História
do Brasil
Passando
o passado a limpo
A
expressão “crise do paradigma” foi popularizada
a partir da obra do filósofo e historiador da
ciência Thomaz Kuhn que, nos anos 60, usou-a
para referir-se à emergência e crise das teorias
científicas. Hoje, mais de quarenta anos depois
da publicação do revolucionário livro de Kuhn,
a expressão banalizou-se e, na expressão sarcástica
do professor Paulo Arantes, da Faculdade de
Filosofia da USP, transformou-se num “abre-te
sésamo” que serve para explicar qualquer prosaica
mudança de posição de um autor.
Apesar disso, a expressão continua insubstituível
quando se trata da descrição de autênticas e
necessárias alterações que ocorrem em uma ciência
(ou conjunto delas), quando um modelo explicativo
dominante entra em crise e outro começa a nascer
e ocupar o lugar do anterior.
Um exemplo de mudança dessa natureza pode estar ocorrendo
na explicação do passado histórico de nosso
país. Desde os primeiros passos da institucionalização
da história do Brasil, em meados do século XIX,
na obra de Francisco Varnhagen, ela tem servido
à legitimação do poder ou à definição de táticas
e estratégias das forças sociais que estão na
oposição.
Ou está ligada à disputa política. Nas décadas de
1950 e 1960, por exemplo, um dos fulcros principais
do intenso debate sobre a história brasileira
esteve ligado à necessidade de identificar a
natureza do passado colonial para fundamentar
linhas políticas da esquerda. De forma muito
resumida, pode-se dizer que havia aqueles que,
considerando que o Brasil tinha sido capitalista
desde sua fundação pelos portugueses, caberia
agora lutar pelo socialismo, sem etapas intermediárias;
entre os que pensavam assim, a modernização
do Brasil não exigia mais a eliminação do latifúndio,
por exemplo, mas sim a intensificação da luta
anti-capitalista e antiimperialista. Outra corrente
enfatizava, ao contrário, a sobrevivência de
restos feudais, a persistência de traços pré-capitalistas
representados pelo latifúndio. Ele seria superado
pela revolução democrático-burguesa e antiimperialista
que iniciaria uma nova fase na história do país,
criando as condições para uma etapa mais avançada,
a luta pelo socialismo.
Havia uma “visão plantacionista” (isto é, que tinha
a grande fazenda escravista e exportadora em
seu centro) na base desse debate e das obras
em que ele se apoiou, diz a professora carioca
Maria Yedda Linhares, uma das fundadoras do
novo paradigma. Visão plantacionista cujo resultado
foram alguns dogmas que ainda persistem, apesar
da pesquisa contemporânea erodir, crescentemente,
seus fundamentos. O principal desses dogmas
é aquele que, partindo da subordinação da colônia
à metrópole portuguesa (e, depois, à Inglaterra
e, mais tarde, ao domínio dos EUA), diz que
a vida brasileira é reflexa, isto é,
repercute passivamente as mudanças que ocorrem
nos países ricos e dominantes. Dogma cego para
toda vida autônoma, mesmo que relativa, e a
toda dinâmica interna na vida brasileira, principalmente
durante o período colonial.
Visão multilateral - As pesquisas do último quarto
de século impõem a revisão desse paradigma.
O trabalho desenvolvido na Universidade Federal
Fluminense, sob influência de Maria Yedda Linhares
e desdobrado na obra de historiadores de ponta
como Ciro Cardoso, João Fragoso, Manolo Florentino,
Eulália Lahmeyer Lobo, Francisco Carlos Teixeira
da Silva, ou no trabalho renovador de Jacob
Gorender sobre o escravismo colonial, vem construindo
uma visão da história do Brasil mais consentânea
com os acontecimentos e mais multilateral. Mesmo
que, muitas vezes, estes historiadores estejam
em desacordo a respeito das consequências políticas
e mesmo explicativas de suas teses. Um exemplo
é a visão da natureza da escravidão brasileira:
há, entre eles, quem defenda a tese indefensável
de uma alegada brandura da relação entre senhores
e escravos.
Mas o fundamental é que, descobrindo novos documentos
ou reexaminando outros já conhecidos, eles estabelecem
uma base factual que conflita com as explicações
tradicionais e exigem uma nova forma de encarar
o passado.
Conjuntura da crise
Dois livros lançados recentemente trazem novos elementos
para uma explicação renovada de nosso passado.
Um deles é Um contraponto baiano: açúcar,
fumo, mandioca e escravidão no Recôncavo, 1780-1860,
de Bert Jude Barickman (Editora Civilização
Brasileira, 2003). O outro é A cidade e o
Império – o Rio de Janeiro no século XVIII (Editora
Civilização Brasileira, 2003), de Maria Fernanda
Bicalho.
