A
responsabilidade da inteligência*
Em
poucas fases na história da humanidade tem-se
preocupado tanto com a função da inteligência
e portanto com a sua responsabilidade, como nesta
em que vivemos (são os "testamentos", as "plataformas"
das "gerações", procurando-se esclarecer os problemas
e o modo pelo qual êstes são encarados pelos intelectuais:
os debates, em que se discute, profunda ou superficialmente,
qual ou como o intelectual deve tomar posição
na vida da sociedade e dela participar etc. etc.).
E os motivos justificam a preocupação. De fato
estamos numa fase crítica - no sentido do "ponto
crítico" em geometria: mudança de direção - e
as necessidades relacionadas à renovação exigem
da inteligencia que ela atue sôbre os casos e
os problemas com que nos debatemos, que em parte
podem ser postos em seu ativo.
Já não se trata, atualmente, de retornar a questão
puramente acadêmica que sempre dividiu os intelectuais
em dois grandes grupos: os partidários da "torre
de marfim", do isolamento do intelectual, e os
que pretendem ver nele um reflexo de um certo
ambiente social. Tão pouco se trata de conceber
uma posição de oportunista verdadeiro para o intelectual,
que se isola do meio durante um certo tempo, perdendo-se
em categorias universais e problemas pseudamente
humanos explicáveis na maioria das vêzes por uma
intensa insinceridade do eu consigo mesmo, e depois
volta - quando a oportunidade é boa e a massa
dorme - como uma espécie de Júpiter, providencial,
munido de todos os raios precisos para alumiar
o caminho dos pobres-homens.
As necessidades do momento e a dolorosa história
da tragédia humana nestes últimos trinta anos
- tragédia no sentido mais amplo, espiritual e
material - põem o tema de um modo preciso e exatamente
determinado: a função da inteligência e sua responsabilidade.
Não se trata mais, pois, de focalizar o intelectual
numa posição, com certas idéias e com outros tantos
tics e tacs. Êle é representado como um indivíduo
que tem certa capacidade de trabalho e do qual
a sociedade espera, como de todos os demais membros,
uma atividade útil e criadora. Êle tem - como
os outros - suas funções e a responsabilidade
da inteligência aparece justamente no momento
em que ela as exerce e mais ainda no momento em
que ela consente que essas funções não sejam exercidas.
Assim, tende-se a conceber a ação do intelectual
controlada (permitam-me...) por um conjunto de
elementos que representam a coletividade, num
sentido amplo, e encarnando um modo de ser e uma
ética profissional extensivos unicamente ao grupo,
num sentido restrito.
Vê-se que esta solução não é uma síntese nem uma
conciliação e tão pouco se restringe a uma das
duas posições acadêmicas. É uma situação de fato
a que tendemos chegar por um desenvolvimento natural
e inevitável. Apareceu em virtude do comodismo
e depois do sacrifício do intelectual, vitimado
pela tolerância ou pela incompreensão de suas
funções na sociedade. E tende a se precisar, dia
a dia, por causa da reação subseqüente da inteligência
- que vive o segundo ato do drama tolerado, admitido
e criado, em parte, por ela mesma, muitas vêzes
por covardia e não por simples comodismo.
Essas considerações surgiram à medida que lia
o artigo de José Medina Echavarria: "Responsabilidade
de la Inteligencia", primeiro no livro com êsse
título. Em parte elas traduzem uma ponte, ligando
a inteligência, como existiu até hoje em nossas
sociedades, e a trágica situação que o mundo vive
agora. O comêço dessa ligação está no que Medina
chama "viver de segundo grau" em que o intelectual
afasta-se paulatinamente da vida imediata, deixando
de participar "das atividades criadoras, dos fatos
e dos acontecimentos que nos rodeiam" acumulando
conhecimento sôbre tôdas as coisas, sem contudo
"participar realmente delas". É o que êsse autor
chama depravação da inteligência que, renunciando
às próprias funções, consome-se num círculo vicioso,
perigoso para ela e para a sociedade. O conventilhismo,
a "torre de marfim", caracteriza essa primeira
etapa.
A segunda é escrita tendo por pena a ponta da
espada, por tinta o sangue dos oprimidos e por
fundo a tragédia dos sacrificados, entre os quais
se encontram os intelectuais. O assalto ao poder
já estava feito e uma nova etapa da "ordem" assombrava
a inteligência desarmada e confundida: nada mais
restava a fazer e os intelectuais calaram-se para
não serem suprimidos. Em tôda parte descobriu-se
meios eficientes para os obrigar a trocar em miúdo
consigo mesmo as suas idéias ou as suas revoltas;
a função da inteligência desaparecia terrivelmente,
pois as grandes como as pequenas idéias só valem
quando se estendem a um povo inteiro. Para evitar
isso, justamente, o Estado-Polvo foi alastrando
os seus tentáculos e aí aparece o momento mais
crítico a supressão mesma do intelectual. Nada,
pois, restava a fazer. Mas foi assim que a inteligência
atravessou a ponte. Agora estamos entrando na
outra fase, em que a inteligência angustiada volta-se
sôbre si mesma para tomar consciência de sua missão
e de sua fôrça e procura na sociedade a razão
de ser de suas funções.
Naquele artigo de Echavarria vemos os intelectuais
da Alemanha - como os de outros países - perdidos
completamente numa geral confusão de idéias e
de valores, subdivididos em grupos ou grupinhos,
cada qual orientando sua conduta e a sua ação
conforme uma "atitude pessoal", eliminando-se
assim a possibilidade de uma realização qualquer
por parte da inteligência. Isso quando não faziam
conventilhismo ou não eram tolhidos pela covardia.
Depois, cremos que agora - aproveitamos o esquema
que conhecemos de outro país - da própria opressão
vieram as fôrças ativas do ressurgimento e da
renovação. Já há, pois, muita coisa a fazer.
O panorama oferecido pela "depravação da inteligência",
que Medina tece sôbre a situação do intelectual
alemão post-14, a propósito (ao comentar "Ideologia
e Utopia") poderia ser assim esboçado. A necessidade
da participação do intelectual na vida social
- como uma de suas grandes fôrças - também encontra
o seu lugar. Para evitar, aliás, aquêle isolamento
esclerosante do intelectual, afastado da realidade
e conseqüentemente sem consciência de sua fôrça
e função. Medina Echavarria, pensa que as sociedades
do futuro devem "inserir a inteligência em seu
funcionamento normal e cotidiano" (veja-se o prefácio).
É aqui que discordamos do ilustre sociólogo. A
questão para os intelectuais não se põe dêste
modo, passivamente, como se fôssem meninos mal
comportados que o mestre-escola reintegra na classe.
Infelizmente a questão é muito mais grave; e em
última análise, foi essa atitude passiva que todos
- ou quase todos - os intelectuais assumiram diante
da "ordem" chamada nova em seu estado nascente,
quando podia ser sufocada. E vimos, por uma experiência
muito dolorosa para ser repetida, qual o seu resultado.
O intelectual não deve ser "inserido" na sociedade,
mas deve tomar nela o lugar que lhe compete, ativamente,
como os demais membros do grupo. A inteligência,
se quiser sobreviver terá que tomar parte ativa
na vida social. E um dos aspectos da vida social
ativa será o de conseguir ela mesma o seu próprio
lugar, porque fora disto não se compreende um
funcionamento normal da inteligência.