GIROUX,
Henry A. Os professores como intelectuais: rumo a uma
pedagogia crítica da aprendizagem. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1997, 270 p.
Professores como intelectuais
transformadores
Henry A.
Giroux
Diferente
de muitos movimentos de reforma educacional do passado,
o atual apelo por mudança educacional apresenta aos professores
tanto uma ameaça quanto um desafio que parecem sem precedentes
na história de nossa nação. A ameaça vem na forma de uma
série de reformas educacionais que mostram pouca confiança
na capacidade dos professores da escola pública de oferecerem
uma liderança intelectual e moral para a juventude de nosso
país. Por exemplo, muitas das recomendações que surgiram
no atual debate ignoram o papel que os professores desempenham
na preparação dos aprendizes para serem cidadãos ativos
e críticos, ou então sugerem reformas que ignoram a inteligência,
julgamento e experiência que os professores poderiam oferecer
em tal debate. Quando os professores de fato entram no debate
é para serem objeto de reformas educacionais que os reduzem
ao status de técnicos de alto nível cumprindo ditames
e objetivos decididos por especialistas um tanto afastados
da realidade cotidiana da vida em sala de aula.
[1]
A mensagem parece ser que os professores
não contam quando trata-se de examinar criticamente a natureza
e processo da reforma intelectual.
O clima político e ideológico não
parece favorável para os professores no momento. Entretanto,
ele de fato lhes oferece o desafio de unirem-se ao debate
público com seus críticos, bem como a oportunidade de se
engajarem em uma autocrítica muito necessária em relação
à natureza e finalidade da preparação dos professores, dos
programas de treinamento no trabalho e das formas dominantes
da escolarização. De forma semelhante, o debate oferece
aos professores a oportunidade de se organizarem coletivamente
para melhorar as condições em que trabalham, e demonstram
ao público o papel fundamental que eles devem desempenhar
em qualquer tentativa de reformar as escolas públicas.
Para que os professores e outros
se engajem em tal debate, é necessário que uma perspectiva
teórica seja desenvolvida, redefinindo a natureza da crise
educacional e ao mesmo tempo fornecendo as bases para uma
visão alternativa para o treinamento e trabalho dos professores.
Em resumo, o reconhecimento de que a atual crise na educação
tem muito a ver com a tendência crescente de enfraquecimento
dos professores em todos os níveis da educação é uma precondição
teórica necessária para que eles efetivamente se organizem
e estabeleçam uma voz coletiva no debate atual. Além disso,
tal reconhecimento terá que enfrentar não apenas a crescente
perda de poder entre os professores em torno das condições
de seu trabalho, mas também as mudanças na percepção do
público quanto a seu papel de praticantes reflexivos.
Gostaria de dar uma pequena contribuição
teórica para que este debate e o desafio que ele suscita
examinando dois problemas importantes que precisam ser abordados
no interesse de melhorar a qualidade da “atividade docente”,
o que inclui todas as tarefas administrativas e atividades
extras, bem como a instrução em sala de aula. Primeiramente,
eu acho que é imperativo examinar as forças ideológicas
e materiais que têm contribuído para o que desejo chamar
de proletarização do trabalho docente, isto é, a tendência
de reduzir os professores ao status de técnicos especializados
dentro da burocracia escolar, cuja função, então, torna-se
administrar e implementar programas curriculares, mais do
que desenvolver ou apropriar-se criticamente de currículos
que satisfaçam objetivos pedagógicos específicos. Em segundo
lugar, existe uma necessidade de defender as escolas como
instituições essenciais para a manutenção e desenvolvimento
de uma democracia, e também a defesa dos professores como
intelectuais transformadores que combinam a reflexão e prática
acadêmica a serviço dos estudantes para que sejam cidadãos
reflexivos e ativos. No restante deste ensaio, irei desenvolver
estes pontos e concluir examinando suas implicações para
o fortalecimento de uma visão alternativa da atividade docente.