Merece ser mencionado também o livro de Robin Blackburn,
A queda do escravismo colonial, 1776-1848
(Editora Record, 2002) que faz um amplo
painel da situação social e política da Europa
e das Américas, e da emergência do anti-escravismo
como força política. Embora se refira apenas
indireta e lateralmente ao Brasil, A queda
do escravismo colonial descreve a crise
do mundo ocidental desde a independência dos
EUA, em 1776, até o terremoto de 1848.
Foi uma época de revoluções: nela ocorreram
a revolução industrial, o começo do processo
de autonomia dos países americanos, a revolução
francesa e a quase nunca mencionada revolução
haitiana de 1791.
O mundo mudou com uma radicalidade e profundidade
quase inéditas, e a virtude do estudo de Blackburn
está no esforço de descrever o quadro geral
dessa mudança, a influência entre as revoluções
americana, francesa e haitiana, e as consequências
para as metrópoles e para o mundo colonial.
Ao abrir o caminho renovador e autonomista,
a revolução americana colocou em xeque o sistema
político britânico e o poder corrupto da oligarquia
e da monarquia inglesa. Contra a contestação
democrática, que exigia o fim do privilégio
religioso para os cargos públicos e o direito
de voto, a oligarquia inglesa usou a mão do
gato do mal menor, preferindo discutir a proibição
do tráfico de escravos para fugir ao tratamento
de temas políticos internos. Quando, anos depois,
a revolução eclodiu na França, a oligarquia
inglesa mobilizou o espírito patriótico e as
ambições colonialistas para fazer a guerra aos
jacobinos, derrotá-los na Europa e tomar algumas
ilhas francesas no Caribe. Aproveitou também
para reforçar a repressão contra os dissidentes
internos e fazer refluir as demandas anti-escravistas,
que ameaçavam tomar um rumo democrático inaceitável
para a oligarquia.
Iniciada em Paris, a revolução de 1789 abriu uma crise
profunda nas colônias francesas, radicalizando
a oposição entre os grandes fazendeiros franceses
e o contingente de negros e mestiços livres
aos quais os colonizadores não aceitam estender
direitos constitucionais adotados pela Assembléia
nacional. A massa escrava era outro elemento
contraditório e ameaçador para os proprietários
pois formava a maioria da população das ilhas
francesas. A revolução de 1791 em São Domingos
(que, depois, transformou-se no Haiti) foi a
solução mais radical deste impasse, com repercussões
nas duas margens do Atlântico, nas metrópoles
européias e em suas colônias americanas. Seu
impacto levou à marginalização da luta abolicionista
e ao reforço do escravismo em países como os
EUA, Cuba e Brasil.
Relações mais complexas - Foi nesse quadro contraditório
que começou a se desenvolver, entre as elites
americanas, um sentido autonomista que alarmava
autoridades metropolitanas e impunha a reformulação
das políticas coloniais para reforçar seu domínio.
Sentimento registrado em 1732, no Testamento
Político de Antonio Rodrigues da Costa,
do Conselho Ultramarino, e transcrito por Maria
Fernanda Bicalho. Ele temia que Portugal fosse
incapaz de manter a posse do Brasil, essa colônia
tão rica, devido à cobiça de outras nações,
ou pela rebeldia dos colonos. Colonos (“descendentes
dos primeiros povoadores”) cujo sentimento de
autonomia tinha uma faceta peculiar: consideravam
o domínio português na América uma conquista
de seus antepassados e que receberam como
herança. Não uma colônia. Justificavam
assim sua exigência de monopólio aos cargos
públicos (contra os comerciantes recém chegados
da metrópole, e que disputavam com eles o poder
local) e sua pretensão a uma relação privilegiada
com o monarca como recompensa pelos serviços
prestados por seus antepassados. Boa parte da
elite brasileira ainda tem esse sentimento de
posse, que alimenta sua noção peculiar
de pertencimento ao país, do qual é “dona” para
usar e explorar pois o herdou da conquista efetuada
séculos atrás.
Robin Blackburn descreveu o quadro geral das disputas
entre as metrópoles coloniais, e suas relações
contraditórias com as colônias. Maria Fernanda
Bicalho estudou os aspectos institucionais e
urbanos da vida no Rio de Janeiro dentro daquele
quadro complexo, ilustrando sua manifestação
em um ponto sensível e importante do mundo colonial,
a cidade que Rodrigues da Costa chamou de “uma
das pedras mais preciosas que ornam a coroa
de Vossa Majestade”. É ao mostrar que as relações
entre a colônia e a metrópole foram mais complexas
do que supunham os velhos modelos explicativos
que ela dá sua principal contribuição para a
elaboração de um novo paradigma.
Bert Jude Barickman, por sua vez, fez o que, à primeira
vista, é mais um estudo da economia de uma região
colonial brasileira, a produção de açúcar, fumo
e mandioca, e a escravidão no Recôncavo baiano,
entre 1780 e 1860. A leitura amena de seu livro
esconde a profundidade da abordagem e a tranqüilidade
com que enfrenta os desafios e os mitos historiográficos.
