Boa
parte da vida humana contemporânea é guiada
por sugestões, jargões e slogans . A sociedade é
cada vez mais é doutrinada a consumir informações
sintéticas e slogans que passam a integrar o estilo,
a linguagem e a cultura.
Quanto mais são repetidos os slogans, maior será a probabilidade deles
se tornarem autônomos em relação às pessoas,
como se fossem verdades absolutas. Uma vez
adquirido status
de transcendência, os slogans
passam a ter mais importância do que a própria
vida dos membros do grupo. O psicanalista
tende a achar que, no fundo, o que está em
jogo na produção de slogans é gozo – o interesse de ‘mais gozar’
- presente mais na sonoridade
do que no significado das palavras. É próprio
da natureza do slogan não exigir esforço de análise, mas causar repetições
cada vez mais automáticas, compulsivas, até
ao desgaste final, resultando em desuso. Logo,
porém, surge outro objeto lingüístico sintonizado
com o momento. E todos podem novamente “mais-gozar”
em repetir, repetir, até enjoar.
Uma rápida escuta nos leva a reconhecer
o quanto o cotidiano está impregnado de palavras
e frases de efeito que falam do espírito do
momento de um determinado grupo humano. Assim
foi nos tempos da Jovem Guarda, o ‘rei’ Roberto
Carlos cunhou o dito vazio “é uma brasa, mora!”
Repetir essa frase sinalizava
estar incluído no movimento cultural
e musical brasileiro irreverente.
Depois foi a vez de Tony Tornado, recém
chegado dos EUA, com uma participação estrondosa
no Festival Internacional da Canção com a
música BR-3, cunhou o slogan com algum sentido “podes crer, amizade”. Pegou. Parecia que
todo mundo era ‘crente’ e ‘tinha amigos’.
Nos anos 70 os jovens mais ou menos ligados
ao movimento hippie, viraram “bichos”.
“É isso aí, bicho!”. Foi repetido tanto
sem desgastá-lo totalmente, uma vez que ainda
hoje existem saudosistas usando esporadicamente
essa expressão. A filosofia libertária hippie
importou o “paz e amor”. Hoje, o contexto
social, político e cultural certamente é outro,
mas os EUA continuam invadindo países em nome
da “liberdade” e da “democracia”: Vietnã,
Camboja, Afeganistão e o Iraque, enfim, o
mundo ainda precisa de slogan
que peça “paz e amor”; mas um paz e amor ativos,
dentro da linguagem da globalização.
O povo do Rio de Janeiro é mestre
em inventar slogans,
gírias e palavras de ordens. Meu pai me falava
das ondas da linguagem carioca do tempo da
boa malandragem: “sossega a periquita, “que
é que há com meu perú”, “qual é o parangolé”
e tantos outros. Os vinte anos de Rio também
fiz parte da corrente que repetia “tá russo!”.
Tudo era motivo para resmungos “tá russo,
tá russo!”. Era época de inflação alta e obviamente
a sabedoria popular precisava encontrar um
modo catártico de aliviar sua raiva dizendo
“ a vida está ruim”, “está difícil sobreviver”.
Slogans e a universidade
A universidade não é uma ilha cercada
de sociedade com dificuldades e problemas.
E sua linguagem - seu discurso - não está
isenta de contágio do senso comum, mesmo com
todos os cuidados epistemológicos investidos
na pasteurização neopositivista de uma linguagem
“científica”, pretensamente ‘neutra’ e com
‘objetividade’. A universidade também produz
clichês de linguagem, que faz o seu discurso
ser não totalmente “científico” mas apenas
mais um discurso - o “discurso universitário”, tal como formulou Lacan.
As Ciências Humanas especialmente
sofrem esse problema:
quanto mais elas se esforçam no sentido da
‘cientificidade’ mais se afastam do sentido
‘humano’ e, por outro lado, quanto mais se
dedicam ao sentido ‘humano’ mais se afastam
do rigor ‘científico’, dizia P. Grecco.
