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Por JANUS
MAZURSKY
Graduado em
Ciências Sociais e dupliarticulista do Duplipensar VERSÃO
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Falha
na Matrix
“Matrix
Revolutions” não entrega o que o seu título promete. Não há
uma verdadeira revolução no filme. Há uma espécie de final
“tucano”. Um final em cima do muro. A alegoria do filme caminha
tão próxima à realidade que propor uma solução para o problema
da humanidade, no cenário do filme, equivaleria a propor também
uma solução para o mundo real. E isso os irmãos Wachowski não
foram capazes de fazer.
O
filme “Matrix Revolutions” traz a conclusão da saga iniciada em
1999 com o primeiro “Matrix” e continuada este ano com “Matrix
Reloaded”. Segundo a máquina de marketing por trás dos filmes,
os enigmáticos irmãos conceberam a história originalmente como
uma trilogia. Agora que a história inteira está contada, considero
essa hipótese difícil de ser aceita, por dois motivos.
Primeiro,
a história poderia muito bem ter terminado no primeiro “Matrix”.
Ali o recado estava dado. A realidade estava desmascarada como um
mundo de aparências. O que aconteceria dali em diante estaria nas mãos
do espectador. Cada um poderia perceber as armadilhas e enigmas da
Matrix no seu próprio mundo. Se a história acabasse ali, sem as
continuações, teríamos um final sombrio e ao mesmo tempo
instigante, desafiador. Um filme tecnicamente inovador, visualmente
sedutor e intelectualmente estimulante. Isso já é façanha
suficiente para colocar seus realizadores na história. Mostrar uma
vitória dos humanos sobre a Matrix, por outro lado, torna-se supérfluo
do ponto de vista do conceito.
E
segundo, o final oferecido em “Revolutions” não soluciona a
história. Não há uma vitória definitiva de nenhum dos lados. Se
os irmãos tivessem mesmo concebido a história como um todo e
dividido-a em três para ser filmada, o final teria sido mais bem
amarrado. Haveria uma solução conclusiva, não o final aberto que
nos foi apresentado. E esse tipo de final abre a possibilidade de
especulações. Há quem imagine que ainda haverá outro filme,
mostrando um final “mais definitivo” para a guerra. Isso os irmãos
já garantiram que não vão fazer. Segundo eles a história se
encerra nesses três episódios.
Nesse
caso eu tendo a acreditar neles. Acho que são suficientemente
honestos para se absterem de cometer uma continuação oportunista.
É claro que para uma crítica mais cínica, “Reloaded” e
“Revolutions” são eles próprios duas continuações
oportunistas. Há quem aplique a “Matrix” o mesmo raciocínio
que se aplica às séries hollywoodianas em geral: o primeiro filme
tem uma história consistente, mas as continuações são esquemas
oportunistas feitos para ganhar dinheiro. A favor dessa tese, está
o esquema de marketing avassalador montado para o lançamento das
duas continuações, que estréiam mundialmente ocupando um número
absurdo de salas de cinema. Nesse caso, “Matrix” seria apenas
mais um odioso “blockbuster” hollywoodiano ocupando o lugar do
cinema autêntico.
Mas
essa não é a minha tese. Não acho que “Reloaded” e
“Revolutions” sejam meras continuações oportunistas,
apesar de ver problemas conceituais neles. Acho que os irmãos não
resistiram à tentação de voltar à história, mas não souberam
como terminá-la. Elevaram demais as expectativas no segundo episódio
e as frustraram no terceiro. Não
são meros filmes sem conceito, feitos apenas para ganhar dinheiro,
porque há algumas boas idéias neles. Essas idéias apenas não são
suficientes para resolver a história.
Como
antecipamos em nosso comentário sobre “Reloaded”, os Wachowski
deixaram a humanidade numa situação bastante difícil de ser
resolvida. Como os rebeldes de Zion libertariam o restante da
humanidade? O que fariam com a população humana recém-liberta de
suas cápsulas e atirada de chofre ao deserto do real? Se não os
libertassem, como admitir que continuassem presos à Matrix? A menos
que essa Matrix fosse de alguma forma domesticada e submetida aos
humanos. Isso sim seria uma revolução de verdade. Como no nosso
mundo real, seria uma revolução colocar as forças produtivas
capitalistas a serviço da humanidade.
