O espectro do romance histórico
sobre a Guerra Farroupilha não cessa de assombrar a literatura
sulina, pondo em geral a pique, com grande, algum ou nenhum
sucesso de público, inúmeros escritores que se embarcaram
na arriscada aventura, desde a publicação, em 1847, de
A divina pastora, de Caldre e Fião,
seguido de O corsário, de 1851, também
ambientado durante aquele conflito.
O romance A casa das sete
mulheres, consagrado por superprodução
televisiva de sucesso nacional, percorre os grandes
e pequenos pecados cometidos por inúmeros protagonistas
desse drama literário. O fato da autora possuir inegáveis
dotes ficcionais facilita a discussão das raízes dessa
espécie de maldição literária.
O projeto de Letícia Wierzchowski
é inteligente e ambicioso. A autora propõe-se contar o
decênio heróico em romance de fôlego – mais de
meio milhar de páginas – através dos olhos de mulheres
que tiveram as vidas suspensas pela partida dos pais,
esposos, filhos e amantes, para dedicarem-se à varonil
arte da guerra.
Nesse sentido, Letícia retoma e
homenageia as mais poderosas páginas da célebre obra de
Érico Veríssimo. Também suas mulheres escutam o vento
assobiar e o tempo passar, prisioneiras das paredes silenciosas
de estâncias desertadas por homens entreverados nos combates
seculares deste fim de Brasil.
Paixão excelente
Lemos no romance: “Sim, sempre
os homens vão, para as suas guerras, para as suas lides,
para conquistar novas terras, para abrir os túmulos e
enterrar os mortos. As mulheres é que ficam, é que aguardam.
Nove meses, uma vida inteira. Arrastando os dias feito
móveis velhos, as mulheres aguardam ... Como um muro,
é assim que uma mulher do pampa espera pelo seu homem.”
Também o nó de amarração do romance
é ambicioso. A longa narrativa tem com centro articulador
história de amor excelente – a paixão entre Manuela, sobrinha
de Bento Gonçalves, e o jovem Giuseppe Garibaldi, futuro
Herói dos Dois Mundos. Letícia apóia-se e rememora igualmente
a derradeira novela de Josué Guimarães – Garibaldi
& Manoela: Amor de perdição, de 1986, há pouco
reeditada com cortante apresentação de Tabajara Ruas.
Outra poderosa inspiração explicita
de A casa das sete mulheres é precisamente
Tabajara Ruas, autor da mais ambiciosa ficção épica da
Guerra Farroupilha, de título camoniano – Os varões
assinalados. Portanto,
A casa das sete mulheres propõe igualmente
qualificação ficcional heróica dos festejados sucessos
históricos. Como veremos, os elogios àqueles acontecimentos
e aos seus protagonistas são incontidos.
Mas, sobretudo, o romance é narrativa
no feminino. São histórias para todos, escritas pelas
mãos de Letícia e explicadas pelos olhos e sentimentos
de sete mulheres: Ana Joaquina, Antônia, Caetana, Maria
Manuela, Mariana, Manuela, Rosário, irmãs, esposa e sobrinhas
de Bento Gonçalves da Silva, o líder máximo da república
sulina.
Deusas pastoris
Mas quem são as sete protagonistas
que habitam e animam essas fazendas das bordas da campanha
rio-grandense, principal cenário da trama ficcional? Como são as mulheres que Letícia recupera do passado, materializando-as
ficcionalmente nos seus atos e sentimentos paradigmáticos?
São mulheres lindas, deusas pastoris,
belas na juventude e desejáveis na maturidade. “Caetana
[...] mirou-se no espelho de cristal. [...] Tinha quarenta
e dois anos e ainda era bonita.” “Bento Gonçalves [...].
Depois das escapadelas com as criadas, ele voltava para
o quarto e sabia ser ainda mais carinhoso; mostrar, enfim,
o quanto a querida.”
São mulheres de olhos verdes como
as matas e azuis como os céus, de cabelos negros como
a noite e dourados como os trigais. Mulheres de pele alva
cheirando a “rosas” que desejam e entregam-se sem pejo,
em atos, sonhos e delírios, a másculos e belos guerreiros
que abandonam os combates para mergulharem nos regaços
amados.
O amor correspondido, realizado
ou não, é o grande protagonista oculto da obra. “Vivi
por Giuseppe Garibaldi como muito poucas mulheres viveram
por um homem, um homem que nunca foi de todo meu, mas
de quem pude compreender a essência – era um cometa, uma
estrela cadente –, justo que restasse tão pouco ao meu
lado.”
