Por PAULO DENISAR FRAGA
Professor do Departamento de Filosofia e Psicologia da Unijuí, RSS


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Tiellet: o pensador e suas idéias

“É necessário que a filosofia volte a ser entendida não como um discurso esperado, inevitável mesmo, produto natural da razão; é preciso que ela nos pareça algo estranho, um estrangeiro recém-chegado à república discursiva dos gregos.”

(Paulo Cézar Tiellet, “O lugar da Rainha”, 1995)

Existe um princípio em filosofia, derivado da constatação ocular mais simples, que ensina que a eficácia de todo o olhar pressupõe a condição de algum distanciamento. Não admira, portanto, que esta regra epistemológica básica seja tão mais dura quando adentra pelo terreno das sensações, e se trata do olhar sobre alguém que, inarredavelmente, se fez tão caro, porquanto, também, humanamente tão próximo. Razão que torna mais fácil falar de um clássico do que de um mestre que ensinou soberanamente sobre eles.

Paulo Cézar Tiellet, professor de filosofia da Unijuí por duas décadas, almejava, na adolescência, tornar-se um escritor, no sentido literário da expressão. Nos anos 1970, com menos de vinte anos, compôs versos pujantes para uma “Autobiografia poética”, que concebeu como um “esboço de uma psicanálise literária”.

Entre as aventuras, que são dignas dos melhores espíritos juvenis, aos dezenove anos intencionou ir a Machu Pichu, mas parou em Santa Cruz de La Sierra. Numa atitude típica de toda a sua vida, não se deu por vencido, e sublimou altivo o seu intento escrevendo, a punho – como sempre escreveu –, a breve e bela novela “Faz frio em Machu Pichu”.

Ao tomar a poesia como descrição metafórica da própria vida, não tinha como não se deparar com a questão do ser, termo dileto que talvez o tivesse trazido para e que, por certo, pensado amplamente, o faria permanecer no mundo da filosofia. Nesta seara, nos anos 1980, recombinou mais nitidamente poesia e filosofia, flertando com Aristóteles ao desenhar uma “Nova poética”, que acompanhava, paralelamente, contos esparsos sobre temas que ele, por certo, imaginava exigirem mais do que o rigor do discurso racional puro e simples.

Sereno na expressão, de espírito generoso, mas radicalmente inquieto, tornou-se um contundente crítico social. Mesmo nos anos de sua mais intensa militância, que o fez dirigente nacional do MR-8 e, depois, do PCB gaúcho, nunca descuidou do aporte filosófico das questões políticas. Exemplo emblemático dessa postura ele manifestava quanto ao legado de Lênin. Lembrando o livro de Althusser, Lênin e a filosofia, fazia questão de recusar a idéia de que a obra do revolucionário russo teria tido valor político, mas não propriamente filosófico.

Por esses caminhos diversos, que trilhavam a impressionante formação universal do seu espírito, encontrou-se, finalmente, na síntese do iluminismo francês que, para ele, mais aberto às expressões do mundo literário e das belas artes, aparecia como mais rico do que o alemão, de natureza mais “kantiana” e formal. Não se cansava de elogiar uma cena do filme Giordano Bruno, de Giuliano Montaldo (1973), quando o filósofo renascentista, identificando o seu metier para a Inquisição, disse: “Scrittore e filosofo!” Era, para ele, o melhor abre-alas da modernidade, prenúncio firme do Siècle des lumières.

Entre os iluministas franceses, optou por Etienne Bonnot de Condillac, sobre o qual defendeu, com nota máxima, sob a orientação de Flávio Siebeneichler, na Universidade Gama Filho, a dissertação “Conhecimento e ética em Condillac: o manejo social da língua”. Teoricamente, insistia que, diferentemente da recepção predominante de Condillac no Brasil, marcada pelo viés da teoria do conhecimento, seria possível apontar uma dimensão ampla – moral e política – na sua obra. Nesta procura, permanecia coerente, em suas pesquisas, com a outra dimensão que, sob a influência de Marx, o preocupou em sua vida: a da política e da emancipação humana – síntese temática que já perseguia em 1987, quando organizou Conhecimento e política (Ed. Unijuí). Deixou inacabados seus estudos doutorais, em que levaria a termo as suas teses originais sobre Condillac. Roberto Romano, seu orientador na Unicamp, considerava que tais textos preencheriam uma lacuna nos estudos do século dezoito no Brasil.

Paulo Cézar Tiellet morreu muito cedo, aos 46 anos. Seu último livro, contudo, não foi de Condillac. Foi o mesmo de muitos jovens do século dezoito que, nos seus últimos dias, se faziam acompanhar da obra mais famosa da literatura alemã, Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe. O que sugere que, no seu silêncio para com familiares e amigos, o filósofo Tiellet conhecia para si o seu destino. E o enfrentou com a mais alta grandeza, tal como debatia política e filosofia nos melhores anos de sua vida. Encarou a sua finitude com a dignidade de um Sócrates que, em suas horas finais, repreendeu os seus discípulos para que não começassem com lamúrias. Como intelectual e professor extraordinário que era, ele viverá na memória daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo e de ouvir as suas lições.

 

PAULO DENISAR FRAGA

 

 
 

* Versão ampliada de texto publicado no jornal Hora H, Ijuí, 26.set.-02.out.2003, Hora H Gente, p. 2.


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