Ngaben ou Pelebon:
A festa da morte em Bali
Um
amigo meu que morou e trabalhou quase no mundo inteiro costuma
dizer que a Indonésia é um planeta à parte. E ele tem bastante
razão. O arquipélago que forma o que hoje conhecemos pelo
nome de Indonésia tem ilhas de vários tamanhos, e pode-se
dizer que em cada ilha existe uma religião diferente, embora
a dominante seja a muçulmana. De todas as ilhas, no entanto,
mesmo em um país tão cheio de religiões, Bali é, talvez, um
dos lugares do mundo que tem mais cerimônias religiosas. Neste
pequeno artigo, quero fazer uma rápida apresentação de algumas
destas cerimônias religiosas em Bali, e deter-me na que muitos
dos balineses consideram a mais importante, a cerimônia de
cremação dos mortos.
Bali é
uma ilha relativamente pequena, com aproximadamente 3 milhões
de meio de pessoas. O território é quase todo montanhoso;
há terremotos, e há alguns anos um dos vulcões da ilha explodiu.
Nada é desperdiçado: o material expelido pelos vulcões, quando
esfria, se transforma num tipo de pedra cinza escura, que
os balineses usam para fazer suas elaboradas esculturas.
A ilha
sempre teve habitantes, os quais
tinham sua religião própria, e viviam dos recursos
naturais. No século XVI, quando a religião
muçulmana tomou conta da ilha de Java (que fica a uma
milha ao oeste de Bali), os javaneses hindus—especialmente
os nobres, os sacerdotes, e os intelectuais—se refugiaram
em Bali, e para lá levaram suas crenças, assim como suas habilidades
artísticas. Atualmente, Bali é a única ilha da Indonésia que
retém uma forma de hinduismo, mesclada com budismo, e com
o culto aos antepassados, que era a religião dos habitantes
locais. É possível afirmar-se que, devido a esta hibridização
e a fatores autóctones da própria ilha, a religião de Bali
é uma das mais tolerantes do mundo.
E não é
para menos: uma religião que tem um número ilimitado de deuses
e deusas, cujos praticantes fazem ofertas de flores, enfeites
e incenso aos deuses pelo menos 3 vezes ao dia, pode sempre
aceitar um deus a mais, uma cerimônia a mais. Naturalmente, há uma hierarquia entre os deuses,
assim como há uma divisão entre as cerimônias. Existem, desta
maneira, o que poderíamos chamar de rituais que comemoram a pessoa individual, e aqueles em que a comunidade —enquanto corpo
cósmico, político, religioso e ideológico—se reafirma.
O ritual
mais importante que envolve toda a comunidade balinesa é conectado,
e se chama Galungan e Kuningan. O primeiro, Galungan, sempre
começa numa quarta feira, e consiste de quatro dias de festa,
durante os quais a frente das casas é enfeitada de decorações
feitas com bambu e flores. Durante estes dias, os deuses estão
na terra e caminham com as pessoas. No domingo, se acabam
as festas, mas as decorações permanecem para Kuningan, que
começa no sábado seguinte. As decorações continuam onde estão,
e um ar festivo permanece também. Nesta ocasião as famílias
comemoram os ancestrais, e lhes oferecem flores e comida.
Há muitas danças e canções nos quintais, nas ruas, nas praças
públicas.
Outro festival
importantíssimo para Bali é o Nyepi, que é a purificação anual.
Este dia é comemorado no começo do décimo mês balinês, e cai
geralmente no fim de março ou começo de abril. Na noite da
véspera de Nyepi, as pessoas saem à rua com grande ruído,
gritando, batendo em latas, e carregando o Ogoh Ogoh, um boneco
que representa o mal, que será espantado pela barulheira.
No dia seguinte, ninguém sai de casa ou acende fogos, para
não atrair o mal de volta.
Estas ocasiões
são extremamente festivas em Bali, porque todas as comunidades
têm pelo menos um templo local que acomoda os residentes,
e em geral as festividades atingem seu ponto máximo no templo.
As pessoas participam ativamente das comemorações, e, eu creio,
usam estas ocasiões para rever amigos, colocar as novidades
em dia, além de fazer suas devoções especiais.
