A
Educação no Brasil
“Saiu
no Estadão: os professores atuais no início de carreira
ganham menos que um policial também no início de carreira.
É simplesmente ridículo, não desmerecendo o policial mas a
covardia dos governantes, que denigrem a imagem do professor.
É muito mais fácil educar agora do que repreender depois!”
Paulo
Lucas Scalli, professor de biologia da Rede ANGLO de
Ensino
Da
Crueldade do Vestibular
Sempre
considerei uma COVARDIA que o jovem seja obrigado a decidir,
aos 16 ou 17 anos de idade, que profissão seguirá pelo resto
de sua vida.
Não
vou aqui trilhar novamente o caminho – de resto brilhante e
preciso – que Rubem Alves percorre com muito mais precisão
e clareza do que eu: “deveriam trocar o Vestibular por um
sorteio!” Tal o absurdo a que chegamos... Um dia essa
excrescência merecerá o destino que lhe cabe: a lata de lixo
da história!
Coloco-me
do ponto de vista do jovem (essa a raiz da palavra respeito,
“ver o outro com os olhos do outro”) e vejo o cipoal de
confusões em que se encontra: hormônios à flor da pele;
situação cruel de quem está só e precisa, visceralmente,
de alguém. Quando digo visceralmente não estou exagerando em
absolutamente nada! O ser humano depende fisicamente do sexo
oposto e ponto final. Esta interdependência humana é de tal
sapiência que somente os poetas e místicos lhe alcançam a
plenitude. Se você é jovem sabe que pensa “naquilo” pelo
menos 16h por dia (nas outras oito sonha...); se já foi
jovem, lembra-se de que era assim – há médicos que até
mesmo recomendam esta, digamos, prática, como
excepcionalmente salutar!
Inegavelmente
a prioridade máxima do jovem, do adolescente é encontrar
alguém que lhe complete. Da maneira como o mundo está,
contudo, em geral saem bebendo em fontes sujas, salobras, poluídas,
uma após a outra, jamais se saciando. Raramente encontram
aquele oásis com águas cristalinas que seria não o seu
porto final, que isso não existe, mas uma rota paralela,
amiga, maior conquista que o ser humano ousa almejar...
Tristes tempos.
Mas
divago. Para conseguir sucesso nessa dimensão – que é a
primeira no pensamento do jovem – é necessário “ter
sucesso” o que, em nossa cultura e civilização esquisita,
virou sinônimo de “ter dinheiro” – nada de talento,
habilidades, conhecimento, agilidade, charme... Só “a água
gélida da materialidade mercadológica”. Para tanto precisa
transformar parte de sua capacidade laborativa em dinheiro.
No
Capetalismo as pessoas só têm o direito de
escolher que parte do corpo venderão a quem, por que preço e
por quanto tempo. Eu mesmo vendo a utilização do meu cérebro
para Instituições educacionais durante algum tempo em troca
de proventos que me permitam seguir vivo, ainda que
modestamente, outros vendem os braços para a construção
civil, outros ainda vendem... Bem, outras partes do corpo, com
outras finalidades.
Decidido
que as partes do corpo que envolvem a dimensão da
afetividade, do romantismo não serão, a princípio,
utilizadas com finalidades mercantis, o jovem já terá tomado
uma grande decisão – infelizmente menos freqüente do que
outrora... Parte para aprimorar o seu físico – se desejar
realizar-se como atleta ou desportista – ou um conjunto de
habilidades – se pretender realizar-se profissionalmente
como músico, ator, intelectual ou artista e assim por diante.
Aí
se volta ao problema inicial: o jovem – que raramente
descobre qual é efetivamente a vocação da sua vida em idade
tão tenra – nem sempre consegue conciliá-la com um dos
maiores monstros do mundo contemporâneo, o tal do “mercado
de trabalho”. Quem de nós, professores, ainda não
presenciou a transformação de uma potencialmente talentosíssima
professora, atriz, pianista ou bailarina em rude e amarga
advogada ou vendedora embora talvez melhor remunerada? Ou o
contrário, que não vai aqui juízo de valor quanto a esta
profissão ou aquela ser “melhor” do que outra.Ainda
assim, refiro-me apenas à “minoria bem minoritária” que
conclui o curso superior; em nossos Tristes Trópicos, a
maioria ainda está alijada, num primeiro momento, da condição
de universitário, num segundo, de usar apropriadamente seu
diploma universitário. Conheço, por exemplo, vários
motoristas de Táxi na Rodoviária Novo Rio que são
advogados, engenheiros...
Na
maior parte dos casos o jovem conclui seu ensino médio
emocionalmente inseguro (ressalvando sempre “aqueles que
conseguem concluir esta fase” e são minoria!), ainda em
busca de equilíbrio particularmente na dimensão sentimental,
VITAL ao ser humano; incerto quanto à sua vocação – não
são raros os casos em que o jovem fala com toda a franqueza
do mundo: “estou em dúvida entre engenharia e medicina”
ou “estou entre nutrição e mecatrônica”... – e
apavorado com o fantasma do desemprego.
