1. Introdução
A crescente preocupação com a elaboração
de indicadores sociais, considerados instrumentos de planificação
governamental, surge num momento crítico da história contemporânea,
em que o ceticismo e a desilusão a respeito do crescimento
econômico, tal como apregoado e definido durante três décadas,
se expandem rapidamente e permeiam largos círculos acadêmicos,
políticos e administrativos.
Durante mais de um quarto de século,
o crescimento econômico tinha sido apresentado como meta
e valor supremo para as sociedades ocidentais e orientais,
desenvolvidas e subdesenvolvidas. À tamanha exaltação do
aumento da produção material estavam subjacentes as seguintes
premissas:
a)
o crescimento
econômico seria um processo linear, quantificável e de duração
praticamente ilimitada;
b)
seu êxito
asseguraria, necessária e inevitavelmente, o “progresso”
ou o desenvolvimento social e político;
c)
problemas
e tensões, na medida em que surgissem no decorrer do processo,
representariam apenas crises efêmeras da fase inicial de
crescimento, a serem superadas pela própria dinâmica do
sistema econômico, dirigido de forma racional e competente
pelos políticos e tecnocratas–planejadores;
d)
o planejamento
– técnica “científica e apolítica” de mudança dirigida,
seria o instrumento mais adequado para assegurar o sucesso
dos planos e a consecução das metas e objetivos.
A crença na validade da tese e
de suas premissas levou a adoção de objetivos muito ambiciosos
nos países em desenvolvimento, onde o crescimento acelerado
passou a ser considerado como único caminho capaz de solucionar
os graves problemas de habitação, saúde, alimentação, educação
e emprego que afligem essas sociedades. A avaliação dos
resultados da Primeira Década de Desenvolvimento das Nações
Unidas (1960-1970), bem como da situação social em países
que experimentaram uma expansão acelerada, nos últimos anos,
parece indicar uma correlação, antes insuspeita entre crescimento
econômico e deterioração da situação social, sendo freqüente
o agravamento das desigualdades e das contradições internas
nas sociedades em vias de desenvolvimento.
Ao verificar-se portanto que o
crescimento acelerado não leva necessariamente à maior equidade
e justiça social, tornar-se-ia mister o exame da viabilidade
de caminhos e instrumentos alternativos para a consecução
do objetivo último – uma sociedade justa, equilibrada e
democrática.
Nesta perspectiva, a concentração
do principal esforço teórico não deve recair no aperfeiçoamento
e na sofisticação dos instrumentos do crescimento econômico
– o planejamento e os respectivos indicadores – mas sim,
na análise crítica do próprio processo e dos modelos a ele
subjacentes.
Neste ensaio, pretendemos focalizar,
embora de forma sumária, os resultados de políticas de crescimento
econômico, tais como formuladas nos diferentes planos de
desenvolvimento, nos quais o “social” aparece invariavelmente
como categoria residual. Em seguida apontaremos alguns aspectos
políticos e ideológicos do planejamento, freqüentemente
mistificados pelo manto da neutralidade “científica” vestido
por seus autores, para finalmente tentarmos, à luz das análises
precedentes, definir as funções dos indicadores em processos
de mudança social dirigida.
2. Os resultados do crescimento econômico
A experiência “desenvolvimentista”
das últimas décadas mostra que a acumulação rápida e “primitiva”
exige e condiciona a concentração dos investimentos em grandes
empresas e a centralização das mesmas em áreas metropolitanas,
o que tende a favorecer as classes de alta renda cuja participação
no produto e renda nacionais cresce, em termos absolutos
e relativos, num ritmo superior ao dos outros extratos sociais.
Os teóricos do crescimento econômico
apontam a necessidade e inevitabilidade desses desequilíbrios
iniciais, a fim de se obter taxas de crescimento do PIB
mais elevadas, prometendo para fases posteriores, quando
alcançado certo nível de acumulação, recompensas pelos sacrifícios
impostos à maioria da população, em função da expansão econômica.