Penélopes
pampianas
“D. Perpétua estivera feliz como
em poucas vezes na vida, vendo a filha toda vestida de
renda branca, de braço dado com o jovem fazendeiro. Depois
tinham ido viver em Pelotas, tinham arrumado a casa da
estância, tinham sido felizes e companheiros. José e Pedro
nasceram, ambos parecidos com o pai, ambos corajosos,
fortes, amantes dos cavalos e do campo ...”
Confesso que durante a leitura
de A casa das sete mulheres pensei sem cessar
nas jovens senhoras, aos vinte anos gordotas e bigodudas,
aos quarenta sisudas e volumosas patriarcas embutidas
em vestidos negros, imortalizadas, em pudica distância
de maridos e prometidos, nos retratos retocados de
molduras ovais das paredes das moradias e nas páginas
dos álbuns de capa de veludo e arabescos de ferro das
famílias latifundiárias sulinas.
Em O gaúcho, que
também tem como cenário a revolta farroupilha, José de
Alencar, em tudo mais inverossímil, descreve as senhoras
sulinas mais próximas da realidade: “Estavam no alpendre
da casa duas mulheres.
A mais idosa, viúva de quarenta e cinco anos [...]
passaria por formosa se não fora a excessiva gordura.”
“A seu lado ia outra cavaleira mais idosa e cheia
de corpo; [...].” Para o autor, a primeira maturidade
feminina era quase sinônimo de obesidade!
Nos corpos, falas, gestos, sonhos
e sobretudo desejos e expectativas, as protagonistas de
Letícia constituem irretorquíveis reproduções estereotipadas
da mulher-padrão sulina, branca e de classe média, desse
início de milênio, e jamais figuração ficcional das sinhás
e sinhazinhas que habitaram as fazendas pastoris do passado.
De volta ao presente
O casamento como desdobramento
do amor romântico e objetivação da atração e do prazer
físico. O desejo sexual entre esposos. Maridos que se
lançam nos braços de atraentes sinhás de meia idade. Conquistas,
programas e mitos do atual estágio do matrimônio burguês-ocidental
materializam-se sem nuanças em ficção ambientada no mundo
pastoril oitocentista.
A conclusão impõe-se. Em vez de
trazer o passado para o presente, o presente nos é apresentado
como se passado fosse. Um pouco ao igual da cinematografia
norte-americana, com heróis e heroínas da Antiguidade,
vestidos mais ou menos segundo a época, falando,
sentindo e amando como acreditam e desejam fazer
os espectadores contemporâneos.
O principal palco narrativo de
A casa das sete mulheres é o mundo
sentimental e afetivo feminino, embalado pelas esperas
e perdas de dez anos de guerra. Portanto, é nesse plano,
escolhido e definido pela autora, que deve emergir e materializar-se
o universo histórico que embasa e determina a narrativa.
São certamente desprezíveis tropeços
menores do décor ficcional, como, entre outros,
lareiras aquecendo as sedes das fazendas; campos precocemente
cercados; facilidades e processos higiênicos modernos;
cativos domésticos labutando na roça; telegramas e bombachas
em 1835. O fundamental é que as emoções e as
ações nas quais se centra a narrativa expressem, correspondam
e materializem as formas de sentir e de viver de então.
Unidade e diversidade
A experiência e a existência humana
não são combinações variadas de mesmos ingredientes. Através
dos tempos, mulheres e homens falam, agem e sentem subjetivamente
de formas diversas, precisamente porque vivem e relacionam-se
objetivamente em forma diversa. É função da historiografia
e do romance histórico desvelar essa evolução nos marcos
de suas linguagens singulares.
O romance histórico não pode materializar
histórias e sentimentos sempre iguais, contados de modos
diversos, em cenários variados. Ao contrário, persegue
a apreensão das diversidades dos sentimentos, relações
e atos humanos através dos tempos, no contexto do fio
unitário que liga o devir humano. Aproxima do leitor o
passado, permitindo-lhe revivê-lo como experiência artística.
A unidade e a diversidade das experiências
históricas materializam-se nos mais banais atos quotidianos.
O modo em que uma filha relaciona-se com a mãe e uma mulher
com o esposo refletem e expressam nexos profundos e necessários
do mundo social objetivo.
O tratamento protocolar “– Senhora
minha mãe; – Senhor meu esposo”, usado ainda arcaicamente
em regiões e famílias do Brasil, no passado, registrava
e expressava, no interior da própria família senhorial,
a dura e rígida hierarquia da sociedade escravista e patrimonial,
que tinha no matrimônio instituição angular.
