“O mundo não é. O mundo está sendo. Como subjetividade curiosa, inteligente,
interferidora na objetividade com que dialeticamente
me relaciono, meu papel no mundo não é só o
de quem constata o que ocorre mas também o de
quem intervém como sujeito de ocorrências. Não
sou apenas objeto da História mas seu
sujeito igualmente. No mundo da História, da
cultura, da política, constato não para
me adaptar mas para mudar”.
(Paulo Freire: 1997:85-86)
A
realidade atualiza antigas polêmicas. A eleição
de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, marcou
a revoada de renomados intelectuais aos postos
abertos no aparato do Estado. Estes intelectuais
não foram poupados da crítica de seus pares.
Aos desavisados, poderia parecer tratar-se de
um fenômeno novo. Porém, não foi a primeira,
nem seria a última vez que um governante contaria
com o apoio ativo da intelectualidade.
A eleição do companheiro Lula inverteu a rota: intelectuais
antes alojados na corte de FHC retomaram as
suas funções de docentes, pesquisadores, escritores
etc; estão disponíveis para suprir os meios
de comunicação através de suas análises (tornaram-se
críticos do poder); outros, caíram no ostracismo.
Os oposicionistas de ontem, agora são governo:
são os companheiros intelectuais. Mudam
os governos, mudam os nomes, mas todo governo
tem os seus intelectuais.
Desde a antiguidade que os intelectuais se colocam a soldo
dos governantes e colaboram para a conservação
do poder e do status quo. E, por outro lado, também
sempre existiram os contestadores da ordem e
do poder político vigente, os inconformistas
e instabilizadores; os que construíram novas
ordens e produziram novos contestadores e novos
defensores da ordem.
Palavra
e ação, teoria e prática
O intelectual deve tomar partido diante dos dilemas
do seu tempo, diante do mundo? O engajamento
é próprio dos intelectuais? É lícito que o intelectual
recuse a política? Ele deve se abster de participar
do poder? É correto que ele assuma o papel de
conselheiro do príncipe? Qual é a sua
responsabilidade diante da sociedade?
Sartre, modelo de intelectual engajado, celebrizou este debate
ao defender que o intelectual-escritor não é
neutro diante da realidade histórica e social.
“O escritor “engajado” sabe que a palavra é
ação: sabe que desvendar é mudar e que não se
pode desvendar senão tencionando mudar”, enfatiza.
(SARTRE, 1993: 20) No contexto da sociedade
capitalista é impossível manter o sonho da imparcialidade
diante da condição humana. Para ele, “a função
do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar
o mundo e considerar-se inocente diante dele”.
(Id.: 21)
Porém, o intelectual tende a separar a palavra do
mundo, o conceito da realidade. As palavras
dissociam-se da vida real, das contradições,
sofrimentos e esperanças dos que vivem o
mundo. Como assinalou Paulo FREIRE: “Em
última análise, tornamo-nos excelentes especialistas,
num jogo intelectual muito interessante – o
jogo dos conceitos! É um “balé de conceitos”.
(FREIRE e SCHOR, 1986: 131)
Portanto, não se trata apenas de refletir sobre o mundo,
de desvendá-lo aos olhos dos incrédulos, mas
de arrancar os homens e mulheres da sua consciência
feliz, isto é, da sua ignorância perante
o mundo e a condição humana no mundo, tencionando-os
para transformá-lo. Se a palavra é ação, a ação
não é contemplação. Como enfatizou MARX (1982:
03): “Os filósofos têm apenas interpretado o
mundo de maneiras diferentes; a questão, porém,
é transformá-lo”.
Como vemos,
a discussão sobre a relação teoria e prática,
contemplação e transformação, remete-nos a tempos
remotos. E, permanece, atual.
O dilema do engajamento
Sartre observa que o intelectual moderno é um homem-contradição,
um ser dividido entre a ideologia particularista
(fatores econômicos, sociais e culturais que
condicionam sua vida) e o universalismo (exigência
intrínseca da sua atitude como técnico e pesquisador).
“Um físico que se dedica a construir a bomba
atômica é um cientista. Um físico que contesta
a construção desta bomba é um intelectual”.
(1994: 08) Eis, em resumo, o paradoxo do intelectual
moderno na acepção sartriana.
Não cabe, portanto, ao especialista questionar as condições
em que se dá a pesquisa, o resultado ou mesmo
o uso que se faz dela. Mas é precisamente no
momento em que o pesquisador “se mete no
que não é da sua conta e que pretende contestar
o conjunto das verdades recebidas, e das condutas
que nelas se inspiram em nome de uma concepção
global do homem e da sociedade” que ele se torna
um intelectual. (Id.: 14-15). O intelectual
aparece como uma aberração: um monstro.
