Dedicado
a Salvador Piton, querido professor e amigo,
e a Regina
Domiciano, amiga de tantos anos.
Ambos se
foram cedo demais, sem tempo para despedidas.
A idéia
para esta secção especial da REA surgiu de conversas informais
com amigos, quando comentávamos como é difícil perder um
amigo ou um parente, e como todos vivemos com o temor de
um telefonema no meio da noite, ou de uma carta que vem
de longe, dando a notícia que ninguém quer receber. Para todos nós que moramos longe das nossas famílias, e cujos pais
estão velhinhos, o medo é uma constante. E como conversa
puxa conversa, acabamos comentando, bastante informalmente,
como algumas culturas reagem de maneiras diferentes à morte, mas que,
de maneira geral, a dor muito humana da perda de alguém
é universal. Deste bate papo informal chegamos à conclusão
que seria uma boa idéia colocar em termos de pequenos ensaios
e artigos esta olhada multicultural a como, embora a dor
seja a mesma, as manifestações externas diferem tanto, quando
se trata da morte.
A partir
do momento que concluímos que tal assunto seria interessante
para esta secção especial, foi um passo começar a contactar
amigos e conhecidos de vários países e áreas de estudo. Alguns aceitaram e se puseram a pesquisar e escrever.
Mas outros simplesmente se recusaram a escrever sobre tal
assunto, uns porque ainda estão passando por um luto muito
doloroso, e outros porque acharam que não poderiam escrever
coerentemente sobre a morte. Outros acharam que não teriam
tempo de escrever. E, por fim, uns disseram que escrever
sobre tal assunto seria de mau agouro.
Como tal
resposta veio de pessoas do meio acadêmico, gostaria de
pausar por um momento no assunto do mau agouro, e ver como
ele pode ser impedimento a que alguém escreva sobre um determinado
assunto. O mau agouro, o azar, é algo que parece estar associado
em muitas culturas com a possibilidade da morte e da danação,
ou, para os cristãos, para o sofrimento eterno, o inferno.
O azar seria, então, ao mesmo tempo punição de algo, e ímã
atraindo ainda pior sorte, especialmente a do tipo que dura
para sempre. A decisão de não insistir com os colegas foi
fácil: ninguém colocaria amigos em tal situação, por mais
importante que a contribuição pudesse ter sido. A atração
de alguma coisa negativa, de uma energia que só se extingue
à custa de uma vida, ou de muita dor, é algo em que muitos
acreditam (tanto em nível racional como em nível emocional),
e acreditar é meio
caminho andado para que qualquer coisa se realize.
Já entre
os outros que não tinham tempo para escrever, percebi duas
atitudes diferentes: uns, acharam que não valia a pena escrever
sobre a morte, porque "todos já sabem do que se trata,"
e outros, porque queriam entrevistar pessoas de alguns grupos,
e o tempo realmente não era suficiente para esta edição.
Talvez no futuro, possamos publicar artigos sobre
assuntos que estes colegas sugeriram, quando eles
tiverem tempo de escrever.
Na verdade,
apesar das diferentes razões que mesmo os que não se prontificaram
a escrever deram, todos tinham, de alguma forma, um conhecimento
específico do que a morte representa e, além dela, sabiam
de alguma maneira de homenagear os mortos, ou apaziguar
os espíritos dos que já se foram. Isto parece que é algo
que todos reconhecemos, não importando cultura, classe social,
nível de escolaridade. De acordo com antropólogos, os seres
humanos já vêm fazendo estas homenagens, estes rituais funerários,
há muito tempo. Me lembro de ter lido há muitos anos atrás,
e ficado devidamente impressionada, que cientistas tinham
encontrado um esqueleto humano petrificado, e junto ao esqueleto,
também petrificados, se encontraram vestígios de flores
que eles deduziram terem sido trazidas e colocadas ao lado
do morto. Como concluíram que as flores haviam sido trazidas
e não tinham simplesmente crescido ali?
