O
indivíduo e a morte
“Ao meu partido me fizeste indestrutível porque
contigo não termino em mim mesmo”.
Pablo
Neruda
Não há nenhuma experiência humana que
possa ser comparada à morte. Em primeiro lugar, ela é tão
única que sequer permite a possibilidade de tematização
por parte de quem a vivencia. Em segundo lugar, não há ser
humano que não passe por ela e que, no decorrer de sua vida,
não tenha, no mínimo, se preocupado com ela. Mas, por que deveríamos nos preocupar com algo que,
quando vier a acontecer conosco, já não estaremos mais existindo?
É exatamente esta a preocupação: a idéia da “não-existência”
e a impotência diante desta obviedade da existência humana:
a finitude da vida individual.
Numa sociedade centrada no indivíduo, somos tencionados
a tratar os outros com indiferença, a sobrevalorizar nossa
existência individualista, a nos afirmar como sujeitos autônomos
e auto-suficientes, alimentados pela ânsia de competir com
os outros, “conquistar” espaços e acumular riquezas para
nós mesmos e/ou, no máximo, para nossa família. Assim, o
ciclo: nascer, acumular, reproduzir e morrer parece definir
toda a trajetória normal do ser humano na sociedade capitalista.
A idéia da morte chega como estágio final de uma vida “predestinada”
ao cumprimento da normalidade das coisas. No entanto, no
confronto com a morte, a normalidade prevista passa a ser
questionada. Afinal, nesse momento, o “endeusado” indivíduo
deixa de existir e a vivência em torno de si mesmo perde
seu sentido. Como resolver esse dilema?
Uma alternativa é a crença na vida após a morte, com
a salvação da alma privada, longe do castigo de um inferno
coletivo, comum à maioria das demais. Será que há alguém
que, por mais ateu que se declare, não tenha, pelo menos
uma vez, acreditado nisso, mesmo que no final da sua vida?
O fenômeno continua único e, portanto, a liberdade da crença
nas mais diferentes variantes de vida após a morte é um
direito de cada um e, como dizia Ludwig Feuerbach, essa
é uma das grandes virtudes das crenças que, nestes momentos,
servem para aliviar o sofrimento humano diante do inevitável.
Mas, há uma outra alternativa que pode substituir a anterior
ou, então, pode ser combinada com aquela. A idéia de uma
“imortalização” a partir de grandes feitos, escritos, pinturas,
ações que extrapolem a normalidade das coisas e permitam
um lugar novamente individual, destacado dos outros. Essa
expectativa de ficar na história, através de um livro ou
da participação num evento digno de reconhecimento, parece
mais segura na tentativa de edificação do “indivíduo imortal”.
Mas, assim como a salvação privada da alma, este não é um
caminho que permite o acesso a todos, pois a idéia de um
coletivo ilimitado rompe com o pressuposto da individualização
permanente. A saída não pode, portanto, ser generalizada.
Há também problemas na forma como se dá o reconhecimento
de uns e outros. A mídia, por exemplo, que na sociedade
capitalista é economicamente corruptível, pode contribuir
para que uns sejam mais reconhecidos que outros. Assim,
vilões podem ser transformados em heróis e grandes feitos
podem ser descaracterizados, sem registro notável para a
história.
O dilema permanece sem solução, pois as saídas previstas
diminuem a certeza acerca daquilo que se procura e ninguém
poderá constatar sua eficácia, já que essas evidências só
podem ser conferidas após a morte. Mas, por que, afinal,
essa busca desenfreada da afirmação individual?
Parece que a idéia de finitude é que nos impõe essa exigência.
É pela consciência da finitude que valorizamos tanto a nossa
existência individual. Se não fôssemos finitos e se não
soubéssemos da nossa própria finitude, encararíamos a vida
de outra forma e não atribuiríamos sentido à temporalidade.
Assim como na alegoria da pomba de Immanuel Kant, onda a
existência do ar é que permite à pomba voar - mesmo que,
num primeiro momento, o vento nos pareça empecilho ao vôo
- é a condição finita da temporalidade que fundamenta o
sentido da existência humana. Mas, a temporalidade finita
não é um problema individual, é um problema de toda a espécie
humana. Diante da morte temos a oportunidade de nos concebermos
como coletivamente confrontados com uma mesma situação.
A noção de indivíduo, por sua vez, é construída a partir
da relação com os outros. Só conhecemos a nós mesmos através
da forma como os outros nos concebem. A partir do confronto
com o outro identificamos a nós mesmos e tomamos consciência
de nossa relação estreitamente imbricada. Se, por um lado,
somos condenados a ser livres, como dizia Jean-Paul Sartre,
por outro, não temos como não interferir na liberdade do
outro. Os limites entre o “eu” e o outro estão entrelaçados,
pois ambos são sujeitos que se definem mutuamente. Assim,
a morte de um outro significa também a perda de parte do
“eu” que se constituiu na relação com aquele. A nossa vivência
fica marcada naqueles com quem nos relacionamos e em tudo
aquilo que, com os outros, construímos como acúmulo para
a humanidade.
Entretanto, conceber-se como humanidade é um processo
doloroso. É necessário recusar as alternativas
sedutoras e confortantes que a ordem social constituída
nos oferece e ao sentido que a sociedade atual atribui à
morte. A consciência de humanidade pressupõe o reconhecimento
da fraqueza do indivíduo
e seu caráter transitório e, ao mesmo tempo, a aceitação
da possibilidade de continuação de nós mesmos no outro,
como parte integrante da construção coletiva da história.
É só nesta perspectiva que podemos nos dispor a contribuir
na construção de algo que, possivelmente, não iremos vivenciar. Por outro lado, jamais saberemos o limite preciso
entre aquilo que conseguiremos vivenciar e aquilo que permanecerá
como utopia, após nossa existência individual. O nosso esforço
no sentido da construção de um novo indivíduo, mais humano
e mais solidário e, conseqüentemente, de novos valores e
novas relações sociais, permite a compreensão da temporalidade
além dos limites de nós mesmos. Como humanidade não morremos,
pois ela é um processo que não termina e nossa participação
consciente nele é a parcela de vida temporalmente definida
que nos permite vivenciá-la.
Portanto, se a vida é única e a morte é o indicativo
de sua finitude, a consciência de temporalidade do indivíduo
o torna mais responsável pela suas opções cotidianas e consciente
de que a intensidade de sua vida depende daquilo que a humanidade,
em seu conjunto, vai definindo. Vivemos aquilo que ajudamos
a construir, partindo da tradição daquilo que os outros
nos deixaram. Ao morrermos como indivíduo, nos incorporamos
ao espírito da humanidade de nossa época.