Tocqueville, no século XIX, censurou os intelectuais por,
em sua opinião, desempenharem um papel negativo
no processo revolucionário francês. Em contraposição, Sartre
argumenta que os filósofos iluministas tiveram
a missão de desenvolver os pressupostos teóricos
que legitimaram a ideologia burguesa, a qual
tornou-se universal e hegemônica. Os filósofos
eram intelectuais orgânicos, no sentido
gramsciano.
Se somos feitos à imagem e semelhança de Deus, o ideal iluminista
nos fez à imagem e semelhança do homem burguês.
Os intelectuais modernos, técnicos do saber
prático, encontram-se presos às amarras
do humanismo universalista burguês e às contradições
próprias do seu ser social, enquanto membros
de uma categoria social vinculada à ideologia
dominante. Então, coloca-se a necessidade de
construção de um novo humanismo, uma outra universalidade.
Esta é, na acepção sartriana, a tarefa histórica
dos intelectuais.
A crítica sartriana focaliza o técnico do saber prático
que, por sua condição social, é potencialmente
um intelectual, mas não necessariamente atua
como tal. Ele aponta a tendência contemporânea
do descomprometimento do intelectual com as
questões sociais (e, nesse sentido, o intelectual
não realiza as suas potencialidades, isto é,
não se assume enquanto tal).
Sartre advoga o engajamento militante do intelectual. Sua
crítica exprime o elogio ao intelectual que
se assume como a consciência infeliz,
a aberração que ousa contrapor-se ao humanismo
burguês. A função do intelectual reside em sua
contradição intrínseca e relaciona-se, no final
das contas, com o conhecimento. Sua primeira
tarefa é reconhecer a própria contradição, fazer
a autocrítica permanente.
O discurso sartriano prescreve um modelo de intelectual engajado
que induz à diferenciação entre o falso
e o verdadeiro intelectual. Mas é preciso distinguir
a atividade real dos intelectuais num determinado
contexto histórico concreto dos modelos prescritivos,
isto é, de como desejamos ou imaginamos a atuação
dos intelectuais. Analisando historicamente,
BOBBIO (1997: 34) identifica as seguintes posturas:
1.
Há
os que consideram que os intelectuais não devem
se envolver com a política e devem se restringir
à tarefa eminentemente espiritual, isto é, os
intelectuais são vistos enquanto guardiões dos
princípios e valores universais;
2.
Há
os que defendem que a tarefa do intelectual
é teórica, mas também imediatamente política,
pois a ele compete elaborar a síntese das várias
ideologias que possibilitam novas orientações
políticas;
3.
Outros,
concordando com a postura acima, imaginam que
cabe ao intelectual a função de educar as massas;
4.
E,
por fim, os que defendem que a tarefa do intelectual
também é política, mas a sua política não é
a política ordinária dos governantes, mas a
da cultura, e é uma política extraordinária
adaptada aos tempos de crise.
Cada uma dessas funções contém riscos de degeneração. No
primeiro caso, o intelectual é visto como um
clérigo e, enquanto tal, tende a afastar-se
do mundo, a estranhá-lo. O clérigo tende a desenvolver
uma concepção hedonista da cultura e uma visão
agnóstica da política.
No segundo, que vê os intelectuais como indivíduos acima
do combate, tende-se a desenvolver um certo
neutralismo e eticismo abstrato geradores de
ceticismos em relação à política, como se os
intelectuais estivessem acima dos pobres mortais,
observando “com aristocrático desdém os cães
que se pegam a dentadas”. (Id.: 35)
No terceiro, o intelectual é visto como elite dirigente.
O elitismo levado às ultimas conseqüências implica
no afastamento da política, vista como uma atividade
inferior. Isto resulta num idealismo ingênuo,
na crença de que o mundo pode ser transformado
pelas idéias. A frustração leva ao isolamento,
ao recolhimento interior, como uma forma de
não sujar as mãos. No último caso, o risco de
degeneração é a concentração dos intelectuais
em organizações e partidos próprios, isolados
dos demais setores da sociedade.
Em todas essas posições observa-se a tendência a elevar os
intelectuais acima dos demais grupos sociais,
implicando a idéia de uma superioridade intrínseca
à sua profissão. Destas posturas, resultam dois
casos limites:
1º o isolamento do intelectual em seu próprio mundo, em sua
torre de marfim;
2º o engajamento
(engagement) profundo do intelectual
na política.