Quando éramos alunos do curso de
psicologia, nos anos 70, repetíamos uns
para os outros: “você
precisa assumir o que verdadeiramente você
é”. Quando soubemos o significado clínico
da “empatia” passamos a usá-lo e abusar deste
conceito para tudo. O mesmo aconteceu com
o “desejo” [Wusch]
a “pedra angular da teoria psicanalítica”.
Enchíamos a paciência de todos com frases
“qual é o seu desejo?”, “você precisa analisar
o seu desejo!”. Enfim, era desejo para lá
e desejo para cá. Os familiares ficavam, no
mínimo, apreensivos com tal “onda” comunicativa,
que no fundo exercia um poder – o poder do discurso universitário
- funciona como uma senha:
os que sabem usar a senha serão incluídos
no grupo dos “eleitos” e poderão “mais-gozar”
desse poder.
Nos anos 70, nas escolas e universidade,
era freqüente o uso e o abuso dos termos: “dialética”, “contradição”, “alienação”, “conscientização”; os termos
marxistas estavam na crista da onda do pensamento
universitário. Eram termos quase que obrigatórios
em aulas, palestras, bem como nas monografias
e teses notadamente de ‘esquerda’. Funcionavam
como uma senha que atraía os “progressistas”,
rejeitava os “reacionários” e provocava os
“alienados”. No convívio social, quando queríamos desconsiderar
alguém, nessa época, costumávamos dizer que
“fulano é um alienado”. O oposto, isto é, ser de esquerda recebia
o honroso título de “progressista”.
Já os simpatizantes do regime militar rotulavam
todos os opositores de “subversivos”.
Todavia, os genuinamente democráticos
achavam ser necessário criticar todos os regimes
totalitários fundamentalmente repressivos.
“Abaixo a repressão!”, era a palavra de
ordem.
Por que lutar contra as ditaduras latino-americanas
de direita e não apoiar as críticas e lutas
contra o totalitarismo burocrático do socialismo
soviético, isto é, sua burocracia, sua nomenklatura,
seus Gulags. Porém, quem ousasse dirigir esse
tipo de crítica ao socialismo da União Soviética,
da China, de Cuba, etc, corria o risco de
ser queimado como “revisionista”
e até mesmo “direitista”.
(Qualquer semelhança com o que ocorre hoje
com o Governo Lula não é novidade). A esquerda
sempre teve dificuldades de suportar a crítica
e sempre se esquivou de fazer autocrítica.
Muitos desses críticos foram injustamente
queimados na ‘santa’ inquisição do partido
ou dos círculos de fogo do meio acadêmico.
O discurso do partido e o discurso da universidade
exercem o poder burocrático, ambos, punindo
sempre aqueles que ousam se afastar ou desafiar
o cânon.
Senha
para o paraíso
Para José Sérgio Carvalho, da FEUSP,
especialmente os discursos educacionais possivelmente
são os mais atravessados
“pela presença de jargões que se disseminam
entre professores e se transformam em slogans”.
É quando um dito do momento parece dizer “tudo”.
As pessoas parecem entregues a um ‘transe
hipnótico (Wood, 1985) quando um professor
investido de saber toma a palavra. Em transferência
massiva com o referido professor, qualquer
“nada” diz “tudo”. Exagerando, nos faz lembrar
o cantor Tim Maia, nos shows dizendo em tom
irônico: “Vou filosofar: tudo é tudo e nada é nada”. Houve quem acreditasse
estar diante de uma máxima filosófica e de
um cantor filósofo.
O campo educativo é marcado por
altos e baixos de idéias, de palavras mágicas
e nomes que viraram referência de ‘científica’.
Assim, convivemos com a idéia oriunda da pedagogia: “a criança constrói seu próprio conhecimento”.
