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O
fato de estar, no presente
momento, prestando concurso para
professor-titular da Faculdade
de Educação da Unicamp, ante
uma banca examinadora composta
por professores-titulares e
titulados, é um desafio. Na
medida em que o candidato a
professor-titular não teve uma
formação escolar
"convencional",
concluiu seus estudos em nível
de 1º grau no terceiro ano primário,
retomou os estudos escolares
através do ingresso na FFCHL da
USP mediante apresentação de
uma monografia à congregação
da mesma.
Apesar
de uma "formação" não-convencional
e de uma trajetória pós-graduada
não-convencional, também
acredita o candidato ter
conseguido acumular um mínimo
de "capital cultural"
para lidar com o ensino e
pesquisa acadêmicos e manter
uma atividade extra-acadêmica
dirigida aos trabalhadores através
de uma coluna sindical na
imprensa diária paulista.
Minha
biografia começa no interior do
Estado do Rio Grande do Sul,
onde meus avós aportaram na
qualidade de camponeses pequenos
proprietários, fugindo dos progroms,
cultivando como unidade familiar
uma agricultura de subsistência
onde o excedente era vendido no
mercado, em Erebango, que depois
tornou-se Erexim e, finalmente,
Getúlio Vargas,
A
emigração de meus avós ao
Brasil se deu através de um
projeto de colonização judaica
no Rio Grande do Sul, que tinha
o financiamento da Cia. Judaica
de Colonização, fundada pelo
barão Hirsch, no início do século.
A
colonização judaica no Rio
Grande do Sul partia de Erebango,
espraiara-se para Philipson e
Quatro Irmão, regiões
localizadas no Alto Uruguai, próximos
a Marcelino Ramos, cidade
fronteiriça com o Estado de
Santa Catarina.
Lembro-me
do quadro rural de Erebango,
onde meus avós assentaram nos
campos, cobertos de neve durante
o inverno, do cultivo da terra e
da extração da madeira, de sol
a sol. Pela manhã era acordado
pelo meu avô, com a pergunta: o
Messias já chegou?
Ele
era um camponês profundamente
religioso, tolstoiano, que
esperava diariamente a chegada
do Messias, como é comum em
camponeses, pequenos proprietários
em processo de proletarização.
Essas camadas adotam o
quilialismo utópico, como
demonstrava Weber nos seus
estudos sobre a religiosidade
camponesa.
O
meio rural de Erebango não
estava afastado das grandes idéias
e movimentos sociais que
abalaram o mundo no início do século,
culminando com a Revolução
Russa.
Já
em 1908, centena de camponeses
russos vindos da Ucrânia
desembarcaram no Paraná. Vinte
famílias de camponeses venderam
o que tinham na Rússia,
embarcando, com escala em
Londres, para Santos, São
Paulo, daí num cargueiro
dirigiram-se para Porto Alegre,
levados à Erexim, hoje Getúlio
Vargas, onde tomaram conta de
dois lotes de terras de 25
hectares. Chegaram transportados
em caminhões do exército e
despejados nas matas de Erebango,
Erexim (Getúlio Vargas).
Encontraram
bosques cortados por alguns rios
e planícies sem vegetação.
Com a gleba, cada família
recebeu 500 mil réis em vales,
foices, enxada e mais um machado
e serra para cada duas famílias.
Começara uma experiência
fundada no apoio mútuo e
na solidariedade,
fundados na experiência da
revolução maknovista na
Ucrânia, destruída pelo
bolchevismo, em 1918.
O
mais hábeis cumpriam inúmeros
papéis, na agricultura, no
ensino, na assistência aos
doentes e no sepultamento dos
mortos. Cultivava-se a terra,
plantava-se e colhia-se
distribuindo a cada família os
gêneros, conforme o seu
tamanho, se maior ou menor. As
famílias cooperavam nos
trabalhos de desmatamento,
construção de barracões,
abertura de valos e caminhos.
Os
anos transcorridos entre 1913 e
1914 foram de muita fome e
alguns se lembravam com saudades
da Ucrânia. Após a deposição
do czar, os bolcheviques tomaram
o poder e exterminaram com as
colônias anarquistas, em 1920.