Porque as flores não cresciam naquele lugar, e para
elas estarem ali, deveriam ter sido cortadas e trazidas
pelos que participaram de uma cerimônia funerária. Esta
explicação faz algum tipo de sentido, mesmo que uns possam
dizer que, na realidade, quando os cientistas dão estas
explicações, estão na realidade contando uma história, um
conto, que nos ajuda a compreender a nossa humanidade. E
a nossa humanidade tem muito a ver como nos relacionamos
com os mortos, como os respeitamos, como nos despedimos
deles. Nós somos os animais que sabemos que vamos morrer,
e a morte nos fascina. Esta fascinação é, de qualquer forma,
uma das maneiras em que nos diferenciamos dos demais animais.
A estranha
fascinação com a morte também pode ser vista na existência
de múmias em quase todas as partes do mundo. Estes restos
mortais, preservados para durar e levar a alma da pessoa
até outra dimensão, são encontrados tanto no Egito, como
nas Américas, como na Europa, e até mesmo na Ásia. Em algum
ponto da maioria das culturas, ao que tudo indica, as pessoas
concluíram que há uma outra vida além desta, e que pelo
menos alguns indivíduos merecem ser mantidos e preservados
para a passagem de um lado a outro. Entre os egípcios, como
sabemos, se preservavam não somente os corpos dos faraós
e membros de suas famílias, mas os corpos de quem tivesse
dinheiro suficiente para pagar pelo custoso processo. Há também o caso de múmias “espontâneas”, aquelas que
a composição do solo, ou outras características ambientais
– neve, acidez da terra – produziram múmias em várias partes
do mundo. Na América Latina, por exemplo, caso especial
é o dos antigos habitantes
do que hoje é o Peru, que sacrificavam crianças nas montanhas
dos Andes, provavelmente para apaziguar os deuses. Ainda
se podem encontrar estes corpos, ricamente vestidos e enfeitados,
quase que completamente conservados, mumificados pela neve
e o gelo. Também desta região do Peru, e em parte do Chile,
vêm as múmias dos Chinchorros. Assim como as múmias dos
Egito, estas também requeriam grande trabalho, sendo que
o processo de mumificação exigia grande conhecimento científico.
(Ver http://www.mummytombs.com/mummylocator/group/chinchorro.htm
para mais detalhes). Na Irlanda, na região pantanosa que
se chama "bog" já se encontraram vários corpos
de pessoas que viveram ali há vários séculos, mumificados
pelos componentes químicos do lugar. O mais famoso deste
antigo habitante da Irlanda mereceu um poema de Seamus Heaney,
poeta irlandês que ganhou o prêmio Nobel de literatura em
1995. Na Dinamarca, perto da vila de Grauballe, em 1952,
foi encontrado um corpo mumificado na lama, e sua idade
aproximada foi calculada em mais de mil anos. Na Rússia,
foram encontradas múmias dos reis do povo chamado Scythian,
que viveram naquela região do século VIII ao VI
A.C. Na Ásia Central, na região da bacia do rio Tarim,
foram encontradas múmias também, conservadas por 4.000 anos
pelo clima seco e pelo sal da terra. E por aí vai, pelo mundo afora.
No nosso
Brasil tropical, pelo menos que eu saiba, não há múmias,
embora esta palavra, "múmia", seja uma das maneiras
que podemos usar para nos referir a alguém de forma pejorativa.
Mas, mesmo não tendo múmias de verdade, temos histórias
de tumbas que, por assim dizer, contam a história da pessoa
enterrada nela. Cada cemitério tem uma destas. Quem não
sabe de histórias de uma tumba "que chora", ou
na qual flores estranhas crescem, ou da qual alguns dizem
que ouvem sons em certos dias? Uma das mais interessantes
que eu conheço, é a história de duas cunhadas que se odiavam
em vida. Quando a primeira morreu, ela foi colocada no jazigo
da família. A segunda, já velhinha, disse a todos que não
a colocassem no mesmo jazigo, porque ela seguia odiando
a finada. A família se esqueceu do pedido, e quando a segunda
velhinha morreu, colocaram seu corpo junto com o da parente.
Não deu outra: o túmulo rachou. A família então resolveu
remover o corpo e colocá-lo em outra parte do cemitério,
para evitar que a rusga das duas continuasse se manifestando
de maneira tão escandalosa. Se é verdade esta história,
eu não sei. Mas é uma história interessante.