Transação social
Racionalizadas e idealizadas, as
funções patrimoniais do matrimônio eram naturalmente aceitas
por noivos que não incorporavam, entre as expectativas
da união, o amor romântico e o prazer sexual. Este último,
para as noivas, quanto muito, constituía descoberta e
acidente matrimonial transitório e, para os homens, conquista
externa ao casamento, buscada nos prostíbulos e queridas
de luxo.
Os namoros e noivados eram rigidamente
controlados pelos pais. Nos bailes, era deboche moral
inaceitável que noivo dançasse mais do que algumas músicas
com a prometida. Ao casarem, os jovens esposos não raro
eram quase estranhos e comumente mantinham relacionamento
protocolar por toda a vida.
Quando atração e prazer intrometiam-se
inesperadamente em uma aliança nupcial, o fato inesperado
era mantido encerrado a sete chaves entre as paredes da
alcova e sob os lençóis do leito matrimonial, para que
não comprometesse a boa reputação do casal exótico, atingido
pelo estranho desvio comportamental.
O universo senhorial determinava
rigidamente os contratos matrimoniais, principal via de
circulação do patrimônio legado aos filhos legítimos.
O controle das jovens herdeiras pelos pais era condição
necessária para que a transferência de bens não se desse
fora dos objetivos das classes proprietárias.
A filha do patrão
Até poucas décadas atrás, as jovens
filhas do latifúndio sequer imaginavam a possibilidade
de passear sozinhas nos arvoredos próximos, quanto mais
vagabundear pelas margens de arroios e em campos abertos,
como sucede amiúde com as personagens femininas de A
casa das sete mulheres. “Mariana ficou
desolada, fugiu para a sanga, restou lá uma tarde inteira
a chorar.”
A vigilância era rígida devido
a transgressões e ameaças imaginárias e reais. A ascensão
social através do casamento com herdeira de terras – o
tradicional braguetaço da fronteira – segue
constituindo objetivo mais mítico do que real de jovens
das classes médias pobres do mundo pastoril brasileiro.
A tradição lembra casos extraordinários
de peões que se tornaram proprietários por abiscoitarem
rica herdeira. A documentação registra transgressões impensadas
como sinhá que se entregou às delícias do sexo com seus
cativos, pagando-os a seguir para eliminar o consorte
condescendente, mas incômodo.
Habitualmente, a rara e inadmissível
sedução da herdeira era solucionada com a eliminação da
origem do problema. Castigava-se com a castração
e a degola cativos e homens livres pobres que violassem,
nos fatos ou na imaginação senhorial, barreiras de classe que se queria intransponíveis.
Final feliz
Cobria-se a gravidez indesejada
com aborto ou com um casamento da jovem herdeira pejada
com noivo condescendente, devido à origem social inferior
mas socialmente não infamante para a família vitima da
tragédia. Tema habitual do romance do Segundo Reinado,
a ameaça de sedução da heroína por aventureiro
materializa o medo de matrimônio aviltante e reforçava
os padrões matrimoniais classistas.
O amor de Mariana, sobrinha de
Bento Gonçalves, com o peão João Gutierrez, peca por crassa
artificialidade. Trata-se de outro domínio essencial em
que a narrativa afasta-se do verossímil para construir
relato romântico modernizado de solução feliz e tranqüilizadora.
A jovem Mariana desloca-se pela
fazenda ao bel prazer, abandonando a vigiada alcova de
donzela com estonteante facilidade, considerando-se a
topografia e hábitos das sedes pastoris, trancadas à noite,
pelo interior, e vigiadas por cuscos e capatazes,
do exterior. Mucamas dormiam ao pé da cama das sinhás
para servi-las e vigiá-las, como assinala Joaquim José
de Macedo, em As vítimas-algozes, de 1869:
"Angélica dormia profundamente, e diante dela em
uma esteira ressonava a sua escrava estimada [...]."
Ao modo dos romances românticos
de capa-e-espada do Oitocentos, as personagens de A
casa das sete mulheres adaptam-se em forma forçada
ao enredo em vez deste último construir-se harmonicamente
a partir das determinações essenciais de personagens paradigmáticos
que singularizem categorias e relações sociais do passado.
Peão letrado
Para que os amantes comuniquem-se,
o peão João Gutierrez surge na trama lendo e escrevendo,
artes desconhecidas por boa parte da classe senhorial
da época. Em verdade, nesse então, o peão letrado era
elevado imediatamente à função de capataz, na fazenda,
e de sub-oficial, nos exércitos, devido a sua inusitada
habilidade.
