O
que é um mau leitor?
O
problema que deu origem ao presente trabalho, parte da certeza
de que o hábito da leitura vem desaparecendo. Por que incomoda
tanto essa realidade? Em
que consiste um mau leitor?
A
inaptidão para a leitura começou, na verdade, a perturbar a
sociedade há pouco tempo. Talvez porque os dados sobre a
incapacidade de ler, escrever e interpretar dos estudantes já
tenha, pela imprensa, saído dos bastidores docentes. Talvez
porque a sociedade comece a questionar a escola onde os alunos
estão matriculados. Talvez porque o mercado nacional, que se
pretende competitivo, perceba seus limites em um futuro próximo.
Ou, ainda, talvez porque os pais comecem a se conscientizar que
seus filhos são os mesmos jovens que dão corpo às estatísticas
reveladoras do mau desempenho na língua materna.
A
Revista Ensino Superior, em novembro de 2003, traz, em manchete,
na capa, o título: Meu rico e maltratado português.
Oferecendo mais detalhes à matéria de Leandro Rodrigues, essa
mesma capa informa que o “III Indicador Nacional de
Alfabetismo Funcional (INAF) revela ser apenas de ¼ da população
brasileira aquela que demonstra domínio pleno da compreensão
dos textos”. Continuando, afirma: “Os estudantes só
descobrem a necessidade de aprender a língua na universidade,
sob a pressão das circunstâncias”.
Em
“Retratos da escrita na universidade”, Maria do Carmo
Santos, em um trabalho que remonta ao ano de 1996, já põe em
xeque o ensino e/ou a aprendizagem relativa à construção de
textos, mostrando o baixo nível de informação do aluno, a sua
incapacidade argumentativa, a falta de coerência, ou de lógica,
em seus discursos. A autora, sem esquecer de apontar para a
falta de originalidade, para o uso abusivo de lugares comuns, ou
de jargões, estendidos na escrita sem coerência, plena de
erros gramaticais, desvenda o perfil do acadêmico do final do século
XX.
Mas
o mau leitor precisa ser melhor especificado para que estratégias
diversas para sua recuperação possam ser levantadas. Nesse
detalhamento inclui-se, em primeiro lugar, a falta de
curiosidade que ele apresenta sobre o que se lhe oferece
como estímulo material para desenvolvimento de sua vida, para
desenvolvimento de sua personalidade, ou para sua atuação como
profissional. O desinteresse por algo fora dele mesmo é
marcante; o mau leitor não consegue ter propósito ou
vontade intencionalmente direcionada para além de seus
interesses mais imediatos ou primários. Como diz Jung
(1981, p. 552),
Em
minha opinião, vontade é a soma de energia psíquica de que a
consciência dispõe.O processo volitivo será, portanto, um
processo energético, suscitado por uma motivação consciente.
O
mau leitor, na verdade, não se propõe a nenhum diálogo intermediado
por outra coisa que não seja seus próprios desejos interiores.
A letargia, ou a preguiça, acompanha e consagra o indivíduo
que se mantém dominado por impulsos ou como joguete de estímulos
os quais não controla. Ele não se pergunta, por
exemplo, - o que sei sobre isso? O compromisso do
aprendiz consigo mesmo, enquanto potencialmente um aprendiz, não
se realiza.
Como
o aprendiz não se pergunta sobre o que sabe ou não sabe, não
direciona sua atenção, muito menos se concentra em qualquer
leitura. Com esse tipo de comportamento, não pode
identificar quais sejam a idéias principais de um texto,
assinalar as partes mais importantes de um artigo ou
confrontar os pontos de vista do autor com os seus.
Impossível, conseqüentemente, analisar, avaliar, julgar por
parâmetros definidos, externos, universais ou objetivos.
No
entanto, mesmo admitindo que está fazendo um curso porque sua
formação não está finalizada, não aceita ter deficiências
ou limites na esfera do conhecimento, nas habilidades
cognitivas. A imagem que tem de si mesmo não confere com seu
desempenho afetivo e intelectual. Seu sentir e seu pensar
apresentam-se desconectados. Não reconhece o tipo de energia
que lhe move e, por isso mesmo, terá imensa dificuldade em
tornar-se um bom leitor.
Para
se tornar um bom leitor, o sujeito, de qualquer faixa etária,
precisaria buscar sempre dominar a própria língua e,
particularmente, o seu vocabulário. O vocabulário, no entanto,
só é enriquecido pelo hábito de ler. Para essa dinâmica começar
a funcionar é preciso modificar o próprio comportamento. Nessa
exigência dialética, onde o movimento sempre deve ser acionado
para uma conquista desejada, o comportamento dos pais, dos
professores, dos alunos, ou melhor, de todos os que se propõem
aprendizes, deve ser objeto de maior reflexão. Quem não lê não
pode ser modelo para outro. Quem não tem o hábito de leitura não
pode educar o bom leitor.
Para
educar, pais, filhos, professores e alunos precisam ser
educados. Todos precisam ter conhecimento sobre si mesmos,
precisam habilitar-se a ter auto-consciência, o que permite o
alargamento dos processos de compreensão da própria vida em
suas complexas relações de trabalho. O alargamento da consciência,
por outro lado, é a exigência maior de desenvolvimento, quer
psíquico, quer intelectual, quer individual, quer social e esse
desenvolvimento concretiza-se quando o homem se torna um bom
leitor.