Depois veio a “educação
para a cidadania”. No âmbito da educação
familiar alguém cunhou a palavra “limite”, geralmente usada de forma queixosa
para apontar indisciplina ou carência de valores
fundamentais ao convício social. Ainda é lugar
comum dizer:
“As crianças de hoje não têm limites”, “os
pais precisam impor limites”. Atualmente,
nas escolas, nas faculdades de formação de
professores, e órgãos afins, a ‘inclusão’ tomou conta do consenso educacional.
A inclusão é mais um consenso retórico do
que aceitação prática pra valer. Breve será
mais um slogan
a ser desgastado com o tempo e pela desresponsabilização
dos governos.
As cansativas reuniões cumprem
o ritual burocrático escolar ou acadêmico.
Os discursos ‘autorizados’ nelas são pronunciados
na contramão do estilo socrático, isto é,
não conseguem ascender ao diálogo e à troca
autêntica e profunda de idéias. Wood (1985),
analisa que: “reuniões longas, cansativas, altamente emotivas
e outras condições que induzem ao transe [grupal]
tornam os participantes suscetíveis a slogans
e as idéias repetitivas; um desafio constante
à relevância das palavras e das crenças pode,
entretanto, reduzir a sua efetividade. O jargão
pode ser exagerado e ridicularizado. Os participantes
podem rir
de si próprios e de suas mais prezadas invenções
quando essas invenções tornam-se opressivas
e sem significado”. Alguém estrategicamente
posicionado “fora” do grupo, poderá facilmente
observar como as pessoas “jogam”, bem como
detectar indícios de: falta de escuta, bloqueios,
filtragens, paixões atropelando a razão, ressentimentos
travestidos de “objetividade” ou de justificativa
técnica, dissonâncias entre indivíduos e o
grupo, arrogância, impolidez, narcisismos
patológicos, farpas irônicas, cinismo, etc.
As assembléias de alunos em vez
de tenderem para análises dos temas de discussão
e luta, em vez de serem momentos de trocas
de idéias, os grupos se expressam em “sínteses”
panfletárias, competindo para converter os
desgarrados e independentes para as causas
escolhidas como prioritárias de luta. Os encontros
programados servem mais para o propósito do
jogo político, a inflamação das paixões por
essa ou aquela idéia, do que para promover
o “discernimento” e análise filosófica ou
científica. Os “sujeitos” terminam se rendendo
a virarem “agentes” representantes de alguma
facção; a “fala” é substituída pelo “discurso”-
que na maioria das vezes já vem pronto pela
‘elite pensante’, grifados de idéias-síntese,
frases de efeito, e palavras que exortam ação
prática – as palavras de ordem. O clima das
assembléias de mestres e doutores não é muito
diferente do encontrado entre alunos. Com
uma diferença: cada membro se posiciona no lugar da “verdade e da
luz”, de tal forma que não existe brecha para
questionamento do tipo: “o que vocês pensam sobre o assunto?”, ou “vamos investigar a fundo essa questão”. É preciso ter muita coragem para expor um pensamento
diferente
do imperativo canônico, ou do “consenso”
fabricado numa reunião ou da assembléia. As
“estruturas de alienação do saber” estão ativadas e nada há
o que fazer. Divergências sempre existem, mas é prudente
primeiro ser parte de um grupo – e de uma
aliança ideológica – para depois tomar a palavra.
Do contrário, o desgarrado não suportará ouvir
os inúmeros slogans
para parar, e imediatamente se recolher ao
ostracismo de sua desgraça como político.
Slogan e as dificuldades de tomada de consciência.
Evidentemente que slogans como “liberdade, igualdade e fraternidade”
da revolução francesa, ou “terra e paz” do
bolchevismo soviético, ou, ainda, a máxima
da Justiça moderna que proclama “todos são
iguais perante a lei” são positivos como primeiro
passo de conscientização, de passagem do pensamento
sintético ao analítico. Slogans
e palavras de ordem precisam ser acessíveis,
inquestionáveis e populares para proporcionar
a decodificação, causar identificação e uniformizar
a organização social daqueles mais entusiasmados
por uma determinada causa social necessária
e justa. Mas, sendo o slogan excessivamente simplificador, pode tornar-se
perigoso para o pensamento, que invés de se
abrir pode se dogmatizar, criando um estilo
fanático.