É também esdrúxula a modernização
do sentimento paterno de João Gutierrez, ao conhecer seu
bastardo. “[...] João Gutierrez percebeu que o mundo se
resumia naquele serzinho delicado e morno, envolto em
panos bordados, cujos sonhos por vezes provocavam sorrisos
no rostinho angelical. – Ele é tão lindo, Mariana. – Parecido
com vosmecê. Tem os seus olhos, João.”
No mundo rural, beleza e transbordamento
de sentimentos íntimos eram tidos e vividos como qualidades
e reações feminis, inaceitáveis em um homem, quanto mais
em um peão! A determinação dos sentimentos pelo rústico
mundo social engessava igualmente o modo de ser pai. Ter
materializado ficcionalmente tal realidade, para época
posterior, é uma das grandes qualidades de São Bernardo,
de Graciliano Ramos.
A solução da contradição nascida
da relação socialmente inaceitável constitui happy
end ficcional trivial e consolador – o belo peão volta da guerra
para viver feliz, como administrador de imensa fazenda,
ao lado da igualmente bela esposa e do filho amado, não
menos lindo. Tudo mais ou menos como ocorre na conclusão
das novelas globais das oito!
O amor tudo vence
Relata o narrador: “Mariana, João
Gutierrez e o menino foram viver na Estância do Brejo
e lá tiveram existência calma e feliz.” E isso devido ao fato do peão ter desvirginado
e embarrigado, sobre um pelego sujo, na beira de uma sanga,
a sobrinha do presidente da República, Bento Gonçalves
da Silva que, por coisas de honra e outras, fulminou o
próprio primo, sangue de seu sangue, carne de sua carne!
A solução ficcional socialmente
integradora do caso do gaúcho safado assume caráter
mais grave já que o empreendedor João Gutierrez constitui
praticamente o único protagonista que não pertence às
classes senhoriais, em um romance que não anima plenamente
sequer um personagem das classes trabalhadoras!
A meteórica ascensão social de
João Gutierrez sugere democratismo e mobilidade desconhecidos
pelo mundo escravista sulino e brasileiro. Superação devida,
como não podia deixar de ser, à pretendida capacidade
do amor de vencer todas e quaisquer barreiras sociais!
A mãe de Mariana, que rejeitara
a origem espúria do neto, funde-se sob a força do amor,
ao ver o menino: “João Gutierrez derrama-se do rosto do
menino, e ela sente um princípio de raiva ao ver sua família
misturada com o vaqueano; porém, a raiva logo se desfaz.
É amor essa coisa boa latejando em seu peito.”
Viúvas alegres
As viuvezes das protagonistas são
também fantasiosas. No mundo pastoril da época, as proprietárias
que sobreviviam aos partos sobreviviam habitualmente aos
esposos. Ao contrário das viúvas de Letícia, elas não
mergulhavam em profunda, sentida e eterna viuvez devido
ao transpasso dos maridos-amantes.
Ao contrário, era mais comum que
a morte do esposo fosse vivida como espécie de libertação
por viúvas que prosseguiam a existência sem maiores abalos.
Chorando socialmente a falta dos consortes, dedicavam-se
a novenas, missas, bolos, goiabadas, visitas a parentes,
atenções a filhos e netos.
Sobretudo na ficção histórica,
casos extraordinários devem ser apresentados como tal,
iluminando assim, na sua singularidade, as práticas sociais
dominantes. Quando isso não ocorre, eles ensejam reconstruções
distorcidas do universo figurado, através da radicalização
e generalização de desvios e rupturas da norma.
No romance histórico, a licença
artística é sobretudo manipulação do formal com o
objetivo de reforçar e enfatizar o essencial. Não constitui
jamais ato arbitrário do autor-narrador, produto de decisão
ou inspiração artística errática e aleatória. Trata-se
de opção estudada e cuidadosa, para melhor ressaltar e
iluminar o fundamental.
Linguagem é vida
A linguagem é o espelho da história.
Homens e mulheres do passado falavam diversamente, porque,
no passado, se pensava, se vivia e se sentia diversamente
do presente. A linguagem é a consciência dos homens, poderoso
registro da diversidade social. Falando em formas distintas,
peões, cativos e senhores registravam suas distintas existências
e visões de mundo.
Na obra ficcional, a pluralidade
de vozes registra a multiplicidade e complexidade dos
protagonistas que constroem a riqueza narrativa. Sobretudo,
materializa ficcionalmente a diversidade das visões de
mundo de segmentos sociais concorrentes e antagônicos,
figurações do mundo abordado. “A cada época histórica
da vida ideológica e verbal, cada geração, em cada uma
de suas camadas sociais, possui sua linguagem; além disso,
cada idade tem seu ‘falar’, seu vocabulário, seu sistema
de acentuação particular, que, por sua vez, variam com
a classe social, com o estabelecimento escolar e segundo
outros fatores de estratificação.”
