Qual
é o futuro da democracia nas sociedades crescentemente
corroídas pela perda ou evasão de empregos
produtivos?
O espectro do desemprego está rondando
o mundo. Há mais de 30 milhões de desempregados
nos países mais industrializados, membros
da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento
Econômico). As previsões para os próximos
anos, quando o nível de emprego nos principais
países do primeiro mundo (EUA, Japão, Alemanha)
continuará diminuindo, são sombrias e sem
perspectivas de reversão nessa tendência.
Se acrescentarmos aos que perderam seu posto
de trabalho, os milhões de refugiados e migrantes
à procura de abrigos e oportunidades de reconstruir
suas vidas, fica caracterizado o perfil de
uma crise do sistema que condena, em escala
sempre crescente, uma vasta parcela da humanidade
à fome, miséria e exclusão da vida social
e cultural.
As causas desse fenômeno assustador são
múltiplas e, por isso, as medidas e diretrizes
reducionistas prescritas ou recomendadas pelos
órgãos financeiros internacionais, bem como
os esforços empreendidos por governos nacionais,
têm se revelado de pouca ou nenhuma eficácia.
Bastaria aumentar as exportações, elevar a
produtividade e melhorar a qualidade dos produtos
para assegurar a absorção pelo mercado de
trabalho desses contingentes de milhões de
marginalizados do processo produtivo?
A perda do emprego em nossa sociedade
significa o inicio de uma longa trajetória
de deterioração das condições existenciais
do indivíduo, de sua família e da comunidade,
resultando na exclusão de fato do convívio
social.
A exclusão não deve ser considerada apenas
como situação de falta do mínimo para atender
as necessidades básicas (alimentação, habitação,
transporte, educação, saúde e lazer) das populações
carentes, mas funciona, sobretudo, como bloqueio
de opções, de possibilidades de desenvolvimento.
Segundo Amartya Sen
-
prêmio Nobel de economia - o processo de desenvolvimento
deve ser concebido como a conquista da liberdade
de optar, de escolher seu caminho, seu projeto
de vida e de futuro. A falta de oportunidades
de escolha resulta em sofrimento, material
e psíquico, porque induz um processo de erosão
de dignidade pessoal, da auto-estima e, pior,
do sentimento de pertencer à comunidade que
confere sentido à vida.
Os impactos da perda do emprego e da conseqüente
exclusão social devem ser analisados e equacionados
por um enfoque transdisciplinar e multidimensional.
Enfrentamos os problemas em sua dimensão objetiva
de desigualdade econômica e social; em sua
dimensão ética de injustiça praticada contra
os mais fracos, e em sua dimensão subjetiva
dos sofrimentos infligidos, sobretudo às mulheres,
crianças, idosos e inválidos.
Aponta-se para a fatalidade do progresso
técnico nas últimas décadas como causa do
desemprego industrial - à semelhança do que
ocorreu na agricultura no fim do século XIX,
particularmente nos EUA. Estudos mais recentes
colocam em dúvida esse argumento algo simplista.
Afinal, o Japão é, dos países industrializados,
o que mais automatizou suas indústrias e,
todavia, sua taxa de desemprego é a mais baixa
de todos os países desenvolvidos.
Sem negar o impacto da inovação tecnológica
na perda de postos de trabalho – geralmente
menos qualificados – devemos atentar também
para a criação de novos empregos, mais qualificados
e melhor remunerados, em conseqüência do progresso
técnico.
O saldo desse jogo de demanda e oferta
de mão-de-obra depende, em última análise,
do fluxo de investimentos que, por sua vez,
é função da poupança e das condições políticas,
econômicas e infra-estruturais prevalecentes
em cada país ou região.
O baixo coeficiente de investimentos no
país (15% do PIB, em média, durante os últimos
20 anos) levanta a questão do destino dado
aos lucros pelos detentores do capital. Não
constitui segredo que a maior parcela do excedente
crescentemente apropriado pelo capital, quando
não expatriado e depositado em paraísos fiscais,
alimenta a especulação financeira, baseada
em taxas de juros quatro a cinco vezes superiores
àquelas vigentes nos mercados financeiros
internacionais.