Como ao
que tudo indica toda pessoa que nasce em Bali é um artista
em potencial, não é de se admirar como os templos e as casas,
são enfeitados com flores, complicadas tranças feitas com folhas
de bambu, e com flores de massa que os mais velhos—mulheres
e homens—se juntam em volta do templo para fazer na véspera
dos festivais. Parece que há um trabalho para cada um, no
imenso esforço comum de fazer uma festa para todos. Até os
cachorros em Bali parecem saber que eles têm uma função nestas
festas, e ficam passeando aqui e ali, observando, filosoficamente,
os que estão trabalhando.
Por fim,
entre os festivais comunitários, está a festa de aniversário
de cada templo, comemorada cada 210 dias. Considerando-se
que em Bali até os arrozais têm vários pequenos templos (cada
um homenageando o deus que toma conta daquele canto do arrozal),
fica fácil ver porque há tanta festa na ilha.
Nos rituais
para a pessoa, pode-se dizer cada pessoa de Bali começa a
ter a sua vida comemorada desde que a gravidez da mãe é comprovada,
e esta comemoração segue pela vida inteira, marcando as várias
etapas da sua vida. Cada balinês nasce dentro de uma comunidade,
e as passagens da sua vida, ao serem comemoradas, reafirmam
tanto sua existência pessoal, como a continuação das tradições
da sociedade.
Os rituais
para o indivíduo, ou dos ciclos da vida, incluem: a saudação
à união do homem e da mulher, que dará início ao feto; o ritual
do sétimo mês de gravidez; o ritual do nascimento. Assim que
o bebê nasce, a tradição reza que a criança não deve tocar
o solo ou um animal até o fim do primeiro ano, comemorado
210 depois do nascimento. Mas, antes deste aniversário, há
vários outros rituais, que têm lugar aos
7, 12, 35, 47, e 90 dias depois do nascimento. Em cada
um destes dias se comemora um avanço no desenvolvimento do
bebê. A família toda tem ocasião de participar e ficar feliz.
As crianças são festejadas constantemente em Bali.
Depois
do primeiro aniversário, a cada 210 dias a pessoa comemora
mais um. Por volta dos vinte anos de idade, cada balinês tem
o que se chama o ritual Mesangih, que consiste no corte—ou
serragem--dos seis dentes centrais da mandíbula superior,
e significa a entrada na vida adulta. Mais tarde, quando o/a
jovem vai assumir o compromisso do casamento, uma outra cerimônia
- Mepadik - é necessária. Finalmente, a cerimônia do casamento é chamada
a Mesakapan. Embora tecnicamente estes sejam todos rituais
que tem a ver com a pessoa individual,cada um deles é tomado
como ocasião para toda a comunidade, e por isso é impossível
passar-se uma semana em Bali sem topar com as coloridas procissões,
muitas envolvendo pessoas, animais, andores, flores, e incenso,
indo ou voltando de um destes rituais.
Finalmente,
há o Ngabem, ou a cerimônia da cremação.
Muitos acreditam que esta é a cerimônia mais importante
de Bali, porque ela catalisa todas as crenças que se manifestam
nas cerimônias públicas e rituais mais privados.
Como os
rituais relacionados ao indivíduo indicam, a religião hindu
balinesa acredita que a alma da pessoa se reencarna, e tem
que passar por várias fases para atingir a Moksha, ou a libertação
eterna. Os que não conseguem atingir a perfeição voltam ao
mundo e têm que atravessar as mesmas fases, em busca da libertação.
Depois da morte, os cinco elementos cósmicos—ar, terra, fogo,
água, e espaço exterior—acompanham a pessoa na viagem após
a morte, e a ajudam a atingir a Moksha.
Mas Ngaben
não pode ser feita a qualquer dia, muito menos oficiada por
qualquer um. Um dia
propício tem que ser determinado, e a família do/a morto/a
tem que ter o dinheiro para financiar a grande cerimônia e
festa. Às vezes o dia propício só chega vários anos após a
morte, o que deve ser um problema para a alma da pessoa, que
não pode ser liberada antes da cremação.
Enquanto se espera tanto pela época propícia como pelos
fundos necessários, o corpo é temporariamente enterrado.