A rica narrativa ficcional pampiana,
especialmente argentina e uruguaia, sobre o mundo pastoril,
em geral, e sobre o gaucho, em especial, foi mais
comumente obra de membros das classes latifundiárias ou
de seus intelectuais orgânicos, estranhos nos hábitos
e opostos nos fatos aos protagonistas dessas obras.
Essa paternidade jamais deixou
de ter conseqüências culturais e ideológicas. Em geral,
em espécie de “caridade com o chapéu alheio”, as narrativas
senhoriais sobre o mundo pastoril fizeram da necessidade
do gaúcho, virtude, diluindo as responsabilidades sociais
e históricas das classes proprietárias.
Línguas
diversas, vidas diversas
A vida vagabunda, sem raízes
e sem fronteiras, devido à ausência de família e de direito
à terra; o trabalho duro e penoso nos campos abertos;
a violência das relações inter-pessoais, etc., foram cantadas
por essa ficção como virtudes naturais e semi-naturais
e raramente como duras decorrência das relações de dominação.
Porém, poderosas narrativas literárias,
com o trabalhador pastoril como protagonista, foram construídas
sobretudo através da materialização ficcional criativa
da fala-linguagem exterior e interior dos gaúchos, poderoso
registro do modo de existir e de ver o mundo desse grupo
humano.
Obras como Martin Fierro,
de José Hernandez, Dom Segundo Sobra,
de Ricardo Güiraldes, ou até mesmo os melhores momentos
de Antônio Chimango, de Ramiro Barcellos
, registram aspectos essenciais do universo
rural, ao fixarem, ficcionalmente transfiguradas, as vozes
e as falas dos múltiplos e contraditórios protagonistas
que o animam.
Em A casa
das sete mulheres, tenta-se ambientação histórico-lingüística superficial
através do uso de algumas palavras e tratamentos arcaizantes
– charlava, mui, prosear, vosmecê –
e castelhanismos diversos – mala suerte, usted.
Em tudo mais, a linguagem é atual, chata, estranha na
forma e na essência ao mundo recriado. Sobretudo, é terrivelmente
monocórdica.
Coro
monocorde
A única voz que ressoa em A
casa das sete mulheres, o único mundo que a narrativa
tenta inutilmente reconstruir é o das classes senhoriais
do passado que, como assinalado, resulta ser simples projeção,
nos tempos da guerra civil sulina, de expectativas e sentimentos
estereotipados, sobretudo das classes médias e superiores
de nossos dias.
Em A casa das sete mulheres,
como nos romances de inícios da segunda metade do Oitocentos,
o cativo doméstico aparece apenas nas entrelinhas da narrativa,
sem rosto, sem nome, sem traço, verdadeiro coadjuvante
semi-invisível, pano de fundo novelesco, ao igual que
as cadeiras, mesas e cortinas das moradias senhoriais.
Únicas com direito à cidadania
ficcional, as mulheres das elites, bordam, esperam, desmancham-se
em paixões frívolas, servidas por infinidade de domésticas
referidas sobretudo pela autora, narradores e protagonistas
sob a forma categorial de negras, praticamente
em todas as páginas do romance, não raro diversas vezes.
Assim sendo, sem “cor, rosto, carnes,
vida, verdadeira abstração sociológica, citado categorialmente,
ao modo de um tratado das ciências sociais, perdido nos
interstícios do discurso ficcional, o cativo tornam-se
personagem imaterial, engolidos pelo animado protagonismo dos personagens
símbolos” pertencente no romance exclusivamente à
etnia e à classe das elites da época e de agora.
Visível,
invisível
Se no passado as classes proprietárias
procuravam reduzir civilmente os trabalhadores escravizados
a entes minorados, reservando-lhes na narrativa ficcional,
até o início da crise da escravidão, pretensa invisibilidade
e inexistência social, eles exigiam ao mesmo tempo que
seus negros se objetivassem, em forma incessante, através de atos produtivos que
ocupavam quase todas as esferas da sociedade.
Furibundo político escravista, José de Alencar negava coerentemente
status ficcional ao cativo, como romancista. Em
O gaúcho, não há sequer um personagem negro.
Porém, em um verdadeiro lapso, termina materializando
a dura visão negreira de mundo que procura esconder, ao
falar de cavalos redomãos “que só trabalham como o escravo
embrutecido à força de castigo”.
Nas mais ricas sedes pastoris da
época, a criadagem de portas a dentro raramente
superava os dedos de uma mão. Mais ou menos despótica
e duramente, sinhás e sinhazinhas tratavam e destratavam
suas negras pelos nomes e apelidos, já que as conheciam
e com elas conviviam, não raro, desde o nascimento.
