescente institucionalização e “blairização” (com referência
a Toni Blair e ao partido trabalhista inglês) do PT. Na
realidade, estão crescendo as críticas no interior da esquerda
brasileira e aumenta o número dos que já não esperam mais
importantes mudanças sociais e políticas do governo Lula, o
que inclui as reformas tributária, trabalhista e institucional,
ainda previstas para 2004. Em função de sua política econômica
neoliberal, alguns já caracterizam o atual governo como um
“terceiro período de FHC sem FHC” e o Ministro da Fazenda,
Antonio Palocci, vem sendo atacado como sendo, ironicamente,
protagonista de uma política mais conservadora que a do próprio
FMI – Fundo Monetário Internacional. Muitos críticos e
decepcionados não acreditam mais na versão oficial de um
“período transitório” e passam a caracterizar o atual período
do governo, se este mantiver a política adotada, como uma
“transição para lugar nenhum”. Até o momento, o governo
tem mostrado que a base da política econômica e financeira será
mantida até o final do mandato, o que inviabiliza possíveis e
importantes reformas. O Banco Mundial, o FMI, os “mercados”
financeiros e os partidos conservadores aliados, por outro lado,
estão satisfeitos com a atual política do governo.
O
MES – Movimento Esquerda Socialista –, tendência interna à
qual pertencem Luciana Genro e Babá, anuncia que o “PT
morreu” e está disposta a abandonar coletivamente o partido.
Já há mais tempo esta tendência vinha apontando para a
necessidade de criação de um novo partido. A DS e outras tendências
de esquerda no interior do PT se posicionam contrários a essa
iniciativa e avaliam o abandono do PT como uma estratégia
precipitada. Ao invés de propor uma retirada do partido, essas
tendências apostam na disputa de rumos no interior do PT
que, segundo eles, apesar dos percalços, ainda continua
sendo um partido de esquerda, democrático, pluralista e que
congrega dezenas de milhares de militantes sociais engajados na
construção de um Brasil melhor, um Brasil socialista. Essas
tendências exigem a antecipação do próximo Encontro Nacional
do partido de 2005 para 2004, no qual a orientação do PT, sua
relação com o governo e as expulsões antidemocráticas devam
ser profundamente debatidas. No entanto, o tempo está passando
e, proporcionalmente, o PT vai se modificando, pois o grupo
dirigente vem realizando uma intensa campanha de filiações sem
a definição de claros critérios políticos para o ingresso de
novos filiados. Um dos novos filiados é o governador de
Roraima, Flamarion Portela, acusado de corrupção.
Um
ano após tomar posse, as últimas pesquisas de opinião
continuam apresentando altos índices de popularidade em favor
do presidente Lula, apesar da crise conjuntural, do aumento do
desemprego, da diminuição do poder aquisitivo da população e
das dificuldades na realização de efetivas reformas sociais em
função da rígida contenção de gastos. Até agora Lula e a
equipe de marketing têm
conseguido manter a imagem de um presidente que consegue
realizar reformas, que impulsiona programas de combate à fome e
à pobreza e que, enfim, continua sendo o portador da esperança
de milhões de brasileiros. A confiança depositada em Lula
continua muito forte e se manifesta em vários momentos, como,
recentemente, por ocasião do anúncio do novo Plano Nacional de
Reforma Agrária, onde a promessa de aceleração na implementação
de assentamentos foi bem recebida por milhares de agricultores
do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra -,
reunidos no Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade, em
Brasília. As crescentes críticas estão, primeiramente,
direcionadas ao próprio governo, o qual vem sendo
responsabilizado tanto pelo fraco desempenho no combate ao
desemprego e na realização da reforma agrária como pela
continuação da política neoliberal de FHC. A política
externa é a que vem sendo menos criticada, pois se diferencia
claramente daquela do governo anterior, em especial no que se
refere à relação com os Estados Unidos e à tentativa de
formação de alianças com outros países
“subdesenvolvidos”, em torno de interesses pontuais.
A
expectativa depositada neste governo, considerando os graves
problemas econômicos, sociais e políticos acumulados pela
sociedade brasileira ao longo da história, continua muito
forte. A maioria dos trabalhadores, que elegeu Lula como
presidente da república, segue depositando confiança no
governo e na sua capacidade de enfrentar os imensos desafios que
se encontram pela frente. A mobilização de resistência contra
a implementação da “Reforma da Previdência",
considerada pelo FMI e o “mercado financeiro” como o
“teste mais duro” para o governo, foi significativa mas não
forte o suficiente para ocasionar uma mudança nos rumos do
governo ou uma revisão social de sua política. A reforma foi
implementada com o apoio dos partidos de direita e contra a posição
da CUT e da esquerda partidária no Congresso Nacional, apesar
dos massivos protestos dos aposentados e funcionários públicos,
setores nos quais, tradicionalmente, há muitos eleitores do PT.
2004 pode ser o ano das decisões; não somente para os rumos do
PT, o mais importante partido de esquerda da América Latina,
mas também para definir o futuro do Governo Lula.