Que
Futuro estamos formando para este país num quadro assim?
Professores
Se
respeito meu aluno colocando-me no seu lugar e vendo o mundo
como ele o vê, gostaria que pais e alunos (e, em sendo possível,
autoridades também...) se colocassem também no lugar do
professor.
Alguns
que ainda vivem e respiram entre nós, sobreviventes da “Era
Vargas”, de grata memória para esta Nação, “deixaram de
ser juízes de direito para abraçar o magistério” ou
“casaram-se com professora estadual que era uma forma de dar
um golpe do baú!”
E
hoje? A hora-aula por vezes é mais barata que uma banana
nanica. Guardadas as devidas proporções, compare-se uma hora
de atendimento médico especializado e personalizado a uma
hora numa classe abarrotada com 60 a 80 pessoas onde mal cabem
40, pouco interessados senão no “diproma”. Como respeitar
as particularidades de cada ser humano envolvido no processo
ensino/aprendizagem num quadro assim? Mas é bem pior! O
professor estadual, em geral, precisa dar (dádiva quase que
literal mesmo...) uma média de 50 a 60 aulas semanais para
garantir proventos minimamente condignos. Uma média de duas
aulas por turma, turmas com 60 pessoas... Lida com cerca de
2.000 (DOIS MIL) seres humanos na fase mais carente e tenra da
sua formação, do seu processo de “hominização”.
Há
muito, muito mesmo a se fazer. Eu já confessei que, pobre, não
consigo mesmo sobreviver com os proventos do magistério público.
Nem mesmo prestarei este concurso. Até por não concordar com
o encaminhamento pseudopedagógico que vem sendo dado em
nossas escolas de uma década para cá sem perspectiva de
reversão, principalmente no Estado de São Paulo...
Há
muito a fazer, mas se não estipularmos algumas metas a
atingir, seremos movidos pelas forças cegas do mercado numa
direção que nada tem de humana. A título de propostas
iniciais, começaria com o seguinte:
Limitação
no número de alunos por turma, para que o educador possa
melhor acompanhar o desenvolvimento de cada um de seus pupilos
e para que também não se veja lançado numa situação em
que, por não haver espaço temporal à livre manifestação e
criatividade de cada educando, acabe reduzido à condição de
palestrante ou, no limite, repressor em seu sentido mais
grosseiro mesmo. Um educador pode acompanhar bem, de perto, o
desenvolvimento intelectual, moral, humano, enfim, de cada um
de seus alunos em turmas de, no máximo, vinte alunos.
Fica
claro que qualquer intelectual competente é capaz de proferir
palestras a verdadeiras multidões. A situação,
evidentemente, é bem outra no cotidiano dos jovens
estudantes. Aula, nos ensinos fundamental e médio, é para
formar; palestras, dirigidas em geral aos níveis médio e
superior, são para informar...
Limitação
na quantidade de turmas em que o educador deve exercer suas
atividades. Lidar com um máximo de cinco turmas com vinte
alunos em cada uma por ano permitirá ao educador acompanhar
de perto, com toda a seriedade, gravidade e atenção o
desenvolvimento de cada um dos cem jovens cujos nomes e
características pode memorizar tranqüilamente, com rapidez e
facilidade até. Este ponto fala do respeito humano que possa
permitir aos alunos terem suas identidades particulares
reconhecidas, ponto também fundamental numa proposta pedagógica
séria.
Autonomia
pedagógica, melhor aceitação de metodologias alternativas.
Não é concebível que se trate seres humanos como máquinas.
Que as instituições educacionais tenham suas próprias
filosofias é compreensível. Acolher com urbanidade,
reconhecimento e respeito idéias diferentes, contudo
operacionais, diria mesmo que ainda mais operacionais que as
anteriores, é o mínimo que a prática democrática pede às
vésperas do terceiro milênio. Seguir com práticas medievais
em pleno século XXI é um disparate!
Ponderável
aumento salarial. É isso mesmo, chegamos a uma situação tão
absurda que somente com propostas aparentemente
"loucas" se pode reverter o quadro. Proponho uma
diminuição na jornada de trabalho de 50 aulas semanais para
no máximo 25 e uma contrapartida salarial condigna ao
respeito que merece o profissional formador de seres humanos
para a vida.
Com
salários melhores, com mais tempo livre, o profissional do
ensino poderá dedicar-se com maior empenho a seu auto-aperfeiçoamento,
exercendo um trabalho cada vez melhor.
O
que está aqui proposto, com todas as letras, em síntese, é
que se coloque a ênfase no ser humano, na atividade pedagógica
em si, não mais na lucratividade da "empresa"
escola ou mesmo nas regras draconianas do mercado. Discutir a
situação do mercado, a "corrida de lobos" da
sociedade industrial é, quiçá, tema para outro trabalho.