Quando o dia da cremação chega, se desenterra o corpo,
e se faz a cerimônia. Se acontece de uma comunidade ter vários
corpos que foram enterrados e as famílias estão esperando
pela época propícia para a cremação, é possível fazer-se uma
cremação conjunta, o que ajuda nas despesas.
Esta seqüência,
que pode parecer no mínimo bizarra para nós brasileiros, é
perfeitamente normal para os habitantes de Bali. Durante minha visita à ilha, tive a oportunidade de conhecer um
rapaz balinês chamado
Made, que meu marido e eu contratamos para ser nosso motorista
durante nossa visita. Esta é uma prática bastante comum, já que as
estradas em Bali são difíceis, e os caminhos complicados. Made nos mostrou vários lugares interessantes,
nos apresentou a pessoas que conhecia, e nos falou de sua
vida diária, e de seus planos para o futuro. Quando lhe perguntamos
se ele tinha planos de se casar, ele nos informou que ainda
não tinha tido a sua cerimônia do corte dos dentes, o Messangih,
mas que estava juntando dinheiro para fazê-la em breve.
Quando ele nos disse que seus pais haviam morrido quando
ele era pequeno, o assunto de funerais veio à tona. Meu marido
perguntou a Made se era verdade que eles são elaborados. Ele
confirmou. Depois lhe perguntamos se ele já foi a algum funeral.
Made riu e disse: "Eu FAÇO funerais!"
E como,
exatamente, é feito este funeral? Como já se pode ter percebido,
ele é muito mais que simplesmente a cremação dos restos mortais. Primeiro, o corpo é levado
da casa da família—se a cremação se faz imediatamente depois
da morte—ou do local de onde foi desenterrado (no caso da
morte ter ocorrido algum tempo antes), e então levado ao local
da cremação, onde ele vai ser devolvido aos cinco elementos
originais: a terra
(Pertivvi), a água (Apah), o fogo (Teja ), o ar (Bau), e o
éter (Akasa ). O corpo é levado numa espécie de andor feito de bambu
ou lata, enfeitado de flores, espelhos e sedas coloridas.
Este andor—cujo tamanho é determinado pela importância do
morto--é carregado nos ombros de homens da comunidade.
Mas esta
procissão não pode ir diretamente ao lugar da cremação, porque
se o espírito do morto se lembrar de onde vivia, pode ficar
voltando e aborrecendo a família. Ele precisa ficar confuso
quando ao caminho da casa da família. Também é necessário
confundir os possíveis espíritos desocupados que se encontrem
pelo caminho da procissão e resolvam segui-la, o que, considerando
o fato que o espírito do morto pode se lembrar de onde vivia,
resultaria em uma grande confusão de espíritos aborrecendo
a família, trazidos pelo espírito do parente morto. Isto faz
bastante sentido, porque os balineses são extremamente amigos
de se reunirem em grupos para bater papo, contar histórias,
ir juntos a vários lugares, portanto não seria estranho que
os espíritos dos balineses continuassem fazendo o mesmo, e
acabassem indo bater na casa do morto. Por esta razão, as procissões funerárias, além
de serem coloridas e festivas, também são complicadas, porque
envolvem andar em círculos, tomar caminhos de ida e volta,
enquanto um sacerdote sentando no andor joga água benta na
procissão e nos que se encontram na beira da estrada,
para protegê-los. Vale quase tudo para confundir os espíritos.
E, pelo que tudo indica, para promover uma bela festa. De
fato, estas ocasiões são tão elaboradas, que praticamente
todos os membros da comunidade têm que participar no evento
e contribuir de alguma maneira, mesmo quando a família é rica.
Depois da cremação propriamente dita, as cinzas são dispersas
no ar e na água (de um rio, ou do mar).
Então,
também em Bali, uma cultura bastante diferente da nossa ocidental,
usa a ocasião apresentada pela perda de um individuo da comunidade
para refazer e reforçar os laços de amizade e parentesco que
atravessam esta comunidade. Naturalmente, as pessoas sentem
grande tristeza pela morte de um parente, ou um amigo. Mas,
como afirmou Made, esta separação é passageira, e ele tem
certeza que vai encontrar-se mais uma vez com todos que se
foram antes dele, desde que eles tenham sido corretamente
liberados através das cerimônias apropriadas.