Muitos deles fugiram para a
Argentina e enviavam a Erebango
exemplares do jornal libertário
Golos Truda, editado pela
Federação de Trabalhadores
Russos, com sede em Buenos
Aires.
Os
camponeses de Erebando, ajudados
pela imprensa libertária,
aprimoraram o senso coletivo de
vida e trabalho aprendendo
uns com os outros. Todos
eram alunos e professores, e
aprendiam ao mesmo tempo os
segredos do cultivo da terra. À
luz de vela, à noite, aprendiam
e ensinavam português,
espanhol, russo e esperanto,
lia-se em Erebango muitos
autores anarquistas russos, como
Kropotkine, Bakunin,
especialmente Tolstói, com seu
anarquismo religioso
anticlerical, que era o autor
preferido.
Já
em 1918, apareceu a União dos
Trabalhadores Russos do Brasil
sediada em Erexim, integrada por
40 camponeses e militantes, onde
aparecia com destaque o camponês
Serguei Ilitchenco; surge a União
dos Trabalhadores Russos, com
sede em Porto Alegre, presidida
por Nikita Jacobchenco; a União
dos Trabalhadores Russos de
Guarani, Campinas, Santo Angêlo,
dirigida por João e Gregório
Taratchenco, e a União dos
Trabalhadores Rurais de Porto
Lucen, dirigida por Demétrio
Cirotenco. Este último, durante
mais de vinte anos, serviu de pólo
de ligação entre os
trabalhadores rurais de Erexim e
Erebango, através da União dos
Trabalhadores. Havia também o
ucraniano Ossef Stefanovich, com
uma barba à Kropotkine, que
atuava como conferencista,
professor, teatrólogo,
jornalista e escritor.
Lia-se
os clássicos da literatura
russa, como Tolstói, Pushkin e
Tchekov. Paralelamente, as colônias
conseguiram a auto-suficiência
em alimentos, elevaram o
aprimoramento educacional e
auto-aplicação dos princípios
anarquistas no quotidiano de
suas vidas.
Foi
nessa época em Erebango, depois
Erexim, que os camponeses jovens
pensaram em criar a Juventude
dos Trabalhadores Rurais Libertários,
ao mesmo tempo em que recebiam
dos emigrados russos dos EUA o
diário Americankie Izvestia
e a revista Volna. Em
1925, recebiam em Paris a
revista Dielo Trouda, que
após 1930, seria impressa em
Chicago. De Detroit vinha a
partir de 1927, a revista Probuzhdenie,
que em 1940 se associaria à
Dielo Trouda, formando
uma só revista sob o título Dielo-Trouda-Probuzhdenie,
em circulação até 1963.
Recebiam de São Paulo os
jornais A Plebe, A Voz
do Trabalhador, Ação
Direta, O Libertário, a
que se juntaram periódicos em
castelhano como Voluntad,
Tierra y Libertad e La Protesta.*
Compunham
a biblioteca dos colonos obras
de Bakunin, Kropotkine,
Malatesta, historiadores do
anarquismo como James Guillaume,
Rudolf Rocker, além de obras de
Emma Goldman, Nestor Makno,
recebidos do Canadá e
Argentina. Segundo meus pais,
toda essa problemática era
discutida pelos meus avós, com
a audiência respeitosa destes.
Porém,
voltando à minha trajetória
pessoal, conheci as primeiras
letras em Erebango, depois
Erexim, numa escola pública que
funcionava num galpão. Entre
arreios, cheiro de alfafa e um
quadro negro, tive meu primeiro
contato com o ler; escrever e
contar.
A
região havia sido assolada pela
Revolução Federalista do Rio
Grande do Sul, as tropas de chimangos
e maragatos,
indistintamente, destruíam
plantações, matavam a criação
e expropriavam os camponeses,
reduzindo as comunidades
camponesas a zero, no sentido
econômico. No plano cultural,
nem falar, o cinema havia
chegado através do dono do único
hotel da colônia, assistido por
uma platéia embasbacada, que
nada entendia do enredo dos
filmes. Minha avó, que havia
ido ao "cinema",
perguntava para o meu avô o que
havia visto através da "máquina";
respondia: "Vi diabos,
diabos, diabos..."
