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Por URARIANO MOTA
Jornalista
e autor de contos, peça de teatro e livros
VERSÃO
PARA IMPRESSÃO [WINZIP]
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BOSI, Alfredo.
Céu, Inferno. São Paulo: Ed. 34 /
Duas Cidades, 496p.
Alfredo
Bosi e a dignidade da crítica
Nesses
tempos de violência que passamos, chega a parecer
um luxo, uma fuga, uma alienação torpe, falar-se
de outro assunto que não seja a barbárie de
todos os dias. Dizemo-nos, ao rascunhar as primeiras
palavras, “mas o que é que isto tem mesmo a
ver com o ódio
e desprezo de que todos somos vítimas?”. É como
se a nossa vida e todos os nossos interesses
entrassem em um reino de suspensão. A ordem
e a agressão dos novos bárbaros tomaram conta
de tudo.
Parece. Mas é só uma aparência
de pecado de nossa consciência cristã. Porque,
pensando bem, é uma prova de que estamos vivos,
é uma indicação de que a barbárie ainda não
venceu, a leitura de um pensamento que nos reconcilia
com um tempo de paz provisória, com alguma coisa
de harmonia ainda não assaltada pelo desassossego
de hoje. É isto o que nos dá o professor e crítico
Alfredo Bosi em seu livro recém-publicado “Céu,
inferno”, uma seleção de ensaios e estudos.
Se não, vejam: “O que admira n’O
Ateneu, escrito em 1888, é a superação precoce
do naturalismo que nele se opera enquanto narrativa,
estilo e ideologia. Ao contrário de Aluísio
Azevedo que, n’O Cortiço, trata como fisiológicos
lances da acumulação capitalista, Raul Pompéia
apreende o momento em que as paixões se socializam.
Atando o sonho noturno à consciência diurna,
o narrador permeia de historicidade os afetos
do seu protagonista...”. Ou então isto: “Que
os críticos puristas me perdoem, mas vou começar
citando uma confissão de Cecília Meireles. Perguntada
sobre qual seria o seu maior defeito, ela respondeu:
‘uma certa ausência do mundo’. ”. E é interessante
notar, de passagem,
que nessa visão de Cecília o crítico
Bosi faz quase uma corte à memória de nossa
mais bela autora,
bela física e espiritual, que recebeu de Bandeira o comentário: “o que
me espanta
em Cecília não é a mulher bela que ela foi,
mas a mulher bela que ela é, na maturidade”.
Seria
bom um comentário sobre um livro (e o leitor
nos perdoe o medo e o pudor que nos invadem,
o recuo que temos diante da palavra “crítica”,
ao comentar um livro do crítico Bosi.) ... seria
bom um comentário que em lugar das palavras
expressas do comentarista deixasse apenas citações
do comentado, numa progressão, em que o comentarista-fantasma
sumisse da vista dos leitores, como um narrador
“ausente”, responsável apenas pela seleção dos
trechos destacados. Ou melhor, o comentarista
seria um entrevistador, oculto, de perguntas
furtadas ao texto vindo à luz. Se assim fosse
possível, o comentário teria em seu desenvolvimento
um trecho assim:
“E na Consciência de Zeno impressiona aquele deter-se
no enfermiço, aquele comprazer-se nos atos
falhos (célebre o episódio em que Zeno segue
um enterro que não é o do seu sócio e cordial
amigo), na representação de viciados que se
espreguiçam no vão desejo de se emendarem;
dos fanfarrões que ingerem doses (fracas)
de veronal para fingirem suicídio; dos abúlicos
que se estendem no sofá do psicanalista e
não pretendem levantar-se tão cedo, não por
fé no método, mas pela tibieza acariciante
de uma distração. São gordos flácidos que
querem e não querem emagrecer; são ineptos
mornos que querem e não querem agir; são impotentes
precoces, sem amor, mas curiosos de sensações
e de prazer. O romance é o diário de um universo
obsolescente colhido pela via humorística
da auto-exibição.”
E no parágrafo imediato a esse trecho:
“Ora, tudo isso tem um nome na história da cultura
européia, um nome corrente na crítica italiana:
decadentismo. Mas o decadentismo não é senão
a inflexão agônica e contraditória de um Realismo
que se quer mais profundo, isto é, a sua hora
negativa....”.
Ou
isto:
“Vai aceso o debate entre estetas e políticos, puros
e engajados. Gramsci dá uma pista nova. Ao artista
cabe ‘fixar’uma imagem do real, torná-la presente
e, ainda que por um átimo, prendê-la nas amarras
do signo. Já o homem de ação não tolera que
as coisas voltem sempre com a mesma face. Assim,
o ‘atraso’ da arte em relação à política é estrutural,
porque o tempo da imagem é, por força, o de
um passado que se faz presente; o tempo da ação
é o de um presente que se abre para o futuro...”.
