A Escrita
com o Corpo
– ou a última
metáfora do escritor Rodolfo Walsh -
Su muerte sí, su muerte fue gloriosamente suya, y en
ese orgullo me afirmo y soy quien renace de ella.
Rodolfo Walsh
No es un arma guardada que rememora los disparos, sino
un hacer violento, en los cuales la escritura agrede la
molicie y espanta los oropeles.
Daniel Camels
Su cadáver estaba lleno de mundo.
César Vallejo.
Resumo: A literatura, para Rodolfo Walsh é um campo de batalha
onde se luta pela imposição de narrativas. É nessas narrativas
onde se estabelecem os sentidos da ação política. Eis
a literatura militante de Walsh ou, de outra maneira,
a forma em que se desenvolvia sua militância política.
Uma mão dupla entre literatura e ação política em que
uma alimenta a outra. Pode-se ver a escrita como uma forma
de intervir na realidade e também a ação como uma escrita
plena de significados.
Parte da escrita de Rodolfo Walsh está registrada
nos seus textos. Mas não raro, escrevia com o corpo.
As circunstâncias da sua desaparição vêm a compor uma
metáfora carregada de sentido.
Palavras-chave: Rodolfo Walsh. Literatura argentina.
Novo jornalismo. Metáfora.
Na
quinta-feira 24 de março de 1977, a um ano do golpe militar,
Rodolfo Walsh passa a limpo a Carta abierta de um escritor
a la Junta Militar (in: LINK, 1998) e um conto
sobre um homem, Juan, que atravessa o Rio da Prata, excepcionalmente
seco, a cavalo, enquanto o rio volta a crescer.
Walsh não publicava ficção desde 1967, quando apareceu
Un oscuro día de justicia (1993), o último da série
dos irlandeses, que ele pretendia continuar. Mas o conto que agora tem entre mãos,
Juan se iba por el río, havia sido pensado em 1967
como o primeiro capítulo de um romance, a “novela séria”,
que queria escrever e que ele chamava de “novela geológica”,
elaborada por camadas.
El
primero de sus temas recoge una tradición oral que los
prácticos y baqueanos del Río de la Plata transmiten de
padres a hijos: es la historia de un hombre que, a fines
del siglo XIX, consiguió atravesar el río a caballo, durante
una bajante prodigiosa. (in: LAFFORGUE, 2000: p. 50.)
Nessa retomada da ficção escolhe uma trama das muitas
que vinha ruminando por anos, uma história de cavalos
e de água. Seu pai, ele contou numa nota autobiográfica,
falava com os cavalos, tinha sido morto por um, que o
esmagou ao cair após enfiar a pata num buraco. Havia deixado
outro cavalo para a família, chamado Mar Negro, que Walsh
mesmo levou numa longa viagem para a terra de um parente
que poderia ficar com ele (in: LAFFORGUE, 2000: p. 241
et FERREIRA, 1985).
Assina a Carta abierta de un escritor a la Junta
Militar com seu nome, sobrenome e número de documento
de identidade. Faz muito tempo que não publica seus escritos
assinados. Desde que se enquadrou na organização Montoneros,
e ainda antes, quando militava no jornalismo da resistência,
sua assinatura sumia, indicando ora que o texto era resultado
de uma elaboração coletiva, ora que era assumido pelo
coletivo da organização. Mas em 1977, e depois da sua
polêmica com a direção de Montoneros, começa a escrever
o que ele chama de “cartas pessoais”, que circulam entre
poucas pessoas e que ele assina. A polêmica de Walsh aponta
para o sectarismo e o militarismo da organização, que
vem se afastando da população que pretende dirigir. Propõe
um “retorno” às massas, desmontando os vínculos de aparato
e reconstruindo a confiança a partir de uma relação mais
estreita com os não militantes. (in: BASCHETTI,
1994)
Chega a escrever três “cartas pessoais”: Carta
a Vicky (in: BASCHETTI, 1994), Carta a mis
amigos, (in: LAFFORGUE, 2000) e Carta
de un escritor a la Junta Militar. Na que inicia a
série, ele expõe seus sentimentos ao ser informado, pelo
rádio, da morte da sua filha, também militante montonera.