No mundo social real, as mucamas,
cozinheiras, passadeiras, arrumadeiras, etc. não eram
seres etéreos, invisíveis, meras negras fantasmagóricas.
Eram componentes ativos e determinantes da existência
das residências urbanas e rurais, ainda que minorados
objetiva e subjetivamente pela ordem escravista.
Mulheres sem rosto
As negras abstratas da narrativa
de Letícia nasciam, viviam, amavam, sofriam e morriam,
percorrendo concretamente todos os passos de uma existência
que tinha, na minoração permanente, importante mas não
única determinação. Para objetivar-se ficcionalmente,
o romance histórico deve registrar o caráter despótico
das relações sociais do passado, e não reproduzir as negações
arbitrárias do real da narrativa perneta da época abordada.
Negar os cativos como protagonistas
e personagens plenos constitui violação e empobrecimento
radical do universo narrativo, e não reprodução ficcional
da opressão negreira. Opressão que se materializava no
estabelecimento de dialética amo-cativo que reduzia o
senhor a uma extensão necessária do trabalhador escravizado.
Ou seja, a pessoa do senhor era inevitavelmente decalcada
pelo cativo que explorava.
Há porém diferença radical entre
a negação ficcional do mundo do trabalho na literatura
do passado e no romance de Letícia. Os negreiros ignoravam
ficcionalmente mundo que temiam, precisamente porque o
conheciam plenamente. Ao contrário, a apresentação categorial
dos cativos domésticos de A casa das sete mulheres
– são raras as referências aos assenzalados – nasce de
ignorância radical do universo escravista pastoril.
As tetas da negra Xica
Preenchendo mais uma vez o passado
com material do presente, a autora escorrega comumente
em valorações raciais explícitas e implícitas semioticamente
perigosas. A beleza feminina e masculina restringe-se
em forma maniqueísta ao padrão europeu nórdico, diga-se
de passagem pouco comum no Rio Grande da época.
São inúmeras as referências positivas
aos olhos verdes, azuis, cabelos loiros, dourados e sedosos,
à pele branca, alva e translúcida das mulheres das elites.
“A beleza de Rosário tornou-se mais etérea com o claustro,
sua pele mais translúcida e lisa, o azul dos olhos mais
suave, celestial.” É como se a narrativa fosse ambientada no Rio
Grande da imigração alemã, italiana e polonesa de fins
do Oitocentos, e não no meridião sulino de três décadas
antes.
O tratamento dado aos raros personagens
subalternos delineados de modo esguio é radicalmente diverso,
sobretudo quando são africanos e afro-descendentes. A
“negra Xica” tem “tetas”;
a “negra Milú”, “rosto retinto de preto” e “cabelos
de carapinha”; “Zé Pedra” [sic] “parecia um monstro de
dentes brancos”; “Nettinho
era um negro retinto”.
As comparações zoológicas da narradora
e dos protagonistas são igualmente opostas. Se o belo
Garibaldi é comparado a um “pássaro”, as “negras” da casa
grande são definidas como “inquietas feito moscas”! Idéias e preconceitos do presente são
apresentados como próprios ao passado: “Zé Pedra [sic],
um negro atarracado com cara de poucos amigos, mas que
tinha um coração de manteiga [...].” Praticamente todos
os cativos da narrativa possuem “dentes” e “dentaduras
brancas”!
Mundo ignorado
No contexto da profunda ignorância
da realidade sócio- ideológica do universo histórico abordado,
os lugares comuns e visões piedosas e menos piedosas das
elites brancas atuais dos trabalhadores domésticos negros
povoam quase naturalmente o romance, materializados sobretudo
através da intrusão do narrador onisciente. Não são, portanto,
registros ficcional da ideologia escravistas dos protagonistas
do romance, ensaiados apenas episodicamente pela autora.
O movimento farroupilha constituiu
revolta republicana e separatista empreendida pelos grandes
proprietários fundiários sulinos contra o Estado central
monárquico e centralizador. Ao contrário de outros movimentos
liberais – Balaiada, no Maranhão-Piauí, e a Cabanagem,
no Pará, etc. – as elites farroupilhas barraram o ingresso
e a intervenção das classes subalternizadas no movimento.
A Guerra Farroupilha foi movimento
elitista, sem cunho social e libertário. Espinha dorsal da revolta, os grandes
criadores mantinham nas fazendas núcleo permanente de
cativos labutando nas roças, nos trabalhos domésticos,
construindo taipas de pedra, carregando água. Trabalhadores
escravizados trabalhavam igualmente nas tarefas pastoris,
ao lado de peões mensalistas e vaqueanos contratados periodicamente
para os grandes rodeios.
