Por MARCOS DEL ROIO

Prof. de Ciências Políticas, FFC-Unesp/Marília

 


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O Imperialismo e o problema da Palestina

 

Oriente Médio: Mapa de 1947A agressão sionista contra o povo palestino coloca problemas até mesmo para os planos do imperialismo anglo-americano de estabilizar e redesenhar o mapa político do Oriente Médio. Esse problema aparentemente sem solução e o agravamento contínuo da violência tanto do colonizador sionista como do povo oprimido da Palestina certamente tem uma origem e deverá passar por alguma mudança de fundo, cedo ou tarde que seja.

Por cerca de quatro séculos, toda a região conhecida como Oriente Médio fez parte do Império Turco Otomano. Quando, após um longo declínio, esse império entrou em colapso, na seqüência da derrota militar na I guerra mundial (1914-1918), o mapa político da região foi redesenhado, tendo sido fundada a república turca, enquanto que as antigas províncias da Mesopotâmia e da península arábica foram ocupadas pelo imperialismo francês e inglês, entre 1922 e 1948. Durante esse período, a migração judaica em direção a Palestina aumentou, alimentada pela perseguição no império russo primeiro e na Europa central e oriental depois, culminada na tentativa de extermínio, mas estimulada pela Organização Sionista Mundial.

A ocupação britânica e o aumento da migração judaica fizeram surgir uma já latente resistência árabe palestina, principalmente por parte da pequena burguesia agro-mercantil. A perseguição nazista aos judeus deu um novo impulso à migração judaica, tornando a situação explosiva. Em 1936, uma rebelião palestina contra a ocupação inglesa e a migração européia massiva, que provocava alterações econômicas e culturais significativas na região, com a compra de terras palestinas de proprietários abastados que viviam fora do país e a utilização crescente de forças terroristas judaicas, contra a qual se opunham o conjunto dos trabalhadores, fossem árabes ou judeus.

Com a retirada da Inglaterra e com a aprovação da ONU, em 1948, a Palestina foi dividida em duas partes compostas pelo Estado de Israel com 30 % da população e quase 60% do território e pela Palestina propriamente dita com 70 % da população e pouco mais de 40% do território. Sentindo-se prejudicadas pela inserção de um forte concorrente, apoiado pelo Ocidente, as burguesias agro-mercantis árabes se uniram contra Israel, mas sofreram uma derrota catastrófica. Cerca de 1 milhão de palestinos foram expulsos de suas terras, a maioria passando a viver como trabalhadores sujeitos a super-exploração, tanto dentro como fora de Israel. A própria burguesia palestina foi fortemente atingida, conseguindo sobreviver apenas na Jordânia, que ocupou parte do território palestino.

O nacionalismo árabe, conformado em torno da questão palestina e contra aliança imperialista israelense,  travou mais 3 guerras contra Israel, tendo sido derrotado em todas (em 1956, 1967 e 1973). O nacionalismo árabe (particularmente sírio e egípcio) e o nacionalismo palestino tinham uma interdependência política e ideológica na sua luta contra Israel e toda a questão estava relacionada à política internacional que opunha a URSS ao imperialismo americano. O ataque anglo-franco-israelense contra os países árabes, em 1956, vitimou ainda uma vez os palestinos, mas deu impulso a organização da resistência nacional. Foi então formada a Organização para a Libertação da Palestina, cujo projeto era a construção de uma Palestina unificada, democrática e laica, na qual conviveriam judeus e palestinos.

O nacionalismo árabe se reforçou entre 1958 e 1962, com a fugaz união entre o Egito e a Síria, com a vitória da revolução argelina, com a queda da monarquia iraquiana e a fundação do Iêmen do Sul. Em 1965 teve início a luta armada palestina contra Israel, que desencadeou, em junho de 1967, uma guerra preventiva contra a resistência e os países árabes limítrofes, passando a ocupar a totalidade da Palestina, a península do Sinai (Egito) e as colinas do Golan (Síria). Desta feita 70 % do povo palestino passou a viver sob direta opressão sionista e 30% exilado em campos de refugiados no Líbano e na Jordânia. Um povo todo fora reduzido a fonte de força de trabalho de baixo custo.

Ao mesmo tempo que se radicalizava a resistência palestina se dividiu com o surgimento de organizações referidas pelo marxismo e pelo socialismo, com as originalmente cristãs FPLP e FDLP. As bases da resistência palestina foram gravemente golpeadas pelo regime monárquico jordaniano em 1970, fazendo com que a principal base de operações fosse alojada no Líbano. Em 1973, Egito e Síria tomam a iniciativa de atacar Israel. A honrosa derrota militar diante de Israel fortaleceu a situação política dos países árabes, particularmente em função dos preços do petróleo alcançados naquela conjuntura.