Começava
a desintegração da família
como unidade produtiva. Uma tia
minha dirigiu-se a Porto Alegre,
a "grande capital", e
lá se casara com um serralheiro
judeu, oriundo da Letônia. Logo
depois, meu tio e minha mãe
rumavam na mesma direção,
instalando-se no Bonfim, o
"gueto" judeu em Porto
Alegre, tão bem retratado nas
obras do escritor Moacyr Scliar.
Lá,
freqüentara o Grupo Escolar
Luciana de Abreu, ainda hoje no
bairro Azenha. Estávamos em
pleno Estado Novo, com fotos de
Getúlio em todos os bares da
cidade, com símbolo
presidencial e cara de menino de
primeira comunhão.
Lembro-me
que houve um dia "sem
aulas". Isso se deveu à
visita que Plínio Salgado fez a
Porto Alegre. Na frente do grupo
escolar havia um posto de
distribuição de publicações
de Plínio Salgado e sobre o
integralismo. A condição de
"judeu", numa
sociedade nacional mais ampla,
leva você a uma "politização
precoce".
Isso
porque a visita de Plínio
Salgado era sentida no bairro
judeu como a visita de um
anti-semita que preparara
futuros progroms, iguais
aos vividos na Rússia, daí o
temor e os comentários terem-se
espalhados pelo bairro.
Assisti
na avenida Oswaldo Aranha, a
principal da cidade, ao desfile
dos integralistas, uniformizados
com camisa verde e ostentando um
porte marcial. É o período em
que o integralismo apoiara o
Estado Novo, pensando receber em
troca um ministério para Plínio
Salgado. Isso não se deu e Getúlio,
dias depois, colocaria a Ação
Integralista na ilegalidade.
Logo
depois, a família mudava para São
Paulo, num vagão de segunda
classe da então Viação Férrea
do Rio Grande do Sul, após duas
noites e três dias de viagem,
aportávamos na Estação
Sorocabana de São Paulo.
Fomos
habitar à rua Tocantins, no
bairro do Bom Retiro. Eu freqüentava
o "Thalmud Torá", uma
escola judaica ortodoxa. De manhã
estudava as matérias comuns do
ciclo primário e à tarde o índice
hebraico e comentários do Velho
Testamento.
Tínhamos
como vizinhos uma família judia
de origem húngara, que se
tornara nossa amiga. Ela
sobrealugava um quarto a um
cidadão que vivia de pijama e
fumava cigarros Fulgor.
Novamente o clima autoritário
do Estado Novo fazia-se
presente: o cidadão
desaparecera, corria o boato que
era "comunista",
delito gravíssimo sob o Estado
Novo.
Comecei
a trabalhar muito cedo para
ajudar um fraco orçamento doméstico,
meu pai falecera e minha mãe
costurava. Iniciei minhas
"universidades", freqüentando
um bar na rua Ribeiro de Lima,
que tinha duas características:
comida barata e mesa sem
toalhas. Lá acorriam
trabalhadores de origem letã,
lituana, russa, polonesa, muitos
haviam, inclusive participado da
Revolução Russa, haviam topado
pessoalmente com Lênin,
Trotsky, Zinoviev ou Bukharin. Não
eram "temas" de
academia e sim expressões de
relações sociais e políticas
vividas.
Logo
depois eu mudara para o bairro
do Brás. Morei na rua Santa
Clara, rua Cachoeira e rua
Catumbi, no Belenzinho. Nessa época,
caíra a ditadura de Vargas, e
eu tinha como vizinho uma sede
do Partido de Representação
Popular. Apesar de ter origem
judaica e imagem de
"esquerdista", os
integralistas me tratavam com
respeito, pois eu já lera, na
época, toda a obra política de
Plínio Salgado, Gustavo Barros
e Miguel Reale e, de lambugem,
nazistas nacionais como A. Tenório
de Albuquerque e Tasso da
Silveira.
Era
um período de grande efervescência
política: falava-se de
Constituinte, isso em 1945,
redemocratização e transição,
muito parecido com o que se fala
ainda hoje.
Perto
de minha casa, na rua Belém, o
PCB alugara um quarteirão onde
se instalara a sede de seu comitê
estadual. Vendia-se, lá,
livros, símbolos do PCB como
distintivos, emblemas,
bandeiras, vendia-se bônus para
a campanha da imprensa do PCB,
muitos operários ostentavam símbolos
orgulhosamente na lapela.
