Rediscutindo
a eutanásia
O Conselho Europeu tem discutido a eutanásia sem chegar
a um consenso. A divisão é tão clara que, tendo uma dimensão
geográfica, chega a causar questionamentos. Os países nórdicos
querem sua legalização enquanto o sul continua com a inabalável
opinião contrária. Seria isso uma influência climática,
política, cultural de cada região?
Os argumentos de ambos os lados não são suficientes para converter a
oposição. Os favoráveis alegam que os doentes devem ter
plena autonomia para decidirem se querem continuar sofrendo
ou não (em casos de inconsciência do doente, caberia à família
tal decisão); além disso cada vez mais médicos assumem que
aceitariam praticar o ato em segredo.
De outro lado os não favoráveis lutam para que a vida seja mantida em
não importa qual situação, apoiam-se no que diz a declaração
do Conselho Permanente de 1991, onde: "todo
homem tem o direito e o dever, em caso de doença grave,
de receber os cuidados necessários para conservar a vida
e a saúde."
Aceitar a eutanásia seria, para esses últimos, um regresso científico.
Se chegamos ao ponto de encontrarmos a cura para várias
doenças, seria retroceder ao admitir a interrupção de um
tratamento ou, mesmo, a indução à morte.
Tem-se detectado casos de pessoas que, após anos em coma, apresentaram
melhoras consideráveis e até cura total. Entretanto, ainda
são maiores os resultados opostos a esses.
Nos últimos tempos tenho observado (tanto na França como no Brasil) pessoas
reivindicando tal prática, inclusive mães que pedem a morte
de seus filhos por não terem condições de dedicarem-se devidamente
às suas deficiências. Essa atitude é deveras chocante, porém,
é preciso ouvir o grito mais forte que vem por traz desses
pedidos: na verdade, há um clamor por melhores condições
de vida, maior assistência e menos discriminação para com
os doentes e deficientes. Quando se roga pela morte procura-se,
verdadeiramente, a vida. Uma vida digna onde caiba o convívio
com as diferenças, com as limitações de cada um. Uma vida
que respire esperança ainda que ela seja transportada por
tubos.
Ao menos, a Assembléia Nacional Francesa decidiu criar uma missão de
informação parlamentar sobre o assunto e uma grande conferência
acontecerá nos dias 14 e 15 de janeiro de 2004. Talvez até
lá as idéias estejam mais maduras e o país, que diz ser
a favor da legalização com algumas ressalvas, possa ter
uma resolução final.
A questão é complexa, tomar uma posição é um caso de vida ou morte. Qual seria a melhor
opção? Se
temos a liberdade de escolha, tenhamos claras as consequências
provocadas por ela. Agora, no inicio do seculo XXI, devemos
ultrapassar fronteiras, culturais ou políticas, pois, de
norte a sul, cabe ao homem essa decisão.