Engajar-se é assumir uma posição no mundo, é tomar
partido e assumir os riscos inerentes a
esta atitude. Determinadas situações históricas
não permitem a neutralidade. política. Por outro
lado, o engajamento pressupõe escolher um dos
lados em disputa. E se não for possível fazê-lo?
A resposta a este dilema depende das circunstâncias e das
interpretações que damos às mesmas. A conduta
do intelectual não é determinada apenas por
idealismo, mas também pelas condições históricas
concretas. No entanto, podemos imaginar, como
faz Bobbio, um modelo ideal de conduta:
“Se eu
tivesse que designar um modelo ideal de conduta,
diria que a conduta intelectual deveria ser
caracterizada por uma forte vontade de participar
das lutas políticas e sociais do seu tempo que
não o deixe alienar-se tanto a ponto de não
sentir aquilo que Hegel chamava de “o elevado
rumor da história do mundo”, mas, ao mesmo tempo,
por aquela distância crítica que o impeça de
se identificar completamente com uma parte até
ficar ligado por inteiro a uma palavra de ordem.”
(Id: 79)
Para Bobbio, a superação deste dilema está na aceitação da
autonomia relativa da cultura, ou seja, uma
política de cultura. Assim, evitam-se os extremos:
a postura do engajamento a qualquer custo e
a atitude do isolamento em torres de marfim.
Pois, não-político é diferente de apolítico.
Ser não-político significa colocar a
política num patamar qualitativamente diferente
da política ordinária (partidária) e remetê-la
para outro nível não restrito à política como
potência. “A primeira tarefa dos intelectuais
deveria ser a de impedir que o monopólio da
força torne-se também o monopólio da verdade.”
(Id.: 81)
A
responsabilização do intelectual
O engajamento, muitas vezes, configura-se numa forma
de submissão a um aparato, a uma liderança,
ao Estado:
“Prefiro
falar mais de responsabilidade a falar de engajamento
porque importa não que o homem de cultura se
engaje ou não se engaje, mas por que coisa se
engaja ou não se engaja, assumindo todas as
responsabilidades da sua escolha e das conseqüências
que dela derivam”. (Id.: 100)
Seguindo a análise bobbiana, o que está em questão não é
o engajamento em si, mas a causa pela qual o
intelectual se engaja: há causas que são equivocadas
e, nesses casos, é melhor o aparente não-engajamento.
O intelectual deve ser julgado por sua responsabilidade.
Mas do que o não-engajamento, pesa o crescente
processo de desresponsabilização dos
intelectuais, muitas vezes escondida sob a capa
da ética de grupo.
A desresponsabilização do intelectual se funda no argumento
da neutralidade científica. Isto só se torna
possível pela rendição da universidade aos critérios
mercadológicos, que transformam educador, educando
e conhecimento em mercadorias permutáveis. Estamos
diante de uma universidade que produz um tipo
especifico de conhecimento, aquele que pode
ser oferecido a quem se disponha a financiar
a pesquisa; uma universidade na qual o educando
é o cliente, consumidor de conhecimentos. Esta
forma de conceber a universidade é assimilada
pelo setor público. Amparada em princípios mercantis,
a universidade “perde o senso da discriminação
ética e da finalidade social de sua produção
– é uma multiversidade que se vende no mercado
ao primeiro comprador, sem averiguar o fim da
encomenda, isso coberto pela ideologia da neutralidade
do conhecimento e seu produto, capaz de arcar
com os custos da e oferece cursos a quem pode
pagar”. (TRAGTENBERG, 1990: 14-15)
A ideologia do intelectual desresponsabilizado consiste em
“não ter nenhuma ideologia, faz fé de apolítico,
isto é, serve à política do poder”. (Id.: 15)
Este típico intelectual possui uma capacidade
singular de discutir meios, desconsiderando
os fins; é particularmente inteligente na transubstanciação
de problemas qualitativamente políticos em problemas
técnicos; é prático ao ponto de evitar o espaço
público, preferindo a segurança das negociatas
em gabinetes.
No âmago desta postura está a ideologia da não-ideologia,
a busca das sinecuras burocráticas legitimadas
por um pretenso apoliticismo. Esta forma de
analfabetismo político expressa uma posição
política (política no sentido amplo, não restrito
à política-partidária) e fundamenta atitudes
que desconhecem ou passam por cima de quaisquer
preocupações éticas ou sociais.
Considerações conclusivas...
O especialista apolítico se considera neutro e imparcial.