E é deste estudo que partem os torpedos mais
letais contra o paradigma contestado. Aliás,
ele confessa isto ao declarar sua adesão “aos
esforços que vêm sendo feitos para substituir
a ‘visão plantacionista’ por um paradigma, ou
modelo explicativo, que seja mais adequado à
interpretação da formação histórica do Brasil”.
Derrubando mitos - Ele mostra, por exemplo, que, no século XIX, a
indústria açucareira da Bahia não era uma “economia
semifechada” em que os senhores de engenho compravam
“somente ferramentas indispensáveis e uns poucos
produtos europeus para seu próprio consumo”
e os escravos viviam de gêneros de subsistência
cultivados na propriedade, como prevê a historiografia
tradicional. Ao contrário, grande parte dos
gêneros para o sustento dos escravos era adquirido
no mercado; a lavoura de mandioca e a produção
de farinha eram atividades prósperas, cuja produção
se destinava – mesmo em lugares tão distantes
de Salvador como Ilhéus – para o mercado, e
que envolviam quantidades variáveis de escravos,
dependendo da capacidade financeira do produtor.
A produção de mandioca – assim como a de fumo
– não era atividade camponesa, à margem da economia
escravista, como pretende a historiografia tradicional.
Ao contrário, era atividade que usava, em escala
variada, mão de obra escrava, diz ele.
Esse mito poderoso fundamenta outro, o da ausência
ou fragilidade do mercado interno. Caio Prado
Jr se refere aos produtores de alimentos da
colônia como lavradores “decadentes”, “degenerados”,
praticando uma “mesquinha agricultura de subsistência”.
Eram esse “elemento humano residual”, raramente
usando mão-de-obra escrava, cuja produção abastecia,
diz o historiador paulista, um mercado interno
singelo. Mercado cuja formação e desenvolvimento
esbarravam no predomínio do trabalho escravo,
que impediria ou restringiria severamente seu
surgimento.
Não há dúvida que a escravidão impedia o pleno florescimento
de um mercado interno. No Recôncavo, como nas
demais regiões e cidades coloniais, era limitado
e precariamente estabelecido, com possibilidades
limitadas de desenvolvimento. Mas era o mercado
interno adequado a uma sociedade pré-capitalista,
fomentado pela economia escravista de exportação.
As relações complementares que ligavam a produção
para suprir as necessidades locais à economia
de exportação permitiram o crescimento extensivo
desse mercado interno, cujas flutuações eram
condicionadas pelas flutuações da economia mundial
e também por forças primitivas, como a seca
e a chuva que provocavam variações na oferta
de mercadorias, alimentavam a especulação, causavam
altas nos preços e, em conseqüência, os freqüentes
motins populares provocados pelo desabastecimento.
Novos caminhos - Outra tese posta em xeque por Barickman é aquela
que identifica escravidão apenas com trabalhos
“intensivos em esforço”, sendo incompatível
com atividades “intensivas em cuidados”. “O
cultivo do fumo”, diz ele, “exigia muito trabalho,
mas se tratava de um trabalho mais meticuloso
do que extenuante”, exigindo “destreza, perícia
e diligência”, qualidades que a visão mais tradicional
não reconhece no trabalho escravo. Essa visão
mais criteriosa da produção fumageira desmente
teses como aquelas defendidas por Fernando Henrique
Cardoso (em Capitalismo e escravidão no Brasil
Meridional, de 1962), de que a economia
escravista
“é uma economia de desperdício pela sua
própria natureza”. Ao contrário, desde Antonil
os viajantes registraram a combinação entre
plantação de fumo e criação de gado e a rotação
entre as atividades. Os fumageiros deixavam
o gado “dormir” por algum tempo no terreno escolhido,
até que o “solo tivesse recebido quantidade
adequada de esterco e urina”. Outra tese contestada
é a de Eugene Genovese, de que o trabalho escravo
seria “incompatível com práticas mais intensivas,
como a rotação de culturas e a estrumação”.
As novas descobertas e reinterpretações nelas baseadas
fazem a ciência evoluir. Há pelo menos um quarto
de século os modelos explicativos tradicionais
da história do Brasil são postos a prova por
pesquisas que, revolvendo os arquivos e amparadas
em novas fontes documentais, passam o passado
a limpo e aprimoram suas explicações, exigindo
a revisão em profundidade de visões amparadas
nas obras de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque
de Holanda e, principalmente, Caio Prado Júnior,
autores que, em sus época, abriram caminhos
renovadores, ampliaram o conhecimento histórico
brasileiro e deram ensejo a pesquisas que permitiram
um acúmulo de conhecimento cuja conseqüência
foi, justamente, colocar em crise os modelos
explicativos que construíram e exigir sua revisão
e substituição.