Por AKIRA KIBI
Médico na cidade de Kobe, no Japão. Ele é praticante budista, e fervoroso pacifista. Ele também participa de trabalhos no grupo de discussão chamado International Forum na cidade de Osaka. Ele é um dedicado ceramista de fim de semana, trabalhando com formas e materiais tradicionais japoneses

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O ritual do Hoji em minha vida

[Tradução: Eva Paulino Bueno]

“Quais são seus planos para este fim de semana?” uma amiga me perguntou, há dois anos atrás. “Nós vamos fazer uma festa Hoji para minha mãe. Como esta amiga sabia que minha mãe está morta há muitos anos, ela perguntou mais detalhes sobre Hoji, e eu expliquei que é uma reunião budista entre familiares e parentes para comemorar a pessoa morta. Quando nós conversamos mais sobre o significado de Hoji, eu esclareci que esta é uma reunião tradicional que tem lugar mesmo depois de vários anos após a morte de um membro da família. Esta amiga é a professora Eva Bueno, que agora leciona na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. A pergunta que deu origem à minha primeira tentativa de explicar o que é Hoji—e talvez até de entendê-lo melhor para mim mesmo—foi feita durante uma visita à minha casa, quando ela ainda morava no Japão. Agora, dois anos mais tarde, eu tenho a oportunidade de escrever este pequeno ensaio e participar desta discussão sobre como as diferentes culturas vêem a morte, dizem adeus aos seus entes queridos, e comemoram sua memória.

Hoji começa no funeral e a reunião é feita uma vez por semana por 7 semanas depois da morte, o que completa 49 dias de serviço religioso. Estes 49 dias têm um significado, porque este é o período durante o qual o falecido viaja pela terra dos recentemente falecidos,  até que ele ou ela se encontra com Ennma, uma espécie de juiz que decide se o/a falecido/a deve ir para o céu ou para o inferno.

Então começa a reunião do primeiro ciclo, e depois vem a do terceiro ciclo (que tem lugar um ano depois do primeiro ciclo), seguida pelas do  5º, 7º, 13º, 25º e finalmente do 50º ciclos,  no qual a maioria dos que tomaram parte nesta longa série de reuniões já se foi, e a tarefa de continuar as reuniões já está a cargo da geração seguinte.

Pessoalmente, eu acho que esta tradição de Hoji tem duas funções: ela provê a família do falecido com um processo de cura para as dores da perda (“o processo do pesar”, de acordo com Alfons Deeken, Professor de Filosofia na Universidade Jochi, em Tóquio) na fase imediatamente depois da perda do falecido. Este processo de “cura”  pode ir do primeiro dia, até o primeiro ou terceiro ano.

Outro papel que Hoji faz é dar a cada um dos membros destas reuniões a oportunidade de tomar um tempo separado das suas preocupações diárias e ter um momento para refletir sobre sua própria vida sob o ponto de vista da vida e da morte dos seres humanos, não em forma de um pensamento abstrato, mas através da vida daquela pessoa em particular, o/a falecido/a para quem o Hoji está sendo feito, e compartir a experiência da família enlutada neste contexto depois da perda do ente querido.

Gostaria de deter-me um pouco nesta primeira função: o processo de cura. De acordo com o Professor Deeken, que iniciou no  Japão  um singular grupo dedicado à educação sobre a morte, chamado “A reunião para pensar sobre a vida e a morte,” há 12 estágios ou reações pelas quais cada família que perde um de seus membros passa.[1] As doze fases que Deeken propõe não ocorrem necessariamente de 1 a 12, em ordem fixa, mas algumas são omitidas, algumas podem voltar, e outras podem aparecer misturadas, dependendo do caso e da pessoa enlutada. Elas são: 1) trauma psicológico e paralisia; 2) negação; 3) pânico, 4) raiva e indignação; 5) ressentimento e hostilidade; 6) auto-recriminação (a morte poderia ter sido evitada se eu tivesse feito... alguma coisa); 7) formação da imaginação e fantasia, 8) solidão e depressão; 9) confusão mental e apatia; 10) desistência ou aceitação; 11) o encontro de novas esperanças e possivelmente a recuperação do senso de humor e, finalmente, 12) a recuperação ou estebelecimento de uma nova auto-identidade.