A
série Matrix é apenas um filme, é claro. Não é a resposta para
os problemas do mundo. Não é no seu pot-pourri filosófico que se
deve encontrar a chave para a nossa realidade. Pode-se encontrar
apenas uma ilustração dos problemas. Como filme, a série Matrix
tem que se submeter a certas convenções narrativas, segundo as
quais seu resultado pode ser avaliado. Uma epopéia como a desta série
deve necessariamente colocar em jogo uma situação dramática de
tudo ou nada: vitória ou derrota total. Essa é a fórmula clássica
da mais clássica das trilogias cinematográficas. Os leitores sabem
de quais filmes estou falando.
Um
filme de ação funciona dramaticamente quando coloca os heróis
numa situação em que podem encontrar tanto a aniquilação total
de suas vidas e de sua causa quanto a vitória final sobre seus
inimigos. Tudo numa mesma cartada. Na série Matrix, qual seria esse
tudo ou nada? O nada seria a destruição de Zion e a continuação
“ad infinitum” do ciclo de rebeliões frustradas. Tudo seria, ao
contrário, a libertação da humanidade ou a submissão das máquinas,
a reprogramação da Matrix, sob alguma fórmula a ser encontrada.
Como não foi encontrada, os irmãos Wachowski reduziram suas
expectativas.
Ao
invés do tudo ou nada, o “mais ou menos” ou nada. A mera
sobrevivência de Zion foi o que a vitória de Neo e dos rebeldes
nos trouxe. Uma mera trégua, na verdade. Isso é “o tudo” que
eles nos oferecem, e que não me contenta. O final frustrante para a
trilogia tende a comprometer o conjunto da obra. A história inteira
diminui em interesse se o seu final não agrada. Colocados
numa hierarquia, o primeiro filme é o melhor, porque a história é
perfeita, fechada e prescinde de continuações. O segundo é
simultaneamente o mais belo dos três e o mais vazio. E o
terceiro...
Dissemos
que “Reloaded” é o mais belo por causa das cenas espetaculares
e da ação vertiginosa. E é o mais vazio porque o seu conteúdo
filosófico não traz nada de novo, apenas a exposição, pelo
Arquiteto, pela Oráculo e por Merovingian, do ciclo de rebeliões
e reinicializações por meio do qual o império das máquinas
repõe sua dominação. Há quem leia o final de “Revolutions”
como mais uma dessas reinicializações. Neo, cumprindo o papel de
Predestinado que lhe foi prescrito pelo Arquiteto, restaura a
harmonia e o equilíbrio do sistema. A guerra cessa e o sistema
volta a funcionar como antes. Pelo menos temporariamente. Até que
comece tudo de novo.
Essa
leitura é admissível, mas com uma ressalva. Houve um ganho, dessa
vez. Zion não foi inteiramente destruída, como das outras vezes.
Sua população não foi dizimada. E segundo a promessa do
Arquiteto, aqueles humanos que quiserem sair da Matrix, poderão fazê-los.
Aparentemente, não haverá mais agentes para detê-los. Isso
representa um ganho enorme em relação às rebeliões anteriores.
As máquinas aparentemente admitiram que os recursos usados para
administrar a anomalia (Neo), que são os agentes, acabam se
tornando uma ameaça para o próprio sistema (Smith).
Ou
seja, as máquinas têm que se contentar em conceder o poder de
escolha aos seres humanos e o direito de saírem da Matrix. Na
analogia, quem quiser se libertar do sistema capitalista pode optar
para sair dele, mas apenas para ser jogado a um mundo miserável de
rochas secas e céu escuro. Não há alternativa dentro do sistema,
ou transcendente ao sistema, passando por sua transformação. A
alternativa seria voltar a um mundo pré-Revolução Industrial, já
que, uma vez estando nós dentro dela, não há mais como mudar o
sistema capitalista.
