IDES
– Avaliando o Ensino e as Instituições de Ensino Superior:
Problemas e Perspectivas
A recente
publicação de Medida Provisória (MP), elaborada pelo Ministério
da Educação (MEC), propondo um novo sistema de avaliação
para o ensino superior e para as Instituições de Ensino
Superior (IES), mais uma vez coloca fogo em um tema que nunca se
apagou. Com o objetivo de ser colocado em prática já em 2004,
essa nova geração de avaliação, denominada IDES – Índice
de Desenvolvimento do Ensino Superior, pretende implantar uma
avaliação em toda a sua complexidade, integrando os processos
de ensino e aprendizagem, a capacidade institucional e o
envolvimento dos cursos com os problemas e necessidades da
sociedade brasileira.
Particularmente,
acho que esse novo sistema dá um passo à frente. Mas uma coisa
tenho que reconhecer: o Provão, mesmo com todos os problemas
apontados por vários especialistas e os constantes boicotes
realizados pelos alunos, foi uma experiência interessante e
positiva.
Sabemos que a
distribuição de conceitos a partir dos resultados do Provão
é um mecanismo insuficiente para avaliar a qualidade de um
curso. Mas, mais do que avaliar os cursos, o Provão avaliava
também a qualidade dos alunos formados pelas instituições de
ensino superior. E aí está um fato bastante positivo. Ao
longos dos anos o Provão vem sistematicamente demonstrando que
os alunos das universidades públicas têm obtido notas muito
superiores do que seus colegas de instituições privadas. No
Provão de 2003, 52,5% dos cursos das Universidades Públicas
Federais conseguiram conceitos A ou B. Nas particulares, essa
porcentagem cai para 19,3%. Performance muito melhor conseguiram
as cinco Universidades Estaduais do Paraná: UEM, UEL, UEPG,
Unioeste e Unicentro ( com sede nas cidades de Maringá,
Londrina, Ponta Grossa, Cascavel e Guarapuava, respectivamente).
Dos 121 cursos avaliados, 78 obtiveram conceitos A ou B,
perfazendo 64,46% do total. Na UEM, esses dados são ainda mais
significativos: 77,27% dos cursos foram avaliados com conceitos
A e B. Esses dados, por si só demonstram a qualidade e o esforço
de professores, funcionários e dirigentes das instituições de
ensino superior públicas em promover o ensino, pesquisa e
extensão com qualidade.
No entanto,
avaliar apenas o aluno não é uma boa forma, pois é
incompleta. Nesse sentido, a proposta do IDES se mostra
pertinente, já que adiciona outros fatores na avaliação,
sobretudo a avaliação do ensino, a capacidade institucional e
a responsabilidade das instituições com a sociedade.
No novo
sistema, a “avaliação dos alunos” permanece. No entanto,
será realizado em duas etapas: uma no final do primeiro ano e
outra no final do último ano do curso. Uma outra mudança é
que a avaliação será aleatória, ou seja, por amostragem, já
que, segundo o MEC, o objetivo é avaliar o curso e não o
estudante. Nesse item podem ser encontrados dois problemas, que
creio que com o tempo deverão ser sanados. 1) Mesmo que a
amostragem, estatisticamente, seja confiável, o atual modelo,
de aplicação de provas para todos os alunos é fundamental
porque permite, por exemplo, estratificar os dados dos alunos.
No atual modelo é possível ver o desempenho dos alunos por
renda per cápita, por formação dos pais, por raça e
cor, enfim, por vários indicadores. Pela amostragem isso não
será mais possível. 2) O fato de fazer duas avaliações, uma
no primeiro ano e outra no último, sem dúvida é interessante,
pois será possível avaliar o conhecimento agregado pelo aluno
durante o curso; porém, naqueles cursos onde a evasão é alta
(e olha que este é um grande problema das instituições de
ensino hoje, sobretudo as particulares, mas também sentido nas
públicas, embora essas venham adotando cada vez mais políticas
de ocupação de vagas remanescentes) os alunos avaliados serão,
provavelmente outros, o que com certeza dificultará uma comparação
mais concreta.
No item
“ensino”, o MEC pretende avaliar, além do número e formação
dos professores, também a dedicação às atividades docentes,
a publicação de trabalhos e a avaliação de docentes feito
pelos próprios alunos. Esse item será complementado pelo da
“avaliação da capacidade institucional”, onde serão
analisados os programas de pós-graduação, a produção e
divulgação científicas, as instalações de laboratórios, as
instalações físicas, o acervo bibliográfico, os métodos
pedagógicos usados e até o Plano de Carreira, Cargos e Salários
dos docentes. Considero fundamental esse tipo de avaliação,
pois irá demonstrar a capacidade institucional de cada
estabelecimento de ensino superior brasileiro. No entanto, surge
uma complicação que é a questão da função de cada instituição.
Esse tipo de avaliação se adequará muito mais às
universidades; uma faculdade isolada ou um centro universitário,
com certeza, terão grandes dificuldades de serem bem avaliados
nestes quesitos, já que eles estão muito mais preocupados com
a comercialização da reprodução do conhecimento (ensino de
graduação somente) do que propriamente com a produção do
conhecimento e a realização de pesquisas. Tomara que isso
venha fundar novos parâmetros.
Por fim, o
ponto mais pertinente. A “avaliação da responsabilidade
social” das Instituições de Ensino Superior. Ora, uma
Instituição de Ensino Superior não pode estar desligada da
realidade do mundo que a cerca, dos problemas do país e das
questões sociais e econômicas da região ou cidade onde está
localizada. Ela precisa formar profissionais qualificados para
as necessidades do presente e do futuro, mas também precisa
formar cidadãos eticamente responsáveis com a sociedade em que
vive. Nesse sentido, a proposta do IDES coloca uma série de
pontos que vão ao encontro destas reflexões, como por exemplo,
a preocupação com os conteúdos oferecidos pelos cursos
estarem voltados para a solução dos problemas nacionais; o
envolvimento dos cursos com os setores industrial, agrícola e
de serviços; e o nível de participação dos alunos e
professores com projetos de extensão e de cultura, sobretudo em
áreas de alta prioridade social.
Mas, mais uma
vez, esses indicadores foram elaborados pensando diretamente nas
universidades. Tenho certeza que quando esses indicadores de
ensino e de extensão e a produção científica forem cruzados
com a contribuição das universidades para o desenvolvimento
social e econômico, a sociedade brasileira terá um susto
positivo: ela vai perceber que a contribuição das
universidades brasileiras para o país é mais abrangente do que
muitos imaginam e poucos tem conhecimento.
Se for esse o
objetivo do IDES, com certeza estaremos dando um passo à
frente.