No registro de fanatismo bastará
algum membro usar um slogan
como senha, que os convertidos e seus próximos
entram em sintonia num corpo místico uno, um estado de transe hipnótico pronto
para “tudo”: desde um ato moral ao crime,
em nome da “causa”. Se a ideologia do grupo
for totalitária, haverá ruptura dos limites
do outro e da lei, ou seja, é rompido assim
o principal dispositivo que sustenta a civilização
e a democracia. Quando isso ocorre, o “sujeito”
dá lugar ao que Voltaire chama de “espírito
do sagrado”, considerado superior às leis,
e também ao exercício da dúvida e da pesquisa.
(Assim, ao ouvir a sentença, responsabilizando-o
pelo ato terrorista em Bali, em 2002, que
matou 202 pessoas, Amrozi se virou para os
australianos, sorriu, fez o sinal da vitória
e gritou: “Deus é o maior”, duas vezes). Não era uma reverência
ao divino, mas sim uma senha para os outros
continuarem lutando pela “causa”.
Sustentando essas idéias transformadas
em jargões e depois em
slogans, é que se constituem os grupos
narcísicos. Digo “narcísicos” porque a regra
destes é aceitarem a inclusão à apenas aqueles
que pensam igual
ou que perseguem a uniformidade.
O narcisismo grupal funciona para que cada
membro do grupo seja espelho do outro, que
deve ser seu
igual no modo de pensar, agir, sentir,
falar, parecer. Quem ousar pensar, criticar
ou agir diferentemente da maioria narcisista,
corre o risco de cair em ‘desgraça’, tal como
era dito na China comunista de Mao. (Existem
inúmeros livros que analisam esse fenômeno,
bem como há filmes e documentários. Ver “Fascismo
sem máscara”, “A Onda”, “Olhos Azuis”, "Zoológico
Humano”).
Que
fazer?
Apesar de difícil, não é impossível
sustentar uma posição independente de “sujeito”
na contramão do narcisismo grupal, potencialmente
gerador de jargão, slogans e palavras de ordem,
nem sempre orientadas pela atitude democrática.
A primeira coisa a ser feita é
o “sujeito” sustentar uma atitude crítica,
reflexiva, autônoma, e corajosa, em relação à onda emocional
da maioria; assim, o sujeito
pode se manter a certa distância do poder
narcísico de grupo, do líder carismático e
de sua comunicação instrumental. Escolhendo
fazer parte dessa onda, a responsabilidade
cabe mais aos sujeitos
do que ao grupo. A segunda atitude consiste
em resgatar seus próprios pressupostos estocados, bem como também resistir
a entregar sua identidade pessoal ao poder
ideológico do grupo ou de seu líder, ou ainda,
da força das palavras. Hoje em dia, a força
das palavras é sentida nas igrejas que viraram
verdadeiras fábricas de slogans para a mídia, como por exemplo: “Jesus Cristo é o Senhor”, “Deus é amor”, Só Cristo Salva”, “Deus é fiel”,
“Sangue de Jesus tem poder”, “Allah é grande”,
“Guerra santa aos infiéis”, etc. O terceiro
dispositivo preventivo é o humor. Diz o escritor e pacifista israelense Amós Oz, que somente
o humor é capaz de quebrar o fanatismo de
um grupo.
Todavia, a conscientização psicológica
pode não ser suficiente, visto que tais consensos
sociais são fabricados segundo vários determinantes
históricos e contingentes do momento. Ou seja,
as estruturas psíquicas, as estruturas sociais
e o desenvolvimento histórico são complementares,
tal nos sinaliza Norbert Elias. Essas três
dimensões demandam esforços no sentido de
elaboração de um pensamento e uma atitude
que impliquem “complexidade” em vez de “especialidade”.