Todavia, a história recente demonstra
que os desequilíbrios e discrepâncias provocadas por um
processo de crescimento econômico acelerado, não são reduzidos
ou eliminados por tendências automáticas ou espontâneas
de restabelecimento do equilíbrio. Ao contrário, se na fase
de expansão as necessidades de acumulação impedem uma política
distributiva mais justa, na época da recessão econômica
escassearão os recursos para cumprir essas metas. Em outras
palavras, a visão dicotômica que separa, no tempo, produção
e distribuição revela-se historicamente inviável: a própria
organização da produção – ou as “relações de produção” –
irão determinar as formas e os limites concretos da repartição
do produto social.
Passando em retrospectiva um quarto
de século de esforço “desenvolvimentista”, devemos reconhecer
que o crescimento da economia, como um todo, apresenta índices
satisfatórios, devido, em boa parte, ao processo de substituição
das importações. Foram criados inúmeros complexos industriais
que , apesar de sérias lacunas e imperfeições, permitiram
avanços significativos no caminho do crescimento. Entretanto,
os principais problemas sociais não foram resolvidos ou,
nem mesmo, amainados conforme deixara implícito o modelo
de desenvolvimento. Ao contrário, o agravamento e os impasses
da problemática social manifestaram-se paralelamente ao
avanço e à expansão da economia.
A concentração da renda aumentou
nos anos de maior expansão enquanto um contingente cada
vez maior de desempregados oculto sob a forma de subemprego
urbano e rural. Parecia perfeitamente compatível com o crescimento
do PIB.
Também, o fosso que separa a cidade
do campo, ou as regiões desenvolvidas das subdesenvolvidas,
vem se ampliando constantemente, provocando movimentos migratórios
e o êxodo rural, com a conseqüente marginalização de vastas
e crescentes camadas populacionais, nas periferias das áreas
metropolitanas.
Uma análise
mesmo superficial do crescimento econômico evidencia que
seus benefícios não foram distribuídos de forma eqüitativa:
os setores modernos da economia inter-relacionaram-se mais
com as economias estrangeiras do que com o espaço econômico,
especialmente o rural, em seu próprio país enquanto desenvolveram
e estimularam padrões de consumo e introduziram técnicas
de produção copiadas dos países ricos.
Em conseqüência do papel fundamental
assumido pelo capital estrangeiro no processo de industrialização
por substituição das importações, uma ampla parcela dos
ganhos decorrentes do aumento das vendas e do consumo tem
retornado aos países investidores, seja sob forma de gastos
com insumos e equipamentos, seja sob forma de remessa de
lucros ou pagamento de dividendos e royalties.Por
jamais ter obedecido a critérios seletivos ou a um planejamento
global, a substituição das importações tem agravado, ao
invés de ajudar a resolver, a precariedade no equilíbrio
do balanço de pagamentos dos países “em desenvolvimento”.
Por outro
lado, o rápido desenvolvimento industrial pouco contribuiu
para reduzir os níveis de desemprego e subemprego. Dados
estatísticos evidenciam uma correlação mais estreita entre
expansão industrial e produtividade do trabalho, do que
entre aquela e o nível de emprego. No caso brasileiro, o
crescimento médio da produção industrial de 7%, entre 1950-1968,
correspondeu um incremento da produtividade de 5% e um aumento
do nível de emprego de, mirrados, 2% ao ano.
Sem pretensão
de aprofundarmos aqui essa análise, perece evidenciar-se
um problema instrumental básico comum aos países “em desenvolvimento’,
configurado como crescimento econômico baseado numa industrialização
“perversa”, orientada para a produção de bens e serviços,
capital-intensivos e poupadores de mão-de-obra.
O enfoque
analítico deverá concentrar-se na dinâmica do próprio processo
de expansão do capital na fase dos conglomerados transnacionais,
cujas necessidades de acumulação, estimuladas e impulsionadas
por uma alta taxa de retorno sobre os investimentos, criam
e perpetuam desequilíbrios sociais, setoriais e regionais
e portanto, agravam os problemas sociais, para cuja solução
estão sendo invocados.