O assunto é a própria dor, que não pode ser contada senão
recorrendo a voz de um desconhecido passageiro de trem
suburbano, ouvida de relance. A dor, então, pode ser formulada
e compartilhada. A segunda, é o relato da morte de Vicky
reconstruído por Walsh a partir do testemunho de um soldado
que participou do cerco à casa onde ela se encontrava.
Na terceira, faz uma análise minuciosa da destruição do
país operada pela Junta Militar, a um ano do golpe. A
assinatura indica o compromisso pessoal e o texto convoca
o leitor a divulgar a carta: tenga la satisfacción
de un acto de libertad. Assim retoma a proposta da sua
polêmica com a direção de Montoneros, ao retornar à relação
corpo-a-corpo, olho-no-olho, que tinha sido substituída
pela hierarquia e pela concepção militarista que reduz
a ação política a um automatismo. Walsh a transforma num
ato de liberdade, não de um herói, mas de um homem ou
de uma mulher que se atrevem a contradizer aquilo que
os poderosos impõem. O que supõe uma decisão pessoal,
carregada de subjetividade, que se aproxima a outras decisões
pessoais e a outras subjetividades. Vozes que ele recolhe
do quotidiano, do indivíduo que se achega a apresentar
um testemunho.
Está morando desde o ano anterior numa casa em San
Vicente, um subúrbio do grande Buenos Aires, com a sua
companheira. Comprou a casa com a identidade de um professor
de inglês aposentado. Fez uma horta, plantou alfaces.
Na sexta-feira, 25 de março, disfarçado de aposentado,
com chapéu de palha, botas e carregando uma pasta de plástico
onde leva alguns exemplares da Carta... que acaba
de escrever, dirige-se à estação de trem. Na bota, um
revólver de pequeno calibre.
Walsh veste o disfarce do homem que alguma vez foi.
Afinal, não podemos nos disfarçar senão daquilo que, de
alguma maneira, também somos. Ele assume a aparência daquele
que foi mais de vinte anos atrás, quando suas opiniões
políticas não se traduziam em ação. Um homem que cuidava
da sua casa e se interessava pelo xadrez e a literatura
policial, um tradutor e editor de relatos de suspense.
Em 1956, a voz de um soldado que havia se entrincheirado
junto à janela da sua casa o tirou da rotina dessa vida
tranqüila. O soldado, a quem o azar havia colocado do
lado das tropas leais ao governo militar que tinha derrubado
Perón, foi atingido por uma bala. Sentindo-se abandonado
pelos colegas e agonizando, sussurrou como para si mesmo:
No me dejen solo, hijos de puta. A voz do soldado surpreendeu Walsh.
Ele pensava que um soldado “costuma” morrer dizendo ¡Viva
la Patria!, como os livros contam que morrem
os soldados, mas o soldado não se sentia morrendo pela
pátria, não tinha identidade espiritual com a causa que
defendia com o corpo. O incômodo que lhe produziu
aquela frase destoante levou Walsh a indagar, enquanto
jornalista, pela sorte dos que morreram durante o levantamento.
Para isso, teve de trocar de nome, abandonar a casa familiar,
a rotina do trabalho e o xadrez com os amigos do bar.
A voz do soldado o lançou para além dessa vida tranqüila,
cada descobrimento o levava a um compromisso mais profundo.
Num princípio, um compromisso pessoal na defesa da verdade
que obtinha das testemunhas das injustiças, mas, depois,
um compromisso militante para com todos os humilhados
e ofendidos. Nisso consistiu para o autor escrever Operación
Masacre (2000b), relato dos assassinatos de ‘56: um
compromisso que parte da sua própria ação literária, o
de recolher a voz desses humilhados e ofendidos. Não falar
no seu nome, em representação, mas dar curso a sua enunciação.
Assim inaugurou um registro estético e uma maneira de
fazer jornalismo.
Modificou sua condição de escritor e sua escrita.
