Capital
extraterrestre
A
cidade de Roswell, mais ou menos no meio do Estado de Novo México,
é considerada a capital extraterrestre do nosso planeta. Pelo
menos isso é o que o pessoal da cidadezinha diz. Para quem não
sabe da história (e deve ser de outro planeta, pra não saber
de tal história), em julho de 1947 alguma coisa caiu do céu
bem no município de Roswell.
Essa “coisa” era bem estranha, debris, pedaços de metal que
pareciam ser feitos de uma substância desconhecida. Uma
avalanche de informações
e contra-informações se sucedeu ao acontecimento, e o dono da
terra onde os debris caíram recebeu ordens dos militares para
calar a boca. Outros que se meteram na história também
receberam um ultimatum para fecharem o bico, enquanto que as notícias
oficiais eram que o que havia caído em Roswell era um balão de
investigação atmosférica.
Logicamente, as forças
governamentais podiam mandar alguns indivíduos calarem a boca.
Mas estas forças não conseguiram impedir que o rumor se
espalhasse pelo Novo México, estados vizinhos, os Estados
Unidos, e o mundo. De forma que, hoje em dia, se você está
interessado em coisas extraterrestres, Roswell ainda é o melhor
lugar para visitar.
Chegamos à cidadezinha às 3:30 da
tarde, decididos a investigar todo o mistério de Roswell que
pudesse caber na hora e meia que restavam antes que fechasse o “International
UFO Museum and Research Center” — Museu e Centro de
Pesquisas Internacionais sobre Objetos Voadores não
Identificados — naquele dia.
Logo na entrada, vários objetos e bonecos lembrando os
supostos seres extraterrestres que caíram em Roswell em 1947.
Quase todas as pessoas que trabalham no museu são voluntárias
da cidade, gente de todas as idades que quer contribuir para
este museu que é obviamente objeto de orgulho cívico. Uma
senhora atrás de um balcão, devidamente vestida com as roupas
associadas aos extraterrestres, nos informou que a entrada era
grátis, que poderíamos visitar todas as instalações do
museu, e que também tínhamos direito a um marcador de livro.
Na parece havia um mapa do mundo
enorme, cheio de pontinhos coloridos, e o convite para que cada
visitante ao museu marcasse com os alfinetinhos coloridos a
cidade de onde vinham. Ali também estava a informação que os
alfinetinhos eram retirados todo mês, então o que tínhamos
ali era uma idéia de quantas pessoas de cada país havia
visitado o museu naquele mês. Logicamente, eu fui logo ver se
algum brasileiro tinha estado em Roswell neste mês de dezembro
de 2003. E não é que dois já tinham estado lá? Um de São
Paulo, e um de Belém. Fiquei surpresa, e imaginando
o que estes compatriotas teriam ido fazer em Roswell, que
fica, a bem da verdade, bem pra lá do fim do mundo mesmo.
Mas obviamente eles estavam de
passagem, assim como eu, indo ou para o norte, para as cidades
mais turísticas e interessantes como Santa Fé ou Taos, ou indo
ao Sul para o Big Bend National Park ou para as outras cidades
grandes no Texas. Ou talvez estavam indo para o oeste, em direção
a Los Angeles ou Las Vegas? Ou para o leste, em direção a
cidades grandes como Memphis, ou mesmo Nova Iorque? Quem sabe? O
que importou, naquele momento, foi que três brasileiros
passaram por Roswell.
A não ser que os outros dois não
eram brasileiros, mas eram extraterrestres passando por
brasileiros. Esta não é uma noção exagerada de maneira
nenhuma. Considerando-se a extrema ignorância dos americanos em
relação à geografia (não só de outros países, mas até
mesmo do seu próprio país), é bem provável que algum
extraterrestre espertalhão resolveu colocar o alfinetinho ali
em São Paulo, ou em Belém, somente de brincadeira... Vale a
pena manter a perspectiva, de todas formas.
Então, o museu—o edifício
modificado de um antigo cinema—oferece fotografias das pessoas
envolvidas no incidente em 1947, assim como cópias dos artigos
de jornais, memorandos mandados por diversas autoridades
mandando as pessoas calarem a boca. Também se encontram ali
reproduções de supostos discos voadores, bonecos
representando as possíveis aparências físicas dos ditos
extraterrestres, e cópias de cartas-testemunhos de várias
pessoas que presenciaram fenômenos inexplicáveis de objetos
circulares que se moviam a grande velocidade. Então podemos ler
tanto a carta de uma aeromoça que presenciou, juntamente com o
piloto, co-piloto e outro atendente do avião, a presença de um
objeto luminoso que se movem a incrível velocidade, bem junto
ao avião. Podemos ver também uma interpretação, em forma de
uma escultura, do corpo do extraterrestre sendo tratado por um médico,
após a queda do disco em Roswell. Para os que gostam da sua
história contada, e não lida, no museu estava um homem
contando sua experiência com os que vieram “de longe.” E um
grupo de jovens à sua volta ouviam atentamente. E, se tudo isto
não bastasse, lá no funda havia um homem vestido de papai
Noel, pronto pra tirar fotos com a tela de fundo de estrelas e
galáxias.
Alguém disse surreal aí?