Já em alguns
lugares da África ocidental, por exemplo, os locais tinham
muito medo do que as pessoas chamadas “griots” podiam
fazer depois de mortos, e por isso em algumas regiões
do Senegal, “enterravam” seus corpos de uma maneira muito
estranha. Os griots ainda hoje em dia funcionam como
artistas, historiadores, contadores de histórias, artistas
ambulantes, genealogistas, e jornalistas. Eles vão de um
lugar ao outro levando e trazendo notícias, contando histórias,
cantando músicas. No passado, quando um griot morria,
a comunidade onde ocorria a morte abria o tronco de um baobá
— como se sabe, uma árvore imensa - e ali dentro colocavam
o corpo do griot. (Ver mais informação em Thomas
Hale, Griots and Griottes, Indiana University Press,
1998.) Talvez a comunidade quisesse, assim, preservar o
fato de que o griot tinha tanta importância que deveria
continuar “vivendo”
dentro do organismo vivo que é a árvore. Mas talvez, o
que este costume revele é aquilo que cada um de nós sabe:
a morte nos fascina, nos amedronta, e nos lembra, a cada
momento, que ela existe e que faz parte da vida.
Outra coisa
que sabemos é que a morte é, em todo mundo, é uma ocasião
triste, mesmo quando a pessoa que morre já é velha, ou está
doente. Depois dos primeiros momentos, em alguns casos, talvez
a família respire aliviada por não estar mais testemunhando
o sofrimento do doente, ou a demência do/a velhinho/a, mas
logo vem a consciência que esta pessoa jamais vai ser vista
outra vez. Sua voz nunca
mais vai ser ouvida. A pessoa morta não vai mais vir para
jantar. Não vai mais telefonar. Não vai mais poder convidar
para um cafezinho, ou dar uma bronca, ou contar uma piada,
ou simplesmente ESTAR no mundo com a gente. A pessoa que
morreu não vai mais mudar. Não
vai mais envelhecer. A pessoa que morreu vai seguir por
um caminho que nós não conhecemos.
E é aqui
que começam as muitas homenagens aos mortos, as muitas cerimônias
tentando apaziguá-los, consolá-los, ou mesmo entrar em contato
com eles. Neste momento, surgem as diferentes manifestações
culturais que se centram nestas tentativas de reencontrar
a pessoa que se foi. Desde as sessões espíritas em que as
pessoas mortas supostamente voltam e falam pela boca do
médium, as cerimônias especiais em algumas culturas indígenas
em que membros vivos entram em transe e se conectam com
os espíritos dos ancestrais, e mesmo aos milagres que os
cristãos atribuem aos santos (que são nada mais nada menos
pessoas que viveram alguma experiência excepcional, e que
em resultado adquiriram status especial), todas são formas
de contacto com os que estão do outro lado.
Onde eu
moro, perto do México, o dia dos mortos — “el día de los
muertos” — é uma ocasião especial, porque tantas pessoas
de San Antonio são ou mexicanas ou de origem mexicana. Em
cada casa de família, para o dia 2 de novembro, se monta
um altar, no qual são homenageados os mortos da família.
Também em alguns lugares públicos tais altares são montados,
homenagens são feitas, em uma maneira de manter viva a tradição.
Além das fotos dos finados, estes altares contêm o “pan
de muerto” — um tipo de rosca doce que pode ser feita em
forma de caveira. No altar também há flores, velas, perfumes,
coisas que os finados gostavam, e até cartas para eles,
escritas por familiares e amigos. Para as crianças se distribuem
caveirinhas de açúcar, e também há muitos bonequinhos com
formas de esqueletos em posições divertidas. Este costume,
que vem dos tempos pré-colombianos, indica que neste dia
as almas dos parentes visitam a terra, especialmente a casa
da família, e assim têm a ocasião de passar tempo com os
parentes, matando as saudades, escutando as novidades.
Mas muitas
pessoas não acreditam que há um outro lado. A morte, para muitos, é um final definitivo, e não uma passagem.
No entanto, mesmo para estes é possível usar esta ocasião
para dizer algo; podemos citar como
exemplo as cerimônias funerárias em que a família
do morto se esmera nas suas demonstrações de riqueza e poder.
