O
Provão morreu! Viva o SINAES?
Um
novo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES)
estará substituindo
o Exame Nacional de Cursos (ENC), popularmente chamado de Provão,
já a partir de 2004. É um sistema bem mais completo, composto
de quatro instrumentos avaliativos complementares: auto-avaliação
institucional, avaliação institucional externa; avaliação
das condições de ensino (ACE) e um Processo de Avaliação
Integrada do Desenvolvimento Educacional e da Inovação da Área
(PAIDEIA), que avalia por meio de provas aplicadas aos alunos,
por amostragem, no meio e no final do curso, as principais áreas
de conhecimento: ciências humanas, exatas, tecnológicas e biológicas
e da saúde.
Tal
sistema, entretanto, não é uma novidade em outros contextos
latino-americanos onde existem sistemas semelhantes desde fins
dos anos noventa. Na Costa Rica, por exemplo, o Sistema Nacional
de Credenciamento da Educação Superior (SINACES) avalia e
credencia suas IES desde 1998-99. Na Nicarágua e no Panamá,
sistemas de âmbito nacional e regional encontram-se em fase de
implantação. Onde já existem têm objetivos comuns de
estabelecer processos sistemáticos de avaliação das IES,
consolidar eficientes e transparentes sistemas nacionais de
avaliação, articular o sistema educacional com o sistema
produtivo, e cuidar da eficiência e transparência da educação
superior.
A
instituição do SINAES, mesmo obedecendo à mesma tendência
latino-americana ocorre, entretanto, em boa hora e responde às
críticas sobre as práticas avaliativas até então vigentes. O
Provão, na prática, se valia de instrumentos aplicados a
objetos isolados produtores de uma visão parcelada e
fragmentada da realidade, deixando de abarcar a riqueza e a
complexidade da educação, do sistema de educação e das
instituições educativas.
Porém,
sem quaisquer ilusões, o SINAES é um sistema autônomo de
supervisão estatal que busca integrar dimensões internas e
externas, particulares e globais dos diversos objetos e
objetivos da avaliação, propondo-se a ser somativo e
formativo, quantitativo e qualitativo. Sua função
explicitamente regulatória, tende a suprir a ausência do
Estado no que diz respeito ao aprimoramento das IES, seus
objetivos e funcionamento, e à reorientação do sistema de
educação superior de modo a atender as necessidades de uma Nação
democrática e soberana.
Sua
vigência implica criar novas regras de entrada, de permanência
e de saída do sistema, comprometendo-se a não operar com a
ideologia da competitividade, da concorrência e do sucesso
individual, admitindo explicitamente estar impregnado pela
vontade de ajudar a construir
uma concepção de educação superior socialmente
comprometida em seus objetivos e funções, oferecendo a
garantia de se balizar, em termos conceituais e políticos, por
um conjunto de princípios, tais como o de que a educação é
um direito social e dever do Estado e que a vida das instituições
de educação deve se pautar por valores sociais historicamente
determinados. Preceitua, ainda, que a avaliação implica em
regulação e controle, e que sua prática social global, legítima,
contínua e educativa deve ter respeito à identidade e à
diversidade.
Ao
contrário do Provão, seu objeto de avaliação está voltado
para o trabalho pedagógico e científico, em seu sentido técnico
e formativo, e para as atividades mais diretamente vinculadas
aos compromissos sociais da instituição. Em sua abrangência
procura abarcar “as relações sociais e as condições de
trabalho, a eficiência administrativa e a eficácia dos
processos interpessoais que se desenvolvem nas distintas
instituições” e, da mesma forma, as condições de
sustentabilidade e continuidade infra-estrutural, os fluxos de
informação, e funcionamentos das câmaras, conselhos, comissões
e outros colegiados. Trata, portanto, de avaliar como as IES
desenvolvem o ensino, formam, promovem e inserem seus
profissionais no mercado de trabalho, integram teoria e prática,
e como atendem a demandas sociais imediatas.
No
campo de desenvolvimento de uma teoria de avaliação, como
outros sistemas similares, corresponde ao que existe de mais
atual, sobretudo quanto à relação que estabelece entre os
dados da coleta de informações e os tomadores de decisão no
âmbito das IES. Sua originalidade é acentuada e vem do status
de avaliação baseada no processo com vistas a tomadas de decisão
que valoriza os contornos da ação e seus detalhes, admitindo
que sua administração é importante para a emissão de juízos
de valor. Nesse sentido a avaliação proposta deve ser contínua
e comportar inúmeras subavaliações e subdecisões que se
encadeiam, se matizam e são coerentes com os propósitos gerais
do sistema, e serve ainda para identificar, registrar e julgar
os acontecimentos e atividades da ação de formação.
A
despeito de sua atualidade, originalidade, importância e
complexidade, a avaliação que propõe trata inexoravelmente
todos os procedimentos pensados para o sucesso global e se mantém
limitada à noção de sistema que acompanha toda a evolução
da corrente estruturalista na qual as estruturas e os
procedimentos são revelados para que sejam levados em conta. A
idéia mais forte do SINAES é a de penetrar no cálculo, na
racionalidade dos procedimentos para fundamentar sua eficácia
ou sua rentabilidade mesmo correndo o risco de se confundir com
as análises de situações, obtenção de indicadores e com
instrumentos a serviço do controle social.