Pode-se
fazer apenas uma reforma, arrancar concessões. O reformismo é o
projeto social-democrata, por isso brincamos que o final do filme é
tucano. Houve uma reforma na Matrix. Foi o que os heróis do filme
fizeram. Por isso, a comemoração da vitória em Zion é tão pouco
convincente. O garoto chato que aporrinhava Neo é o portador da notícia
de que os humanos venceram. Nada poderia ser mais sem graça. Apesar
da convicção de Morpheus, a retirada das máquinas no momento de
sua vitória parece precipitada. Apesar do intervalo no qual
transcorre a luta de Neo e Smith, a retirada não deixa de dar a
impressão de que elas podem voltar a qualquer momento. A vitória
sem luta não tem gosto de vitória. A vitória é tão incerta que
Morpheus parece não acreditar no que está vendo. O ato falho dos
autores é evidente. Não houve mesmo vitória. Houve uma reforma. Não
há como fazer uma revolução socialista.
Não
há? Então por que o filme se chama “Revolutions”? Será que os
Wachowski consideram revolucionária a filosofia que expõem?
Consideram que a salvação está no tradicional bom-mocismo à
americana que é o estofo da série? Sim, porque apesar de toda
sofisticação discursiva, Matrix acaba apelando para o tradicional.
Seu discurso é sofisticado, sua atmosfera é intrigante, sua
pirotecnia é sedutora; mas seu conteúdo é o tradicional
bom-mocismo americano.
Considero
que o mérito dos filmes desta série é levar para o público de
massa um pouco de filosofia. Questões como a relação entre aparência
e essência, a realidade do mundo, o sentido da história, a
possibilidade do conhecimento, etc.. Para uma audiência
desacostumada a pensar enquanto assiste filmes, isso já é um avanço
e tanto. O demérito é oferecer como resposta um tradicional
manifesto de boas intenções. Nada de chocar o público, apenas
confundí-lo um pouco. Nada de oferecer um final negativo, apenas um
final aberto. Teria sido melhor, mais verdadeiro, se as máquinas
tivessem vencido, porque essa é a nossa situação no mundo real.
Em
vez disso, opta-se por agradar à necessidade de segurança e
conforto sentimental do espectador. A resposta para as questões do
filme, a solução para a humanidade, não está em nenhuma das
sofisticações filosóficas oferecidas em forma de charada, está
nas coisas simples da vida. A sabedoria está nos pequenos detalhes,
nas coisas banais, nos prazeres cotidianos. A Oráculo é uma vovó
simpática que faz doces apetitosos. O bem mais valioso do mundo é
o amor de um pai por sua filha. O último desejo de Trinity é um
simples beijo.
Os
personagens que fazem a diferença são os pequenos, os simples, os
Zé-ninguém. Como o garoto, com sua patética devoção a Neo, ou
Zee, com seu amor cego por Link. A reposição da mesma crença
tradicional de que os perdedores e esquecidos também podem chegar lá.
Nada mais americano e mais tradicional. Isso diz respeito, é claro,
apenas à batalha de Zion. A guerra como um todo é decidida num
outro nível, no qual se requer a intervenção de um Messias.
Neo
é o salvador que se sacrifica pela humanidade. O Cristo da Era da
Informática. Alguém dotado de amor para trazer equilíbrio e
compaixão ao mundo das máquinas, com sua racionalidade fria e mecânica.
Neo é o representante da paixão e da renovação contra o princípio
da ordem e da estabilidade representado por Smith. O princípio da
ordem, levado até às últimas conseqüências, até a assimilação
de toda diferença, incorporando toda a humanidade para acabar com
seu poder de escolha, acaba por destruir a si mesmo.
A
pretensa revolução do título está aí, nessa vitória parcial
sobre as máquinas. Segundo o Arquiteto, o Predestinado é a
anomalia na equação resultante do desejo humano de fazer escolhas.
Para administrar a anomalia, concebem-se os agentes da ordem. Quando
os dois desenvolvem seus poderes ao extremo, anulam-se um ao outro.