O trabalho escravo era portanto
elemento necessário e sistêmico da produção pastoril das
grandes fazendas do Rio Grande. Coerente com a defesa da base material
de sua força política e social, os principais chefes do
movimento farroupilha, proprietários de terras e de homens,
jamais prometeram a liberdade para os cativos e a terra
para os gaúchos.
Senhores e seus cativos
Se o tivessem feito, teriam constituído
excrescência histórica e sociológica, ao renegarem as
bases da própria força e poder que lutavam para ampliar.
Em sintonia com seus princípios e raízes sociais, ao morrer,
Bento Gonçalves da Silva legou terras, gado e meia centena
de trabalhadores escravizados, em uma época em que um
cativo valia já um bom patrimônio.
A Republica do Piratini não foi
sequer movimento de toda a população livre da província.
O povaréu das cidades e os pequenos produtores coloniais
alemães mantiveram-se em geral afastados e comumente apostos
a movimento de latifundiários que pouco lhes dizia ou
prometia.
Porto Alegre, a capital sul-rio-grandense,
recebeu do Império o lema de “Leal e Valorosa”, encravado
até hoje em seu escudo, precisamente por ter-se rebelado
com sucesso contra a ocupação farroupilha e resistido
aos três cercos e bombardeamentos empreendidos pelas tropas
farroupilhas.
A guerra farroupilha foi movimento
restritivo, de cunho republicano, separatistas, escravista
e latifundiário, sem dimensões paradigmáticas que sustentem
epopéia ficcional. É sucesso simbólico atinente às classes
latifundiárias e proprietárias modernas interessadas no
elogio e perpetuação de relações e conteúdos superados
pela história.
República negreira
A constituição farroupilha não
deixava dúvidas que tudo continuaria como dantes no quartel
de Abrantes. "A República do Rio Grande é a associação
política de todos os cidadãos rio-grandenses". Mas
os rio-grandenses eram, é claro, apenas os "homens
livres nascidos no território da República".
O regime eleitoral prosseguia igualmente censitário, restringindo
o direito ao voto e a ser votado ao homem livre e rico.
A República assentava-se sobre
a mesma pedra angular do Império: latifúndio, escravatura,
patrimonialismo. Mesmo se morressem por ela, o índio,
o liberto, o gaúcho e o homem pobre, seriam apenas cidadãos
formais e minorados do Estado latifundiário-escravista
sulino em construção. As dezenas de milhares de trabalhadores
escravizados permaneceriam estrangeiros sem direitos civis
mínimos na terra que construíam através do duro labor
feitorizado.
A guerra farroupilha constituiu
conflito no interior da classe senhorial que manteve na
submissão os segmentos sociais subalternos e jamais questionou
a ordem social instituída, assegurando portanto a permanente
possibilidade de recomposição e reconciliação das partes
em luta. Portanto, não conheceu protagonistas que registrassem
rica tensão histórica e social que jamais possuiu.
Na tentativa de figurar artisticamente
sucessos desprovidos de patos sócio-histórico,
abandona-se a narrativa realista pela solução romântica
de heróis demiúrgicos, totais, que qualificam e criam,
com suas excelências intrínsecas, os acontecimentos, jamais
sendo qualificados e criados por eles. “Crescêncio, Teixeira,
Netto e Bento Gonçalves são como baluartes, o vento não
os verga, a chuva não os atinge, míticos centauros desse
pampa.”
Mistificação ideológica
A nula essência histórica e social
da guerra farroupilha leva a que as tentativas ficcionais,
cinematográficas, poéticas,
etc. de fecundá-la com sentido social e libertário
resultem em narrativas românticas, retóricas e vazias
no conteúdo e na forma. Operações dão-se comumente em
forma consciente já que o conhecimento histórico sobre
a revolta é de amplo domínio.
Nos fatos, as farsas épicas sobre
os sucessos farroupilhas sustentam-se tornam-se sobretudo
apologias indiretas da grande propriedade pastoril. Narrativas
perfilhadas pelas classes proprietárias industriais e
comerciais, dominantes no Rio Grande desde o defenestramento
político do latifúndio, quando da Guerra Federalista de
1893-5.
Propor meta abolicionista como
objetivo dos grandes chefes farroupilhas não constitui
exercício do direito de licença artística, do qual se
lança mão para revelar conteúdo essencial dos fatos narrados,
mas mistificação ideológica ficcional, de sentido elitista,
paternalista e providencial, com o objetivo de escamotear
alguns dos elementos constitutivos centrais dos sucessos
em questão.