A ampliação das bases da resistência palestina no Líbano contribuiu para aguçar as contradições sociais dentro desse país, levando-o a guerra civil em 1975. A intervenção síria, no ano seguinte, teve o objetivo de garantir as posições da acuada “direita libanesa”, golpeando a resistência palestina e os muçulmanos libaneses. A ação síria no Líbano, a viagem do presidente do Egito, Anuar Sadat, a Jerusalém, abrindo caminho para a capitulação diante de Israel, e a mudança de meta da grande parte da resistência palestina para a criação de um Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza, significaram o fim inglório do nacionalismo árabe e a capitulação estratégica diante de Israel e dos interesses imperialistas na região.

Isolada no Líbano, a resistência palestina passou a ser o último alvo para que Israel varresse de vez seus inimigos. Ao cabo de dois anos, após um sem número de escaramuças, Israel invade o Líbano, perpetrando massacres e devastações que não podem ser esquecidas jamais. A revolução islâmica no Irã, em 1979, criaria o substrato de uma nova referência ideológica para as desvalidas massas populares do Oriente Médio, ainda que com tantíssimas nuanças e variações.

Diante da situação desesperada, a resistência palestina passa a perceber que é no próprio território da Palestina e contando com suas próprias forças é que sua luta, inexoravelmente antiimperialista revolucionária, pode chegar a termo.  O levante popular de 1987 sedimentou a unidade popular, mas não impediu que a direção ligada à burguesia palestina, interessada em chegar a algum acordo com a potência sionista, procurasse negociar, sob os auspícios do poder imperial americano, uma solução subalterna para o problema palestino, que é ao mesmo tempo nacional / popular / internacional.

A desintegração da URSS e do socialismo estatal na Europa oriental projetou o EUA como potência imperialista com inédita força hegemônica no plano internacional, econômico-político e militar. Pêlos mais diversos meios o EUA tem se empenhado em tornar-se o núcleo do poder de um Império Universal, tendo sido uma ação pretensamente exemplar a devastação perpetrada no Iraque, em 1991, em represália a ocupação do Kuwait, país que abriga importante minoria palestina, culminada agora com a ocupação do mesmo Iraque.

As tendências conservadoras e expansionistas, que vinham se fortalecendo em Israel desde meados dos anos 70, ganharam um novo impulso, reforçadas tanto pela nova onda migratória judaica que vinha da Europa oriental, como pela nova situação internacional. O sonho da “solução final” para o problema palestino ganhou assim nova força ideológica, mas o limite desta utopia está em que Israel não pode prescindir da força de trabalho palestina.

A pressão americana por uma solução negociada que transferisse para um tempo indeterminado a resolução do problema, forçou um acordo pelo qual Israel era reconhecido como Estado por parte da resistência palestina, que em troca receberia a soberania sobre uma parte ínfima do território da Palestina e a promessa de se pensar no assunto de um Estado palestino com fronteiras indeterminadas para cinco anos depois, tempo suficiente para se sabotar qualquer avanço real para o problema.

O assassinato de Rabin em Israel (1995) mostrou como as contradições dentro do próprio Estado judeu são graves e insanáveis. A unidade do Estado judeu é garantida por seu vínculo de origem ao imperialismo anglo-americano e o papel de ponta de lança deste na região do Oriente Médio. A estratégia convergente do imperialismo americano, de parte das classes dirigentes israelenses e de parte da burguesia palestina, fizeram que os esforços de “paz” tivessem continuidade, com novas promessas, mas sem que as questões fundamentais como o direito ao retorno dos palestinos e a questão da água, fossem efetivamente abordados.

Em outubro de 2000 a direita judaica jogou uma cartada decisiva, com a provocação urdida pelo primeiro-ministro Ariel Sharon, o carrasco do Líbano, “visitando” o espaço simbólico da identidade nacional palestina. A cartada da “solução final’ voltava a ser jogada, desta vez com uma visão estratégica de longo  prazo, fundada na crença de que as fontes de energia do mundo árabe tendem a perder valor e que a revolução tecnológica beneficiará Israel enquanto os árabes mergulharão de vez no atraso e na ignorância.

Por sua vez a resistência palestina tende não só a se fortalecer nos territórios ocupados, mas também a se internacionalizar, encontrando aliados não em governos “nacionalistas” ou “feudais”, com laços mais ou menos estreitos com o imperialismo, mas nos povos árabes. A dinâmica nacional / internacional tende a ganhar força, tendo por principal vetor o islamismo. As forças laicas perderam influencia com a crise do nacionalismo árabe, mas no seu interior o marxismo tenderá a se difundir, desde que estabeleça alianças com setores islâmicos que valorizem a tradição de tolerância e de justiça social próprios dessa religião.

A solução para o problema palestino, enfim, só virá com a dissolução do Estado judeu e das monarquias feudais árabes e com a formação de um novo Estado que vise a emancipação das massas populares do Oriente Médio, para além de sua língua ou religião. A agressão americana contra o Afeganistão, logo seguida pela ocupação do Iraque, tende a enfatizar os aspectos internacionais da luta antiimperialista contra os desígnios colonialistas dos EUA e de seu por vezes problemático afilhado, o Estado sionista.

 

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