O confronto entre os dois cresce de proporções na série, até que
as máquinas aprendam que o expediente de que se utilizaram para
manter a ordem ameaça sua própria existência. Por isso concedem a
Neo a trégua.
Nada
mais hegeliano. Chegando à sua realização máxima, o princípio
positivo que é Smith se transforma em seu oposto negativo, que é
Neo (Novo), sendo por ele aniquilado. Ele chega a pressentir isso,
no seu diálogo com a Oráculo, antes de assimilá-la, mas a visão
de seu triunfo acaba por cegá-lo. Em sua arrogância, ele gargalha
com a visão de uma vitória que é simultaneamente sua derrota.
Pois com essa vitória mesma, seu propósito fica evidentemente
esvaziado.
Mas
a história continua, depois dessa síntese hegeliana. Assim como no
mundo real a história continuou depois da síntese hegeliana do
Estado burguês. A história continuou e impôs uma nova contradição
dialética, a oposição entre capital e trabalho, que ainda aguarda
a sua síntese. No filme, a síntese dos opostos também trouxe o
fim de uma contradição, mas o início de uma nova situação.
O
fim da história marca a transição de um mundo regido pelo destino
(o Oráculo) para um mundo regido pela escolha. Como a transição
que houve no mundo Antigo, com o advento do cristianismo. Passou-se
de um mundo determinado pelo sentimento trágico da vida para um
mundo determinado pela esperança trazida com a Boa Nova da vinda de
Cristo. O mesmo acontece agora com a vinda de Neo. Na Matrix, essa
transição é determinada pela decisão da própria Oráculo, que
optou pela mudança, em seu jogo contra o Arquiteto. A mudança traz
sempre algum risco, ela concorda. Desse risco calculado derivou a
incerteza dramática que é o motor da série. O risco dos rebeldes
perderem a guerra, apesar da Oráculo haver previsto a possibilidade
de um Messias redimir a todos.
No
fim, o conteúdo principal de toda a história é mais religioso do
que filosófico. A crença no Predestinado é a esperança que move
os rebeldes. Enquanto esperam pelo sucesso de Neo, cada um deve
fazer sua parte, é o discurso de Morpheus, que sintetiza a esperança
messiânica de um reino de Deus na terra. Morpheus é o Cruzado
dessa esperança e Mifune é o samurai. Em Matrix todos os nomes tem
significado histórico-mitológico. Todos os personagens são
batizados com o nome de mitos. Nesse contexto, Mifune é uma clara
homenagem ao ator japonês Toshiro Mifune, legendário herói de inúmeros
filmes de samurai de Akira Kurosawa. A disposição fatalista com a
qual o capitão Mifune enfrenta a
morte na seqüência mais tensa do filme, a batalha de Zion,
é digna de um verdadeiro samurai. O que o torna meu personagem
preferido deste episódio.
Vacilações
à parte, é preciso não esquecer que, afinal de contas, trata-se
de uma simples diversão. A série Matrix é a materialização da
utopia visual de uma geração de fãs de toda uma subcultura que
subitamente se torna “mainstream”. Como eu disse a respeito de
“Reloaded”, trata-se da realização dos sonhos de todos os fãs
de histórias em quadrinho, videogames e desenhos japoneses. A recepção
aos sentinelas é algo que jamais esquecerei. A sensação de
pilotar máquinas gigantes e metralhar robôs a granel é tudo que
eu sempre quis ver num filme de ação. Por esse aspecto, não tenho
do que reclamar de “Revolutions”. Apesar dos escorregões filosóficos,
pessoalmente, serei eternamente grato aos Wachowski por me
proporcionarem o espetáculo da batalha de Zion.
Chegando
ao final, um gato preto passa à nossa frente. A noite chuvosa se
transforma numa manhã colorida. E logo em seguida, o mesmo gato
passa novamente. Deja vu? O deja vu, aprendemos no primeiro Matrix,
acontece quando eles mudam algo. Representa um falha na Matrix. O
que será que eles mudaram?
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