Weber mostra que a tão propalada
‘liberdade acadêmica” para alguns consiste
em examinar não só as qualificações do
candidato a uma posição acadêmica, “como
também sua docilidade perante as autoridades
políticas dominantes e os costumes eclesiásticos.
Tal visão é compartilhada pelo proprietário
de muitos bens, onde ciência, estudo,
nem os direitos civis do professor universitário
tem qualquer significado” (p. 65).
Até parece que Weber estivera no
Brasil. A maneira pela qual os direitos
do professor universitário são respeitados
nessa terra é relatada no caso de uma
prisão motivada por aposta: “Numa roda
de bar, o delegado de polícia local, bacharel
Nestor Penteado, para exibir a sua autoridade,
apostou que seria capaz de meter no xadrez
um professor da Faculdade de Filosofia
(em Rio Claro). O nome escolhido foi o
professor W. Kerr, cientista ilustre,
nome altamente respeitado, tão respeitado
que foi escolhido para diretor executivo
da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (FAPESP). Pois bem, na madrugada
dessa mesma noite de bar, era aquele ilustre
professor tirado de sua casa e recolhido
à prisão de Rio Claro, onde permaneceu
por onze horas, sem que lhe fosse dada
uma xícara de café sequer, para, de noite,
ser solto sem nenhuma explicação, sem
ter sido interrogado, o que, aliás, não
era necessário porque estava ganha
a aposta, causa única do desrespeito
a uma família, a um professor de alto
conceito e à escola a que pertence” (O
livro negro da USP, p. 14-5; O
Estado de S. Paulo, 15-5-1964).
Weber mostra que, enquanto fora
da Alemanha, em universidades estrangeiras,
há socialistas do tipo mais radical, que
honram os países pelo seu trabalho e erudição,
na Alemanha basta ser declarado “inimigo
do Império” ou encarado pela polícia política
como “perigoso para o Estado” (p. 67)
para que a admissão ou permanência na
universidade seja questionada.
É didático o ocorrido na Faculdade
de Filosofia de São José do Rio Preto,
em 1964: “Da mesma forma em Rio Preto
passaram-se fatos tristíssimos na Faculdade
de Filosofia ali existente, porque houve
a denúncia de que na biblioteca da Faculdade
havia obras de Karl Marx. Professores
comunistas foram recolhidos à cadeia,
escolhidos ao que parece por sorteio,
pois quatro deles foram detidos e dois
mais precavidos tiveram que desaparecer”
(O livro negro da USP, p. 14). Professores
foram cassados, suas cadeiras “loteadas”
na Câmara Municipal da cidade, o inquérito
a respeito jaz arquivado por insuficiência
de provas!
A situação alemã, segundo Weber,
não é nada “liberal”, já que “as Congregações,
de maneira inteiramente voluntária, funcionam
como delegadas em nome da polícia política”
(p. 68). No nosso caso, Paulo Duarte,
em pronunciamento feito no Conselho Universitário
da USP, entre outras coisas relatara:
“ Aqui cabe assinalar que as autoridades
militares, pelo menos em São Paulo, têm
se portado com muito mais correção do
que os civis. Numerosos civis não hesitaram
diante do papel de delatores e beleguins...
Enquanto tantos civis, repito, até universitários,
delataram outros universitários, como
foi o caso do professor Raw, cujo crime
não é comunismo, é muito maior: o de não
poder ser enfrentado com êxito por nenhum
outro candidato no próximo concurso de
Química Biológica” (O livro negro da
USP, p. 21).
Weber mostra como a universidade
alemã tornou-se dependente do Estado através
da secularização das terras da Igreja
e da nobreza. Isso impediu a formação
de fundações privadas como nos EUA; na
Alemanha, só o Estado pode arcar com as
universidades.
Na Alemanha, dependente do Estado,
a universidade se coloca na posição de
canto no tom de quem me dá o pão,
incentivando a obediência política do
estudante, em vez de encará-la como um
problema cultural e intelectual. Weber
nota que, dessa forma, “os interesses
da ciência e da erudição estão mais mal
servidos do que em sua primitiva situação
de dependência da Igreja” (p. 69).