Foi
lá que, na venda da esquina da
rua Catumbi com a Ivinhema,
encontrei um operário espanhol
com o inevitável bigode, que,
olhando minha aparência mirrada
- na época o meu apelido social
era Gândhi, tal a magreza -
"Oh! Rapaz, queres ficar
forte? Entre para o PCB".
Contribuía
para a mesma tendência um
sapateiro espanhol, meu vizinho,
que entre um prego e outro na
sola do sapato discorria sobre
reforma agrária, o que fora a
guerra civil espanhola e a
importância do PCB.
Não
tive dúvidas, ingressei na
"base", uma célula de
bairro que funcionava no bairro
do Belém, inicialmente pequena,
composta de um pedreiro, um operário
têxtil e uma dona-de-casa.
Quais
eram as tarefas da
"base"? Pichar muros,
colocar cartazes do partido,
participar na organização de
comícios políticos, leitura
obrigatória dos jornais do
partido. Nas reuniões, o secretário
político trazia um resumo do
jornal O Estado de S.Paulo
e, assim, considerava cumprida a
missão de informar em nível
nacional e internacional o seu
grupo.
Na
época, trabalhando como office-boy
de um laboratório farmacêutico
existente na rua Catumbi,
conheci um motorneiro que fazia
a linha Belém-Praça da Sé,
num bonde "cara-dura",
assim chamado porque trazia um
cartaz "Bonde para Operários",
cuja passagem custava dez
centavos, quando o bonde comum
custava o dobro.
Entre
uma viagem e outra, eu colocava
o caixote de medicamentos junto
à direção do bonde, sentava e
ouvia ele discorrer sobre o
projeto socialista, a exuberância
do potencial da URSS e o
"grande Stálin"
condutor dos povos.
Porém,
havia outros focos de difusão
cultural popular. Houve a fundação
do Partido Socialista, em cuja
sede central, no edifício Sta.
Helena, na Pça. da Sé, conheci
Antonio Cândido, ministrando um
curso sobre a História do
Brasil, Azis Simão falando
sobre o sindicalismo e a
burocracia, e comecei a ler, além
de Stálin, os clássicos do
marxismo, o próprio, Lênin e
Trotsky.
Participei
do IV Congresso do PCB, onde
Prestes justificara o caráter
"progressista" da
burguesia industrial que o
partido deveria apoiar para
"acabar com o latifúndio e
os restos do feudalismo" em
1945.
Falava-se
com sagrado temor que o Brasil
estava num processo de
"revolução democrático-burquesa",
e que a tarefa do partido, além
de lutar por uma Constituinte
com Getúlio, era apoiar Adhemar
de Barros ao governo do Estado.
Era a época do Tratado de Yalta,
onde os EUA deixaram Stálin
avançar sobre o Leste e os PCs
ocidentais, por sua vez,
"compunham" com os
partidos burgueses, como De
Gaulle na França, com De
Gasperi na Itália, com Getúlio
no Brasil, combatendo as greves
e pregando a "união
nacional".
Porém,
freqüentava eu a Galeria
Prestes Maia, onde reuniam-se
trabalhadores, de tendências
anarquistas, trotskystas e
socialistas, além de comunistas
e também integralistas,
estabelecendo profícuo debate.
Foi aí que eu soube pela
primeira vez, através do
vidreiro Domingos Taveira,
militante sindical, o que fora a
Revolução Russa, como fora
esmagada a oposição Operária,
fundada por Kollontai, pelo
governo Lênin-Trotsky.
Através
dos socialistas, eu tomara
conhecimento da crítica de Rosa
Luxemburgo aos "descaminhos
do bolchevismo" e, através
de um senhor português que
trabalhava como lixeiro na
limpeza pública, eu soubera
como Makno e seus componentes
foram esmagados por Lênin e da
rebelião dos marinheiros de
Cronstad contra a "comissariocracia"
instituída pelos bolcheviques.
Na minha ingenuidade, levei tais
"dúvidas" ao IV
Congresso do PCB: a reação unânime
fora: "São conversinhas da
Pça. do Patriarca". Fui
chamado à ordem pela "direção"
e impedido de ler Marx ou Lênin;
literalmente fora obrigado a
limitar-me à leitura do jornal Hoje
e Imprensa Popular para
ficar a par do noticiário
nacional e internacional,
segundo a voz dos
"dirigentes".