Tais cerimônias têm como intento alcançar mais status para
a própria família do morto, e esta ocasião o espaço cultural
da cerimônia pode ser considerado a sua última contribuição
à família. No Brasil, como sabemos muito bem, muitos usam
até o cemitério para fazer suas afirmações de riqueza e
status: basta ir a qualquer um, e ali estão os túmulos feitos
de materiais caros, extremamente enfeitados, e com o nome
da família em destaque. É impossível não comparar tal costume
com um que existe nos Estados Unidos, em que, em geral,
os cemitérios são bastante simples, e as famílias fazem
doações para várias causas em homenagem ao morto. De fato, tanto pelos excessos de demonstração de poder,
quanto pela simplicidade das tumbas, os cemitérios podem
ser tomados como uma manifestação histórica, cultural, artística,
religiosa, e até política. Parece ser um fato mundial que, embora a morte possa
significar a cessação da presença física da pessoa morta,
não significa que a sua contribuição para a sua família,
grupo social, partido político, ou país, cessem com a sua
morte física.
Aí entramos
em um aspecto muito interessante das cerimônias funerárias,
e das atividades especiais durante o período de luto, que
diferem não só de uma cultura à outra, como também de um
tempo ao outro, e às vezes até de uma região à outra dentro
de um mesmo país. Um
fato interessante na Inglaterra, por exemplo, é que a rainha
Vitória, quando seu marido Alberto morreu, em 1861, estabeleceu
uma série de normas a serem seguidas durante o luto, desde
a roupa negra, papéis de carta com uma faixa negra, até
os elaborados funerais. O período de luto variava dependendo
da relação que a pessoa tinha com o morto. Havia o seguinte
quadro:
Morte
de Período de luto
Marido
.....................................................dois
ou três anos
Esposa......................................................três
meses
Pai ou
filho ...............................................um
ano
Irmão ou
irmã............................................seis meses
Avós..........................................................seis
meses
Tias e
tios..................................................três
meses
Sobrinhos
e sobrinhas...............................dois meses
Tios avós...................................................seis
semanas
Primos
......................................................quatro
a seis semanas
Esta relação
nos leva a concluir, por exemplo, que a perda de uma esposa
era menos importante que a perda dos avós. Isso
nos leva a outra consideração, a do valor da relação entre
a pessoa morta e quem a perdeu. Há a relação aos parentes
e amigos mais próximos, mas também temos outra categoria
de pessoas cuja morte nos afeta embora talvez nunca tenhamos
visto esta pessoa em “carne e osso”. Estes
são os nossos ícones culturais, e podem vir da arena artística,
política, e religiosa. Na nossa América Latina, por exemplo,
podemos citar Evita Perón, e Che Guevara. No Brasil, podemos
citar Carmem Miranda, Getúlio Vargas, Ayrton Senna, e mesmo
Tancredo Neves, e muitos outros. (Cada um de nós tem seus
favoritos.) Dos vizinhos de cima, nos lembramos de John
Kennedy, Martin Luther King Jr., Malcom X, Marilyn Monroe,
Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Elvis Presley, Kurt Cobain,
entre outros. No caso destes nomes citados, muitos choraram
sua morte como se eles fossem da própria família. Em alguns
casos, como Mao na China, ainda hoje multidões visitam seu
mausoléu e choram sua perda.
Todos estes
assuntos são fascinantes em si
mesmos. Mas,
como espaço e tempo são de relevância, nossa secção deste
mês na REA vai se restringir a artigos que certamente não
cobrem todos estes aspectos, mas é uma tentativa inicial
de discutir o assunto.
Aqui fica o convite aos leitores, que podem continuar
a discussão entre si, ou mesmo entrar em contacto com a
direção da revista com sugestões de artigos. Falar da morte,
entender como ela é tratada no mundo inteiro, não deve necessariamente
ser assunto depressivo, ou macabro. Entender como vemos
a morte nos ajuda a entender outros mecanismos da sociedade
humana, e, espera-se, nos ajuda a entender como fazer a
vida melhor, mais significativa, mais respeitada.