Nossa
própria bomba-suicida
Yom
Kipur 1973: É preciso repetir o desastre?
[ Por
Gideon Samet - publicado no HaAretz em 01/10/03
]
- tradução
e subtítulo da Lista
PAZ AGORA/BR
-
A
saudação automática que os
israelenses oferecem um a outro para um Feliz
Ano Novo não é vazia. Ela reflete
profundamente uma psique nacional. A maioria dos
israelenses tentam imaginar que essa profecia
se realize por si só, ao menos a julgar
pelas pesquisas de opinião cor-de-rosa
retratando o quanto suas vidas são boas.
No
fundo de seus corações, eles não
mentem. Tem sido feito muito para reforçar
a crença de que as coisas podem melhorar.
Sempre que tem havido um pouco de calma por aqui,
os israelenses tem feito rápidos movimentos
para renovar essa crença, e o tem feito com
impressionante sucesso. Apesar da deterioração
de Israel na última década a quase
cada trimestre, eles ainda contam com a criatividade
demonstrada, por exemplo, nos decadentes anos ao
fim da última década. Mas aqui há
um impecilho no caminho. O governo que eles elegeram
duas vezes os está frustrando, assim como
seu ânimo para melhorar suas vidas.
A
liderança israelense tem sido bem sucedida
em persuadir uma maioria de que não há
boa razão para fazer qualquer esforço
diplomático para tirar o país da crise.
Ao longo dos anos, essa maioria, que acredita que
a liderança palestina é a única
responsável pela nossa crise nacional, tem
apenas crescido. Ela permitiu que o argumento "para
que?" se tornasse a primeira ferramenta para
retrucar as críticas à liderança
local.
Quando
os 27 pilotos anunciaram sua recusa de seguir ordens,
as vozes a eles opostas - que variavam de expressões
de desprezo a acusações de traição
- eram de que obviamente esse ato não levava
em conta a necessidade de ensinar aos árabes
uma lição, sem qualquer vacilação.
Os
mais de 800 israelenses mortos foram novamente relacionados
para servir de argumentos de defesa para a incompetência
do governo, que diz que se não tivesse tomado
as atitudes que tanto enfureceram os pilotos, teriam
havido mais mortos.
Agindo
assim, Israel está agora em vias de repetir
alguns dos mais lamentáveis capítulos
de sua história, retirando das milhares de
covas da Guerra do Yom Kippur, como num ato de necromancia,
o antigo padrão de uma fracassada, embora
largamente aceita, visão nacional. No caso
dos pilotos, a atual concepção, assim
como a que a precedeu, nega as considerações
de indivíduos e grupos opostos a uma totalmente
defeituosa estrada israelense para paz e segurança.
Outros ramais dessa estrada são santificados.
Em primeiro lugar vem o jargão : "Nós
já tentamos tudo... já lhes oferecemos
tudo", mas não funcionou..."
Sharon
não é o único a enganar seus
eleitores. O homem que derrotou, Ehud Barak, fez
uma considerável contribuição
para popularizar a teoria de que "Não
há alternativa, não temos ninguém
com quem conversar."
Este
discurso, uma vez associado com a ignomínia
e destrutividade de Golda Meir, por anos não
permitiu um renovado Golda-ismo. Nesta semana, 30
anos após experienciar o estrago que trouxe,
é difícil ecncontrar alguém
disposto a defender as considerações
políticas e militares daquele tempo, mas
a velha-nova concepção está
tendo sucesso em persuadir a maioria dos israelenses
de que as coisas irão melhorar, que a prosperidade
chegará - Bingo! - quando o outro lado, e
apenas o outro lado, mudar seus condenáveis
procedimentos...
O
preço de toda essa falácia é
muito caro, e destrutivo. Ele cobra o a ausência
do desenvolvimento de projetos nacionais essenciais
a um futuro melhor - em infraestrutura, saúde,
educação, ecologia e também
segurança. Assim como o governo de Golda
não se dispunha a considerar a abertura do
Canal de Suez, ou (a conselho de Moshe Dayan e outros)
retirar o exército da fronteira para uma
linha de defesa mais adequada, Sharon não
moveu um dedo para cumprir qualquer compromisso
com o road map, para remover postos avançados
ilegais e restaurar a dimensão dos assentamentos
ao que tinham dois anos atrás. Ele não
teve nem o lampejo de idéia de voluntariamente
remover alguns assentamentos para promover uma mudança
no clima de relacionamento com a Autoridade Palestina.
Aparentemente,
Sharon seria reeleito se fosse realizada uma votação
hoje, assim como foi Golda - num dos clássicos
atos de cegueira da sociedade israelense - dois
meses após o desastre de 1973. Observadores
da história israelense dirão que mais
tempo é necessário, pois aqui "as
fichas demoram a cair". Poderia ser, caso nós
já não "tivéssemos assistido
esse filme", não tivéssemos visto
o estrago feito ao correr atrás do tempo
perdido, e se esse estrago não estivesse
se transformando em nossa própria bomba-suicida.