No Brasil em 1964 não acontecia
diferentemente. A modernização proposta
por setores do professorado universitário
ligado à pesquisa caminhava junto com
a crítica a cátedra e os estudantes pleiteavam
a reforma universitária. “É em 1962 que
se realiza a greve em favor da participação
de 1/3 do conjunto dos membros. Aos professores
mais conservadores, essa exigência significava
nada menos que a implantação do comunismo
na Universidade” (O livro negro da
USP, p. 10).
A inexistência de um clima onde
a crítica possa ser exercida, para Weber
não pode ser compensada por obras: “isso
não pode ser trocado pelos mais imponentes
institutos, pelas mais amplas salas de
aula, nem mesmo pelas inúmeras teses defendidas,
trabalhos premiados e êxitos nos exames”
(p. 69). É sabido que 80% do ensino universitário
obedece a lógica lucrativa do ensino privado,
conseqüência da política educacional do
MEC após 64. As universidades federais
e estaduais são responsáveis por 80% da
pesquisa científica nacional, embora abarquem
20% do contingente universitário do país.
Weber mostra quão equivocado é
o princípio segundo o qual o grupo político
que detém o poder de Estado num momento
determinado, interfere nos conteúdos que
a universidade dissemina: a favor ou contra
o Estado. Para Weber não cabe às universidades
se pronunciarem a favor ou contra o Estado,
não são escolas de inculcação de valores
morais absolutos, não são escolas do apocalipse,
nem produtoras de doutrinas de salvação
ministradas por leigos.
Na universidade estudam-se fatos,
suas leis, os fundamentos lógicos e históricos
dos conceitos em seu significado. Ela
deve oferecer um saber e experiência de
pesquisa; não cabe a ela a adoção de livros
sagrados, nem possuir intérpretes “autorizados”,
portadores de uma doutrina salvacionista.
Ela deve expor as doutrinas de todo o
tipo, examinando seus postulados, deve
desenvolver uma compreensão da realidade
social e pensá-la com clareza. O professor,
ante o politeísmo dos valores, deve explicitar
claramente suas crenças na determinação
de seu discurso. A Universidade “deve
oferecer ao estudante o hábito de assumir
o dever da integridade intelectual, e
isso acarreta necessariamente a necessidade
de uma inexorável lucidez a respeito de
si mesmo” (p. 70).
Para Weber, ante o politeísmo dos
valores, cada um deve exigir o máximo
de si quando assume ou não certos valores;
o professor não é um mistagogo que assume
tais decisões pelos estudantes. Não é
portador de nenhuma “mensagem” ou “profecia”
a não ser o empenho no aprofundamento
da comunicação e no significado intrínseco
do conhecimento, fiel à tradição racionalista
e revolucionária, da pesquisa e interrogação
ilimitada, da análise fria e clara da
verdade, na renúncia a negar-se a si como
“sujeito”, da própria seriedade e do intrínseco
significado do trabalho cotidiano.
No caso da universidade alemã,
se ela pretende criar tantas cátedras
quantas interpretações houver sobre a
Reforma, sejam católicas, luteranas, calvinistas,
judaicas, islâmicas, uma alternativa discutida
nos meios acadêmicos da época, ponderava
Weber, cabia à universidade “rejeitar
que se considerem os ‘valores e crenças
últimos’ de um candidato como critério
para nomeação acadêmica” (p. 72).
A Folha de S. Paulo de 26
de julho de 1964, num artigo intitulado
“Dedo duro na USP”, mostrava o quanto
as crenças últimas de candidatos funcionavam
como critério para nomeação acadêmica
e de exclusão dos mais brilhantes pesquisadores
e docentes: “Há indícios, infelizmente
fortes, de que pelo menos em certos núcleos
da Universidade de São Paulo a política
do ‘dedo duro’ se esteja implantando,
visando de maneira particular a alguns
elementos mais brilhantes daquela corporação”.