Persistindo
nas minhas "dúvidas",
fui solenemente expulso do PCB,
nos termos do artigo 13 do
Estatuto do Partido de 1945:
"É proibido ao militante
do Partido qualquer contato
direto ou indireto com
trotskystas ou outros inimigos
da classe operária".
Perdia
eu o partido, ao mesmo tempo em
que perdia uma namoradinha minha
que insistia nas leituras de São
Cipriano, querendo converter-me
à sua Igreja.
Passei
a freqüentar cursos de fim de
semana do PSB e ganhei de Aziz
Simão o primeiro livro de nível
universitário, a História
Econômica e Social da Idade Média,
de Henri Pirenne. Eu freqüentava
à noite, aos sábados, as
conferências do Centro de
Cultura Social onde Edgard
Leuenroth, Pedro Catallo, a
feminista Anita Carrijo, o
escritor Mário Ferreira dos
Santos, pontificavam.
Após
minha expulsão do PCB, não só
iniciara a leitura dos clássicos
marxistas, como da obra do
"herético" Trotsky e
o tema da burocracia me
fascinou.
A
minha preocupação com a
burocracia como poder data daí,
além de uma vivência concreta:
eu prestara concurso para o
cargo de escriturário do
Departamento de Águas e Energia
Elétrica e lá travara contato
com a burocracia do quotidiano
no ritualismo existente
na interação burocrática, na apatia
do burocrata ante o trabalho e
como no interior da burocracia pública
havia diferenças de status,
mantidas através dos diplomas
acreditativos das escolas, como
definia Weber.
Assim,
na década de 50, muito antes de
aparecer Bourdieu como
celebridade, percebia eu no
Departamento de Águas que o
estamento dos engenheiros só
atendia alguém se esse alguém
usasse o tratamento de
"Doutor" dirigindo-se
a ele. Caso contrário, não
havia interação. Percebi como,
na burocracia pública,
funcionava o sistema feudal do
"patrocínio", seu status
dependia de a quem você
estivesse "ligado" na
burocracia. Você trabalhava ou
ficava na ociosidade, dependendo
do prestígio do seu
"padrinho".
O
horário de trabalho era do
meio-dia às dezoito horas, de
segunda a sexta-feira. Isso
possibilitava-me pela manhã e
à noite freqüentar a
Biblioteca Municipal Mário de
Andrade e lá ler o que me
interessava, discutindo com
outros autodidatas, nas saídas
ao "cafezinho", sobre
as leituras que fazia.
O
chamado "grupo da
Biblioteca" era composto na
época por Silvia Leser, Bento
Prado Jr., Aracy Martins
Rodrigues, Carlos Henrique
Escobar, Flávio Rangel, Antunes
Filho, Maria Lúcia Montes, Leôncio
Martins Rodrigues, Cláudia
Lemos. Lia-se de tudo, de Aristóteles
a Sprengler, passando por
Fernando Pessoa, Sá-Carneiro e
José Régio.
A
média de leitura era de seis a
oito horas por dia, não havia
telefonema de jornais pedindo
matéria, reuniões de
departamento, de conselhos inter
ou extradepartamento em suma,
você utilizava o tempo
produtivamente.
Surgira
um semanário, Orientação
Socialista, onde passei a
colaborar, além de colaborar na
Folha Socialista mantida
pelo PSB. Assistia a algumas
assembléias sindicais, no
Sindicato dos Metalúrgicos, no
fim da ditadura Vargas, levado
por um velho militante sindical
que instruíra-me sobre o
"ambiente sindical",
ou melhor, sobre o getulismo sem
Getúlio. Entrava-se na sede
do sindicato na rua do Carmo, e
um burocrata da Delegacia
Regional do Trabalho recebia-nos
com o gesto de sentar e calar a
boca durante a assembléia,
dizendo: "- Fique quieto, só
ouça". Era assim que o
sindicalismo de Estado criava a
"nova" consciência
operária.
Nessa
época, já Remo Forli fora
eleito presidente do Sindicato
dos Metalúrgicos de São Paulo
e conheci o Paul Singer que
trabalhava como eletricista nos
Elevadores Atlas e militava no
PSB.
