Política Universitária
Ambissinistra
Li,
recentemente, um livro escrito por um dos grandes jornalistas
da revista The New Yorker, Joseph Mitchell, intitulado “O Segredo
de Joe Gould” (Cia das Letras, 2003). Trata-se de dois artigos
publicados pelo autor (um em 1942 e o outro em 1964) sobre um
boêmio e andarilho de nova-iorquino, intelectualizado e que
dizia estar escrevendo a maior obra do espírito do século XX
que denominava “Uma história oral de nossa época”. O andarilho
vivia precariamente, comia quando podia, era ajudado pela doações
esporádicas. Esta vida errante deixava-o ainda mais sarcástico,
a ponto de um dia afirmar que havia descoberto uma excelente
autodefinição: era “ambissinistro, ou canhoto das duas mãos.
A
autodefinição de Joe Gould possui a ironia e o humor tipicamente
brasileiro que, quanto maior a desgraça, mais combustível para
o chiste. Comparando os Censos da Educação Superior divulgados
no ano passado e neste mês de outubro pelo MEC, a analogia veio
à tona: criamos uma política universitária ambissinistra, errada
das diversas mãos que a conduz nos últimos anos.
Os
dados oficiais dão conta que a cada dia são criados quatro cursos
no Brasil. De 1998 a 2002, o número de cursos universitários
saltou de 6.950 para 14.399. A expansão, contudo, ocorreu, em
especial, em virtude da contribuição da rede privada, que cresceu
63% no período (de 3.890 para 9.147 cursos). A rede privada,
agora, representa 88% dos cursos universitários do país. Também
aumentou o número de faculdades por estabelecimento de ensino
privado: de sete para nove cursos por instituição.
O
que se pode dizer, inicialmente, sobre os dados é que a área
educacional ingressou na dinâmica competitiva do mercado. Foi
um dos últimos segmentos econômicos a se envolver com esta nova
lógica que envolve agregação de valor, definição de marca, fusões,
busca de nichos de consumidores, controle do mercado varejista,
aumento do ritmo de criação de novos produtos. O segmento de
ensino fundamental e médio já havia acusado a mudança em sua
dinâmica quando da crescente oligopolização no mercado: em 1999,
dos 4,5 milhões de estudantes matriculados nas 23 mil escolas
privadas, 1,2 milhão vinculavam-se a apenas nove redes (Positivo,
Objetivo, COC, Expoente, Pitágoras, Anglo, Opet, Pueri Domus
e Promove) que, juntas, possuem mais de 4 mil escolas. A estratégia
adotada que originou esta forte oligopolização setorial baseou-se
na oferta de produtos (apostilas e vídeos) a escolas não franqueadas,
passando pela oferta de assessoria direta e terminando com o
franqueamento ou ingresso em uma das redes. Uma descaracterização
da identidade das instituições educacionais mais frágeis para,
em seguida, proporcionar a massificação das redes privadas que
atingiu sobremaneira as escolas confessionais do país.
O
passo seguinte foi a ampliação do segmento educacional das redes
que ingressaram no ensino universitário. Este movimento, contudo,
foi acompanhado por uma disputa muito mais acirrada e disseminada
pelo interior do país. Pequenos municípios e grupos econômicos
criaram inúmeras faculdades; faculdades isoladas elaboraram
seu Plano de Desenvolvimento Institucional projetando a criação
de Centros Universitários no curso de três ou cinco anos. Esta
explosão foi mais visível nos últimos dois anos e foi incentivada
e acompanhada de perto pelo MEC, a despeito das equipes técnicas
que promovem vistoria e fiscalização para reconhecimento procurarem
implementar um mínimo de rigor ao projeto pedagógico dos cursos.
Ocorre que, muitas vezes, o curso era autorizado a iniciar suas
atividades mesmo sem a visita dessas equipes técnicas.
Há
pontos positivos a ressaltar em relação ao crescimento de instituições
privadas de ensino universitário. No Censo do Ensino Universitário
2000 percebia-se a interiorização dos cursos universitários.