Poder-se-ia alegar que políticas
distributivas e medidas nacionalistas, tais como controles
mais rígidos sobre a remessa de lucros, royalties,
os contratos de transferência de tecnologia; as reformas
fiscal e tributária, a elevação das tarifas de importação
e até uma reforma agrária pudessem inverter a tendência
fundamental na sociedade contemporânea para o agravamento
das desigualdades sociais e econômicas. Cumpre assinalar,
contudo, que tais diretrizes da política econômica e social
forçosamente tenderiam a diminuir as taxas de crescimento
econômico, com conseqüentes tensões e conflitos políticos.
3. Planejamento e mudança social
A ênfase crescente na elaboração
de indicadores sócio-ambientais vem inserir-se numa corrente
de pensamento positivista que atribui ao planejamento características
de panacéia para o processo de mudança social. Partindo
do pressuposto que todos os países estariam fatalmente evoluindo
em direção à “sociedade industrial” a imagem das sociedades
de consumo ocidentais. Infere-se a necessidade de uma planificação
para acelerar tal processo de transformação, portando, a
quantificação e mensuração são vistos como instrumentos
e garantia de uma abordagem objetiva, neutra e racional,
equivalente em rigor científico à verificação experimental
de hipóteses, na área de disciplinas exatas.
Tentaremos argumentar que o planejamento
é, em todas as suas fases, essencialmente um ato político,
cuja racionalidade só pode ser analisada à luz dos interesses
objetivos e das aspirações dos diferentes grupos ou camadas
da população, que não tendem, necessariamente, a uma situação
de equilíbrio consensual. As contradições e resultados negativos
de muitos planos não podem ser explicados apenas pela falta
de indicadores mais precisos – as próprias metas, objetivos
e valores que orientam sua elaboração e execução devem passar
pelo crivo da análise crítica, em que as relações de poder
e os interesses conflitivos constituem parâmetros de avaliação.
Conseqüentemente, a insistência
na neutralidade e no caráter apolítico dos indicadores e
dos planos não procede, haja visto que tanto o diagnóstico
dos problemas e quanto a definição dos conceitos e instrumentos
para solucioná-los, são atos eminentemente políticos, carregados
de juízos de valor.
As grandes teorias da sociologia
dos séculos XIX e XX pouca preocupação tiveram com a quantificação
ou mensuração dos processos de mudança social. Seus objetivos
e pretensões se concentraram na elaboração de teorias ou
modelos abrangentes, capazes de proporcionar explicações
em termos científicos das transformações sociais, isolando
e descrevendo as suas condições específicas.
A maior dificuldade encontrada
por esses autores reside na complexidade do sistema social
– objeto de análise, que engloba diferentes subsistemas
sociais, desde as pequenas comunidades rurais até as relações
entre nações em nível do mercado mundial. Tal variedade
de fenômenos torna extremamente precário o poder explicativo
de qualquer teoria global de mudança, sendo a maioria dessas
formulada em níveis de abstração tão elevados, que pouca
relevância apresentam para a realidade empírica. Por outro
lado, os modelos empiricistas desenvolvidos pela sociologia
norte-americana, enfatizando os aspectos observáveis e quantificáveis
da vida social, se perdem na análise de fatos isolados e
fragmentados, apresentados em esquemas mais descritivos
do que explicativos.
Fiéis ao espírito positivista,
tanto os modelos macro quanto os esquemas microssociológicos
de mudança social se esmeram na busca de um fator “crucial”
(variável independente), ao qual pudesse ser atribuída uma
função causal na História. Assim, verificamos alternadamente
tendências a um privilegiamento exacerbado e estanque da
economia, da tecnologia, do espaço, de traços psicológico-culturais,
cuja presença ou ausência em grau ou intensidade permitiria
aos cientistas sociais formular previsões e, eventualmente,
apresentar receitas para a orientação do processo social,
na direção “desejável”.