“Há indícios de que, alegadamente em nome
de ideais identificados com a revolução,
se procura atingir a própria carreira
de elementos de valor que, naturalmente,
buscam a cátedra. Na decisão de concursos
já estaria pesando a suposta ideologia
dos candidatos. Suposta porque é apenas
alegada, soprada, veiculada sub-repticiamente,
na ânsia de assegurar em certas cadeiras
o predomínio de certos feudos” (O livro
negro da USP, p. 15)
Quando Weber critica a universidade
alemã por discriminar ideologicamente
um candidato a um concurso, em outros
termos, ele procurar dizer: na universidade
ninguém deve ser punido ou premiado
por ser portador de uma ideologia. Nesse
sentido, ele critica discriminações do
tipo eclesiástico ou rejeição de um candidato
por ser adepto do socialismo ou do Partido
do Centro (católico), como sendo “uma
infame violação da liberdade acadêmica”
(p. 73).
Para Weber, a cátedra universitária
deve ser um fórum onde se debatam as grandes
questões inerentes às disciplinas ensinadas
na universidade e não uma arena medíocre
onde medíocres dela se valem para a divulgação
de seus pontos de vista paroquiais.
Foi neste sentido o teor da carta
dirigida pelo mestre Florestan Fernandes,
a 09 de setembro de 1964, ao Sr. Tte.
Coronel que veio detê-lo: “Há quase vinte
anos venho dando o melhor do meu esforço
para ajudar a construir em São Paulo um
núcleo de estudos universitários digno
desse nome. Por grandes que sejam minhas
falhas e por pequena que tenha sido a
minha contribuição individual, esse objetivo
constitui o principal alvo de minha vida,
dando sentido às minhas atividades como
professor, como pesquisador e como cientista.
Por isso, foi com indisfarçável desencanto
e com indignação que vi as escolas e os
institutos da Universidade de São Paulo
serem incluídas na rede de investigação
sumária, de caráter policial militar,
que visa apurar os antros de corrupção
e os centros de agitação subversiva no
seio dos serviços públicos mantidos pelo
Governo Federal.
Não somo um bando de malfeitores.
Nem a ética universitária nos permitiria
converter o ensino em fonte de pregação
político-partidária. Os que exploram
meios ilícitos de enriquecimento e de
aumento do poder agastam-se cuidadosa
e sabidamente da área do ensino (especialmente
do ensino superior). Em nosso país, o
ensino só fornece ônus e pesados cargos,
oferecendo escassos atrativos, mesmo para
os mais honestos, quanto mais para os
que manipulam a corrupção como um estilo
de vida. De outro lado, quem pretendesse
devotar-se à agitação político-partidária
seria desavisado se cingisse às limitações
insanáveis que as relações pedagógicas
impõem ao intercâmbio das gerações”
(O livro negro da USP, p. 25-6).
As interferências do tipo eclesiástico
ou do tipo secular se constituem, sem
dúvida, numa violação da liberdade acadêmica.
Porém, o exercício da liberdade acadêmica
implica que os membros da universidade
– professores, alunos e funcionários –
não estejam jungidos às formas repressivas
internas. Ou seja, que o clima de debate
intelectual na universidade seja suficientemente
vivo para impedir que “departamentos”
confundam autonomia com separatismo, solidariedade
entre seus componentes com “panelas burocráticas”.
Também, que órgãos a pretexto de incentivar
a docência e pesquisa não se convertam
em superburocracias que, em nome do “interesse
geral”, liquidem com a miserável autonomia
que gozam os departamentos no sistema
universitário.
É a dotação mais ampla de recursos
que cria condições para uma universidade.
Se os recursos são parcos, que sejam transferidos
da órbita da “segurança ou informação”
para a pesquisa, ensino e bibliotecas
universitárias. Para Weber, o saber universitário
implica no incentivo da criatividade vinculada
a uma ética do trabalho. Isso vale também
para o Brasil, onde alguns pensam que
o espírito “criativo” do guarda noturno
preocupado em “controlar” possa propiciar
uma “nova universidade”.
Comparando a universidade alemã
com a norte-americana, Weber mostra que
a última surgiu do College, com
raiz religiosa, ambiente onde se forma
o caráter social através da co-educação
de estudantes da mesma origem social.
Diferentemente da Alemanha, onde as faculdades
de economia satisfazem o desejo do comerciário
em atingir determinado status para
que posa ser convidado a um duelo e daí
se transformar em oficial de reserva.
Daí a indagação de Weber: cicatrizes no
rosto e vida serão capazes de levar o
país a competir com os EUA, com a nova
geração empresarial, assim educada?