Sua
aplicação, todavia, não é fácil em função de alguns
problemas aparentes. É grande a indefinição dos fins
imediatos do SINAES. O compromisso com um projeto de sociedade
democrática, com igualdade e justiça social, na prática deixa
de transparecer sinais ou vontade de conferir quaisquer direitos
ou auxílios matérias às IES avaliadas. O que é transparente
é o intuito de desonerar o Estado e transferir os custos e as
responsabilidades da avaliação para as IES, inclusive para
fins de reconhecimento, cabendo ao Estado tão somente o custeio
do Processo de Avaliação Integrada do Desenvolvimento
Educacional e da Inovação da Área (PAIDEIA) e da Comissão
Nacional de Avaliação (CONAES).
Da
mesma forma não está claro se a avaliação pretende levar em
conta os desejos e as necessidades particulares das diversas IES
ou, simplesmente, ter e trocar informações de boa qualidade.
Considerando as funções atuais das instituições de ensino,
é imprescindível definir quem deve procurar a melhoria da
organização cotidiana e de sua ação de formação. Ademais não
está definido o lugar onde se situa a apreciação que
caracteriza esta avaliação do processo com vistas à tomada de
decisão.
Outro
problema resulta do pressuposto de que os gestores públicos têm
condições de tomar as decisões mais lógicas, objetivas e
justas, a partir de instrumentos avaliativos que historicamente
tendem mais a proteger e a beneficiar quem avalia É possível,
de fato, questionar se eles são mesmo capazes de expressar os
melhores juízos e decidir com justiça e imparcialidade? Se
eles se sentem cômodos como sujeitos de decisão?
Para
além dessas questões, há ainda que considerar o grau
subjetividade que impregna a avaliação proposta, assim como a
falta de garantias de imparcialidade visto que as diversas
comissões externas estão sujeitas a agir com maior ou menor
severidade, coerência e arbitrariedade. Apesar de toda
generosidade propalada em suas intenções, na prática a avaliação
pode ser comprometida frente ao fato de que os avaliandos
historicamente não possuem os meios suficientes para fazer
prevalecer a justiça e a retidão.
É
também problemático o principio de justiça subjacente, o qual
permite identificar o valor social e o mérito acadêmico das
instituições e de seus programas, assegurando a uma instituição
de ensino, pesquisa e extensão ser avaliada unicamente pela função
de ensino, ou que se exija de outra que faça pesquisa de ponta.
A evidente intenção de distributividade tenta assegurar que a
avaliação possa operar indiferentemente com elementos característicos
de uma universidade de ponta e de uma faculdade isolada, mas
isso de certo modo reduz todas as IES a denominadores comuns visíveis
a partir da exibição das suas estruturas voltadas para a ação
de formação.
A
falta orientações operacionais não iluminam sua aplicação e
ainda podem ser agravadas em função da exigência de adesão e
confiança das IES nas intenções e nos instrumentos
avaliativos. Ora, é complicado esperar que elas se exponham
facilmente a juízos externos derivados de interesses e pontos
de vistas contraditórios. Do ponto de vista de cada uma o risco
mais conspícuo é o de se submeterem à generalização de
procedimentos de controle social, com acentuados graus de
conformismo e supervalorização dos modelos que servem de
referencial para as questões de controle.
Frente
a tudo isso o SINAES em seu atual estágio exige acirrado debate
nacional no sentido de sua melhor compreensão e operacionalização.
Frente às dúvidas e incertezas teóricas e práticas precisa
ser mais apurado. Os conceitos de mérito, valor da instituição
e perfil institucional, por exemplo, carecem de mais precisão,
dada a relevância que adquirem. É importante esclarecer a quem
compete financiar as etapas do processo avaliativo e quais os
meios de disponibilização de pessoal considerando-se,
sobretudo, as dificuldades de recursos financeiros e humanos das
instituições públicas. Do mesmo modo, deve-se atentar para a
forte estruturação do sistema tendente a centralizar poderes
sem a devida representatividade das IES e contrariando
expectativas de discussões mais ampliadas, próprias dos
regimes colegiados.
A
constituição dos grupos de alunos por amostragem, em
diferentes momentos de seus percursos acadêmicos para a avaliação
anual do Paidéia, é outra questão importante a ser discutida.
A tendência predominante no meio acadêmico é a de haver uma
avaliação universal envolvendo todos os estudantes de todas as
IES.
Por
fim vale insistir na manutenção de determinados princípios
inegociáveis. O SINAES deve preservar a autonomia das IES;
instituir alguns indicadores, por mínimos que sejam, para
designar graus ou níveis de qualidade da educação superior
realizada ou a ser realizada; garantir processos de avaliação
universais, abrangendo todos os estudantes em todos os seus
momentos; bem como
garantir a diversificação das IES, considerando que cada uma
é um lócus produtor de uma cultura particular, dinâmica e
dialética.