Desvalorização
e Desestabilização do Trabalho Docente
Uma das maiores ameaças aos professores
existentes e futuros nas escolas públicas é o desenvolvimento
crescente de ideologias instrumentalistas que enfatizam
uma abordagem tecnocrática para a preparação dos professores
e também para a pedagogia de sala de aula. No cerne da atual
ênfase nos fatores instrumentais e pragmáticos da vida escolar
colocam-se diversas suposições pedagógicas importantes.
Elas incluem: o apelo pela separação de concepção e execução;
a padronização do conhecimento escolar com o interesse de
administrá-lo e controlá-lo; e a desvalorização do trabalho
crítico e intelectual de professores e estudantes pela primazia
de considerações práticas.
[2]
Esse tipo de racionalidade instrumental
encontra uma de suas expressões historicamente mais fortes
no treinamento de futuros professores. O fato de que os
programas de treinamento de professores nos Estados Unidos
há muito têm sido dominados por uma orientação e ênfase
behaviorista na mestria de áreas disciplinares e métodos
de ensino está bem documentado.
[3]
Vale a pena repetir as implicações desta
abordagem, salientadas por Zeichner:
Subjacente a esta orientação na formação dos professores
encontra-se uma metáfora de “produção”, uma visão do ensino
como “ciência aplicada” e uma visão do professor como principalmente
um “executor” das leis e princípios de ensino eficaz. Os
futuros professores podem ou não avançar no currículo em
seu próprio ritmo e podem participar de atividades de aprendizagem
variadas ou padronizadas, mas aquilo que eles têm que dominar
tem escopo limitado (por exemplo, um corpo de conhecimentos
de conteúdo profissional e habilidades didáticas) e está
totalmente determinado com antecipação por outros, com base,
muitas vezes, em pesquisas na efetividade do professor.
O futuro professor é visto basicamente como um receptor
passivo deste conhecimento profissional e participa muito
pouco da determinação do conteúdo e direção de seu programa
de preparação.
[4]
Os problemas desta abordagem são
evidentes com o argumento de John Dewey de que os programas
de treinamento de professores que enfatizam somente o conhecimento
técnico prestam um desserviço tanto à natureza do ensino
quanto a seus estudantes.
[5]
Em vez de aprenderem a refletir sobre
os princípios que estruturam a vida e a prática em sala
de aula, os futuros professores aprendem metodologias que
parecem negar a própria necessidade de pensamento crítico.
O ponto é que os programas de treinamento de professores
muitas vezes perdem de vista a necessidade de educar os
alunos para que eles examinem a natureza subjacente dos
problemas escolares. Além disso, estes programas precisam
substituir a linguagem da administração e eficiência por
uma análise crítica das condições menos óbvias que estruturam
as práticas ideológicas e materiais do ensino.
Em vez de aprenderem a levantar
questões acerca dos princípios que subjazem os diferentes
métodos didáticos, técnicas de pesquisa e teorias de educação,
os estudantes com freqüência preocupam-se em aprender o
“como fazer”, “o que funciona” ou o domínio da melhor maneira
de ensinar um “dado” corpo de conhecimento. Por exemplo,
os seminários obrigatórios de prática no campo consistem
na partilha de técnicas utilizadas pelos estudantes para
administrar e controlar a disciplina em sala de aula, organizar
as atividades do dia e aprender a trabalhar dentro de cronogramas
específicos. Examinando um programa destes, Jesse Goodman
levanta algumas questões importantes acerca dos silêncios
prejudiciais que o mesmo incorpora. Ele escreve:
Não havia questionamento de sentimentos, suposições ou definições
nesta discussão. Por exemplo, a “necessidade” de recompensas
e punições para “fazer crianças aprenderem” era dada como
garantida; as implicações éticas e educacionais não eram
abordadas. Não se via preocupação em estimular ou alimentar
o desejo intrínseco da criança por aprender. As definições
de bons alunos como “alunos quietos”, atividades
no caderno de exercícios como “leitura”, tempo envolvido
com a tarefa como “aprendizagem”, e finalizar o material
dentro do horário como “objetivo de ensino” – todas
passavam sem questionamento. Os sentimentos de pressão e
possível culpa quanto a não satisfazer os cronogramas também
não eram explorados. A real preocupação nesta discussão
era a de que todos “compartilhassem”.