As universidades norte-americanas
não formam o pessoal para o Estado, ou
o magistério, como as alemães. Porem,
é inevitável – através da burocratização
social – que um dia o façam. E sua autonomia
ante o Estado? O próprio Weber responde:
“o que espero é que elas estejam em melhores
condições de defender sua independência e que estejam mais bem plantadas para defender
seus valores mais sagrados, do que – não
por culpa própria – têm estado as universidades
alemães diante do grande poder do Estado”
(p. 76).
Nos EUA a freqüência é obrigatória
e o estudantado faz parte de associações,
cultivando através delas um capital de
relações sociais. Há muita competição
das universidades entre si, todas visando
a eficiência. Na Alemanha é diferente,
a luta ocorre entre a Universidade e o
Estado. Há outras, como na Bavária e na
Prússia, com uma burocracia tão rígida,
admite Weber, “que confesso, quando saí
da Prússia indo para Baden, tive a sensação
de sair para o ar puro” (p. 79).
A administração universitária alemã,
mostra Weber, está cartelizada. As outras
administrações rendem tributo de vassalagem
à administração prussiana. Tal estrutura,
admite Weber, fora uma criação do Sr.
Althoff, criador de um tipo de “patriotismo
ministerial”, gerando um sistema burocrático
que levou seu nome. Althoff procurava
limitar interesses particulares em nome
dos “interesses gerais” de que ele se
auto-elegia representante. Em suam, esse
burocrata universitário usava os outros
como fantoches, o que repugnava profundamente
a Weber.
O próprio Weber sofreu na carne
as conseqüências do “sistema Althoff”.
Este admitiu publicamente que ajudara-o
no início de sua carreira pelo fato de
seu pai pertencer ao Partido Nacional
no Reichstag (Parlamento). Isso o levou
a renunciar ao cargo na Comissão do Orçamento.
No “sistemaAlthoff” o Ministério
exigia garantias do bom desempenho dos
professores. Os EUA têm um Althoff em
cada universidade, é o presidente dela,
que pode derrotar a Congregação através
do apoio dos jovens professores. Weber
nota que nos EUA um professor em estágio
inicial de carreira recebe um salário
alto pelos padrões alemães, porém está
arriscado a não ser recontratado, premido
por uma carga docente pesada que o impede
de pesquisar. Enquanto o catedrático ministra
três aulas semanais, o jovem professor
ministra nove aulas. Como ele pode pesquisar?
O “caso Althoff” volta ao texto
de Weber. O Nord-deutsche Allgemeine
Zeitung publicara em seu número de
23-10-1911 carta de Althoff, defendendo-o
do que qualificara de ataque pessoal de
Weber a Althoff. Responde aquele que o
poder corruptor continua existindo no
Ministério da Educação da Prússia. No
dizer de Weber o jornal deslocara do presente
para o passado a questão, ela passara
a ser uma discussão sobre pessoas e não
sobre fatos.
A ênfase de sua crítica ao sistema
Althoff radica no fato deste exigir “garantias”
dos professores de tudo, para tudo e sobre
tudo. Professores da Prússia que discutissem
publicamente os critérios do Ministério
da Educação colocariam em perigo a possibilidade
de conseguir recursos oriundos deste.
A 27-11 o jornal volta à carga,
publicando a declaração exigida do professor.
Ele está obrigado a informar antecipadamente
o Ministério se pretende mudar de universidade.
Caso o faça nos primeiros três anos de
magistério, arcará com as despesas de
mudança, repondo a quantia em dinheiro
antes de sua partida.
A isso Weber responde dizendo que
o Ministério exigia dele que não aceitasse
o convite para mudar de universidade.
Como nos entendimentos verbais que mantivera
isso não acontecera, desobrigara-se de
concordar por escrito. Foi-lhe solicitado
que desse um voto de silencio e não participasse
de reuniões públicas.
Fica claro, no processo americano
de escolarização, que o College
associa à formação humanista o primeiro
semestre de trabalho nas faculdades de
filosofia alemãs. O empresariado norte-americano
vê no College, acima de tudo, uma
escola para formação da personalidade.
