A
farsa da empregabilidade
Em
meados da década de 1990, um alento para quem
esperava por uma solução para a questão do desemprego
no Brasil parecia haver chegado sob a forma
de um grande e novo mercado que se mostrava
promissor: o Mercosul. A iminente criação de
empregos parecia certa e agitou outro mercado:
o mercado do trabalho, cujo progresso
parece ser inversamente proporcional ao do mercado
de trabalho.
Alimentado pelo pesadelo do desemprego, o mercado do emprego
frutifica em meio à crise, vendendo a suposta
garantia da empregabilidade: o conjunto dos
atributos necessários para a obtenção de um
bom serviço ou a capacidade de manter-se empregado,
variando sua definição conforme o interesse
de quem a elabora. No caso do Mercosul, a empregabilidade
chegaria aos profissionais especializados em
comércio exterior e com domínio do idioma espanhol.
Textos alertando para a necessidade do aprendizado
de uma nova língua multiplicaram-se em periódicos,
quase sempre embasados na ameaçadora idéia de
que “estariam fora do mercado de trabalho” os
que não dominassem, além do português e do inglês,
o espanhol. A demanda pelo aprendizado da língua
“fundamental para a garantia de um bom emprego”
gerou a abertura de novas turmas em antigas
escolas de idiomas e um sem número de cursos
de qualidade altamente duvidosa, muitas vezes
ministrados por profissionais de competência
e metodologia de ensino tão precárias quanto
as instalações em que eram montados.
Mas os resultados práticos positivos no mercado de trabalho
nacional por conta do Mercosul ficaram bem aquém
do que se esperava, e a desilusão geral com
seu potencial de geração de empregos fez-se
sentir em uma debandada dos cursos de espanhol
e na conseqüente quebradeira das escolas de
ocasião. Os artigos dos especialistas em empregabilidade
atestando o espanhol como imprescindível reduziram-se
na mesma proporção que o número de cursos de
idiomas patrocinadores dos periódicos que os
publicavam. Hoje é bom ser fluente em espanhol,
mas o entusiasmo dos que defendem sua necessidade
para a conquista de bons empregos diminuiu consideravelmente.
O alarmismo em torno da necessidade de conhecer um novo idioma
para a garantia da permanência no mercado de
trabalho sem que haja um motivo suficientemente
lógico para tal é um bom exemplo do tipo de
engabelação a que ficam submetidos os que buscam
seu crescimento profissional ou simplesmente
qualquer meio de garantir sua subsistência.
Do mais mal preparado ao mais bem formado cidadão,
todos são potenciais clientes dos que fazem
da promessa de soluções para a crise de empregos
seu ofício.
Em um extremo, os cursos supletivos de um mês, garantindo
a obtenção do diploma do ensino fundamental
ou médio em apenas trinta dias. Uma denúncia
veiculada no Jornal Nacional de 13 de setembro
demonstrou como qualquer um pode, mediante pagamento
de uma taxa de valor considerável, passar a
ser considerado “formado” e apto a continuar
estudos em graus mais elevados sem que seja
necessário aprender qualquer coisa de fato.
Basta ir a uma dessas “escolas”, receber algumas
apostilas e marcar um dia, no prazo de um ou
dois meses, para a realização de avaliações
– com direito de consulta às apostilas. Sendo
aprovado, o aluno recebe o certificado de conclusão
do ensino fundamental ou médio supostamente
reconhecido pelo MEC. Caso contrário, pode realizar
novamente as avaliações referentes às disciplinas
em que tenha sido reprovado, quantas vezes forem
necessárias, até conseguir o tão necessário
diploma, pelo menos para tornar o curriculum
mais atraente aos olhos dos empregadores.
Em outro extremo, seminários e apresentações dos “gurus da
administração” realizam-se em hotéis luxuosos
e resorts, atraindo executivos e candidatos
a administradores com informações sobre novas
tendências e metodologias do mundo do management.
O fato de que grande parte dos métodos apresentados
(supostamente capazes de transformar qualquer
mortal com suficiente ambição em um super-homem
que prefere o terno ao uniforme) simplesmente não funciona na confusa
e constantemente alterada realidade de nossas
organizações parece não abalar os ânimos de
quem se dispõe a pagar quantias vultuosas em
troca do privilégio de conferir os dons oratórios
de verdadeiros mestres da programação neuro-lingüística.
Nos comerciais de suas palestras apresentados
na TV, é comum o encerramento com uma “frase
de efeito” do tipo: “E lembre-se: dinamismo
e produtividade, eis o segredo do sucesso!”
A estrutura desse tipo de frase é aritmética:
“alguma coisa” mais “alguma coisa” é igual a
“alguma coisa maior”, ou “dois mais dois é igual
a quatro”; uma idéia simples presente no inconsciente
coletivo e capaz de dar a certeza de que o que
quer que esteja sendo dito é a mais absoluta
verdade. (Faça você mesmo a sua “frase de efeito”
para administradores: substitua, na frase acima,
“dinamismo” e “produtividade” por quaisquer
coisas que aparentem ser uma virtude para quem
está no mundo dos negócios. Por exemplo, “uma
postura pró-ativa” e “constante reciclagem”.
