|
Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor
em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política
externa do Brasil
VERSÃO
WORD [WINZIP]
|
|
4.
Vinde a mim os pobres deste mundo?: os milagres da globalização
Uma
das dificuldades sublinhadas por Sala-i-Martin para definir as
linhas de pobreza no mundo e nos países está representada pela
escolha de indicadores relativos à renda ou ao consumo, este mais
fiável como retrato das realidades individuais, dada a natural
propensão das pessoas a subdeclararem seus ganhos efetivos para
escapar dos longos braços das autoridades fiscais. Isso está bem
refletido no Brasil, por exemplo, pelos dados relativos ao imposto
sobre transferências bancárias (CPMF), que descreve um quadro mais
próximo das transações reais do que as declarações de rendas de
pessoas físicas. Daí talvez os números igualmente altos para uma
estimativa do número de pobres no Brasil, baseados em pesquisas
relativas à renda disponível, invariavelmente colocada nos menores
níveis possíveis. O fato é que a nossa desigualdade na distribuição
de renda, que tem causas estruturais e alocativas bem conhecidas, não
é boa para o crescimento econômico e, portanto, para a diminuição
do número de pobres. Mas, o professor está mais interessado na
redução global da pobreza do que na diminuição das
desigualdades, que em alguns casos podem ser “funcionais” para o
desenvolvimento.
Não
há, por outro lado, segundo esclareceu Sala-i-Martin em sua
apresentação, nenhuma correlação unívoca entre crescimento e
desigualdade, historicamente e na atual conjuntura. Pode-se ter
todas as combinações possíveis: crescimento com igualdade, não
crescimento com aumento das desigualdades e seus equivalentes com
sinais trocados. Creio que o mesmo ocorre, num certo sentido, com a
democracia e o crescimento, pois que diferentes regimes políticos
apresentam desempenhos bem diversos em termos de crescimento econômico
e mesmo de desenvolvimento social, sem que se possa traçar uma
correlação muito estrita entre ambas as variáveis. Talvez o
elemento relevante, como observou uma vez Roberto Campos, seja o
fato de um regime autoritário ser (ou não) market-friendly,
com o que ele variará em seu desempenho relativo, podendo, no caso
positivo, ser mais facilmente “biodegradável” (como de certa
forma ocorreu no Brasil).
As
pesquisas e regressões matemáticas de Sala-i-Martin confirmam, por
sua vez, estudos conduzidos pelo economista indiano Surjit Bhalla,
anteriormente no Banco Mundial e atual diretor de um centro de
pesquisas e de investimentos na Índia, para quem a globalização não
resultou em taxas menores de crescimento, nem em aumento da pobreza
ou da desigualdade, mas
ao contrário, numa diminuição sensível das desigualdades
mundiais, dos índices de pobreza e um crescimento da renda dos
estratos mais pobres, relativamente aos mais ricos (ver seu livro: Imagine
There’s No Country: Poverty, Inequality and Growth in the Era of
Globalization. Washington:
Institute for International Economics, 2002). Aos interessados em
uma discussão mais aprofundada sobre as relações entre
crescimento, desigualdade e pobreza na era da globalização remeto
ao colóquio realizado no Banco Mundial em 1° de outubro de
2002, com uma apresentação gravada do economista Bhalla no link: http://www.worldbank.org/wbi/B-SPAN/sub_poverty_globalization.htm.