A valorização crescente dos diplomas no
sistema escolar norte-americano é índice
palpável do concomitante processo de burocratização.
Enquanto isso, na Alemanha, Weber
mostra que a criação de Faculdades de
Economia isoladas deve-se ao fato do professor
de economia ou política recusar sentar-se
ao lado de um simples contabilista. Isso
tem um efeito desastroso na formação do
aluno, que é diplomado sem ter uma formação
básica em contabilidade.
Outro óbice a uma boa formação
intelectual é o fato do estilo de vida
feudal, cultivado nas academias estudantis
em que o mais capaz de duelar pode aspirar
a ser oficial da reserva, isso tudo, assinala
Weber, “com prejuízo de uma formação mais
profunda” (p. 102). Embora constate não
se tratar da maioria, a massa estudantil
portadora de tal aspiração “é inegável
que a minoria estudantil cultiva tais
valores feudais é muito poderosa” (p.
103).
Weber prevê que a pressão para
a criação de novos títulos ou diplomas
oficiais presente em todas as profissões
poderia representar para a Alemanha uma
vantagem na competição com as grandes
potências industriais. Logicamente ele
vincula a titulação à capacidade e competência.
Porém o passado domina o presente
alemão. Weber exemplifica esse processo
com o fato de um representante comercial
pretender vender a seu cliente um produto
inferior a um preço superior. Aquele não
teve dúvida: argüiu sua condição de oficial
da reserva, retirando-se dignamente sob
o olhar atônito do presuntivo comprador.
“Nem a posse de uma faixa colorida, nem
a posse de um cargo oficial é por si só
prova de que seus portadores podem realizar
o trabalho duro e sério, sem o
qual a burguesia comercial e industrial
não manterá a posição da Alemanha
no mundo” (p. 104). Ele retrata sua origem
social nesses termos: “meu nome provém
de uma família tecelã da Vestfália e não
escondo meu orgulho por essa descendência
burguesa, diferentemente dos grupos de
quem falava, os quais estão sempre prontos
a fazê-lo” (p. 105). Ele se referia aos
grupos feudalizantes.
As escolas superiores de comércio
proibiram a existência de sociedades estudantis
de tipo feudal, enfrentando algumas dificuldades
“em determinados círculos da indústria
alemã que possuem certa tendência a esposar
ideais feudais” (p. 105).
O texto de Weber está repleto de
episódios da luta entre o saber acadêmico
e o ethos burocrático dominante
no Ministério da Educação da Prússia,
em sua época. Daí, ele criticar o citado
Ministério pelo fato de fazer chegar à
imprensa informações contra três professores
universitários, colocando-se como juiz
numa luta em que era parte. O Ministério
pretendia punir materialmente quatro homens
independentes que discordavam de suas
opiniões e “pagar bajuladores e informantes
que encaravam como sua a tarefa de macular
o nome de professores que destoassem de
seus superiores” (p. 112).
Weber reafirma ser prática comum
que, como compensação pela recusa de outras
nomeações, se façam promessas de cargos
acadêmicos que devem ser preenchidos.
Isso cria os caçadores de cargos, levando
a práticas astuciosas e à “promoção de
nulidades científicas que são úteis para
ocupar tais postos que, segundo critérios,
decentes, se destinariam exclusivamente
a pessoas destacadas enquanto cientistas
e eruditos” (p. 114).
Por isso, vê como incompatível
a seleção de candidatos às universidades
católicas (de Salzburgo) dependente de
filiação religiosa.
Dedica um espaço grande do texto
à sua preocupação com a neutralidade ética
e seu significado para a sociologia e
a economia. Para ele, a avaliação é entendida
como um juízo de valor prático e se refere
ao caráter satisfatório ou não dos fenômenos
sujeitos a nossa influência. Isso é diferente
de discutir se na atividade docente deve-se
aceitar ou não avaliações práticas, independentemente
de elas se fundamentarem em princípios
éticos ou filosóficos, não pode ser cientificamente
resolvida.
A respeito, há dois pontos de vista:
de um lado, a visão de que é válido distinguir
afirmações dedutíveis lógica e puramente
empíricas; de outro, avaliações práticas,
éticas ou filosóficas, por isso mesmo
problemas de competência da universidade.
