Por
JOSÉ APÓSTOLO NETTO
Historiador
e doutorando em História (UNESP - Campus de Assis, SP)
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As
Populações Periféricas e a Modernidade Brasileira
O
capitalismo brasileiro, ao longo dos seus mais de cem
anos de existência, tem avançado muito pouco, quando não
retrocedido, no processo de inclusão do conjunto dos brasileiros
na modernidade. A tomar pela sua história, apenas uma
pequena parcela da população tem usufruído dos benefícios
trazidos pela modernização do país. Essa elite, por sua
vez, por meio de dispositivos cientificistas, ideológicos,
simbólicos, éticos, estéticos, institucionais e até acadêmicos tem procurado garantir e reproduzir
esse privilégio, empurrando para as zonas de exclusão
os demais setores da sociedade.
Os setores mais castigados nesse
processo histórico de exclusão são os populares e, entre
estes, as populações afrodescendentes. Por conta disso,
esses agentes sociais, no contexto, ou melhor, à margem
dessa modernidade, têm inventado e reinventado formas
diversas de lutas. Elas têm atendido a pelo menos três
objetivos: fazer frente ao poder de domesticação, apresentar
projetos políticos e sociais alternativos, preservar a
autonomia das comunidades tradicionais.
O banditismo social, o messianismo,
as revoltas populares, os movimentos separatistas, as
facções criminosas, a favelização social, entre outros
fenômenos históricos e sociais, são alguns exemplares
mais radicais desses revides do nosso povo.
Claro está também que os setores
progressistas e modernos das classes dirigentes e da classe média têm, em alguns momentos da história, reivindicado
um certo alargamento do campo de participação dos segmentos
populares na modernidade brasileira, de modo a suavizar
os conflitos e as lutas sociais no interior da sociedade,
criando uma atmosfera estável de desenvolvimento econômico.
As manifestações mais recentes
desse projeto de inclusão referem-se as ong’s que se proliferaram
no país a partir do processo de redemocratização (1985).
As primeiras organizações atuavam no campo dos direitos
humanos e são herdeiras dos movimentos pela anistia e
contra a tortura, atuantes durante o regime militar (1964-1985).
Hoje, como é sabido, elas passam dos milhares e atuam
em várias frentes: na da educação, na da ética, na dos
gêneros, no da informação, entre outras.
Mas alguns acontecimentos internos
e externos mais recentes, acelerados principalmente pelas
inovações tecnológicas nos campos da comunicação e da
informação, estão a exigir uma maior abertura da sociedade
para a participação efetiva atores sociais marginalizados.
A busca do Brasil em se consolidar
no mercado internacional como global-player, com forte
alinhamento com as economias periféricas, a exemplo da
África, da Ásia e o Cone-Sul; a segmentação étnica, sexual
e geracional do mercado de consumo; a convergência das
mídias ao lado da popularização dos aparelhos trimidiáticos
de ampliação da produção e oferta de conteúdos diversificados
e diferenciados, regionais e globais; bem como as importantes
conquistas das minorias sexuais e étnicas no campo dos
direitos civis, a crescente conversão das políticas afirmativas
em políticas públicas, entre outros acontecimentos, estão
solicitando uma disposição ética-estética referencializada
não apenas nas matrizes estadunidense e europeu; mas pautada
cada vez mais na cultura afro, asiática e latino-americana.
Os efeitos dessa globalização do
capitalismo brasileiro são registradas em vários setores
da vida social e cultural do país. Uma análise mais atenta
da produção cinematográfica, fonográfica, editorial, televisiva
e radiofônica mais recente, por exemplo, mostrará uma
maior presença de temáticas e personagens periféricos
e afro-brasileiros.
Quando não, temos a montagem de
toda uma mídia marginal autônoma, que vai das rádios e
TVs comunitárias, selos e produtoras musicais independentes
até ateliês de moda e artes plásticas. Sem falar da produção
literária capitaneada por autores da periferia.
Essas experiências demonstram,
entre outras coisas, que a relação entre a periferia e
os processos comunicacionais tem sido produtiva e criativa.
Precisamos, por ora, ampliar e acelerar esse processo.
Ao longo
da história do capitalismo brasileiro, que se inicia
com a substituição do trabalho escravo pelo trabalho
livre assalariado e com a instauração do regime republicano,
no final do século 19, registramos várias práticas
discursivas e não discursivas acionados pela elite
para legitimar e reproduzir-se no poder.
As teorias racistas de base cientificista,
a história oficial e acadêmica sobre as obras e os
feitos das personalidades das classes dirigentes;
as ideologias intolerantes e do ódio, a meritocracia,
os nacionalismos; a ética do trabalho de domesticação
do trabalhador, os símbolos do poder, que se inscrevem
nas esculturas, na arquitetura, nas artes plásticas,
nos projetos urbanísticos, nas comemorações cívicas
e nacionalistas; a estrutura curricular pedagógica
escolar de referência eurocêntrica, são alguns exemplos
eloqüentes que confirmam o processo de dominação/exclusão
no Brasil .
No período
aqui compreendido, podemos citar, como formas de reação
dos populares ante o processo brasileiro de modernização
excludente, Guerra de Canudos, Bahia (1896); A Revolta
da Vacina, Rio de Janeiro (1905); A Revolta das Chibatas,
Rio de Janeiro (1910); o cangaço de Lampião, Corisco
e Antonio Silvino (Nordeste, 1920-1940); os quebra-quebras,
os arrastões, o Comando Vermelho e o PCC (São Paulo
e Rio de Janeiro, época atual) etc.
É significativa
a enxurrada de produções televisivas, cinematográficas
e literárias de autoria ou com temáticas afro-brasileiras,
desde de 2000. Para ficar nos mais conhecidos, podemos
citar: no cinema, Cidade de Deus (2002),
Uma onda no ar (2003), Madame Satã (2002);
na literatura, Capão pecado (Ferrez), Diário
de um detento (Jocenir), Cidade de Deus
(Paulo Lins), Rei Zumbi (Big Richard); Na televisão,
Turma do gueto (Seriado, Record) e Domingo
da gente (Programa de auditório, Record) Cidade
dos homens (Seriado, Globo). Acreditamos que uma
das conseqüências da força dos acontecimentos econômicos,
tecnológicos e sociais em transformação seja o boom
dessa produção cultural.
Convém
lembrar que a sociedade brasileira precisa ampliar
a participação do afrodescendente e periféricos nas
universidades. Os números ainda são insignificantes.
Temos que ter claro que muita coisa ainda está por
fazer nessa frente.
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