Existe
uma origem da crise de identidade do professor?
As palavras professor
e profissão são próximas em seus significados.
A primeira designa o sujeito que professa,
isto é, aquele que diz a verdade publicamente.
E a verdade é qualquer fato; fenômeno ou interação
em conformidade com o real; significa expor corretamente;
representar fielmente por princípios lógicos. Assim, o
professor é aquele que torna público – socializa –
algum conhecimento. A segunda palavra designa
uma ocupação ou atividade especializada e voltada ao ato
de professar.
Toda profissão
afirma uma identidade e esta, por sua vez, "não
é um dado adquirido, não é uma propriedade, não é um
produto. A identidade é um lugar de lutas e de conflitos,
é um espaço em construção de maneiras de ser e de estar
na profissão. Por isso, é mais adequado falar em processo
identitário, realçando a mesma dinâmica que caracteriza a
maneira como cada um se sente e se diz professor" (Nóvoa,
1996).
Crise
de identidade do professor
significa, portanto, uma crise da maneira de ser na
profissão, isto é, uma crise no ato de
professar e que implica em dificuldades na interação
social; descontentamento na realização das suas
atividades; descrença no seu papel social; etc. As causas
da crise de identidade são diversas: conflitos na instituição
de trabalho; baixos salários; pouco reconhecimento social;
sentimentos de incerteza ou insegurança. Por outro lado,
deve-se considerar que tal crise não é alheia à
distinção entre o eu pessoal e o eu
profissional. Em outros termos, é difícil desmembrar um modo
de ser pessoal – crenças, valores morais, posturas ou
aspectos do caráter – de tudo aquilo que compõem o modo
de ser professor – crenças a respeito da educação,
valores pedagógicos e posturas didáticas. Por maior que
seja a semelhança das trajetórias profissionais de
professores e as suas origens de classe, cada um desenvolve
uma forma própria (pessoal) de organizar as aulas, de
movimentar-se em sala, de dirigir-se aos alunos, de abordar
didaticamente um certo tema ou conteúdo e de reagir diante
de conflitos.
Ao tentar
identificar o processo que origina a identidade do professor
deve-se perceber, portanto, a indissolúvel união existente
entre o professor como pessoa e o professor como
profissional. As implicações dessa identificação são
óbvias: não se pode exigir que um professor ofereça além
das possibilidades e limites pelos quais foi educado. Não
é possível que "jogue fora as suas crenças"
e que "liberte-se da especificidade do seu caráter"
quando realiza as suas atividades docentes. Trata-se de
pensar sobre como determinados modos de ser pessoa
relacionam-se ao exercício da profissão.
A partir de
pesquisa a respeito de como os professores pensam a sua
profissão, Fullan e Hargreaves (2000) identificaram algumas
questões que acentuam a crise de suas identidades. Dentre
as questões mais comuns os autores destacam: 1) a
sobrecarga; 2) o isolamento; 3) o pensamento
de grupo.
1) A
sobrecarga.
Professores estão conscientes que a profissão mudou nas últimas
décadas. Ensinar não é mais visto como em ‘tempos atrás’,
pois as obrigações ficaram diversificadas. Esses
profissionais atuam em contextos com expectativas crescentes
acerca do seu trabalho e a respeito da educação escolar.
Assim, ficam mais inseguros.
A sobrecarga
de atividades, em muitos casos, decorre da falta de diálogo
dos professores com a população por eles atendida, ou com
a equipe administrativa da escola em que lecionam. Quando não
fica muito claro o que o professor pretende fazer junto com
os seus alunos e os modos com que exerce a docência, pode
ocorrer "cobranças". Em vez de
"quebrar" o excesso de expectativas sobre o seu
modo de trabalhar e fazê-lo por meio do diálogo, o
professor reage elaborando novos projetos; assumindo
atividades extracurriculares (passeios com seus alunos,
gincanas, competições, etc.). Organiza uma série de
atividades que o leva para fora da sala de aula, com a intenção
de chamar atenção à qualidade do seu trabalho: a
sobrecarga, então, afirma-se.
