Por MARIA CÉLIA BARBOSA REIS DA SILVA & NEYDE LÚCIA DE FREITAS SOUZA


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"Abril despedaçado"

- olhares sobre o filme brasileiro -

Maria Célia Barbosa Reis da Silva* & Neyde Lúcia de Freitas Souza**

 

O filme, inspirado no livro homônimo do albanês Ismail Kadaré, ratifica a competência de Walter Salles em dirigir crianças, mas vai muito além. Permite uma leitura simbólica, mitológica e instiga profundas reflexões.

O círculo (a mandala Junguiana?) aparece em duas cenas, cada uma delas indicando uma interpretação diferente: a roda de bois que é forçada a manter a mesma direção e produzir os mesmos resultados; e a roda da menina do circo que a eleva às alturas, deixando fluir sonhos e desejos.

Essa última roda dura mais, dura um dia inteiro, não quer parar, quer ser eterna. A outra, a dos bois, está esgotada, mostra sinais de fadiga e de fracasso, sinaliza que é tempo de parar, enquanto seu “dono” (ego?) teima em mantê-la sob controle rigoroso e desprovida de autonomia, embora talvez de antemão já saiba que um dia vai falhar...

Naquela casa no meio do sertão, não há alegria nem felicidade. Só a mesmice de ações e de comportamentos repetitivos. A casa do sertão é suja, as roupas dos moradores encardidas, o chão barrento, não há tempo para o si mesmo. A vida estancou. Há repetição de gestos, atos e palavras, e nada avança, pelo contrário, o que ocorre é estagnação ou regressão: aos mesmos atos se responde do mesmo modo.

Nem a criança, com sua natural espontaneidade, consegue se expandir. Os sonhos do Menino são tolhidos, suas fantasias abafadas, não há permissão para mudar a roda dos bois domados.

Só resta ao menino trocar de lugar com o irmão, e seguir o destino que a ele também será imputado: ser morto em uma disputa de família. Substituindo o irmão, ele entrega-se logo a uma fatalidade que o espera ao crescer. Entrega-se ao destino, mesmo preferindo ter trocado com o irmão: queria ter a sua sereia, o seu mar, a sua liberdade.

Quanto ao Tonho, não concorda com a roda da vida que lhe é traçada, mas faz parte dela. E dá asas aos seus desejos, permitindo-se escutá-los, quando se abre para outros mundos, quando encontra alguém tão preso ao destino quanto ele, e aí se reflete no outro.

Sua tarja negra cai quando ele está pronto para deixar fluir seu inconsciente, buscar seu próprio destino. Não importa se ele e Clara vão ficar juntos. Provavelmente não ficarão. Importa é que cada um impulsionou o outro para olhar para si mesmo. Agora o que Tonho quer é ir ao encontro do mar, mergulhar em seu inconsciente e dele puxar seu destino.

Não há saída, senão pular de uma roda para outra, até achar o equilíbrio. O balanço impulsiona para o equilíbrio, trazendo a possibilidade de olhar a mesma história sob novos ângulos.

A visão míope obriga a cometer erros, desconcerta, dá medo, e o sangue exposto amarela, desbota, descolore, começa a perder o sentido, que precisa ser reavivado com novo sangue, para que a vida continue a pulsar.

Dito assim, pegando símbolos aqui e acolá, pode parecer que Abril Despedaçado é uma colcha de retalhos, como o título sugere. Mas não o é. São pedaços que se unem em um todo coerente, com suas partes que precisam ser reunidas para compor um sentido, como num sonho. E essa composição é feita por cada um, individualmente, reunindo os símbolos e dando-lhes o seu sentido, a seu tempo e a sua hora.