Como escreve Walter Benjamin:
Agora, é
claro que as opiniões importam muito, mas a melhor opinião
nada aporta se não faz algo de útil com aqueles que a
sustentam. A melhor tendência é falsa se antes não mostra
a atitude a ser seguida. E essa atitude, o escritor apenas
pode mostrá-la onde ele demonstra alguma coisa, ou seja
escrevendo. (in: BACCEGA,
1998: p. 45)
Em 1965, publicou Esa mujer (in: WALSH,
2000a). Nesse conto, narrado em primeira pessoa, um intelectual
visita um militar. O militar sabe onde se encontra o cadáver
de Eva Perón, seqüestrado pelas Forças Armadas. O intelectual
quer o cadáver. É a forma que ele encontra de ir ao povo,
se unir à sua indignação e não mais estar sozinho.
Algún día (pienso en momentos de ira) iré a buscarla. Ella no significa
nada para mí, y sin embargo iré tras el misterio de su
muerte, detrás de sus restos que se pudren lentamente
en algún remoto cementerio. Si la encuentro, frescas altas
olas de cólera, miedo y frustrado amor se alzarán, poderosas
vengativas olas, y por un momento ya no me sentiré solo,
ya no me sentiré como una arrastrada, amarga, olvidada
sombra. (in: WALSH, 2000a)
O cadáver escamoteado é metáfora da verdade. Um corpo
no lugar de uma escrita. Mas o corpo também escreve. O
conto é relato de um acontecimento real, ao qual a escrita
lhe dá sentido. Walsh esteve mesmo na casa do militar
e negociou com ele. Mas é no conto onde ele estabelece
as suas lealdades e explica seus motivos: escrita sobre
escrita, ação e registro, quando o registro também é ação
e a ação se articula como uma escrita, suporte que é de
metáforas poderosas.
Mas isso foi há muito tempo. Já estamos no caminho
para a estação e Walsh encontra com o dono da imobiliária
que lhe vendeu a casa, quem lhe entrega a escritura. Ele
a guarda na pasta de plástico. Não dá tempo para retornar
e deixar os papéis na sua casa, os horários não lhe permitem
esse luxo.
Walsh e sua mulher pegam o trem e descem na estação
Constitución, na capital. Ali despedem-se: ele tem um
encontro. O encontro está “envenenado”. Um companheiro
o entregou na mesa de tortura. O escritor caminha pela
rua San Juan, em direção a Entre Rios. Em Sarandí, um
grupo de policiais e marinhos o emboscam. Walsh responde
ao fogo com o revólver calibre 22 que guarda na sua bota.
O pequeno calibre da sua arma não é páreo para o armamento
dos marinhos e policiais, mas serve para alguma coisa:
está decidido a não se deixar prender vivo. Como fez sua
filha, em setembro do ano anterior, escolhe não se entregar.
Antes poderia ter saído do país, o que não teria sido
desonroso. Mas preferiu permanecer e trabalhar na ANCLA,
a Agência de Notícias Clandestina, desde onde fazia, junto
com sua equipe, tarefas de informação e contrainformação.
E na Cadena de Notícias, rede de circulação de notícias
de caráter horizontal. Prefere escrever as “cartas pessoais”
e retomar a ficção com Juan se iba por el río.
O seu jeito de ir pelo rio é o de se internar mais e mais
no território do seu país, como tinha feito com seu pai,
na sua infância, atravessando a cavalo as lacunas do Sul
da província de Buenos Aires (FERREIRA, 1985).
Talvez já nem esteja enxergando direito, continua
atirando até que acabam as balas. E talvez pense nas cartas
ou tenha lembrado dos papéis da casa que carrega na pasta.
Também é possível que lembre de Vicky nessa hora. Mas
também é provável que esteja pensando num último galope
desatado, pelo leito de um rio subitamente convertido
numa pampa sem limites.
Depois, é visto mal ferido por prisioneiros na Escuela
de Mecánica da Armada, junto a uma grande quantidade de
papéis roubados da sua casa de San Vicente, cujo endereço
é descoberto pelos papéis da imobiliária que leva na sua
pasta. Somem com seu corpo e com os seus escritos inéditos.
Ambos perigosos, ambos juntos, indissoluvelmente unidos,
para sempre.