Ele é capaz de dissertar sobre a miséria humana
com a sensibilidade de um autômato; é capaz
de escrever sobre os avanços tecnológicos sem
se colocar uma simples questão: a quais interesses
servem a técnica e a ciência? O especialista
desconsidera a dialética da relação indivíduo
e sociedade (isola um dos pólos ou toma-os de
forma dicotômica); não percebe que todo saber
expressa interesses e relações de poder. Ao
mínimo lampejo de consciência infeliz
ele recorre à filantropia ou aos argumentos
psicologizantes, individualizando os problemas
de caráter social. Termina por culpabilizar
a vítima.
Muitas vezes, como intelectuais, agimos à maneira dos especialistas
e políticos: falamos e nada dizemos, escrevemos
e nada fazemos, tratamos de temas complexos
que envolvem a mísera condição humana com a
frieza do médico a cortar o corpo, com o calculismo
das estatísticas e a banalização da realidade.
A vida escorrega sob os nossos dedos e nosso
ser se dilacera entre o último modismo teórico
e as dúvidas abstratas sobre conceitos desconectados
do mundo – mas conectados na rede mundial de
computadores. As idéias aparecem-nos como que
autônomas, simples produto da nossa inteligência
e prova de que pensamos. E, se pensamos, existimos.
Se existimos, estamos vivos.
Pura ilusão! E se apenas respiramos e as idéias que imaginamos
serem nossas, não o forem? E se, em nossa santa
ingenuidade, reproduzimos, ainda que não o desejemos,
o discurso da dominação, a linguagem do opressor?
Ou por acaso o oprimido não introjeta o pensar
e agir dominantes? Em nossa insana sabedoria
abstraímos a realidade e as idéias nos parecem
desligadas dos contextos históricos, sociais
e políticos; desvinculadas dos interesses sociais
e das formas de poder que estes assumem.
Muitas vezes, em nossa arrogância narcisista, agimos como
vivos num mundo de mortos: presos ao nosso próprio
umbigo reduzimos a riqueza da vida à pobreza
da nossa abstração desvinculada da vida. As
palavras soam-nos neutras – como se apenas designassem
coisas, objetos; em nosso tecnicismo e especialismo
a vida se traduz em índices, números, teorias
etc.; dados que podem ser simplesmente manipulados,
catalogados, classificados, quantificados...
E isto, de maneira neutra, imparcial. É o “balé
dos conceitos”!
O intelectual isolado em sua torre de marfim – em tempos
modernos, é mais propício falarmos em escritórios
municiados de computadores – pode imaginar que
a sua palavra se transforma em ação pelo ato
de proferi-la. Do alto da sua arrogância ou
ingenuidade, ele se vangloria de não se envolver
com a política, de não sujar as mãos, de desempenhar
o papel de analista e conselheiro – os maquiáveis
modernos precisam estudar a biografia de
Maquiavel! Este tipo ideal de intelectual se
considera no direito de a tudo julgar, a todos
aconselhar. Acomodado confortavelmente em sua
poltrona, à frente do monitor, ele escreve sobre
os que, certos ou errados, assumem riscos que
o comprometem, a sua família e a própria vida.
Ele, o intelectual, sabe o que é certo: afinal
ele não defende os valores máximos da humanidade?
Mas o único risco que assume é, quem sabe, o
de receber uma crítica de um abnegado leitor.
A vida continua...
Talvez
seja o caso do intelectual crítico se perguntar
sobre as suas atitudes concretas. O comprometimento
com o mundo não se dá apenas pela abstração
contemplativa, idealista e psicologizante –
ainda que crítica. Quem sabe os intelectuais
que aderem aos governos não mereçam mais consideração
do que aqueles protegidos em suas casamatas?
A palavra engajada impõe riscos. Isto significa
abandonar a postura contemplativa, significa
assumir que os erros de quem age resultam em
efeitos concretos.
Não, não imagine o leitor que advogamos a adesão incondicional
à política partidária ou aos governos de plantão.
Apenas observamos que a política partidária
é uma forma de ação, entre outras, capaz de
incorporar os intelectuais, os quais passam
a correr riscos reais. Os intelectuais que não
aderem a esta forma de ação também podem desempenhar
uma função política transformadora (em sua escola,
na sala de aula, na sua cidade etc.). Isto pressupõe um comprometimento
que extrapola as abstrações e a postura confortável
do técnico e especialista que se imagina acima
do mundo ou que não consegue refletir sobre
a sua ação como intelectual, desligando-se da
realidade concreta. Este pode falar de tudo
e nada do mundo ter qualquer significado; suas
palavras reduzem-se a conceitos; ele é capaz
de conversar por longas horas sobre idéias,
grandes autores e obras, e a vida pulsa à sua
volta sem que ele se dê conta ou importância.
A condição humana não lhe atinge, ele próprio
se vê acima – ou imagina tratar dela codificando-a
em conceitos.