O
Imperialismo e o problema da Palestina
A
agressão sionista contra o povo palestino coloca problemas até
mesmo para os planos do imperialismo anglo-americano de
estabilizar e redesenhar o mapa político do Oriente Médio.
Esse problema aparentemente sem solução e o agravamento contínuo
da violência tanto do colonizador sionista como do povo
oprimido da Palestina certamente tem uma origem e deverá passar
por alguma mudança de fundo, cedo ou tarde que seja.
Por cerca de quatro séculos, toda a região conhecida como
Oriente Médio fez parte do Império Turco Otomano. Quando, após
um longo declínio, esse império entrou em colapso, na seqüência
da derrota militar na I guerra mundial (1914-1918), o mapa político
da região foi redesenhado, tendo sido fundada a república
turca, enquanto que as antigas províncias da Mesopotâmia e da
península arábica foram ocupadas pelo imperialismo francês e
inglês, entre 1922 e 1948. Durante esse período, a migração
judaica em direção a Palestina aumentou, alimentada pela
perseguição no império russo primeiro e na Europa central e
oriental depois, culminada na tentativa de extermínio, mas
estimulada pela Organização Sionista Mundial.
A ocupação britânica e o aumento da migração judaica
fizeram surgir uma já latente resistência árabe palestina,
principalmente por parte da pequena burguesia agro-mercantil. A
perseguição nazista aos judeus deu um novo impulso à migração
judaica, tornando a situação explosiva. Em 1936, uma rebelião
palestina contra a ocupação inglesa e a migração européia
massiva, que provocava alterações econômicas e culturais
significativas na região, com a compra de terras palestinas de
proprietários abastados que viviam fora do país e a utilização
crescente de forças terroristas judaicas, contra a qual se
opunham o conjunto dos trabalhadores, fossem árabes ou judeus.
Com a retirada da Inglaterra e com a aprovação da ONU, em
1948, a Palestina foi dividida em duas partes compostas pelo
Estado de Israel com 30 % da população e quase 60% do território
e pela Palestina propriamente dita com 70 % da população e
pouco mais de 40% do território. Sentindo-se prejudicadas pela
inserção de um forte concorrente, apoiado pelo Ocidente, as
burguesias agro-mercantis árabes se uniram contra Israel, mas
sofreram uma derrota catastrófica. Cerca de 1 milhão de
palestinos foram expulsos de suas terras, a maioria passando a
viver como trabalhadores sujeitos a super-exploração, tanto
dentro como fora de Israel. A própria burguesia palestina foi
fortemente atingida, conseguindo sobreviver apenas na Jordânia,
que ocupou parte do território palestino.
O nacionalismo árabe, conformado em torno da questão
palestina e contra aliança imperialista israelense, travou mais 3 guerras contra Israel, tendo sido derrotado em
todas (em 1956, 1967 e 1973). O nacionalismo árabe
(particularmente sírio e egípcio) e o nacionalismo palestino
tinham uma interdependência política e ideológica na sua luta
contra Israel e toda a questão estava relacionada à política
internacional que opunha a URSS ao imperialismo americano. O
ataque anglo-franco-israelense contra os países árabes, em
1956, vitimou ainda uma vez os palestinos, mas deu impulso a
organização da resistência nacional. Foi então formada a
Organização para a Libertação da Palestina, cujo projeto era
a construção de uma Palestina unificada, democrática e laica,
na qual conviveriam judeus e palestinos.
O nacionalismo árabe se reforçou entre 1958 e 1962, com a
fugaz união entre o Egito e a Síria, com a vitória da revolução
argelina, com a queda da monarquia iraquiana e a fundação do Iêmen
do Sul. Em 1965 teve início a luta armada palestina contra
Israel, que desencadeou, em junho de 1967, uma guerra preventiva
contra a resistência e os países árabes limítrofes, passando
a ocupar a totalidade da Palestina, a península do Sinai
(Egito) e as colinas do Golan (Síria). Desta feita 70 % do povo
palestino passou a viver sob direta opressão sionista e 30%
exilado em campos de refugiados no Líbano e na Jordânia. Um
povo todo fora reduzido a fonte de força de trabalho de baixo
custo.
Ao mesmo tempo que se radicalizava a resistência palestina
se dividiu com o surgimento de organizações referidas pelo
marxismo e pelo socialismo, com as originalmente cristãs FPLP e
FDLP. As bases da resistência palestina foram gravemente
golpeadas pelo regime monárquico jordaniano em 1970, fazendo
com que a principal base de operações fosse alojada no Líbano.
Em 1973, Egito e Síria tomam a iniciativa de atacar Israel. A
honrosa derrota militar diante de Israel fortaleceu a situação
política dos países árabes, particularmente em função dos
preços do petróleo alcançados naquela conjuntura.