Porém,
não posso deixar de incluir nas
minhas universidades a família
Abramo. Na época, Dna. Yole, mãe
dos Abramo, Lélia, Beatriz,
Athos, Perseu, moravam na rua do
Hipódromo, 425. Ali entrei em
contato com a cultura italiana e
com a visão crítica do
bolchevismo, através de Athos,
Fúlvio e Lélia Abramo. Eu freqüentava
a casa deles aos domingos.
Com
essas universidades, fui pouco a
pouco tendo uma visão crítica
da burocracia no movimento operário
e, através do trabalho no
Departamento das Águas, uma
interna da burocracia como
estrutura.
Eu
já aumentara um pouco de peso e
deixara de ser o "Gândhi".
Foi quando Antonio Candido, no
saguão da Biblioteca Municipal,
mencionara uma lei federal que
permitiria eu apresentar uma
monografia à FFCHL da USP, para
prestar vestibular e cursar a
universidade.
Em
150 dias de trabalho, estruturei
a monografia Planificação...,
que, mediante parecer do Prof.
João da Cruz Costa, permitiu-me
prestar vestibular e cursar a
universidade.
Porém,
tive algumas dificuldades em
adaptar-me à rotina escolar, ao
sistema de provas, exames e
trabalhos. Assim, inicialmente
prestara vestibular para Ciências
Sociais, porém não me dera bem
com os professores que
lecionavam no 1º ano matérias
como Geografia, Filosofia Geral,
Psicologia Social. A disciplina
Geografia era lecionada pelo
prof. Ary França, Filosofia
Geral pelo prof. Cunha Andrade e
Psicologia Social pela profª
Anita Cabral.
Desisti
daquele curso e prestei novo
vestibular, ingressando no curso
de História da Civilização.
Pensava eu estar mais condizente
com os princípios do
materialismo histórico ter uma
boa formação em História.
Concluí esse curso e prestei
concurso de ingresso ao magistério
oficial do Estado. Aprovado,
escolhi a cidade de Iguape para
início da carreira.
Iguape,
na década de 60, era o
"Nordeste" do Estado
de São Paulo. Achar um sanduíche
quente na cidade era uma
aventura. O hotel fechava às 22
horas impreterivelmente. Era de
dois andares, no superior
residiam as professores, no térreo
os professores. Se elas lavassem
o andar superior, a água cairia
sobre os professores do térreo;
resultado: só se passava o pano
de chão - imagine a higiene que
havia!
Permaneci
ali um ano. Por eu ser ateu,
houve um conflito com pároco
católico local, apoiado pelo
diretor do colégio, que era um
maçom e por um aluno do curso
noturno, que era protestante e,
por sinal, chamava-se Calvino.
O
conflito eclodia aos domingos,
pela manhã, onde, tomando pinga
com o diretor e Calvino no bar
diante da igreja, ouvíamos o pároco
deblaterar: "Quem é maçom
não pode ser criston!"
- isso com forte sotaque germânico.
No
ano seguinte, removi minha
cadeira para Taubaté, para o
I.E. Monteiro Lobato. Morava em
pensão no centro da cidade.
Abriu vaga em Mogi das Cruzes
dois anos depois, e para lá
fui, fixando residência em São
Paulo.
Lecionava
no Instituto de Educação, das
19h30 às 22h30, utilizando
diariamente o trem de subúrbio
da Central do Brasil. Voltava
diariamente do colégio em São
Paulo à 1 hora da manhã na
Estação Roosevelt, no Brás.
De lá, tomava o ônibus
Ferreira, que me deixava no Alto
da Previdência, onde eu morava
numa casa adquirida através do
Ipesp.
Logo
depois, removi minha cadeira
para o Ginásio Estadual Cândido
de Sousa, no bairro do Sumaré,
em São Paulo, lecionando à
tarde e à noite. Consegui o
"milagre" de alunos do
ciclo ginasial lerem Anísio
Teixeira, para discutirem
problemas pedagógicos com seus
professores. Nessa época tive
como aluna a atual colega,
professora de História e
Filosofia da Educação, a Profª
Ediógenes de Aragão".