Como tal ainda não é possível,
apesar do lucro e da beleza que ganharíamos
todos, resenhadores, leitores e resenhados,
avancemos sem prudência com nossas próprias
palavras. Que são, e nos perdoem o feijão-com-arroz
pobre:
Em “Céu, inferno”, o crítico Alfredo
Bosi tem a graça de olhar a vizinhança da obra
que critica, como o faz no ensaio “Do inferno
ao céu...” ao trazer Guimarães Rosa para o mesmo
corpo em que faz a análise de Vidas Secas, de
Graciliano. O que pareceria uma digressão tem
o sabor de um olhar mais amplo, que abarca o
diverso para ressaltar o específico. Digressão
mesmo, diria um jornalista amarrado às cordas
da objetividade imediata (como se a crítica
à obra de arte não fosse ela mesma uma obra
de arte, e, portanto, avessa à objetividade
óbvia), digressão de matar ele faz em “Em torno
da poesia de Cecília Meireles”. Esse “em torno”
do título já diz tudo. Mas que digressão boa!
Como daquelas de Borges em palestra, que insubstituível
digressão ele nos dá, ao nos fazer viajar com
a nossa libérrima e exata pela Índia, pela Itália,
até atingir Ouro Preto, no Romanceiro da Inconfidência.
E não sentimos o transporte. Seguimos, naturalmente.
Assim como seguimos a sua volta a nossos clássicos,
sem nos dar conta, em mais uma leitura de Vidas
Secas. Sentimos, sim, e aí sentimos como um
abalo, na releitura que nos dá em “O Ateneu,
opacidade e destruição”. Desconfio, e quem não
é crítico é somente intuição, presságio, desconfio
que essa crítica ao Ateneu o acompanhará para
sempre, como um posfácio grudado aos ossos de
Raul Pompéia, como o ensaio de Lukács aos Anos
de Aprendizado de Wilhelm Meister. Como uma
canção que encontrou o seu intérprete. Como
Agostinho dos Santos cantando A Felicidade.
E para que não pensem que isso
é discurso de banquete, para que um novo Alienista
não nos interne por doença do imponderado, anotemos
de passagem, muito contra a vontade, e aí sim,
seremos imponderados, digamos e fujamos numa
carreira que em “Mário de Andrade, crítico do
Modernismo”, o nosso crítico paga um tributo
à sua condição de paulista e professor da USP.
Mais precisamente no passo em que escreve, em
itálico: “Com isso, a grande literatura dos
anos 30 e 40 foi condicionada pelo Modernismo,
mas dialeticamente resultou diversa dele”. Ora,
dizer, por exemplo, que Menino de Engenho, Bangüê,
vêm, ainda que por vias de astúcia do real,
do Modernismo, é o mesmo que não levar em conta,
neste exemplo, a grande presença, fecundante,
de Gilberto Freyre no Recife, da influência
direta de Gilberto sobre o jovem José Lins.
São palavras do menino de engenho, em Dias Idos
e Vividos: “Conheci Gilberto Freyre em 1923.
Foi numa tarde do Recife ...Para mim teve começo
naquela tarde de nosso encontro a minha existência
literária. O que eu havia lido até aquele dia?
Quase nada. Talvez que nem um livro sério do
princípio até o fim. Lera o grande Eça de Queirós.
Mas escrevia por instinto contos e crônicas.
E João do Rio com a sua simplicidade de escrever
me entusiasmara.Lima Barreto também.....E a
minha aprendizagem com o mestre da minha vida
se iniciava sem que sentisse as lições. Começou
uma vida a agir sobre outra com tamanha intensidade,
com tal força de compressão, que eu me vi sem
saber dissolvido, sem personalidade, tudo pensando
por ele, tudo resolvendo, tudo construindo como
ele fazia... Posso dizer sem medo que a ele devo
os meus romances, ao seu constante e benéfico
convívio o ânimo para não parar, não desistir....”.
A passagem foi grande. Pelo tamanho,
até parece citação de um menino de Água Fria,
do Recife, reclamando para a sua cidade a influência
exclusiva sobre uma grande obra, como se o Modernismo
fosse apenas a semana de 22. Então encerremos,
para não manchar com um provincianismo este
comentário. Voltemos então ao início, ao título.
Se o leitor até aqui não entendeu onde está
a dignidade da crítica de Alfredo Bosi, deixamos-lhe
palavras de Céu, inferno, que remetem por fim
e no fim a Graciliano Ramos:
“No âmago da condição humilhada
e ofendida, os que a partilham transmutam em
fantasia compensadora as carências do cotidiano.
O menino sonha com a serra que se confunde com
o céu estrelado....Entretanto, logo se esvai
esse efeito quase-onírico de sentido: a fantasia
padece um duro confronto com a cara irredutível
do real. O menino não mora naquele morro onde
se tocam o céu e a terra... ‘Repetiu que não
havia acontecido nada e tentou pensar nas estrelas
que se acendiam na serra. Inutilmente. Àquela
hora as estrelas estavam apagadas”.
URARIANO
MOTA
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