A ampliação das bases da resistência palestina no Líbano
contribuiu para aguçar as contradições sociais dentro desse
país, levando-o a guerra civil em 1975. A intervenção síria,
no ano seguinte, teve o objetivo de garantir as posições da
acuada “direita libanesa”, golpeando a resistência
palestina e os muçulmanos libaneses. A ação síria no Líbano,
a viagem do presidente do Egito, Anuar Sadat, a Jerusalém,
abrindo caminho para a capitulação diante de Israel, e a mudança
de meta da grande parte da resistência palestina para a criação
de um Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza, significaram o
fim inglório do nacionalismo árabe e a capitulação estratégica
diante de Israel e dos interesses imperialistas na região.
Isolada no Líbano, a resistência palestina passou a ser o
último alvo para que Israel varresse de vez seus inimigos. Ao
cabo de dois anos, após um sem número de escaramuças, Israel
invade o Líbano, perpetrando massacres e devastações que não
podem ser esquecidas jamais. A revolução islâmica no Irã, em
1979, criaria o substrato de uma nova referência ideológica
para as desvalidas massas populares do Oriente Médio, ainda que
com tantíssimas nuanças e variações.
Diante da situação desesperada, a resistência palestina
passa a perceber que é no próprio território da Palestina e
contando com suas próprias forças é que sua luta,
inexoravelmente antiimperialista revolucionária, pode chegar a
termo. O levante
popular de 1987 sedimentou a unidade popular, mas não impediu
que a direção ligada à burguesia palestina, interessada em
chegar a algum acordo com a potência sionista, procurasse
negociar, sob os auspícios do poder imperial americano, uma
solução subalterna para o problema palestino, que é ao mesmo
tempo nacional / popular / internacional.
A desintegração da URSS e do socialismo estatal na Europa
oriental projetou o EUA como potência imperialista com inédita
força hegemônica no plano internacional, econômico-político
e militar. Pêlos mais diversos meios o EUA tem se empenhado em
tornar-se o núcleo do poder de um Império Universal, tendo
sido uma ação pretensamente exemplar a devastação perpetrada
no Iraque, em 1991, em represália a ocupação do Kuwait, país
que abriga importante minoria palestina, culminada agora com a
ocupação do mesmo Iraque.
As tendências conservadoras e expansionistas, que vinham
se fortalecendo em Israel desde meados dos anos 70, ganharam um
novo impulso, reforçadas tanto pela nova onda migratória
judaica que vinha da Europa oriental, como pela nova situação
internacional. O sonho da “solução final” para o problema
palestino ganhou assim nova força ideológica, mas o limite
desta utopia está em que Israel não pode prescindir da força
de trabalho palestina.
A pressão americana por uma solução negociada que
transferisse para um tempo indeterminado a resolução do
problema, forçou um acordo pelo qual Israel era reconhecido
como Estado por parte da resistência palestina, que em troca
receberia a soberania sobre uma parte ínfima do território da
Palestina e a promessa de se pensar no assunto de um Estado
palestino com fronteiras indeterminadas para cinco anos depois,
tempo suficiente para se sabotar qualquer avanço real para o
problema.
O assassinato de Rabin em Israel (1995) mostrou como as
contradições dentro do próprio Estado judeu são graves e
insanáveis. A unidade do Estado judeu é garantida por seu vínculo
de origem ao imperialismo anglo-americano e o papel de ponta de
lança deste na região do Oriente Médio. A estratégia
convergente do imperialismo americano, de parte das classes
dirigentes israelenses e de parte da burguesia palestina,
fizeram que os esforços de “paz” tivessem continuidade, com
novas promessas, mas sem que as questões fundamentais como o
direito ao retorno dos palestinos e a questão da água, fossem
efetivamente abordados.
Em outubro de 2000 a direita judaica jogou uma cartada
decisiva, com a provocação urdida pelo primeiro-ministro Ariel
Sharon, o carrasco do Líbano, “visitando” o espaço simbólico
da identidade nacional palestina. A cartada da “solução
final’ voltava a ser jogada, desta vez com uma visão estratégica
de longo prazo,
fundada na crença de que as fontes de energia do mundo árabe
tendem a perder valor e que a revolução tecnológica
beneficiará Israel enquanto os árabes mergulharão de vez no
atraso e na ignorância.
Por sua vez a resistência palestina tende não só a se
fortalecer nos territórios ocupados, mas também a se
internacionalizar, encontrando aliados não em governos
“nacionalistas” ou “feudais”, com laços mais ou menos
estreitos com o imperialismo, mas nos povos árabes. A dinâmica
nacional / internacional tende a ganhar força, tendo por
principal vetor o islamismo. As forças laicas perderam
influencia com a crise do nacionalismo árabe, mas no seu
interior o marxismo tenderá a se difundir, desde que estabeleça
alianças com setores islâmicos que valorizem a tradição de
tolerância e de justiça social próprios dessa religião.
A solução para o problema palestino, enfim, só virá com
a dissolução do Estado judeu e das monarquias feudais árabes
e com a formação de um novo Estado que vise a emancipação
das massas populares do Oriente Médio, para além de sua língua
ou religião. A agressão americana contra o Afeganistão, logo
seguida pela ocupação do Iraque, tende a enfatizar os aspectos
internacionais da luta antiimperialista contra os desígnios
colonialistas dos EUA e de seu por vezes problemático afilhado,
o Estado sionista.