A
convite do Prof. Wilson Cantoni,
fui contratado como docente na
Faculdade de Filosofia de São
José do Rio Preto, atual campus
da Unesp. Ministrava aulas de
Cultura Brasileira para os
alunos do curso de Letras e
Pedagogia. Praticávamos uma espécie
de autogestão pedagógica. Tínhamos
como colega Michael Löwy, que
fez carreira universitária na
França, Norman Potter, que
lecionara em Heidelberg, após
64.
Porém,
veio 64, fomos demitidos
sumariamente e passamos a
ministrar curso de "extensão
universitária" na
Delegacia de Polícia local.
Prestávamos declarações a
respeito dos cursos que ministrávamos.
Comecei meu depoimento com o início
do processo de secularização
da cultura ocidental a partir do
século XII. Lembro-me da Profª
Zélia Ramozi, psicóloga,
discorrer sobre a filosofia de
Kant e sobre a epistemologia genética
de Piaget.
A
Faculdade de Filosofia de S.J.
do Rio Preto teve os seus cargos
docentes lotados entre os
vereadores da Câmara Municipal
local, pertencentes ao PSP: eis
que Adhemar de Barros era o
governador em 1964. Por isso, em
meu círculo, o ano de 1964 não
existiu enquanto produção
intelectual. Foi a época em que
tive um esgotamento nervoso e
fiquei internado no Instituto
Aché durante 90 dias. Porém,
isso me fora útil, pois, se eu
fora demitido dos cargos
docentes, através do AI de
1964, a 09.10.64, pude observar
e analisar o poder médico num
hospital psiquiátrico
tradicional e a burocratização
da prática médica. Isso
ampliou minha visão de poder e
burocracia nas instituições,
que se iniciara quando escriturário
no Departamento das Águas.
Mais
do que isso, solicitei livros à
minha mulher, pude lê-los com
aquiescência médica e durante
esses 90 dias estruturei as
linhas gerais da minha tese de
doutorado, que defenderia na área
de Política da USP, Burocracia
e Ideologia.
1964
fora realmente o pior ano de
minha vida. Saí do hospital,
sem cargo, sem trabalho e com dívidas
a pagar, por aí a gente vê
como um currículo não pode ser
somente "edificante" e
vitorioso: é também composto
de indecisões, incertezas e
derrotas.
Porém,
no hospital, havia solidariedade
entre internados, especialmente
os que lá estavam devido ao
golpe de 64, havia muitos
ex-militares, ex-funcionários
do Banco do Brasil que eram
ativistas sindicais, em suma,
também pessoas comuns, que
sofreram os efeitos do golpe,
embora não tivessem participação
sindical ou política direta.
Foi
aí que Cláudio Abramo consegue
que eu vá dirigir na Folha
de S.Paulo o noticiário
internacional. Lá fiquei três
anos, trabalhando das 2h da
tarde às 2h da madrugada. Lá
conheci Emir Nogueira, professor
também, que muito fizera para
que eu fosse trabalhar nesse diário.
Encontrei lá o jornalista
Aristides Lobo, fundador do PSB,
que logo depois morreria. Porém
deixara um filho à altura de
sua prática política. Enquanto
vivo, ele foi o diretor do filme
Cabra Marcado Para Morrer.
É
quando a Fundação Getúlio
Vargas (FGV) resolve me
contratar para lecionar no
departamento de Ciências
Sociais, onde iria ministrar
cursos sobre Sociologia da
Burocracia, aproveitando minha
vivência junto à burocracia pública
do Departamento das Águas, a
burocracia hospitalar, a temática
da burocracia como poder político
que recolhi no contato com o
Prof. Aziz Simão. Ia com freqüência
aos cursos do PSB e do Centro da
Cultura Social de São Paulo.
Meu
interesse pelo estudo da
burocracia e do poder levou-me
na década de 60 à leitura da
obra de Weber, especialmente Economia
e Sociedade, porém,
procurando reconstruir as condições
da sua produção. Assim,
interessei-me pela Sociologia do
Direito em Weber e reconstruí
as leituras que fundamentaram o
capítulo através do estudo da
história do direito grego,
romano, islâmico, judaico e da common-law,
por exemplo.
Já
possuía a essa altura uma espécie
de "capital lingüístico"
que dava para o gasto; do
conhecimento da língua iídiche
por via familiar cheguei ao alemão
e às traduções de textos de
Weber (vide vol. Weber,
Col. Pensadores, Ed. Abril).