A outra posição é a de que mesmo quando
não se possa distinguir-se de maneira
lógica e completa, é desejável que a declaração
de avaliação prática deva ser evitada
o quanto possível.
Para Weber essa última posição
é insustentável, especialmente a distinção
entre “avaliações vinculadas a partidos
políticos e outros tipos de avaliação”
(p. 121).
Para ele, admitida a explicitação
de valores do professor “a alegação de
que o professor universitário deveria
ser totalmente destituído de paixão e
que deverá evitar todos os assuntos que
ameaçassem introduzir emoções nas controvérsias
é uma opinião estreita e burocrática
que todo professor de espírito independente
deve repudiar” (p. 121).
Ouvindo Treitschke e Mommsen o
público filtrava o núcleo emocional de
seu discurso, coisa que seu temperamento
impedia de fazê-lo. A “integridade
intelectual” é a única virtude específica
que as universidades deveriam inculcar,
sentencia Weber. Rejeita a “profecia professoral”
como repugnante, sem deixar de acentuar
que uma preleção em sala de aula difere
de um discurso. A preleção deve obedecer
ao máximo rigor e sobriedade. Ao tornar-se
pública por qualquer veículo de comunicação
ela pode deteriorar-se, argumenta Weber.
É na esfera de sua qualificação
especializada, segundo Weber, que o professor
tem o privilégio de estar livre de fiscalização
ou publicidade externa. Ao desembocar
na profecia pessoal, o professor tem que
enfrentar a contestação ou o escrutínio
público. Na sala de aula, ele deve reconhecer
os fatos, mesmo os pessoalmente desagradáveis,
distinguindo-os de sua avaliação. Weber
prega que o professor, em sua tarefa professoral,
deve afastar seus ódios ou amores. Tal
atitude, observamos em muito professor
universitário europeu que, pelo fato de
dar um curso sobre Descartes, Kant ou
Hegel, isso não significa absolutamente
que seja adepto de qualquer dos três filósofos
mencionados.
Weber reage ante aqueles que criticam
a “neutralidade ética” e dessa forma pretendem
desacreditar as discussões culturais e
políticas que ocorrem publicamente fora
dos muros acadêmicos. Weber salienta que
a influência dos pontos de vista do professor
no âmbito social mais amplo será maior
quando na sala de aula “ele tem a força
de caráter para fazer exatamente aquilo
para que foi nomeado” (p. 128), ou seja,
ministrar o curso sem amor e ódio, já
que essas opiniões são valorativas e indemonstráveis
cientificamente. Ele defende o ponto de
vista de que todas as opiniões devem ter
espaço nas universidades “inclusive as
mais extremadas” (p. 129). Porém, ocorre
o contrário, segundo Weber, lembrando
o prof. Schmoller, segundo o qual, os
membros da Escola de Manchester (que a
ele se opunham doutrinariamente) não podiam
ocupar posições acadêmicas. Por isso Weber
afirma enfaticamente: “exatamente quanto
a esses pontos é que nunca pude concordar
com nosso reverenciado mestre” (p. 129).
Com base nas premissas de Schmoller,
Weber argumenta: “a universidade não se
constitui numa escola técnica especializada,
mas num centro de fiéis funcionários,
um seminário teológico, sem possuir
a dignidade religiosa deste último” (p.
129)
Em abono a seu ponto de vista,
Weber cita o caso de um professor de Direito
que excluía a possibilidade de admissão
de um anarquista na cátedra, uma vez que
o anarquismo, em princípio, nega validade
à lei.
Diferentemente do célebre professor
de Direito que assim pensava e agia, Weber
argumenta: “Minha opinião é exatamente
contrária. Por certo, um anarquista pode
ser um bom estudioso das leis. E se ele
o é, então de fato o ponto central de
suas convicções que se encontra fora das
convenções e pressupostos que se mostram
tão evidentes para nós, poderia capacitá-lo
a perceber problemas nos postulados fundamentais
da teoria jurídica que escapam a quem
os têm como dados. A dúvida mais fundamental
é a fonte de conhecimento” (p. 130).
Para ele, a universidade se constitui
no grande fórum de discussões ideológicas,
desde que haja “a mais irrestrita liberdade
de discussão de questões fundamentais
por todos os ângulos” (p. 130).