[6]
As racionalidades tecnocráticas
e instrumentais também operam dentro do próprio campo de
ensino, e desempenham um papel cada vez maior na redução
da autonomia do professor com respeito ao desenvolvimento
e planejamento curricular e o julgamento e implementação
de instrução em sala de aula. Isto é bastante evidente na
proliferação do que se tem chamado de pacotes curriculares
“à prova de professor”.
[7]
A fundamentação subjacente de muitos
destes pacotes reserva aos professores o simples papel de
executar procedimentos de conteúdo e instrução predeterminados.
O método e objetivo de tais pacotes é legitimar o que chamo
de pedagogias de gerenciamento. Isto é, o conhecimento é
subdividido em partes diferentes, padronizado para serem
mais facilmente gerenciados e consumidos, e medidos através
de formas de avaliação predeterminadas. As abordagens curriculares
deste tipo são pedagogias de gerenciamento porque as principais
questões referentes à aprendizagem ficam reduzidas ao problema
da administração, isto é, “como alocar recursos (professores,
estudantes e materiais) para produzir o número máximo possível
de estudantes... diplomados dentro do tempo designado”.
[8]
A suposição teórica subjacente que orienta
este tipo de pedagogia é a de que o comportamento dos professores
precisa ser controlado, tornando-o comparável e previsível
entre as diferentes escolas e populações de alunos.
O que fica claro nesta abordagem
é que a mesma organiza a vida escolar em torno de especialistas
em currículo, instrução e avaliação, aos quais se reserva
a tarefa de concepção, ao passo que os professores são reduzidos
à tarefa de implementação. O efeito não se reduz somente
à incapacitação dos professores para afastá-los do processo
de deliberação e reflexão, mas também para tornar rotina
a natureza da pedagogia de aprendizagem e de sala de aula.
Não é preciso dizer que os princípios subjacentes às pedagogias
de gerenciamento estão em desacordo com a premissa de que
os professores deveriam estar ativamente envolvidos na produção
de materiais curriculares adequados aos contextos culturais
e sociais em quais ensinam. Mas especificamente, o estreitamento
das opções curriculares ao formato de retorno aos fundamentos
e a introdução de pedagogias inflexíveis de tempo na tarefa
operam a partir da suposição errônea de que todos os estudantes
podem aprender a partir dos mesmos materiais, técnicas em
sala de aula e modos de avaliação. A noção de que os estudantes
têm histórias diferentes e incorporam experiências, práticas
lingüísticas, culturas e talentos diferentes é estrategicamente
ignorada dentro da lógica de e contabilidade da teoria pedagógica
administrativa.
Professores
como Intelectuais Transformadores
No que se segue, desejo argumentar
que uma forma de repensar e reestruturar a natureza da atividade
docente é encarar os professores como intelectuais transformadores.
A categoria de intelectual é útil de diversas maneiras.
Primeiramente, ela oferece uma base teórica para examinar-se
a atividade docente como forma trabalho intelectual, em
contraste com sua definição em termos puramente instrumentais
ou técnicos. Em segundo lugar, ela esclarece os tipos de
condições ideológicas e práticas necessárias para que os
professores funcionem como intelectuais. Em terceiro lugar,
ela ajuda a esclarecer o papel que os professores desempenham
na produção e legitimação de interesses políticos, econômicos
e sociais variados através das pedagogias por eles endossadas
e utilizadas.
Ao encarar os professores como
intelectuais, podemos elucidar a importante idéia de que
toda a atividade humana envolve alguma forma de pensamento.
Nenhuma atividade, independente do quão rotinizada possa
se tornar, pode ser abstraída do funcionamento da mente
em algum nível. Este ponto é crucial, pois ao argumentarmos
que o uso da mente é uma parte geral de toda atividade humana,
nós dignificamos a capacidade humana de integrar o pensamento
e a prática, e assim destacamos a essência do que significa
encarar os professores como profissionais reflexivos. Dentro
deste discurso, os professores podem ser vistos não simplesmente
como “operadores profissionalmente preparados para efetivamente
atingirem quaisquer metas a eles apresentadas. Em vez disso,
eles deveriam ser vistos como homens e mulheres livres,
com uma dedicação especial aos valores do intelecto e ao
fomento da capacidade crítica dos jovens”.