O fio capaz de unir esses pedaços encontra-se na Grécia Antiga. Lá, segundo a thémis , direito antigo, — substituída, com a democracia ateniense pela dike , direito profano, — os crimes de sangue não eram julgados pelo Estado. Seu desfecho ( ou continuação?) era determinado pelas famílias, clãs em conflito. A ausência do Estado, portanto, até hoje, enseja a arbitrariedade, a violência, a desmedida. É/ foi assim na Albânia, cenário do romance de Kadaré; no Nordeste do Brasil do filme de Salles e na periferia das grandes cidades onde o poder paralelo, ilegítimo, impõe suas próprias leis para reparação do sangue derramado.

Abril Despedaçado narra a rivalidade entre as famílias Breve, cujo engenho está em decadência, e Ferreira, cuja criação de gado está em expansão. A disputa pela posse de terra justifica o assassínio cíclico entre os guénos, grupos unidos pelos laços de sangue.

Retomando o fio grego, há um rito familiar traçado pelos seus membros que realizam o papel, outrora, dos deuses: zelar pelo cumprimento da moira, destino cego, e inibir qualquer desmedida do herói da vez — como fazem os pais de Tonho quando ele leva Pacu ao circo.

Como sustentava Ésquilo, dramaturgo grego, no caso das vendetas, alimentadas pelas Erínias – deusas violentas, vingadoras do crime de sangue parental derramado –, o direito não estava nunca dos dois lados. Migrava de um lado para outro de acordo com a morte perpetrada.

O ciclo é conhecido e pactuado pelas duas famílias. Cada uma sabe qual a sua função, e o seu cumprimento é uma questão de honra e de ética. As vinganças são sucessivas, e alternam-se os papéis de vítima e algoz.

Tonho vinga a morte do irmão mais velho, é o herói; mas sabe que está tarjado para morrer, é o próximo pharmakós, o bode paciente, como nas tragédias e rituais gregos, a ser imolado em nome da tradição para que a vendeta seja reequilibrada, quando a mancha de sangue da camisa do rival morto amarelecer.

Tudo segue a norma, a tradição. Tudo ali é consuetudinário, previsível, cíclico: o trabalho na bolandeira , os bois e os homens que nela trabalham, os gestos, os ritos sempre repetidos. Não há lugar para o novo. A criação corrói a tradição e liberta o ser.

No curto período de trégua entre os guénos, enquanto a camisa ensangüentada balança no varal, surgem os brincantes Clara e Salustiano: viajantes, agentes da mudança. Eles passam pela casa dos Breve desarticulam o estabelecido, entortam a rigidez da tradição. Clara leva a luz do livro e a singularidade do nome ao irmão mais novo de Tonho: agora nomeado Pacu.

Pacu, inconformado com a moira, instiga Tonho a transgredir, a cometer a hýbris, desmedida, e, assim, questionar, quebrar a lógica da tradição. Rompem a algema paterna e vão ao lugarejo em que Clara apresenta seu espetáculo.

O tempo é curto para Clara e Tonho. O alumbramento envolve-os. Giram na roda que a vida lhes oferece. Libertam-se, liberam-se, integram-se, descobrem-se.

Enquanto Eros, deus do amor, dança em torno dos amantes, Tânatos, soberano do reino dos mortos, travestido de membro da família Ferreira, acometido pela áte, cegueira da razão, arrasta Pacu. A tarja induz a hamartía, o erro. O engano desfaz o ciclo. A família Breve desarticula-se: os pais em desespero lamentam a moira; Tonho, libertado pelo irmão, segue ao encontro do sonho: seu e de Pacu.

Com a morte de Pacu, a história flui sem narrador, movida pelos sonhos dele, rumo a imensidão do mar, da liberdade.



* Mestre em Vernáculas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Doutora em Literaturas de Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Professora Adjunta da Universidade Federal da Força Aérea, Pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, Arquivo-Museu de Literatura Brasileira.
** Psicóloga, psicopedagoga na Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR), membro da Comissão Permanente de Avaliação Institucional (COPEA), na Faculdade de Filosofia de Campo Grande, Rio de Janeiro.
     


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