E se o bichinho morrer?
Ter
um bichinho de estimação em casa é uma alegria, principalmente
para as crianças e os solitários. Apesar dos médicos alertarem
quanto a possíveis causas de alergias, asma, rinites e
doenças do gênero, ter um bichinho em casa faz bem para
a saúde mental dos humanos. Não sabemos, porém, se o mesmo
ocorre com eles.
Um detalhe escapa aos apaixonados pelos animais: geralmente
a vida do bichinho é mais curta que a humana, alguns sofrem
pelos maus tratos e a falta de liberdade, portanto, é
preciso estar prevenido sobre sua fuga ou perda definitiva.
A alegria momentânea em levar um pintinho para casa precisa
estar ciente de que provavelmente ele não sobreviverá
devido aos maus tratos, a solidão, falta de outros da
espécie, ausência de quintal se vai viver em apartamento,
etc. Em muitos casos, chega a ser crime previsto por lei
maltratar o bicho mesmo sem intenção consciente.
Por sua vez, a criança imagina que o bichinho de casa é parte
da família. Se pedirmos para a criança fazer um desenho,
provavelmente demonstrará que o bichinho habita seu imaginário
como se fosse gente, um membro normal da família.
Daí que a perda do bichinho – por morte ou fuga – normalmente
é sentido com tristeza, luto, angústia ou culpa, podendo
durar dias, meses ou anos. Adultos também sofrem quando
perdem o seu bichinho de estimação. O escritor e acadêmico
Carlos Heitor Cony não teve vergonha de expressar sua
dor em crônicas, quando perdeu a cachorra Mila. No filme
Madadayo, o velho professor cai em depressão depois que
sua gata fugiu. Pensando que o fariam novamente feliz,
os alunos trouxeram-lhe uma gata. Mas isso não acontece,
porque sua gata Nora era muito especial. Ou seja, bicho
ou gente nunca podem ser substituídos. Qualquer perda
gera vazio existencial.
Que podem fazer os pais? Psicólogos e psicanalistas acham
que: primeiro, devem levar a sério o sentimento de perda
da criança. Jamais fazer pouco caso, dizendo “Era só um
animal” ou “Podemos arrumar outro”. Agir com insensibilidade
não ajuda a criança a elaborar o seu luto. Pelo contrário.
“Não se realiza o luto do acontecido senão partindo
o pão da palavra, que diz a dor da perda, observou
psicanalista francês Philipe Julien (1993).
Todavia, se os sintomas de luto e tristeza depressiva durarem
muito tempo, recomenda-se levar a criança a uma entrevista
com um profissional da área psi. A melhor forma de enfrentar
esses problemas é falando sobre eles, tomando consciência,
por meio da palavra, do significado de quem foi embora,
que fazer com o vazio de agora. “Eu contaria a meus
filhos que há um bebê a caminho. Conversaríamos sobre
que nome dar se for menino ou se for menina... Se pudéssemos
falar da mesma maneira a respeito da morte, então penso
que viveríamos de forma diferente” (citado por Schaefer,
1991 ; 153), compara a médica Elisabeth Kubler-Ross.
Em segundo lugar, os pais devem respeitar o choro da criança;
respeitar o tempo de sofrimento da perda que todos nós
precisamos ter para reorganizar o sentido de existência.
Tentar acabar a tristeza com broncas e rispidez só faz
piorar as coisas.
Terceira sugestão: convidar a criança para fazer o enterro
do bichinho. Estimulá-la a dizer palavras de despedida.
Isso mesmo. Por que não homenagear um ser que nos foi
muito importante para o desenvolvimento da criança, que
lhe deu tantas alegrias e proporcionou tantas brincadeiras?
A perda de um bichinho - ou pessoa querida – exige tempo
e cuidados especiais para ser superada. Também pode ser
uma boa oportunidade para esclarecimento de questões fundamentais
sobre o significado da vida – de “minha vida” enquanto
representação “minha”, como diz Schopenhauer - bem como abre caminho para uma conversa interessante sobre os tradicionais
temais de filosofia, sobretudo a ética e as virtudes,
a relação alma e corpo, o papel da religião, o valor da
vida etc.
Contraditoriamente à crença popular, a maioria das crianças
e adolescentes quer falar sobre a morte. Os pais precisam
superar sua dificuldade e resistência para conversar assuntos
considerados tabus, como a: morte, sexualidade, paixões,
drogas etc. Apesar da morte ser um assunto tão banalizado
na mídia, ela ainda se constitui um tabu. Entretanto,
a nova geração acostumada à televisão, aos videogames,
os filmes violentos e os noticiários sobre o chamado mundo
cão, têm um olhar diferente sobre a morte e o morrer.
Ou seja, “a morte está para ser contemplada como espetáculo
que vem saciar os instintos de violência”, observa Libâneo
(1984: 83). Podemos dizer que, por um lado, a morte
e o morrer tornaram-se banalizados, e por outro, ela
continua sendo um tabu nas conversas ou na disposição para
se pensar sobre o impensável – pois nosso inconsciente
não têm representação, tal como entendia Freud.
A verdade é que amadurecemos psicologicamente quando encaramos
o sofrimento, a dor, a morte ou o vazio existencial sinalizando
“nunca mais...”. Em que pese o fato da morte ser sempre
um acontecimento inesperado da vida, cada caso requer
uma explicação especial, não importa se fantasiosa ou
cientificista. O acontecimento “ morte” sempre nos convida
– sujeito e coletividade - a procedermos uma reorganização radical
de toda nossa estrutura psíquica e de nosso sentido filosófico-existencial.
Enfim, “uma sociedade onde não exista o estímulo a pensar
no sofrimento necessariamente produzirá indivíduos
frágeis”, diz o filósofo P. Sloterdijk. Assim como
fazemos exercícios físicos para sermos sadios, também
devemos conversar, filosofar sobre os momentos difíceis
da vida, a fim de estarmos melhor preparados para enfrentar
tais dificuldades.