Ora, o desenvolvimento não pode
ser concebido como um problema puramente econômico, social,
cultural ou político. Ele possui uma conotação macrossociológica
que abrange toda a organização da economia, da interação
social, da política e da cultura numa configuração que é
derivada do conjunto dos fatores e processos societários,
uma interrelação sistêmica.
Entretanto, a insistência em descobrir
“a causa” da evolução social é explicada pelo alto valor
atribuído nas sociedades capitalistas e burocrático-estatais
à mudança como sinônimo de progresso ou desenvolvimento.
Descobrir e enunciar as “leis” desse processo poderia proporcionar
instrumentos de dominação e legitimação poderosos para as
nações mais avançadas no processo de industrialização, baseados
numa interpretação tendenciosa de um trecho de Marx, segundo
o qual “... o país mais avançado mostra o caminho ao menos
desenvolvido...”. Pois se a evolução social for linear e por
etapas graduais, estaria legitimada e justificada a interferência
das grandes potências nos destinos dos pequenos países os
quais devem ser conduzidos pelas nações mais “experientes”.
Outro pressuposto teórico de planejamento,
diferente do modelo analítico causal, é representado pela
abordagem funcionalista sistêmica, que procura explicar
os fenômenos sociais por sua “função” ou contribuição à
existência do conjunto. Admitindo os princípios de interação
e interdependência como pilares da vida social, o funcionalismo revela-se como uma teoria essencialmente
conservadora, preocupada mais com o equilíbrio de acordo
com as leis inerentes ao sistema, do que com a mudança social.
Como instrumento de análise, enfatiza e supervaloriza o
equilíbrio, a unidade e o consenso entre as partes componentes
do conjunto, levando os seus protagonistas mais a pautar
“o que deve ser” do que explicar o porquê das mudanças sociais
Características semelhantes encontramos em diversos modelos
sistêmicos, enriquecidos pelos mecanismos de auto-regulagem
e retroalimentação.
A aceitação desses modelos por
parte da tecnocracia privada e estatal foi bastante entusiasta,
pois encontraram na descrição empírica minuciosa dos elementos
do sistema um sucedâneo para a teoria. Porém, o baixo nível
de abstração não confere confiabilidade às previsões quanto
à evolução do sistema. Por outro lado a tecnocracia necessita
de uma “teoria” para legitimar uma gama crescente de planos
e intervenções na vida econômica, sócio-política e cultural.
De fato, a estrutura da produção
em grandes unidades, organizadas e administradas de acordo
com as exigências da tecnologia moderna, exige um tipo de
planificação, melhor configurado no modelo sistêmico-funcionalista.
A padronização dos produtos fabricados em massa, por equipamentos
de alto custo e indivisíveis, pressupõe uma programação
completa das operações, inclusive a previsão das eventuais
perturbações do fluxo e seu controle pelos mecanismos do
sistema, cujos objetivos (sic!) não podem sofrer os riscos
de incerteza.
O mesmo raciocínio é aplicado,
por analogia, à vida social e aos planos macrossociais de
desenvolvimento: concebidos como um conjunto orgânico de
objetivos e meios para sua realização mutuamente adaptados,
o plano expressaria as necessidades do sistema sócio-político
e à tecnocracia caberia determinar a alocação de recursos
e sua distribuição por etapas e tarefas pré-estabelecidas
para os diferentes agentes sociais.
A função
legitimadora do modelo sistêmico consiste na abstração aparente
de juízos do valor, devido a seu caráter ”científico” que
o coloca acima dos interesses e pressões grupais e o encobre
com o manto da neutralidade política e de racionalidade
científico-tecnológica, evitando-se assim de submeter os
planos e seus resultados a uma avaliação em termos de custo/oportunidade
e de custos sociais. Entretanto tentar reduzir a vida a
um modelo sistêmico mecanicista em que as variáveis e sua
interação são perfeitamente controláveis, parece-nos um
raciocínio falacioso por analogia.
