Por PAULO GUILHERME SANTOS CHAVES
Professor-orientador de monografias do Curso de Pós-graduação “Lato Sensu” – Especialização em Criminologia, da PUCMINAS- ACADEPOL/MG


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O Filósofo Transdisciplinar

 

Antigamente, desde antes de Cristo, muito havia na história da humanidade por construir. As ciências, praticamente virgens, faziam aflorar os sinais naturais que incentivaram o homem ao pensamento. Este número de estímulos científicos era quase incalculável. E a ciência estava a disposição daqueles que tinham dentro de si a curiosidade de perguntar, “mas porque é assim”. Como não haviam muitos livros veio a necessidade de construção do saber e, assim foi criada a ciência. A curiosidade destes construtores criou o cientista e a insatisfação pessoal de muitos deles criou o filósofo.

O filósofo não queria apenas compreender as ações da natureza e do homem, se não, queria encontrar uma justificativa do porque era assim. Insatisfeito, buscava recursos físicos, matemáticos, biológicos e principalmente, pessoais para estar de acordo com o resultado de suas observações. Ele buscava estar de acordo. Estar de acordo é diferente de simplesmente concordar. Estar de acordo diz respeito a satisfazer-se completamente de argumentos, todos passíveis de serem questionados dificultando ainda mais a busca. O filósofo, eterno insatisfeito, construía o saber buscando respostas a tudo. Naquela época havia inúmeros filósofos. Normalmente eram matemáticos e ao mesmo tempo físico, médico, biólogo e cientista. O filósofo distante de se especializar era um grande generalista, queria conhecer o mundo e todos os seus aspectos. Acumulava conhecimentos em várias áreas e tinha um caráter transdisciplinar, afinal, se confrontava sempre com o princípio de todas as coisas e tinha dificuldade de definir. Buscava principalmente na física e na matemática construir um esboço do que chamamos de Deus.

E a humanidade foi se estruturando sob a égide do suor e do sangue. Principalmente do sangue. E foram sendo solidificadas culturas e outras simplesmente desapareceram. O homem ao construir, sentiu medo de perder suas posses que conseguiu através de guerras e lutas pessoais dentro do mercado da própria sociedade. Para se proteger, criou a moral. A moral surgiu por causa do medo. E então fizeram leis. Não para protegerem os outros, se não para protegerem a si próprios. E a sociedade passou a funcionar segundo tais leis.

Atualmente existem inúmeros livros e enciclopédias, códigos e leis. Neles estão contidos os conhecimentos e então o homem perdeu o estímulo de pensar. Foram sendo criados bancos dos saberes. O banco da ciência exata, o banco da ciência humana, o banco da ciência biológica, o banco da ciência espiritualista e o banco da ciência empírica que é a base de todas as outras ciências. Dentro destes bancos de saberes o homem foi se afundando cada vez mais. Dividindo a si próprio, dificultando sua clareza de idéias e se  subtraindo. O homem deixou de contestar, de ser curioso e deixou de pensar. Os valores e as buscas que antes margeavam sua existência passou a margear sua subsistência. O homem passou a viver o hoje pensando no amanhã e o hoje passou a  não ter nenhum valor, nenhuma importância, porque garantindo o amanhã, o hoje simplesmente passará.

Cada vez a sociedade foi se infestando de moral e cada vez menos passou a existir a ética. O mundo se tornou um verdadeiro circo. Todos passaram a representar papéis morais sem nenhuma ética. E o gênio então parou e chorou intensamente.

O homem foi se tornando quase inconscientemente máquina de um sistema feito para poucos entre milhões. Tornou-se um objeto social que faz e que age sem pensar e muitas vezes, mesmo pensando se submete crucificando seu espírito que nasceu livre. A resposta é sempre a mesma “afinal sempre foi assim. Se perguntarmos entre nós o que estamos fazendo com nossas vidas, lá no fundo sempre vai haver a resposta de que ‘ nunca parei de pensar’.”

Hoje a humanidade está destituída de identidade e encontra inúmeras barreiras dentro do campo profissional da sociedade. As pessoas se firmam cada uma dentro de suas escolhas, ou quem sabe melhor, se afundam acreditando que são aquilo que escolheram na faculdade ou em outra formação qualquer. Lutam por aquilo. Defendem seu ponto de vista ao invés de defender o objeto do fenômeno. Defendem sua anti- identidade. Aglomeram-se cada grupo com sua língua. E se especializam sabendo cada vez mais de cada vez menos como uma vez disse Rubem Alves.

Na realidade, fomos criados para fazer parte de um mundo que se encaixa e que se soma para a formação de uma totalidade cuja compreensão de sua complexidade justifica a existência de todas as partes. Somos seres de existência totalitária, expansiva, transformadora e complexa. Não deveríamos possuir o caráter partitivo que insistimos em adotar através de nossas escolhas profissionais incentivadas pelo sistema de ensino que não paramos de criticar. As representações do mundo deveriam ser individualizadas e não massificadas, porque assim, levaria a visão de um mundo próprio e não a visão de um mundo de quem existiu antes de nós. Quando dizemos quem somos, sempre dizemos, eu sou fisioterapeuta, especialista em geriatria e gerontologia pela Universidade Federal de Minas Gerais- UFMG e, especialista em reabilitação cardíaca pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais- FCMMG, o que faz que meu potencial humano e minha capacidade de elaborar os fenômenos reduzam a uma ínfima e diminuta visão que se baseia em apenas um ponto de vista. E porque o mundo é tão criminoso, porque o mundo é tão violento? Simples, nossa capacidade atual é de enxergar apenas um ponto de vista. Se pudéssemos enxergar pelo ponto de vista dos demais envolvidos não seríamos tão agressivos. A sociedade nos induz a possuir apenas um ponto de vista. Somos induzidos a sermos pequenos.

O ser humano é um gigante adormecido segundo seu potencial de ser feliz e de encontrar a paz interior. Estes dois fatores normalmente se relacionam ao bem- estar causado pelo acúmulo de bens materiais ou pela realização pessoal. Estes fatores em um mundo competitivo como tal, são difíceis de alcançar, principalmente pelos caminhos que o homem escolheu trilhar. Devemos rever completamente todo o processo de vida e de aprendizado que tivemos para que consigamos enxergar o mundo com outros olhos. Olhos transdisciplinares!

 

PAULO GUILHERME SANTOS CHAVES
     

ALVES, Rubem. Crepúsculo. São Paulo: Papirus, 2001.

ANIYAR DE CASTRO, L. Victmologia. Venezuela: Universidade de Maracaibo, 1969.

MORIN, Edgard. Ciência com consciência. França, Paris: 1995.


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