Weber lamenta que os grandes problemas
da Alemanha não possam ser discutidos
na universidade devido à conjuntura política.
Questões como a manutenção da monarquia
e sua compatibilidade com a emergência
da Alemanha como uma grande potência,
são temas proibidos na universidade alemã.
Weber salienta que deve-se fazer
uma clara distinção entre uma discussão
meramente lógica das relações entre as
várias avaliações e as disciplinas empíricas
com a sociologia e a economia. Daí a exigência,
segundo ele, que “o professor explicite
para os estudantes e para si o sentido
de sua ação” (p. 131). Nega a possibilidade
de atingir a objetividade científica mediante
o confronto de avaliações ou por um compromisso
diplomático entre elas. O meio-termo é
o mais equivocado dos procedimentos, típicos
nos partidos, no parlamento, inadequado
à universidade.
As ciências normativas ou empíricas,
a seu ver, podem auxiliar a ação política
na medida em que vinculam tipos de avaliações
a um problema prático e que tais ou quais
fatos devam ser selecionados da complexidade
do real, como fruto de uma opção do pesquisador
entre as várias posições avaliativas.
A problemática da ciência como profissão
é vinculada na universidade à trajetória
acadêmica do professor/pesquisador, que
se submete a um exame da Congregação da
escola onde pretende iniciar como Privatdozent.
Ele é pago por sues alunos, que freqüentam
seus cursos, desenvolvendo um programa
livremente elaborado. Nas faculdades de
Medicina ou Ciências Naturais o professor
é nomeado “assistente”. Na Alemanha um
jovem sem capital econômico dificilmente
se arrisca a uma carreira acadêmica, pois
já no seu início ganha insignificância.
Nos EUA, nota Weber, o jovem ganha o correspondente
a um operário semi-qualificado. Na Alemanha
como nos EUA ele pode ser despedido, “porém
essa ameaça desaparece se ele lotar a
casa” (p. 135).
Para evitar o clientelismo na relação
orientando/orientador Weber enunciou sua
prática: “pessoalmente tenho seguido o
princípio de que um estudioso que tenha
obtido seu título comigo deve demonstrar
seu valor alhures e habilitar-se
em outra universidade, com outro
professor. Resultou disso, que o colega
foi rejeitado em outro lugar,
ninguém acreditou que fosse essa a verdadeira
razão de estar tentando habilitar-se lá”
(p. 136).
No caso alemão, o Privatdozent
ministra os cursos subsidiários ganhando
com isso um tempo imenso destinado à pesquisa;
inversamente ocorre nos EUA, onde ele
ministra 12 horas de aulas semanais, sobrando
pouco para pesquisa.
Weber mostra que o sistema universitário
alemão segue as trilhas do norte-americano.
Os institutos alemães de pesquisa nas
ciências naturais são empresas capitalistas,
“não podem ser administrados sem instalações,
equipamentos e outros recursos em larga
escala e os resultados são os mesmos que
se vêem onde quer que se estabeleça o
tipo capitalista de organização, isto
é, a alienação entre o trabalhador e os
meios de produção” (p. 137). O assistente,
assinala Weber, que deve utilizar os meios
de produção postos à disposição do Estado,
depende do diretor do Instituto
tanto quanto numa fábrica o empregado
depende do gerente” (p. 137). O
Diretor do Instituto o vê como “seu”,
ele é o patrão, assim pensa.
Daí Weber concluir que o “assistente
alemão leva a mais das vezes o mesmo tipo
de vida precária que qualquer pessoa em
posição de tipo proletário; igualmente
o assistente na universidade americana”
(p. 138). Constante o processo de americanização
– diríamos modernização –, em todas as
situações onde o erudito é dono
de seus meios de produção – sua biblioteca
– como os antigos artesãos eram proprietários
de suas ferramentas.
A modernização capitalista pela
qual passa a universidade, condiciona
um comportamento altamente diferenciado
entre o antigo catedrático e o diretor
de uma grande empresa acadêmica capitalista
na universidade burocratizada, a partir
do século XX. Tudo isso converte numa
ficção a estrutura tradicional pré-capitalista
da universidade no século atual, aduz
Weber. Lamenta ainda o fato de que ‘tantas
mediocridades desempenhem papel
tão destacado na universidade” (p. 139).