O planejamento social- com toda
sua variedade e complexidade de processos e fatores- não
pode ser enquadrado na racionalidade sistêmica da mesma
forma que uma sociedade em desenvolvimento não é suscetível
de ser dirigida e administrada de acordo com normas e padrões
rígidos, à semelhança de uma empresa ou um projeto técnico-econômico.
Visto sob um ângulo crítico, o
planejamento sistêmico revela-se mais como uma técnica burocrática
de solucionar ou controlar problemas, inclusive de ordem
social e política, do que um instrumento de desenvolvimento.
Quanto mais difundido o tratamento “técnico” dos problemas
sociais, mais acentuada se torna a pressão da tecnocracia
no sentido de reprimir a discussão política e a confrontação
pública de valores e objetivos sociais. Não havendo participação
ativa da população mediante processos políticos apropriados,
estes objetivos são derivados dos interesses e aspirações
de grupos específicos e legitimados pelo prestígio e poder
conferidos em nossa sociedade aos planejadores e tecnocratas.
Ademais, a quantificação e manipulação
estatística dos dados, associado ao uso de modelos matemáticos
de simulação mediante computadores, conferem aos planos
e aos planejadores poder decisório e capacidade de previsão
e controle que, embora ofusquem os verdadeiros problemas
sociais, reforçam suas posições de detentores exclusivos
do know-how e da expertise.
Enfim, é licito assumir que cada
teoria sociológica apresenta, de forma mais ou menos explícita,
uma visão do homem como sujeito e objeto do processo social,
o que permite avaliar a sua conveniência como fundamento
para o planejamento, ou seja, é possível aferir cada teoria
pelo grau de liberdade que ela atribui ao homem, como agente
social, consciente e dinâmico, de suas condições de existência.
A premissa de “consenso” como princípio
fundamental da ordem social, subjacente à maioria dos modelos
teóricos sociológicos, serve para derivar parâmetros de
“bem comum” e de “interesse público”, os quais funcionam
como critérios para o planejador e o tecnocrata. Entretanto,
uma vez assim estabelecidos os objetivos prioritários dos
planos, passa-se à identificação implícita do consenso como
eficiência e democracia, considerados valores supremos da
nossa sociedade. Eliminados o debate público, a ação e participação
espontâneas e criativas dos indivíduos em função do “consenso”,
caberia aos tecnocratas, mais do que resolver, definir o
que é e o que não é problema social, baseados no poder de
alocar recursos financeiros e humanos às áreas e setores
declarados problemáticos.
Concebendo o plano como um reflexo
das relações sociais (e políticas) de produção, uma análise
crítica do planejamento concebido como técnica de mudança
social dirigida deve indagar sobre “quem planeja – quais
os objetivos e meios e em função de quais grupos de interesse?”
Em outras palavras, a visão sociológica crítica encara o
planejamento como um processo político, em que a parcela
de poder detida pelos respectivos grupos sociais será determinante
para a definição dos “problemas” e a decisão sobre as “soluções”.
O uso do poder, além de distorcer a neutralidade e racionalidade
dos planejadores, limita também a gama de opções entre os
objetivos relevantes e realizáveis.
Presos ao viés economicista, tecnicista
e territorial, os planejadores se inclinam a diagnosticar
e a “solucionar” os problemas das favelas, dos transportes,
da poluição, das áreas verdes, enfocando os problemas sociais
como “residuais”, expressos em “déficit” de casas, escolas,
leitos hospitalares. Essa visão não pode ser atribuída apenas
à ignorância dos tecnocratas; ela decorre de determinada
visão filosófica-política estribada no “consenso” e na harmonia
da mudança social (desenvolvimento), cujo motor seria o
crescimento econômico.
É preciso, portanto, reexaminar
criticamente as premissas da teoria política implícita a
certas técnicas de planejamento, inclusive a elaboração
de indicadores sociais. Ao admitir a heterogeneidade conflitiva
de interesses e aspirações numa sociedade em desenvolvimento,
torna-se difícil sustentar a noção de “bem-estar comum”,
e o objetivo de atender às aspirações de todos.