Os principais avanços metodológicos e empíricos do livro de Surjit
Bhalla estão resumidos em sublink dessa
seção dos trabalhos do BIRD:
http://poverty.worldbank.org/files/12978_Surjit_Bhalla_Two_Policy_Briefs.doc
Os
trabalhos de Surjit Bhalla são efetivamente importantes pela sua
contribuição ao avanço dos métodos de pesquisa em terrenos clássicos
da economia política como o da distribuição de renda e riqueza
(que não são obviamente sinônimos). Mas ele também não deixa de
tocar nas implicações políticas de suas teses, como a questão de
saber quem perde com a globalização. De um modo geral, as evidências
sobre a convergência entre sistemas econômicos nacionais parecem
agora bem estabelecidas, sobretudo do ponto de vista da equalização
de salários em níveis similares de produtividade, o que deve
beneficiar os mais capacitados no mundo em desenvolvimento (que
alguns chamam de burguesia, ou de elite, do Terceiro Mundo). Os únicos,
talvez, a perderem absolutamente seriam os trabalhadores pouco
qualificados dos países desenvolvidos e uma difusa classe média
que sente que lhe serão retirados os benefícios do welfare
State. São exatamente estes grupos que compõem o grosso da
massa mobilizada pelos movimentos da anti-globalização:
“velhos” sindicalistas e jovens de classe média. Alguma
surpresa nisto?
5.
Uma proposta modesta: o neomarxismo da globalização
Ao
concluir estas novas notas sobre o tema das relações entre a
globalização e o crescimento, entre a pobreza e as desigualdades,
desejo, portanto, desculpar-me uma vez mais junto aos leitores de
meu livro A Grande Mudança, no que se refere ao citado capítulo
sobre a globalização, por tê-los induzido em erro, ao acreditar
que estas duas últimas décadas de intenso processo de globalização
tivessem coincidido com uma inversão das tendências à convergência
na economia mundial e produzido, supostamente, um aumento nos níveis
de desigualdade entre e dentro dos países.
Verificamos,
ao contrário, que houve um nítido progresso social e econômico
que melhorou a vida de milhões de pessoas em vários cantos do
mundo (as fontes empíricas para esse tipo de afirmação foram
expostas no presente trabalho e estão amplamente disponíveis para
consulta), o que não impede, obviamente, a deterioração da situação
de outros grupos sociais. Quero, nesse sentido, convidar todos os
interessados nesse tipo de problemática a visitar as páginas e os
trabalhos indicados no presente ensaio (que estão, com perdão dos
não habilitados, todos em inglês), uma vez que eles podem trazer
novos dados e instrumentos úteis para um estudo objetivo e
empiricamente bem fundamentado sobre essas questões. Temas como
redução da pobreza e inserção do Brasil na economia mundial
interessam a todos nós — estudantes, professores, eleitores,
simples cidadãos —, que participamos, na medida de nossas
capacidades e de acordo com nossas necessidades, do debate público
sobre as alternativas de política econômica oferecidas ao Brasil
nestes tempos de globalização irrefreável.
Quando
me refiro ao caráter “irrefreável” de globalização, não
pretendo denotar nenhum encantamento pessoal, de tipo estético, com
esse processo, considerá-lo como se fosse uma espécie de novo
“Renascimento” ou efetuar julgamentos de valor a partir do
substantivo e seu adjetivo. Estou simplesmente fazendo constatações
“de fato” — e fazendo algumas interpretações — mas
sobretudo trazendo a exame dos interessados as mais recentes reflexões
e análises das ciências sociais e das simulações econométricas
com base em dados empiricamente rigorosos (e desprovidos, tanto
quanto possível, de distorções metodológicas), com a finalidade
de contribuir ao esforço de avaliação dos impactos da globalização
para o Brasil.
As
evidências coletadas em pesquisas especializadas, bem como a experiência
histórica de países que se inseriram na economia mundial nas últimas
duas décadas trazem um quadro bem diverso da visão apocalíptica e
catastrofista anunciada e alardeada pelos opositores ideológicos da
globalização, que de resto adiantam meia dúzia de slogans
alarmistas sem quaisquer evidências empíricas para sustentar suas
alegações. Depois de alguns anos de promessas, creio que temos o
direito de saber, finalmente, quais seriam os contornos exatos e o
modo preciso de funcionamento desse “outro mundo possível” —
e também um “outro Brasil”, uma “outra América” etc. —
que vem sendo oferecido no “mercado de futuros” da
anti-globalização, sem que de fato se nos abra a possibilidade de
resgatar esses títulos facilmente transacionados na bolsa virtual
de idéias utópicas que constituem alguns foros alternativos.