A suposta atração que essa situação deve
exercer sobre os investimentos estrangeiros
não passa de mais uma mistificação. Os recursos
que ingressam no país são de curto prazo e
altamente especulativos. Os grandes fluxos
de investimentos, embora declinantes devido
à crise generalizada, são dirigidos, em primeiro
lugar, para os países industrializados, a
fim de assegurar a presença das empresas transnacionais
em mercados cativos e excludentes em função
da integração e reestruturação da economia
mundial.
Como segunda opção de investimentos para
o capital e a tecnologia, hoje facilmente
transferíveis pelo mundo, figuram os países
que oferecem, além das “vantagens estáticas
comparativas” do passado (baixo custo e abundância
de matérias-primas e energia), uma força de
trabalho barata e competente. Mas, a criação
de novos empregos nos países selecionados
do terceiro mundo, em função de condições
favoráveis que oferecem, não compensa, obviamente,
a perda de postos de trabalho nos países de
origem de capital.
O terceiro fator explicativo da diminuição
da oferta de empregos se prende às possibilidades
abertas pela difusão do novo paradigma técno-econômico,
baseado em redes de comunicação globais operando
“on-line”; de subcontratar, cada vez mais,
a produção de peças e componentes, bem como
de serviços auxiliares (limpeza, manutenção,
refeições, transporte, segurança) de empresas
autônomas. Esses contratos de terceirização
não exigem investimentos em instalações e
equipamentos e, tampouco, em recrutamento,
seleção, treinamento e qualificação da mão-de-obra.
A terceirização, além de livrar dos encargos
sociais reduzindo os custos de produção,
facilita a mobilidade do capital, sempre
em busca de maior retorno com menor risco
para seus investimentos.
Seria possível estancar ou barrar a perda
de empregos (leia-se investimentos) para regiões
mais preparadas e, portanto, mais promissoras
para a lucratividade dos empreendimentos?
A cultura ocidental foi toda permeada
pela visão bíblica do trabalho como maldição.
(“No suor de teu rosto”...) Visão reforçada
pelos críticos do sistema de produção fabril
emergente após a revolução industrial, durante
os últimos dois séculos. O novo modelo produtivo
estaria em condições não somente de melhor
qualificar o trabalhador, mas também, de restaurar-lhe
os sentimentos de pertencer, de identidade
e, com isto, de estabilidade e segurança.
Estaria mudando a prática das empresas que,
diante da queda da demanda ou em conseqüência
da automação, não hesitam em tornar redundantes
e desempregados indivíduos em plena idade
produtiva? Parece mais do que evidente que
a sociedade tornar-se-á “sustentável” somente
quando a maioria de seus membros encontrar
atividades materialmente gratificantes, sem
dúvida, mas também significativas, de acordo
com as tradições, valores e o conteúdo simbólico
de sua cultura.
Ao analisarmos a relação entre trabalho
e desenvolvimento é impossível abstrair do
contexto sócio-político e cultural, do ambiente
em que vivemos, trabalhamos e construímos
os nossos sonhos, crenças e, por que não,
nossos preconceitos que acabam impactando
em nosso comportamento individual e coletivo.
Essa visão do trabalho como fator estruturador
das relações sociais, presente nas analises
sociológicas de Marx, Durkheim e Weber, passou
a ser crescentemente questionada a partir
de posturas críticas, sobretudo na segunda
metade do século passado. Autores como Friedmann,
Naville e Touraíne, críticos do modelo clássico
do operário industrial, alienado e desqualificado,
apontaram para as contradições e conflitos
profundos decorrentes da condição existencial
de ser trabalhador em um mundo dominado pelo
capital.
Como sobreviver em uma sociedade que nega,
a contingentes cada vez mais numerosos, o
acesso ao trabalho e, com isso, ao consumo
mínimo, à informação e à participação política?