Conheci o italiano através do
convívio com a família Abramo,
o francês aprendi com minha
companheira, que fora professora
de francês no 2º grau. A língua
inglesa, através da consulta
direta ao dicionário na formação
de um vocabulário inglês
especializado na área de ciências
sociais.
A
ênfase no item "conferências"
do currículo se dá pelo fato
do esmagador número de conferências
ter ocorrido no período do
"fechamento" político
da "abertura".
Foi
nesse período que o movimento
estudantil estava
extraordinariamente ativo e
promovia conferências de
professores que tivessem uma
atividade ante o cenário
universitário e o cenário político.
Nos
artigos publicados na grande
imprensa, cabe destacar aqueles
inseridos no jornal Notícias
Populares, onde durante 7
anos mantive uma coluna sindical
denominada "No
Batente". Essa coluna
traduzia, duas vezes por semana,
o que ocorria no interior das
empresas, na política sindical
e na política no geral. Por
interferência de grupos de
pressão empresariais e políticos,
ela deixou de ser publicada há
pouco tempo.
Minha
colaboração na seção
"Tendências e
Debates" na Folha de S.
Paulo acompanhou o fim do
regime militar e o início da
"abertura" política.
Hoje
ela está mais destacada, por
ter optado pela produção de
livros paradidáticos, conforme
os que estão em anexo: Reflexões
Sobre o Socialismo, Ed.
Moderna e A Revolução Russa,
Ed. Atual. Também estruturei a
Coleção "Pensamento e Ação"
junto à Ed. Cortez, com cinco
clássicos da política já
editados. Além da participação
em um sem-número de bancas
examinadoras de Qualificação,
Mestrado, Doutorado, Livre-Docência,
Adjunto e Titular, de candidatos
por esse Brasil afora.
Estou
agora trabalhando com
maquiavelistas chineses e
hindus, com Han Fei-Tsu e
Kautylia, preparando uma edição
crítica de suas obras.
Afora
as inúmeras teses orientadas,
muitas das quais editadas em
livros, parece-me importante
salientar uma influência que
tive a respeito da mudança
de paradigmas no ensino de
administração na FGV e na FE
da Unicamp. Segundo meu ex-
aluno Valdomiro Pecht, atual
professor da FGV, em sua tese de
mestrado acentua, a diferença
do enfoque da teoria
administrativa na FEA da USP e
da FGV devia-se à influência
exercida pelo meu artigo "A
Teoria da Administração é Uma
Ideologia?". Aí, a
burocracia é vista como uma
estrutura perpassada por relações
internas de status, na
relação de poder, enquanto na
FEA da USP burocracia era
estudada como estrutura
funcional que se amplia com a
ampliação da organização.
No
caso da FE da Unicamp, os
depoimentos informais de colegas
meus que ministram cursos na
graduação, foram meus
orientandos em teses de mestrado
e atualmente oriento-os em nível
de doutorado, me deram ciência
de que, com a introdução de
autores como Michel Foucault,
Trotsky, V. Thompson, James
Burham, Lapassade, a teoria da
administração escolar passou a
ser vista nos cursos de graduação
como um discurso do poder que
exprime relações de força nas
organizações.
Infelizmente,
por carência de tempo, não me
foi possível consultar a tese
de Pecht, ou levar a termo
afirmações informais de
colegas meus da Unicamp, que
ministram cursos na graduação
de Administração Escolar, para
provar documentalmente o que aí
escrevo. Porém, a tese de Pecht
está na ECA da Usp e os meus
colegas de área estão
presentes na Faculdade, possíveis
interlocutores no assunto em
pauta.
Concluindo,
penso que um professor que
consegue a mudança de
paradigmas numa área e fecundar
uma obra como a de Fernando
Prestes Motta, José Henrique
Faria, na teoria administrativa,
Fernando Coutinho Garcia, da
UFMG, conseguiu seu objetivo.
Isso porque, segundo os clássicos
chineses, influenciar é ter
poder.
Em
suma, os lados positivos dessa
trajetória só foram possíveis
de aparecer graças ao apoio
imenso da minha companheira,
Beatriz.
*Vide
PRADO, Antônio Arnoni (org.).
Libertários no Brasil.
São Paulo: Brasiliense, 1986.
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