O número de matrículas no interior havia crescido 16%, enquanto
que nas capitais o aumento foi de apenas 11%. Uma democratização
considerável do acesso à universidade. Sei, por experiência
própria, o que significa afastar-se do convívio familiar para
cursar uma universidade numa capital. É uma aventura mas, também,
um impacto.
Outro
ponto positivo, decorrente da interiorização dos cursos universitários,
é o aumento de cursos noturnos, o que confere mais um dado do
processo de democratização do acesso: houve aumento de 14,3%
dos cursos noturnos, 2% acima do aumento de cursos diurnos.
Finalmente, também houve aumento de matrículas femininas (14,9%)
acima do número de matrículas masculinas (12,9%). Este dado,
contudo, parece estar vinculado à uma dinâmica social maior
do país: as mulheres estudam mais que os homens,
possuem, em média, maior nível de escolaridade.
O
ponto negativo, infelizmente, coloca por terra as vantagens
apontadas no parágrafo anterior. O aumento do número de cursos
universitários não foi acompanhada na melhoria da qualidade
de ensino. Dentre tantos indicadores, um merece destaque. O
número de alunos por professor nos cursos universitários privados
é o dobro dos cursos universitários públicos. Em média, são
50 alunos por professor nas instituições privadas. Assim, os
professores das instituições privadas possuem menos condições
de acompanhamento de suas turmas. Projetos de pesquisa exigem
maior atenção e apuro na relação professor/aluno, por exemplo.
Uma leitura acurada de um texto teórico, ou projetos de estímulo
à leitura são dificultados pelo número excessivo de alunos.
A formação acadêmica, enfim, fica comprometida. O mesmo pode
ser dito em relação à formação de professores, em relação ao
acompanhamento de estágios e tantas outras atividades tipicamente
acadêmicas. O Censo 2000 apontava, ainda, um dado mais preocupante
que, associado ao número de alunos, retrata um crescimento numérico
de cursos universitários que não é acompanhado de manutenção
de um padrão mínimo de qualidade. Vejamos a tabela abaixo produzida
pelo MEC em 2001:
Número
de Docentes, Regime de Trabalho e Grau de Formação no Ensino
Superior
|
|
Total
|
Tempo Integral
|
Tempo Parcial
|
Sem Grad.
|
Graduação
|
Espec.
|
Mestrado
|
Doutorado
|
|
Brasil
|
197.712
|
84.845
|
112.867
|
151
|
31.228
|
63.503
|
62.123
|
40.707
|
|
Pública
|
88.154
|
66.724
|
21.430
|
84
|
13.482
|
19.337
|
26.945
|
28.306
|
|
Privada
|
109.558
|
18.121
|
91.437
|
67
|
17.746
|
44.166
|
35.178
|
12.401
|
Fonte: Sinopse Estatística da Educação
Superior. Censo 2000. INEP/MEC, 2001.
A
tabela é emblemática da relação quantidade de cursos universitários
e qualidade de ensino. Enquanto nas universidades públicas quase
metade dos professores possui jornada integral de trabalho (43%),
nas universidades privadas apenas uma inexpressiva minoria possui
tais condições (16,5%).
A
qualificação dos professores também demonstra uma mudança importante
de perfil. O percentual de mestres nas universidades públicas
e privadas é quase idêntico (30,5% e 32,1%, respectivamente).
Entretanto, os sinais se invertem em relação ao percentual de
professores doutores e professores com apenas especialização:
nas universidades públicas, 21,9% possuem especialização e 32%
são doutores; nas universidades privadas, 40% possuem especialização
e apenas 11,3% são doutores.
As
diferenças são gritantes, como se percebe.
Uma
conclusão possível sobre este crescimento vertiginoso do número
de cursos universitários é que se houve alguma política pública,
nos últimos anos, que tem a nítida marca do neoliberalismo,
onde o mercado comandou, sem restrições, seu próprio crescimento,
foi o ensino universitário. Neste ponto, qualquer contestação
será tortuosa e indefensável. A quantidade venceu a qualidade.
Aí
sim, estamos acompanhando Joe Gould: nossa política universitária
vem sendo ambissinistra.