Nesse sentido se enquadra a retórica
explícita e abundante sobre o abolicionismo farroupilha
encetada pelo narrador ou colocada na boca dos protagonistas
de A casa das sete mulheres: “Sim, aquele
era um sonho pelo qual se merece lutar até a última gota
de sangue: a liberdade de uma terra e de um povo, a criação
de uma nação igualitária, onde não houvesse imperador
ou escravo.”
Senhores abolicionistas
“Antônio tem a alma voltada para
a guerra. Uma guerra onde os negros serão libertados.
Uma república igualitária.” “Nós, que éramos servidas por escravas
em todos os momentos, que, para vestir um espartilho ou
prender os cabelos, necessitávamos daquelas mãos negras
a nos auxiliar, tanto vibramos com a ambição republicana
sobre a abolição da escravatura.”
Devido à falta de sentido histórico,
o discurso social sobre o movimento farroupilha assume
necessariamente a forma de retórica vazia, de conteúdo
telúrico, estranha às contradições reais do mundo social.
“Algo de sobre-humano, de celeste, de bestial. Algo para
além das fronteiras dessa carne. Vem do chão, viva energia
que os alimenta a cada légua, que insufla em seus corpos
a força para prosseguir contra todas as tempestades, a
despeito do mais vigoroso dos invernos, esquecendo todas
as derrotas.”
Despido de qualquer sentido e expressão
maior, também o simplismo do núcleo romântico ficcional
é patente: Joaquim ama Manuela que ama perdidamente Garibaldi
que, não podendo amar a herdeira riquinha, já que
o tiozão não quer, abiscoita-se num salto jovem
plebéia casada de Laguna, demonstrando a desfaçatez e
inconstância do herói galante.
A incapacidade de Letícia de figurar
em forma realista o fracasso do noivado da sobrinha de
Bento Gonçalves com Giuseppe Garibaldi deve-se sobretudo
à contaminação anacrônica do perfil ficcional do pretendente
pela sua dimensão histórica posterior, operação que facilita
a construção de entrecho afetivo de cunho romântico oitocentesco.
Como registra Caldre e Fião, em
O corsário, quando da revolta farroupilha,
Garibaldi era apenas um entre os tantos corsos italianos,
em geral sem eira nem beira, que aproveitaram os
sucessos do Plata para alugar seus serviços. Não possuía então a consistência épica
que adquiriu, décadas mais tarde, como expressão excelente
do drama histórico e social da Unificação Italiana.
O feitiço do amor
Descolado dos fatos e da era em
que ocorrem os fatos, A casa das sete mulheres assume
a dimensão de narrativa romântica e folhetinesca do Oitocentos.
São homens que acorrem todos para a guerra sem que ninguém
corra da guerra. São jovens estourando de ânsia à espera
dos amores que não chegam, endoidecendo literalmente longe
das festas e saraus. São esposas aflitas por maridos amantes,
recebidos com beijos cinematográficos mal apeiam dos corcéis.
Nesse contexto narrativo, compreende-se
por que o romance fracasse no registro pretendido do vazio
existencial nascido da espera feminina de homens que jamais
voltarão da guerra, para ser infestado pela vacuidade
de protagonistas que varam a vida sem outra ocupação do
que a fidelidade a amores românticos nascidos de um bater
de pestanas.
Ao animar apenas personagens das
elites, em cenário pastoril naturalizado onde a terra,
a relva e o vento têm variados, múltiplos e finos gostos,
A casa das sete mulheres reduz praticamente
todos os personagens relacionados com o mundo do trabalho
a estado de seres imateriais, sem sabor.
Paradoxalmente, a modernização
dos hábitos e sentimentos; a idealização das relações
inter-pessoais e intersociais; a pieguice
das tramas românticas; a retórica regionalista
desbragada, etc. constituem handicap positivo no
sucesso do romance, e não negativo.
A articulação em narrativa de inegável
qualidade textual, de preconceitos e prejuízos sociais
e ideológicos dominantes, obtém efeitos estético-ideológicos
inebriantes e tranqüilizadores que garantem ao romance
parcelas do vasto público leitor preparado e acostumado
ao consumo desse tipo de narrativa, em grande parte sob
a forma de narrativa ficcional televisiva.
Nesse sentido, a adaptação à televisão
de A casa das sete mulheres constituiu desdobramento
harmônico, realizado através de seleção, transposição
e radicalização dos fatos narrados fiéis à estrutura trivial
do romance. Uma espécie de refeição nova, cozida do mesmo
modo, com os mesmo ingredientes, apenas mexida e apresentada
em forma diversa.