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Por FERNANDA RAMONE
Bacharel em Relações
Internacionais e Pesquisadora da Câmara de Comércio e Indústria
Brasil-China
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As
diferenças culturais entre Brasil e China diante dos 30 anos de
estabelecimento diplomático
As comemorações em relação aos 30 anos de estabelecimento
diplomático entre Brasil e China, prevista para agosto de 2004
ganham extensões mais amplas do que propriamente a celebração
da data em si, representa o êxito da parceria estratégica
Sul-Sul.
No decorrer destas quase três décadas – é valido lembrar que
as primeiras iniciativas de diálogo sino-brasileiro ocorreram em
1881, não atingindo resultados relevantes, seguida de outras
tentativas de aproximação também pouco significativas - os dois
países consolidaram um notável patrimônio conjunto nos campos
político-diplomático, econômico-comercial e científico tecnológico.
As conquistas não param por aí, a manifestação do atual governo
brasileiro em relação a política de prioridade com a China, e
por outro lado o interesse chinês em relação ao maior país da
América do Sul, proporciona
novas e promissoras oportunidades para ambos.
A China há tempos concentra esforços no intuito de inserir-se
completamente neste cenário da globalização, processo típico
da segunda metade do século XX que conduz a crescente integração
das economias e das sociedades dos vários países especialmente
no que toca à produção de mercadorias e serviços, aos mercados
financeiros, e à difusão de informações.Todavia as distâncias,
e não me refiro a geográfica, mas a cultural tem sido o grande
obstáculo nas prospecções de empreendimentos e nas iniciativas
comerciais na China.
A adoção de comportamentos de imensa ponderação e receio frente
a um suposto e indispensável código de símbolos chinês, parte
supostamente constitutiva do universo das negociações comerciais
do país, conduzida por uma significante parcela de interessados
no mercado da China, além
de errônea afasta ou retarda oportunidades potenciais.
O executivo chinês é similar a qualquer executivo do mundo, busca
a obtenção de vantagens, lucros e a expansão dos negócios.
Obviamente possui características próprias, típicas da cultura
a qual pertence, por
exemplo através do que eles chamam de guanxi, ou seja
o relacionamento baseado no conceito da ligação pessoal
de confiança, é fator bastante considerado nas negociações, e
em sua ausência os critérios acerca da qualidade, preço,
credibilidade da empresa bem como todas os requisitos geralmente
ponderados em qualquer instituição de qualquer parte do mundo
será a opção a ser utilizada.
A lenda difundida em relação a sensibilidade dos chineses frente
ao cumprimento de regras especificas comerciais, que envolvem
desde palavras até efetivamente a ratificação do acordo em si
geram estratégias muitas vezes desnecessárias.
É valido lembrar que os chineses são muito práticos e bastante
minunciosos, diante de um contrato por exemplo costumam ser
extremamente atentos em relação ao significado das palavras
realizando alterações muitas vezes consideradas como sinônimos.
São detalhes simples que atingiram grandes proporções no imaginário
geral, talvez em virtude dos mistérios que o Oriente em si
representa.
Gradualmente as diferenças tendem a ser menos distantes e as relações
mais próximas, proporcionando entrosamento e naturalidade, assim
geradas a partir das experiências e necessidades descobertas
empiricamente. Casos bem sucedidos de iniciativas brasileiras na
China e vice-versa são cada vez mais comuns, tanto que a China
tornou-se o segundo maior parceiro comercial do Brasil. De janeiro
a setembro, as exportações de produtos brasileiros para o
mercado chinês somaram US$ 3,407 bilhões, com crescimento de
89,6% em relação a idêntico período do ano passado. As importações
cresceram 33,08% e atingiram a cifra de US$ 1,495 bilhão.
O grande fascínio em relação ao mercado chinês está
diretamente associada aos seus números exorbitantes, acerca da
população de 1.3 bilhões de habitantes, assim como os
indicativos referentes a evolução da economia e a média de crescimento anual.