Deeken propôs estas características para ajudar as pessoas a compreenderem  o processo de recuperação psicológica da família em luto, para que as pessoas conhecidas possam fazer uma avaliação correta se é melhor deixar a pessoa em luto sozinha, ou se dar apoio, ou mesmo se buscar intervenção médica. Destas características o que eu acho relevante, tendo em vista o papel curativo que as reuniões de Hoji podem ter, são: 1) o momento do encontro e da compartição da dor e também de idéias com outras pessoas que participam da reunião, e 2) encorajar aos que perderam um ente querido a terem um diálogo com ele/a; o diálogo feito de uma forma positiva pode servir como uma fonte  na qual a pessoa em luto pode encontrar novas esperanças e forças para viver.

As pessoas em luto, em certo ponto do seu processo de cura da dor da separação eterna do ente querido, necessitam uma oportunidade de sair do seu desespero. A reunião do Hoji pode dar a estas pessoas esta oportunidade, na qual elas se encontram com outras pessoas e podem compartir a dor de outras experiências com a perda, e saber que eles não estão passando por esta dor sozinhos, mas que têm outros ao seu lado. Este compartir de experiências com outros precisa de uma ocasião e lugar próprios para este propósito, e esta ocasião não pode ser obtida se as pessoas enlutadas simplesmente retornam à sua vida normal em casa ou no trabalho ou mesmo na comunidade a que eles pertencem.  No Japão ainda é um tabu falar-se sobre a morte, e quando uma conversa volta para este assunto as pessoas rapidamentes colocam uma fachada neutra, ou dizem condolências em formas de clichês, e jamais ousaria entrar no recinto da dor íntima das pessoas.

Esta segunda função de Hoji é também uma visão reconhecida oficialmente sobre o assunto pela seita budista de Jodo-shinshu. De fato, a originalidade da idéia do Hoji em Jodo-shinshu foi designada não para a memória do morto, ou para seu benefício—para que ele/ela descanse em paz no céu--mas para congregar os membros do grupo para que eles pensem seriamente em suas próprias vidas. O budismo, ao contrário da visão geral desta religião no Japão, está sempre preocupado com os vivos: ele chama a nossa atenção para as questões importantes de como viver a nossa vida finita, o que a vida quer dizer para nós, ao invés de olhar para o passado ou seguir adiante com um  funeral cuja função maior é dizer à sociedade que uma certa pessoa o deixou. Nós não temos que reunirmos uma vez, e de novo, até depois de várias décadas, somente para dizer à sociedade que alguém morreu. Obviamente, a figura principal em Hoje é cada um dos membros que se juntam para esta reunião.


[1] Estas fases podem ser comparadas aos quatro estágios pelos quais a pessoa que está morrendo passa, como está descrito por Elizabeth Kubler Ross no seu livro Living with Death and Dying. Dentro desta área, também são interessantes os seguintes livros: Healing Into Life and Death, de Stephen Levine, e Death, the Final Stage of Growth, também de autoria de Elizabeth Kubler Ross.  Todos estes livros trazem para a discussão o aspecto da necessidade de consolo para os que ficam e têm que enfrentar a vida sem o ente querido que se foi.

 

 

The Hoji Ritual in My Life 

“What are your plans for this weekend?” a friend of mine asked me, two years ago. “We are going to hold a Hoji-party (or service) on behalf of my mother. Since she knew my mother has been dead for many years, she asked more details about Hoji, and I explained that it is a Buddhists’ reunion among family members and relatives in commemoration of the deceased. When we talked more about the meaning of Hoji, I clarified that it is the traditional reunion carried out even several years after the death of one family member by the bereaved family and its relatives. The friend of mine happens to be Professor Eva Bueno, who now teaches at Mary’s University in San Antonio, Texas. The question that gave origin to my first attempt to explain Hoji—and maybe to understand it better for myself—was asked during a friendly visit to our house while she was in Japan. Now, two years later, I have a chance to write this short essay and participate in this discussion about how the different cultures see death, say farewell to their loved ones, and commemorate their memory.