Saímos do museu e atravessamos a
rua, em direção a uma lanchonete que dizia ter café e
internet. Bom demais pra ser verdade: o café era requentado, e
a internet custava oito dólares por hora. Tratamos de sair
rapidinho, mas não tão rápido que não pudéssemos recolher
alguns panfletos que os donos da lanchonete graciosamente nos
ofereceram. Os tais panfletos explicavam, entre outras coisas,
que os extraterrestres eram na verdade demônios, e que todos
deveríamos resistir a eles. No texto, havia algumas fórmulas
para se resistir aos ditos cujos, e de maneira geral envolviam
coisas parecidas com religião cristã.
Convém lembrar que, na época em
que este “incidente” aconteceu no Novo México, o estado já
estava marcado como um lugar em que coisas altamente científicas
e altamente escondidas tinham acontecido.
Não muito longe de Roswell, na cidade de Los Alamos,
durante a segunda guerra mundial se havia congregado um grupo de
cientistas para o que se chamou Manhattan Project. Este projeto
foi, nada mais nada menos, o que deu origem à bomba atômica.
Como o governo americano suspeitava, desde 1939, que os nazistas
e os japoneses estavam interessados em desenvolver a bomba atômica,
em 1942 um grupo de cientistas sob a responsabilidade do Army Corps
of Engineers—O Corpo de Engenheiros do Exército—foi enviado
a Los Alamos para trabalhar neste projeto altamente secreto e
urgente. Um colégio para rapazes localizado nas montanhas de
Novo México foi ocupado pelo governo para funcionar como
laboratório científico; estradas foram construídas às
pressas, e as famílias dos cientistas vieram também morar em
Los Alamos, já que não se sabia ao certo quanto tempo levaria
para a finalização. Devido à gravidade do projeto, nem mesmo
os participantes sabiam ao certo onde se encontravam, e até
suas cartas aos familiares eram censuradas, e tinham que ser
reescritas.
Mais tarde, como se sabe, o governo americano testou bombas
nucleares no deserto do Novo México (algo que, hoje em dia,
seria inimaginável). Atualmente, o museu em Los Alamos que fala
do nascimento da bomba atômica, também é um dos lugares nos
Estados Unidos em que se congregam os pacifistas, os que
professam a rejeição ao que o Projeto Manhattan produziu.
Enfim, voltando a Roswell, numa
tentativa de entender o que pode ter causado tanta sensação em
1947, quando “algo” caiu numa fazenda nos arredores da
cidade, é fácil entender porque, primeiro, os moradores
achariam que estavam sendo visitados por extraterrestres, e,
segundo, porque as forças armadas americanas tentaram
sufocar os rumores o mais rápido possível.
Hoje, Roswell é uma cidadezinha
pacata, tentando capitalizar em um incidente que aconteceu há
meio século. Não há sinais visíveis de extraterrestres na
cidade. Assim concluímos depois da visita ao museu, de
conversas com as pessoas.
E o que você faz numa cidadezinha
perdida no meio de lugar nenhum,
depois do jantar? Das duas uma: ou você vai ver um
filme, ou você vai ao shopping. Resolvemos ir ao shopping, que
fica no fim da rua principal da cidade (que também é a estrada
que leva à cidade). O shopping estava praticamente vazio.
Perguntamos a uma das vendedoras porque não tinha ninguém
fazendo compras, porque afinal, estamos perto do Natal, e era um
sábado à noite. Ela nos explicou:
“Desde que este Wal Mart abriu aqui em Roswell, quase
ninguém vem mais ao shopping, e muitas lojas estão fechado por
falta de fregueses.”
Wal Mart, para quem não sabe, é a
maior loja do mundo. Começou no meio oeste americano, mas agora
já se espalhou pelo mundo inteiro. A filosofia de Wal Mart é:
preços baixos. Aqui nos Estados Unidos, quando a gente vai a
uma cidadezinha e o centro comercial da cidade está morto,
portas fechadas, um ar de cidade fantasma, pode saber: tem um
Wal Mart na periferia da cidadezinha.
Este gigante chega, se apossa de um pedaço de terra,
constrói uma mega-loja, e destrói todos os outros comerciantes
da cidade. Seu segredo? Preços baixos, baixíssimos. Como Wal
Mart consegue isso? Simples: comprando os produtos em grandes
quantidades, pagando salários baixos aos funcionários (62% dos
quais não recebem seguro saúde), impedindo a formação de
sindicatos dos funcionários, etc, etc. Os moradores do estado
de Vermont, no leste dos Estados Unidos, votaram contra a
entrada de Wal Mart dentro das suas fronteiras, porque sabem que
uma loja como esta representa a destruição de vários pequenos
estabelecimentos comerciais, e eventualmente, à destruição
das cidades de pequeno porte. A United Food and Commercial
Workers—A União dos Trabalhadores na Indústria de Alimentos
e no Comércio—vem tentando alertar os consumidores para os
perigos que Wal Mart representa. Mas a companhia continua se
expandindo, como. . . como aquela bolha dos filmes de terror!
Ou aqueles filmes em que os extraterrestres chegam,
hipnotizam a população, e sugam todo o sangue de todas as
pessoas.
Fomos visitar o Wal Mart de Roswell,
a maior loja da cidade, maior até que o museu, e que o shopping
center. E não deu outra: bem na frente da loja estava a pintura
de um disco voador.
Em
1994, a Força Aérea americana, a pedido do congresso,
iniciou uma exaustiva pesquisa do “incidente em Roswell,”
e as conclusões foram que o que caiu em Roswell em 1947 foi
um balão de pesquisa chamado MOGUL, e que os
“extraterrestres” recuperados no acidente eram
simplesmente bonecos que eram usados nestes balões, para
teste. Leia
mais sobre o assunto em
http://www.af.mil/lib/roswell/index.asp