Se quiser, escreva a frase em um papel e cole
em sua mesa de trabalho, bem à vista de todos,
como se ela fosse o seu lema de trabalho. Acha
isso ridículo? Então você não está a par dos
novos métodos de motivação utilizados por algumas
empresas...). Note-se também que nenhum evento
desse tipo representa qualquer custo por parte
dos participantes, apenas um investimento.
A palavra custo é absolutamente proibida nos
folders de divulgação, já que não carrega
a conotação de algum retorno pela quantia desembolsada.
Entre os dois extremos, podemos encaixar muitos cursos profissionalizantes
de qualidade duvidosa e a enorme quantidade
de cursos de computação surgidos com o processo
de informatização das organizações. Em alguns
destes, o aprendizado de aplicativos simples
como um processador de textos chega a arrastar-se
ao longo de seis meses, na forma de uma hora
de aula por semana, seguindo o bastante conhecido
método “receita de bolo”: clique aqui, selecione
aquilo, clique lá, salve e, meus parabéns, você
conseguiu! Já pode enfrentar uma prova prática
para ser contratado em qualquer empresa que
exija conhecimentos em informática. Desde, é
claro, que a prova seja aplicada dentro de um
período máximo de dois meses, que é o tempo
médio em que qualquer um que não possua um computador
em casa consegue lembrar do que aprendeu dessa
forma.
Livros e periódicos enchem as prateleiras de livrarias e
bancas de revistas com propostas de novas posturas
para o profissional atento às modificações no
mercado de trabalho. E haja novas posturas para
preencher centenas de páginas de tantas publicações,
algumas semanais, e garantir sua continuidade.
Nas livrarias é possível confundir a seção de
livros de administração com a seção de obras
infanto-juvenis, tamanha a quantidade de autores
que, tentando não ser enfadonhos, acrescentam
cor excessiva a suas obras. Capas com onomatopéias
e ilustrações de intento humorístico procuram
transmitir a idéia de que estamos diante de
obras cuja abordagem da administração é inusitada,
em uma mescla de idéias inovadoras e uma atitude
bem-humorada diante das atribulações por que
passam os administradores. Não raro, entretanto,
as idéias apresentadas nesses manuais de administração
mostram-se boas somente enquanto jogada de marketing
para alavancar as vendas de suas editoras.
É possível até mesmo traçar um paralelo entre os métodos
utilizados em certos templos religiosos surgidos
nos últimos anos e o sistema de vendas dos charlatões
da empregabilidade: consistem, basicamente,
na exploração da falta de perspectivas e da
necessidade do vislumbre de um futuro mais promissor.
Seja através do pagamento de dízimos a falsos
pastores ou pelo desembolso de altas somas em
troca dos ensinamentos de um “guru” (saliente-se
a utilização de termos de cunho místico em meio
empresarial, utilizados em tom jocoso mas refletindo
a idéia da posse de poderes sobre-humanos pelos
que seriam capazes de conduzir seus discípulos
ao “paraíso”), o que se apresenta a quem busca
ajuda é sempre a idéia de que “quanto maior
o investimento, maior é o retorno”, deixando
claro que, caso o pagante não atinja seus objetivos,
deve continuar tentando – e “investindo” – até
que sua persistência seja recompensada. Em suma,
a mais antiética utilização da fé de quem se
encontra necessitado de apoio.
Exigências descabidas de algumas empresas para a contratação
de pessoal também colaboram com esse quadro.
Mão-de-obra excedente e queda no número de vagas
nas empresas significam a possibilidade de aquisição
de bons profissionais a baixos salários, e com
freqüência para cargos nos quais suas aptidões
são mal utilizadas e não seriam necessários
todos os conhecimentos exigidos. Estes chegam
a assumir a forma de modismos, como é o caso
da fluência na língua inglesa. Há casos em que
o “inglês fluente” é exigido como aptidão imprescindível
até mesmo para cargos como o de digitador, em
organizações que não praticam o comércio exterior
ou necessitam elaborar qualquer correspondência
em inglês.
Evidentemente, não se pode deixar de valorizar a educação
como fator primordial tanto para o crescimento
profissional quanto pessoal de qualquer cidadão.
Aprender um novo idioma, ler bons livros sobre
a área em que se pretende atuar e assistir a
palestras ministradas por profissionais de renome
pode ser relevante para a obtenção de uma boa
colocação no mercado de trabalho, mas é importante
que se esteja atento aos oportunistas que sempre
surgem em momentos de crise. Bom senso é a única
resposta ao bombardeio de informações contraditórias
e modismos que permeiam o mercado de trabalho.
E lembre-se: interesse e desvelo, eis o segredo
do bom profissional (alguém aí tem alguma dúvida?).