É possível conquistar ou manter os direitos
à cidadania, sem ter um emprego?
Por outro lado, mesmo aqueles que conseguem
manter-se empregados não escapam dos efeitos
de desqualificação e deterioração das condições
de trabalho, em termos de segurança e estabilidade,
devido à introdução de novas tecnologias,
a mobilidade do capital e a conseqüente internacionalização
da produção, do comércio e dos investimentos.
A complexidade e as facetas multidimensionais
da problemática são ressaltadas ao se enfocar
as mudanças introduzidas nos processos produtivos,
na organização e gestão das empresas, a partir
do novo paradigma e particularmente, da microeletrônica.
Após dois séculos de eminência e destaque
ao trabalho industrial, estaríamos realmente
no ponto de dizer “Adeus ao proletariado”
(Gorz, 1982)?
A onda de desemprego que varre o mundo
tem desviado a atenção da deterioração do
clima social e moral entre aqueles que ainda
mantém seus empregos. A disposição de “dar
duro” no trabalho e manter-se leal à organização
está definhando rapidamente. Por que se esforçar,
melhorar a qualidade e aumentar a produtividade,
se seus resultados vão causar mais desemprego?
Faz sentido exigir lealdade e dedicação à
empresa, se seus donos ou dirigentes mudam
ou são substituídos em conseqüência de fusões
e outras manobras especulativas do capital,
semeando tragédias individuais e coletivas,
de famílias e de comunidades inteiras?
A instabilidade no emprego e o assalto
concomitante à seguridade social do trabalhador,
além da deterioração geral das condições de
vida, produzem uma queda irresistível da moral
privada e pública, individual e coletiva.
Nos tempos idos, confiava-se no governo para
zelar e proteger os direitos dos trabalhadores,
face às pressões permanentes e as práticas
agressivas do capital, visando reduzir a participação
dos salários no produto social. Hoje, é o
próprio governo que, sob a alegação de flexibilizar
os contratos de trabalho e, assim, tornar
a economia mais competitiva, estimula empresas
e sindicatos a infringir os preceitos legais
de proteção e de seguridade social do trabalhador.
Enquanto isso, a academia se perde em
infindáveis exercícios e debates escolásticos
sobre desemprego estrutural, tecnológico,
sazonal, terceirização e precarização do trabalho
que confundem causas com efeitos, não explicam
a dinâmica do processo e, menos ainda, permitem
desvendar novos caminhos para enfrentar o
problema concreto: como assegurar a sobrevivência
de centenas de milhões de vítimas dessa onda
de “racionalização” que assola o mundo todo?
A maioria dos economistas debruçando-se sobre
o fenômeno em si, perde de vista o contexto
e, com isto, a dinâmica geral da economia
globalizada, impulsionada pelo processo de
centralização do capital.
O poder financeiro concentrado em poucas
mãos e associado a uma mobilidade praticamente
ilimitada proporcionada pela combinação do
computador com os meios de comunicação via
satélite, é capaz de realizar operações bilionárias
em tempo real, sem estar sujeito a qualquer
fiscalização, controle ou tributação. Por
que, então, investir em ativos fixos na indústria,
agricultura, mineração ou transporte, se a
política de juros do governo garante um retorno
elevado, seguro e com liquidez imediata?
Acabou-se com os sonhos, mas não com os
discursos nos gabinetes sobre política industrial,
tecnológica e de desenvolvimento regional
sabiamente orientada pelo poder público. Assistimos
ao espetáculo pouco edificante de transformação
de governantes em caixeiros viajantes, percorrendo
o mundo em busca de investimentos e excedendo-se
nas promessas de vantagens, incentivos e isenções
fiscais e tributárias. Não importa em que
setor ou região será feito o investimento
ou se a tecnologia a ser utilizada será prejudicial
ao meio ambiente e à saúde da população conquanto
que resulte em crescimento do PIB (Produto
Interno Bruto) parâmetro fictício de eficácia
utilizado pelos governos, semelhante ao equilíbrio
fiscal, sempre prometido, cada vez mais distante.