[9]
Encarar os professores como intelectuais
também fornece uma vigorosa crítica teórica das ideologias
tecnocráticas e instrumentos subjacentes à teoria educacional
que separa a conceitualização, planejamento e organização
curricular dos processos de implementação e execução. É
importante enfatizar que os professores devem assumir responsabilidade
ativa pelo levantamento de questões sérias acerca do que
ensinam, como devem ensinar, e quais são as metas mais amplas
pelas quais estão lutando. Isto significa que eles devem
assumir um papel responsável na formação dos propósitos
e condições de escolarização. Tal tarefa é impossível com
uma divisão do trabalho na qual os professores têm pouca
influência sobre as condições ideológicas e econômicas de
seu trabalho. Este ponto tem uma dimensão normativa e política
que parece especialmente relevante para os professores.
Se acreditarmos que o papel do ensino não pode ser reduzido
ao simples treinamento de habilidades práticas, mas que,
em vez disso, envolve a educação de uma classe de intelectuais
vital pra o desenvolvimento de uma sociedade livre, então
a categoria de intelectual torna-se uma maneira de unir
a finalidade da educação de professores, escolarização pública
e treinamento profissional aos próprios princípios necessários
para o desenvolvimento de uma ordem e sociedade democráticas.
Eu argumentei que, encarando os
professores como intelectuais, nós podemos começar a repensar
e reformar as tradições e condições que têm impedido que
os professores assumam todo o seu potencial como estudiosos
e profissionais ativos e reflexivos. Acredito que é importante
não apenas encarar os professores como intelectuais, mas
também contextualizar em termos políticos e normativos as
funções sociais concretas desempenhadas pelos mesmos. Desta
forma, podemos ser mais específicos acerca das diferentes
relações que os professores têm tanto com seu trabalho como
com a sociedade dominante.
Um ponto de partida para interrogar-se
a função social dos professores enquanto intelectuais é
ver as escolas como locais econômicos, culturais e sociais
que estão inextrincavelmente atrelados às questões de poder
e controle. Isto significa que as escolas fazem mais do
que repassar de maneira objetiva um conjunto comum de valores
e conhecimentos. Pelo contrário, as escolas são lugares
que representam formas de conhecimento, práticas de linguagem,
relações e valores sociais que são seleções e exclusões
particulares da cultura mais ampla. Como tal, as escolas
servem para introduzir e legitimar formas particulares
de vida social. Mais do que instituições objetivas separadas
da dinâmica da política e poder, as escolas são, de fato,
esferas controversas que incorporam e expressam uma disputa
acerca de que formas de autoridade, tipos de conhecimento,
formas de regulação moral e versões do passado e futuro
que devem ser legitimadas e transmitidas aos estudantes.
Esta disputa é mais visível, por exemplo, nas demandas de
grupos religiosos de direita que atualmente tentam instituir
a reza nas escolas, eliminar certos livros das bibliotecas
escolares e incluir certas formas de ensinamentos religiosos
no currículo de ciências. É claro que demandas de outro
tipo são feitas por feministas, ecologistas, minorias, e
outros grupos de interesse que acreditam que as escolas
deveriam ensinar estudos femininos, cursos sobre meio ambiente,
ou história dos negros. Em resumo, as escolas não são locais
neutros e os professores não podem tampouco assumir a postura
de serem neutros.
Num sentido mais amplo, os professores
como intelectuais devem ser vistos em termos dos interesses
políticos e ideológicos que estruturam a natureza do discurso,
relações sociais em sala de aula e valores que eles legitimam
em sua atividade de ensino. Com esta perspectiva em mente,
gostaria de concluir que os professores deveriam se tornar
intelectuais transformadores se quiserem educar os estudantes
para serem cidadãos ativos e críticos.