Com
isso não pretendo cantar loas à globalização ou arguir que ela
é isenta de riscos e de efeitos nocivos para aqueles setores e
pessoas eventualmente situados do lado “errado” do processo de
destruição criadora que ela gera de modo inevitável e contínuo.
Ao contrário, ela potencializa ainda mais os desafios que
normalmente estão associados aos fenômenos mais conhecidos — e
longa data familiares aos economistas clássicos e modernos — da
defasagem tecnológica, da competição desenfreada, da substituição
de trabalho humano por processos produtivos labor-saving, da pressão
constante sobre os salários derivada da incorporação de novos exércitos
industriais de reserva, enfim, velhos problemas já tratados, sob
diferentes ângulos, por estudiosos tão diversos como Adam Smith e
Karl Marx, Joseph Schumpeter e Milton Friedman, Raul Prebisch e Paul
Krugman, Celso Furtado e Joseph Stiglitz. Nenhum deles adotou a política
do avestruz ou uma atitude puramente negativa em relação aos
desafios, glórias e misérias do processo de globalização
capitalista, tentando compreender, em primeiro lugar, e oferecer políticas
alternativas, em seguida, no que respeita os problemas e conseqüências
indesejadas daquele processo.
Apenas
quero deixar claro, aqui, que invectivas ou manifestações de
indignação moral não são substitutivos ideais a análises
ponderadas, empiricamente embasadas e metodologicamente adequadas
— como aquelas feitas pelo professor Xavier Sala-i-Martin, por
exemplo —, e que tais reações podem, se tanto, obscurecer os
dados do problema, em lugar de contribuir para uma boa organização
dos debates. Argumentos racionais, logicamente consistentes e
condizentes com a realidade, ainda são o melhor instrumento para a
tomada de decisões inteligentes em matéria de políticas públicas,
que é finalmente o que todos desejamos como cidadãos
participativos na vida social. Não consigo compreender, assim, como
os agrupamentos e personalidades que se dizem de esquerda conseguem
ignorar todos os dados da realidade para se lançar numa cruzada
contra a globalização, tão ingênua quanto desprovida de
argumentação sólida. Entendo que deva ser por anticapitalismo
instintivo, pois não encontro outra explicação.
Por
isso, ao encerrar estar reflexões e propor um brinde à globalização
— por sua capacidade de, simultaneamente, trazer crescimento econômico,
diminuir a pobreza global e contribuir para a redução progressiva
das desigualdades sociais e nacionais —, desejo sugerir que as
energias tão empenhadamente concentradas em protestar contra a
globalização sejam empregadas doravante num estudo sério, de caráter
multidisciplinar, de suas modalidades, impactos e incidência do
ponto de vista do Brasil. Se ouso propor um nome, consoante minha
vocação eclética e ecumênica (como já desvendado em meu livro Velhos
e Novos Manifestos, de 1999), seria “Foro Marxista de Estudos
sobre a Globalização Capitalista”, sem qualquer ironia involuntária.
Retomando
as velhas tradições de análise crítica do desenvolvimento do
modo de produção capitalista, já iniciadas no Manifesto de
1848, e parafraseando o final grandiloqüente desse ensaio tão
atual quanto pertinente, eu poderia dizer que os anti-globalizadores
de hoje não têm nada a perder com esse tipo de exercício
intelectual, a não ser alguns velhos grilhões mentais que os mantêm
cegos e presos a esquemas conceituais ultrapassados. Em
contrapartida, eles têm um mundo novo a ganhar: basta saber um
pouco de história, olhar para o mundo e conhecer um pouquinho só
de economia. O resto é bom senso…
|