Entretanto, um dos créditos apresentado nas
“negociações” é a redução dos salários e dos
encargos sociais, enfim, da qualidade de vida
dos mais necessitados.
Voltamos ao clima moral criado nos locais
de trabalho e na vida pública. A perda de
motivação em conseqüência de demissões e da
precarização do trabalho, associada às pressões
para se reformar o sistema de previdência
e de aposentadoria funciona como fator de
redução de eficiência e qualidade. Pessoas
angustiadas ou infelizes são incapazes de
produzir com rendimento ótimo, seja nas fábricas,
seja no serviço público.
Por outro lado, a insegurança generalizada
criada em função de números crescentes de
roubos, assaltos, seqüestros, assassinatos
e outros atos de violência repercutem profundamente
na vida social e cultural de todas as camadas
da sociedade.
Enquanto excluídos, pobres e desempregados,
são empurrados para a periferia das grandes
aglomerações urbanas, destituída de um mínimo
de serviços e infraestrutura que assegurem
uma qualidade de vida decente, a classe abastada
vive cercada, atrás de grades de ferro e protegida
por inúmeros agentes de segurança particulares,
o que transforma a paisagem dos bairros mais
urbanizados e ajardinados em verdadeiros espaços
sitiados.
Os discursos do Presidente e as manifestações
contraditórias, do Congresso Nacional e da
mídia seriam suficientes para convencer os
hipotéticos investidores estrangeiros e nacionais,
do espírito de disciplina, confiança e solidariedade
no país, em cuja ausência tanto a economia,
quanto as instituições políticas perdem as
condições de eficácia e credibilidade?
A problemática vai além dos bons sentimentos,
da filantropia e da ajuda humanitária. A resposta
está na reconquista dos direitos de cidadania
e da participação política que tornem os indivíduos
em sujeitos do processo de sua emancipação,
e assim, os transformem, de meros objetos
manipulados, em gestores de seu próprio destino,
do futuro da História e da humanidade. Contudo,
ao resgatar os indivíduos atores sociais do
processo, não devemos tirar a responsabilidade
do poder público, em nível municipal, estadual
e federal.
Condição básica para um processo de desenvolvimento
que resulte em oferta contínua de empregos
e aumento da renda dos trabalhadores refere
a uma mudança radical da política macroeconômica
nacional.
Em vez de favorecer sistematicamente o
capital, cumpre ao governo a tarefa inadiável
de prover e assegurar trabalho para todos
e coibir a exploração desavergonhada de trabalho
alheio, em franco desrespeito aos direitos
humanos e à cidadania.
A construção de uma sociedade sustentável
- democrática, justa e mais igualitária -
requer a extensão dos direitos humanos, consagrados
na Carta das Nações Unidas, além da esfera
eleitoral, para a vida cultural, política
e social, a partir do direito ao trabalho
e a renda e, através dele, a inclusão de cada
um e de todos, como membros de plenos direitos
e oportunidades, à sociedade.
Mas, esforços também devem ser empreendidos
para fomentar e estimular políticas de desenvolvimento
e inclusão social em nível local, com iniciativas
criativas de cooperação, auto-gestão e projetos
de economia solidária. Em todos os programas
e projetos, prioridade deve ser atribuída
ao acesso às informações e ao fortalecimento
dos movimentos sociais que potencializam a
dinâmica de inclusão social.
A construção de núcleos e de redes de
confiança mútua realiza-se através de projetos
de cooperação em nível local, enquanto a corrida
competitiva inviabiliza as iniciativas conotadas
pelos sociólogos como formação de capital
social. Este é o resultado de uma nova mentalidade
gerada em um processo contínuo de cooperação
dos atores sociais, a começar pelas crianças
nas escolas, na vida comunitária, nas empresas,
sempre com o estímulo e o apoio de políticas
públicas.
Somente uma sociedade solidária, fundamentada
nos valores de cooperação, democracia participativa
e justiça social, estará em condições de enfrentar
e superar a chaga do desemprego.