Aqui digo que mercado é uma coisa e atividade educacional é
outra totalmente diferente. Dentro das atuais regras colocadas
pelo mercado - daí a expressão "emergenciais" que
apodo às medidas propostas - o professor precisa resgatar o
seu valor mesmo. Caso se prefira um linguajar diferente,
enquanto o mercado ditar suas regras, a "mercadoria"
professor precisa ser melhor valorizada!
Expondo
idéias como estas em seminários a colegas professores,
obtive muita solidariedade e a crítica solitária:
"trata-se de um sonho, de um delírio", mas ocorre o
contrário! A realidade é que se transformou num pesadelo
macabro e irracional, só crível porque existente de forma
material, só por esse motivo falar no racional soa como sonho
ou delírio.
De
todo o modo, enquanto nosso modelo educacional estiver, como
está, distanciado da Razão - embora obedeça a algum tipo de
lógica que me escapa - estaremos assistindo e vivenciando o
inferno dantesco da deterioração assombrosa das condições
intelectuais e morais de nossa gente. Urge reverter este
quadro!
Soluções
para o Ensino Superior
Arrogante
subtítulo, não? Mas se alguém não começar a pensar nisso,
repito, seremos movidos não pela Razão, mas pelas forças
IRRACIONAIS do mercado.
Com
16 para 17 anos o rapazinho, a mocinha, não têm, em geral,
maturidade suficiente para tomar a decisão irreversível da
profissão da sua vida, tomando em conta todos os
condicionantes em questão (vocação, matrimônio, mercado de
trabalho...). Vislumbro uma solução e a coloco, pela vez
primeira, em discussão:
Que
as Universidades dediquem de dois a três anos de formação
GERAL superior; ênfase à Matemática, à Ortografia, às
Humanidades, sempre com acompanhamento psicológico
profissional personalizado envolvendo pais e alunos. Faço
questão de ressaltar este fato pois fui uma vítima do modelo
anquilosado que ainda grassa: o meu pai tinha vocação para
que eu fosse “engenheiro eletrônico”. Resultado? Aos 7
anos de idade montei meu primeiro rádio, formei-me
especialista em Radar de Bordo de Aviões e Centrais Telefônicas
e fui cursar “Engenharia Eletrônica”. Fiz três anos na
Nuno Lisboa. Vi que não me interessava – e meu pai já não
estava respirando entre os vivos... – e a matemática me
fascinava! Tranquei matrícula, vestibular de novo e um ano de
Matemática na Universidade Federal Fluminense. A gente
aprende matemática para saber mais matemática que permite
resolver e aprender mais matemática num círculo vicioso sem
fim! Mas Pitágoras de Samos foi Iniciado numa Escola de Mistérios
Egípcia, o mesmo acontecendo com Tales de Mileto,
“divulgadores”, mais que “autores”, ambos, de teoremas
e teorias egípcias há muito conhecidas... Me encontrei:
FILOSOFIA! Mas eu tinha de trabalhar durante o dia e os cursos
de filosofia no Brasil destinam-se somente àqueles que dispõem
de tranqüilidade econômica para ficar integralmente por
conta de estudar o dia inteiro. Alternativamente, cursei Ciências
Sociais, na mesma Federal Fluminense. Mas já estava com 25
anos quando finalmente “me encontrei”. Certo, meu caso é
paroxístico. Mas para evitar casos assim ou sequer
remotamente similares, sugiro uma integração entre corpo
discente, corpo docente, orientação pedagógica e pais de
estudantes universitários em seus primeiros (2 ou 3)
primeiros anos de curso superior. Como isso se daria?
Aqui estabelece-se um projeto, uma meta, que alguém
tem de cuidar disso para que não fiquemos miseravelmente a
mercê de forças alheias ao controle Racional Humanista.
Trata-se de um PROJETO, portanto, de uma PROPOSTA para o
Futuro. Se aqui se ousasse estabelecer cada detalhe de como
esta meta seria atingida para onde teria ido a democracia e a
livre vontade decisória dos envolvidos?
O
Poeta, o pensador Utópico, do Futuro, informa das metas
Racionais. A colocação em prática destas metas, via de
regra, é entregue a mãos mais “ágeis” em privatizar o
patrimônio público, infelizmente...
Fato
é que, após este período, seguramente o jovem estaria
amadurecido o suficiente para a escolha da sua própria
carreira.
E
por enquanto?
Enquanto
o mercado rege a educação, enquanto a Razão estiver expulsa
das Universidades, sugiro a meus pupilos estudar
“Arquitetura”. É um curso que abre um amplo leque de opções
em Ciências Humanas e Ciências Naturais. Tem-se de aprender
um pouco de História da Arte, Filosofia, Física, Resistência
de Materiais... Curso suficientemente eclético para que o/a
jovem se encontre e possa aproveitar pelo menos alguns “créditos”
de seus primeiros estudos tão logo se decida pela carreira
“definitiva”...