Contrariamente à pouca ênfase dada
nos planos de desenvolvimento aos aspectos sócio-políticos,
e à estrutura institucional – o mercado de trabalho, a distribuição
da renda e o acesso aos canais de informação e de participação
política – deviam merecer tratamento prioritário pelos técnicos
em planejamento e pelos administradores públicos.
Planejar sem investigar e diagnosticar
as causas do subdesenvolvimento e da marginalização de vastos
contingentes da população é “tapar o sol com a peneira”
e tenderá inevitavelmente a agravar aqueles problemas sociais,
cuja solução é invocada como legitimação da intervenção
sistemática e autoritária do poder público.
4. Da função dos indicadores sociais
Na parte
anterior, tentamos argumentar que somente em certas condições
sociais, políticas e ideológicas o planejamento se torna
instrumento de desalienação do homem e, portanto, do desenvolvimento
social.
A política em si, não é uma atividade
humana que possa ser planejada, pois se fundamenta em opções
e elementos valorativos que refletem as próprias contradições
da realidade. Trata-se então de planejar instrumentos, motivações,
normas e instituições que permitam a concretização de objetivos
coletivamente elaborados e decididos. A coordenação desses
objetivos e a avaliação de sua coerência interna e externa
com o nível econômico far-se-ão a partir de princípios políticos
fundamentados na filosofia da opção, numa realidade social
concebida como uma totalidade e não apenas ao nível das
atividades econômicas.
Entretanto implícita à visão economicista
e tecnocrática do desenvolvimento está a necessidade de
refletir sobre e conhecer a gama mais ampla de aspectos
de vida social do que seria possível com base nos indicadores
econômicos comumente elaborados. A lógica desses indicadores
é derivada da própria “racionalidade” do crescimento econômico,
baseado numa industrialização intensiva, cujos benefícios
– assim se alega – poderiam ser compartilhados também pelas
camadas desprivilegiadas da população, à condição que se
dispusesse de indicadores e informações mais numerosos e
acurados sobre a situação social.
O tratamento matemático e estatístico
das informações colhidas mediante censos e levantamentos,
utilizados como esquema básico de inferência, correlações
e a análise multivariacional, confere a estas técnicas o
prestígio e a finalidade que normalmente são atribuídos
aos resultados da experimentação nas ciências naturais.
Contudo, à falta de hipóteses teoricamente fundamentadas,
corre-se o período de obter resultados mais exatos do que
significativos; em que possa pesar o viés na conceituação,
na construção da amostra e no modelo de explicação dos indicadores
pesquisados.
A história recente do planejamento
está repleta de casos em que foram realizados pesquisas
e levantamentos para confirmar ou negar hipóteses previamente
formuladas pelos tecnocratas e seus auxiliares, sobre “o
que a população quer”. Nestas circunstâncias, os indicadores
pesquisados podem tornar-se instrumentos de promoção e legitimação
de objetivos, programas e projetos específicos, presumidos
e declarados pelos planejadores como necessários e desejados.
Não se pretende com isso negar
a utilidade de indicadores e de sistemas de informações
que abrangem desde os movimentos demográficos e os aspectos
estruturais da economia (produção, mão-de-obra, tecnologia,
emprego etc.) até as características distributivas do sistema
social (educação, saúde, consumo) incluindo os processos
de transformação mais amplos (como por exemplo, indicadores
sobre a estatificação e a mobilidade social). Esses dados
podem ter importante função exploratória no diagnóstico
de situações concretas e na definição de metas prioritárias,
as quais não são, necessariamente, idênticas aos objetivos
da tecnocracia, na medida em que forem conhecidas e esclarecidas
previamente as premissas teóricas que orientam e sustentam
o levantamento. A falta desse trabalho preliminar corre-se
o perigo de ignorar ou encobrir as projeções ideológicas
e as ambições políticas subjacentes a qualquer tipo de planejamento.