2) O
isolamento. Ensinar,
há muito tempo, é conhecido como "uma profissão
solitária". Considere-se que o individualismo é mais
uma questão cultural e menos uma peculiaridade da profissão.
Entretanto, parece mais fácil e rápido preparar aulas
sozinho. Nesse aspecto, muitos dos professores nem sequer
imaginam a organização do seu trabalho com a participação
de outras pessoas.
O problema do
isolamento tem suas raízes: a) Uma arquitetura
escolar que isola espaços, segrega pessoas. b) Horários
rígidos e uma organização inflexível da rotina escolar
impede interações sociais. c) Além disso, a
sobrecarga de trabalho dá sustentação ao individualismo.
Combater os contextos que levam o professor a isolar-se dos
seus pares constitui umas das questões fundamentais, pela
qual vale a pena lutar.
3) O
pensamento de grupo. Quando
destaca-se que o trabalho cooperativo pode ser um fator
importante contra o isolamento a que os professores estão
submetidos, é comum ouvir as expressões: "Mas os
professores desta escola sempre formaram pequenos grupos de
colaboração!" ou, "estamos sempre
conversando, quando podemos", ainda, "há
tanta colaboração que formam-se ‘panelinhas’ de
professores para disputar o poder de comando na
escola". Tais expressões são o retrato de que as
propostas de trabalho coletivo possuem os seus problemas,
muitos dos quais não podem ser ignorados. A princípio não
existe nada instantaneamente bom no trabalho de
parceria. As pessoas podem cooperar para realizarem coisas boas
ou coisas más, ou, até para não fazerem
nada. Um coletivo pode afastar os professores de
atividades valiosas com os estudantes.
Para Fullan e
Hargreaves (2000) o trabalho na escola apresenta um conjunto
de idéias cristalizadas no tempo que, por responder à
questões do passado são inadequadas e originam o chamado pensamento
de grupo. Tal conjunto de idéias costuma limitar as ações
daqueles que buscam inovar na instituição escolar. Seriam
idéias como: "não faça isso que não vai dar
certo!"; "já tentamos uma vez e não
funcionou"; "essa pretensão é passageira, logo
ver-se-á que o melhor é como sempre foi". Outras
idéias vêm reforçar a perpetuação de práticas e
poderiam ser questionadas: "faça isso e você se
dará bem nessa escola"; "aqui a melhor atitude é
dizer sim e depois fazer como quiser". Isto é, o
pensamento de grupo – com origem no trabalho realizado em
comum e na partilha das concepções daqueles que integram
um determinado coletivo – torna-se em consensos da
instituição e molda a ação de todos.
Os consensos são
formados pelo justificar as práticas de um grupo.
Independente do caráter desses consensos serem ou não
oportunos; favorecerem ou não as práticas ditas
progressistas ou, possuírem uma dimensão denominada
competente, o significativo é notar que os consensos
buscam uma uniformidade nas práticas docentes e na
organização escolar. Tal uniformização costuma
ignorar as propostas que não coadunam com as opiniões
instituídas. O resultado é que muitos professores não
se sentem representados em seus anseios, opiniões e
projetos junto ao coletivo de professores, pois emitir uma
proposição contrária ao pensamento de grupo traz
sanções àquele que a profere.
Em síntese, a
sobrecarga; o isolamento e o pensamento de grupo são questões
capazes de ampliar a crise de identidade do professor. Mesmo
admitindo que tal crise tem a sua origem em diversos fatores
políticos, culturais e econômicos (locais e nacionais)
vale observar, que as vivências cotidianas podem
organizar-se de modo a intensificar ou minimizar o problema.
A compreensão que percebe a pessoa e o profissional
como faces indissociáveis da identidade do professor produz
novas práticas, capazes de introduzir o respeito às
diferenças de cada um. Escolas em que os profissionais não
toleram ações e modos de pensar que não sejam idênticos
aos do grupo, tornam-se instituições com probabilidade de
gerar a sobrecarga, o isolamento e o pensamento de grupo.