Hoji starts at the time of funeral and the reunion is held once every week till 7 weeks, which completes 49 days of religious service.  The 49 days have a meaning because this is the time during which the deceased would travel through the land of the newly dead until he or she meets Ennma a kind of judge to decide whether the dead should go to Heaven or Hell.

Then comes around the 1st cycle reunion, 3rd cycle reunion (which actually comes around one year after the fist cycle) followed by the 5th, the 7th, the 13th , the 25th and finally the 50th, by which time the most members who took part in this long process of reunion are gone and the role of the service are most likely to be carried over to the shoulder of the next generation.

Personally, I think this tradition of Hoji plays dual roles: one it provides the bereaved family members with the healing process from the broken heart ( the “grief process,” according to Alfons Deeken, Professor of Philosophy at Jochi university, Tokyo) in the immediate phase of the loss of the deceased. The healing process may range from the day one to the first or third year. 

Another role it plays is to provide each reunion members with the opportunity to come back from their own daily humdrums to the moment where they can reflect on their own lives from the view point of life and death of human beings, not in abstract thought but right through the life of the particular person, the deceased for whom the Hoji is held and to share the experience of the bereaved members in this context after the loss of their beloved member.

Let me dwell on its first role: the healing process. According to Professor Deeken, who initiated in Japan a unique encounter group of death education, called “The meeting to think about life and death,” there are 12 stages or reactions any bereaved family may go through.[1 The 12 reactions Deeken proposes will not necessarily occur one through twelve by turns or in step-wise transition, but some may be skipped, some may return and some may be inter-mingled, depending on the case and the bereaved person.   They are: the reaction 1)of psychological trauma and paralysis;  2)of denial; 3) of panic,; 4)of anger and indignation,; 5)of resentment ad hostility; 6) of self-recrimination (the death could have been prevented or delayed if I had done… something); 7) of forming imagination and fantasy (what if ); 8) of solitude and depression; 9)of mental confusion and/or apathy; 10) of giving up or acceptance; 11) of finding new hope and possibly followed by recovering of the sense of humor and finally 12) of recovery or establishing a new self-identity. 

Deeken proposed these features to help people understand the process of the psychological recovery of the bereaved family so that people can make as correct judgment as possible whether to leave them alone or its time to give support or active medical intervention. Of these features what I think relevant in view of healing role that Hoji re-union could play are, 1)the moment of encounter and sharing of grief and ideas with other person through the re-union, and 2) encouraging the bereaved to have a dialogue with the deceased; the dialogue held in a positive way can serve as a fountain from which the bereaved taps new hope to live.

The bereaved people needs at some point in their process of healing from the sorrow of the eternal parting with the deceased an opportunity to come out of their shell of despair.  Hoji re-union can provide them with such opportunity where they meet other people and hopefully can share the sorrow of similar unhappy experience to know that they are no alone going through the predicament and find themselves standing on the same footing with others. This kind of sharing experience needs a proper stage set for the purpose and cannot easily be obtained by the bereaved members just by going back to their daily lives in the office or in the community they belong.  In Japan talks about death is still a taboo and even if the conversation took a turn toward the subject, people quickly put on a façade or state a cliché of condolences and would not dare wade into the depth of sorrow and share their inner experience*

The above mentioned second role of Hoji is also an officially recognized view about it by the Jodo-shinshu sect of Buddhism.  In fact, the originality of the idea of Hoji in Jodo-shinshu was designed not for the memory or for the benefit of the deceased that the /she may rest in peace in Heaven, but rather to call on the members themselves who gather together to think seriously about their own lives.  Buddhism, in contrast to general view in Japan, is always concerned with the living: it calls to the attention of the living the crucial question how to live our finite life, what this life is meant for us, rather than looking back the past or proceed with a funeral which is but a social ritual to tell to the society that certain person had left it.  We don’t have to get together again and again until several decades to tell the society that someone died.  Obviously the main guest in Hoji is none other than the members who get together.

 


[1] This can be likened to the 4 stages a dying patient may go through, described by Elizabeth Kubler Ross in her book . Living with Death and Dying. Also of interest are the following books: Healing Into Life And Death, by Stephen Levine, and Death, the Final Stage of Growth, also by  Elizabeth Kubler Ross. All these books try to bring to the discussion the aspect of consolation for the ones who remain and have to face life without a loved one.

 
 


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