As definições mais plausíveis do
que seja um indicador social, encontramos a conceituação
de Bauer (1966), segundo a qual “é uma informação que nos
permite avaliar aonde vamos e onde estamos, com relação
aos nossos objetivos e valores, servindo inclusive, para
avaliar programas de ação e seu alcance”. Indicadores sociais seriam, portanto,
estatísticas aptas a medir os elementos atinentes à condição
social e do bem-estar dos diversos segmentos da população,
se possível, ao nível dos indivíduos e não de agregados,
inclusive a evolução desses elementos no tempo.
Contudo subjacentes a esta definição
estão as premissas de que: a) os indicadores estatísticos
constituiriam um retrato fiel e fidedigno da realidade,
e b) a tarefa mais importante seria aperfeiçoar o sistema
de informações para o planejamento, ou seja, “melhores”
indicadores levariam quase que automaticamente a uma política
social mais eficaz e justa.Finalmente, a definição admite
e sugere um processo de mudança social, gradual e suave,
para que possa ser orientada e controlada pelos tecnocratas
(vide Moore Et Sheldon, 1970), cujo modelo de organização
social seria um sistema baseado no consenso. Neste sistema,
os principais problemas e parâmetros para o diagnóstico
e a determinação dos objetivos são definidos tendo em vista
a identificação de forma bastante arbitrária e de caráter
ideológico de consenso com democracia e interesse público,
pelos detentores do poder.
Do que procede, parece lícito inferir
sobre a necessidade de concentrar os esforços mais na análise
e interpretação da dinâmica do processo de crescimento econômico,
e de seus fatores determinantes, do que nas mensurações
quantitativas; ou seja; a explicação das relações sócio-políticas
subjacentes aos planos, metas e programas de desenvolvimento
deve preceder à elaboração e à sofisticação dos sistemas
de informação e dos indicadores sociais.
A ênfase e o entusiasmo algo ingênuo
pelos indicadores concebidos como instrumentos analíticos
capazes de explicar o porquê da persistência da pobreza
apesar de décadas de crescimento, não somente desviam a
atenção dos problemas fundamentais do desenvolvimento, mas
também insinuam que, com seu aperfeiçoamento, poder-se-ia
definir novas diretrizes e programas, para a redução e eliminação
do subdesenvolvimento, no futuro.
Ao afirmarmos como valor supremo
a criação de uma sociedade livre e igualitária, da qual
seriam eliminados tanto a pobreza quanto o consumo supérfluo,
cumpre também assinalar que para a tecnocracia é funcional,
ao nível econômico, o tratamento matemático-estatístico
do sistema produtivo sem referi-lo às relações sócio-políticas
que o sustentam. Ao nível ideológico, ela difunde uma visão
apolítica dos instrumentos geradores do processo, mistificando
a inovação tecnológica e o fluxo interminável de bens de
consumo supérfluos, como acessível a todos, embora coincidam
com uma deterioração da qualidade de vida das massas, especialmente
nas aglomerações metropolitanas.
Propõe-se, portanto, a elaboração
de novos indicadores, além dos tradicionais relacionados
com o PIB ou os IGP. Os novos indicadores refletirão a preocupação
com a qualidade de vida e a conservação do capital natural,
observando o estado da cobertura florestal; a qualidade
da água potável, a qualidade do ar nas grandes concentrações
urbano-industriais, as emissões de gases de efeito-estufa;
e a extensão das áreas de manguezais e outros.Mas, não bastaria
criar áreas de conservação da água, flora e fauna para proteger
a biodiversidade. Impõe-se a criação de blocos de conservação
em paisagens onde predomina a produção agrícola, industrial
ou de a mineração, mediante o estabelecimento de zonas tampão
ao redor dessas áreas, interligadas por corredores de conexão,
também submetidos ao regime de conservação e proteção.
Para suceder nessa política, não
bastam os esforços e as boas intenções das ONGs, nem os
eventuais decretos do poder público. É mister mobilizar
e organizar a participação ativa das população locais, comunidades
rurais, urbanas e indígenas, em todas as fases de definição
das metas, dos parâmetros de planejamento e da execução
das políticas, projetos e programas de desenvolvimento.