Por LUIZ FERRI DE BARROS
Doutor em Filosofia da Educação - USP
Administrador de Empresas - FGV

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Grupos anônimos de auto-ajuda

Na última novela das oito ("Mulheres Apaixonadas") o autor, Manoel Carlos, concedeu valioso espaço para os grupos anônimos, por meio de duas personagens que, enfrentando problemas de alcoolismo e de dependência afetiva descontrolada passaram a freqüentar, respectivamente, reuniões de  Alcoólicos Anônimos (AA) e do Mulheres Que Amam Demais Mada). 

Pouca gente conhece, a não ser os próprios membros e pequena parcela dos profissionais de saúde, a seriedade e eficácia de grupos desse tipo e, menos ainda, sua  dimensão e significado sociológicos.

Segundo Anthony Giddens, sociólogo e diretor da London School of Economics, “Nas sociedades contemporâneas, um número muito maior de pessoas pertence a grupos de auto-ajuda do que a partidos políticos” (Para Além da Esquerda e da Direita. São Paulo, UNESP, 1995).  O autor atribui aos grupos de auto-ajuda o nobre papel de agentes "democratizadores da democracia".

Existem grupos de todos os tipos e para todas as finalidades. “Auto-ajuda” atualmente é uma expressão da moda, de uso indiscriminado e, como tal, sujeita a inúmeros preconceitos e maus usos, além de ser destituída de um significado que permita conceituação universal.  Mas é possível a definição precisa de uma modalidade de grupos, exatamente os grupos anônimos, que constituem um movimento que surge em 1935, com a fundação dos Alcoólicos Anônimos.  O AA passou então a ser  a matriz de todos os outros grupos anônimos e, de uma forma mais geral, de todas as outras modalidades de grupos de auto-ajuda, mesmo que de orientação diferente.

Para Giddens, a primeira influência social marcante dos grupos deve-se ao fato de atuarem como promotores da "democracia dialógica (...) empurrando para o domínio discursivo aspectos da conduta social que não eram discutidos anteriormente ou que eram ‘resolvidos’ por práticas tradicionais”.

O autor britânico enfatiza outras quatro formas pelas quais os grupos atuam na sociedade exercendo influências democratizadoras.

Desempenham "funções fiscalizadoras" ou de consciência social, podendo “ajudar a contestar definições ‘oficiais’ das coisas”. Isto ocorre mesmo no AA e outros grupos que não se envolvem em polêmicas públicas, mas que internamente reinterpretam as definições "oficiais" vindas de fora.

Atuam marcantemente como "agentes equalizadores" do poder tecno-científico, sendo “importantes para arrebatar o poder dos peritos e na recuperação leiga da perícia de forma mais genérica”.

Constituem-se em forças de defesa do bom senso, atuando “de forma importante no refreamento da pretensão de verdade da ciência experimental, com pesquisas coercitivas com impacto aleatório sobre a ordem social”.

Mais importante que tudo, talvez, do ponto de vista político-social: verifica-se que os grupos “geram e mantêm influências democratizadoras graças à própria forma de sua associação social”. Em AA, por exemplo, o único requisito para a pessoa ingressar é o desejo de parar de beber.

Os Alcoólicos Anônimos contam hoje com cerca de 3 milhões de membros no mundo e mais ou menos 100 mil grupos espalhados por 136 países. No Brasil, o primeiro grupo  surgiu em 1947 e hoje há cerca de 5.700 grupos, perfazendo um total em torno de 120.000 membros.

As críticas que se dirigem a tais grupos em geral não são originais, apenas reproduzem "slogans". Os preconceitos entre os brasileiros são os mesmos de outros países. Um estudo americano de 1984 apontava “as seguintes crenças erradas sobre o AA: (1) É uma organização religiosa que pode ser fanática ou assemelhada a um culto; (2) É um tipo de medicina popular sem base científica; (3) Substitui a dependência ao álcool por uma dependência igualmente insalubre [freqüentar as reuniões]; (4) Os membros são de classe social diferente ou mais baixa que a minha e não terei nada em comum com eles.” Trata-se de enunciados aparentemente corretos, porém essencialmente inadequados para entendimento de tais grupos.

A demanda social que esses grupos suprem é  extraordinária, de vez que se destinam a proporcionar a recuperação a pessoas que sofrem de doenças ou problemas crônicos (incuráveis, porém controláveis). O conceito mesmo de recuperação – a idéia de viver da melhor maneira possível a partir das limitações de saúde impostas por doenças consideradas incuráveis – não encontra em nenhum outro universo desenvolvimento equivalente ao que alcançou na cultura desses grupos.

Os anônimos se reconhecem como pessoas em situações em que outras pessoas só lhes dedicam rejeição e preconceitos. Assumem, assim, a responsabilidade pessoal de ajudarem-se uns aos outros, num mundo em que a responsabilidade de todas as pessoas é difusa e inconsistente, pois a responsabilidade nas sociedades contemporâneas é considerada atributo das instituições, o que não deixa de ser uma falácia de grande monta.

 

 
 
 


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