As comunidades acadêmicas, aduz
Weber, têm seus critérios de seleção,
e embora ocorram enganos, o número de
escolhas acertadas é alto. Medíocres ou
oportunistas conquistam cargos quando,
como na Alemanha, tanto o Rei como o Parlamento
funcionam da mesma maneira ou quando uma
ditadura revolucionária cria uma situação
de fato.
O acadêmico deve ser um bom pesquisador
e um bom professor, nota Weber, mas nem
sempre isso se dá. O professor tem tanto
mais status quando mais alunos
tiver para ouvi-lo. Porém, as causas de
tanta audiência podem ser bem subjetivas:
tom de voz do mestre, capacidade de aglutinação
de ouvintes etc.
Weber ressalta que não é possível
confundir ciência com democracia. A primeira,
por sua condição, exige uma aristocracia
do espírito, entendido em Weber que as
questões científicas devem ser discutidas
com conhecimento de causa e tal conhecimento
pode não ser extensivo a um grande número
de pessoas. É por acaso que o grande erudito
seja ao mesmo tempo o grande professor.
No texto, Weber aborda um dos problemas
centrais da universidade alemã entre Bismark
e Hitler: seu anti-semitismo. Ao tratar
das precondições à carreira acadêmica,
comenta: “Se for um judeu, naturalmente
se diz a ele: lasciate ogni speranza”
(p. 142). É o termo com que Dante inicia
o capítulo “O Inferno” de sua Divina Comédia:
“abandonai quaisquer esperanças”.
Weber referia-se ao anti-semitismo
na universidade alemã de sua época citando
o caso de Georg Simmel, que jamais fora
indicado para uma cátedra em Berlim, apesar
de ser um sociólogo reconhecido. O mesmo
ocorreu com Robert Michels, nascido em
Colônia e filho de uma família germano-franco-belga.
Judeu e socialista, só conseguira ser
admitido como livre docente na Universidade
de Turim sob o patrocínio do economista
marxista Achille Loria.
Um candidato à carreira científica
universitária necessita possuir qualidades
estóicas. Para Weber, ciência implica
na mais rigorosa especialização. Nas Ciências
Sociais, penetrar em áreas afins é para
prover o especialista de hipóteses úteis.
Um saber permanente, argumenta
Weber, é algo especializado. “Quem
não tiver a capacidade de por antolhos
em si mesmo e de convencer-se que o destino
de sua alma depende de ser correta a sua
interpretação de um texto, estará sempre
alheio à ciência e à erudição” (p. 143).
Sem essa paixão, sem “essa sensação
de que milhares de anos passarão antes
que você ingresse na vida e outros milhares
esperarão em silêncio” (p. 143), isso
dependerá da correção da análise científica.
Só a dedicação apaixonada tem valor para
um ser humano. Essa dedicação é a precondição
à produção do conhecimento. O palpite
de um diletante pode até ser produtivo,
o conhecimento é fruto da vinculação de
uma idéia produtiva a um trabalho. Pode
ocorrer que tal idéia apareça inesperadamente
e isso vale tanto na organização de uma
empresa quanto na elaboração de uma idéia
científica.
Weber mostra que tanto a intuição
de um matemático como a de um artista
plástico têm em comum a “mania’ de Platão.
Uma régua de calculo ou uma máquina de
calcular não criam o matemático nem substitui
a criatividade.
Comparando a criação artística
com a científica, Weber argumenta que
a primeira não conhece a noção de progresso,
um quadro que não obedece às leis da perspectiva
e nem por isso é “inferior” a outro que
a obedeça. Não há obra ultrapassada na
esfera artística, enquanto na científica
a desatualização do conhecimento é muito
rápida, conclui ele. Em suma, o saber
científico implica na sua ultrapassagem.
O cientista está fadado a trabalhar com
paixão na construção de um conhecimento
cuja condição de validade é a sua transitoriedade,
é ser ultrapassado. É a precariedade e
grandeza do conhecimento científico.
MAURÍCIO TRAGTENBERG
Prof.
Da FGV-SP e FE da UNICAMP