Evolução
da economia - China (dados em relação ao PIB)
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1982
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1992
|
2001
|
2002
|
|
PIB (milhões de
US$)
|
221,5
|
454,6
|
1,167
|
1,232
|
|
Investimentos domésticos
|
33,2
|
36,2
|
38,5
|
41,0
|
|
Exportações de
bens e serviços
|
8,9
|
19,5
|
25,5
|
29,5
|
|
Poupança
nacional
|
35,1
|
38,0
|
40,0
|
43,6
|
|
Fonte: Banco
Mundial
|
|
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Média
de crescimento anual
|
|
1982-92
|
1992-02
|
2001
|
2002
|
2002-06 *
|
|
PIB
|
9,7
|
9,0
|
7,5
|
8,0
|
7,5
|
|
PIB per capta
|
8,1
|
8,0
|
6,7
|
7,2
|
6,6
|
|
Exportações de
bens e serviços
|
5,9
|
14,3
|
9,6
|
29,4
|
14,8
|
|
* Estimativa
|
|
|
|
|
|
|
Fonte: Banco
Mundial
|
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A
intensificação do comércio com a China faz parte das
iniciativas da diplomacia comercial brasileira aliada aos esforços
dos exportadores nacionais.
Em ação recente, a Apex - Agência de Promoção de Exportações
do Brasil, contratou uma empresa de consultoria responsável por
mapear 15 setores econômicos nos quais os produtos brasileiros podem ser mais
competitivos no mercado chinês.
Entre
os segmentos que serão pesquisados encontram-se calçados,
produtos alimentícios, móveis, equipamentos médico-hospitalares,
mármores e granitos, cosméticos, tecnologia bancária e
softwares. As avaliações acerca das perspectivas de
investimentos são promissoras nas áreas de metalurgia do alumínio
e produção de fármacos.
Quanto
às oportunidades de negócio via transferência de tecnologia ou
formação de "joint ventures", destacam-se os setores
aeroespacial e de infra-estrutura. O programa brasileiro de
desenvolvimento de satélites ganha novo impulso, o programa de
cooperação sino-brasileiro prevê o desenvolvimento de mais dois
satélites.
Essa
cooperação técnico-científica também tende a se ampliar, o
fluxo de delegações chinesas ao Brasil é intenso, com repercussões
positivas em diferentes segmentos industriais, assim como na área
de pesquisa.
O
Brasil e a China oferecem, hoje, o maior potencial de negócios no
setor de infra-estrutura. É nesse campo que as empresas
brasileiras de engenharia pesada podem conquistar vultosos
contratos na China, em virtude dos projetos e obras de sucesso já
implementados em território brasileiro que atendem as
expectativas dos ambiciosos programas de desenvolvimento chinês
nas áreas de energia, saneamento, irrigação, construção de
moradias, transportes e outras.
No
campo comercial, cresce a cada dia o número de empresas
brasileiras que vêm conseguindo abrir o mercado chinês para seus
produtos. Por exemplo: um grupo de frigoríficos fechou contrato
de exportação de carne bovina, a Sucos Del Valle do Brasil -
subsidiária do grupo mexicano Jugos Del Valle - faz um embarque
experimental de suco de frutas para a região Sul da China, onde
pretende, em curto prazo, assumir a liderança no mercado local,
sem contar outros produtos que tornaram-se nichos de mercado, como
o leite longa vida e
café solúvel.
Fora
do setor do agronegócio, destaca-se a Volvo do Brasil Veículos,
que acertou contratos para venda de caminhões pesados e
semipesados à China, a Volkswagen do Brasil que pelo seu
desempenho obteve o título de Empresa Destaque do Ano
Brasil-China 2002, na categoria comércio,
a Cosipa, a Companhia Vale do Rio Doce, entre tantas
outras.
As
experiências contrárias, ou seja de empresas chinesas que
instalam-se ou estão comercializando seus produtos no Brasil também
é bastante significativo e vem crescendo rapidamente.
Recentemente um grupo multisetorial bastante consolidado na China,
o Lunneng Group investiu US$ 11 milhões para a instalação de
uma fábrica de isqueiros, na região sul do país.
Na
região da Zona Franca de Manaus e em São Paulo inúmeras
empresas do setor eletro-eletrônico e de tecnologia já operam há
pelo menos 1 ano, como é o caso da Chint, uma das maiores
empresas do setor na China.
Esse
entrosamento sino-brasileiro em relação ao fluxo comercial dos
dois países poderá atingir, num período relativamente curto,
proporções inimagináveis, reflexo de que a integração não
apenas econômica como também a cultural ultrapassou o cenário
do possível sendo incorporada no âmbito do exeqüível.
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