Cópias
e pirataria
Deveríamos
refletir sobre os dados de uma pesquisa divulgada meses
atrás pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos
(ABDR): apenas em São Paulo, 26 milhões de páginas de livros
são copiadas anualmente por estudantes e professores universitários.
Projetada em âmbito nacional, a cifra alcança patamares
impressionantes: 2 bilhões de cópias/ano.
Alarmada
com a dimensão do fato, a ABDR aprofundou o levantamento
e verificou que 84% dos estudantes entrevistados disseram
que as cópias costumam ser feitas a partir de material fornecido
diretamente por seus professores. O consumo de livros é
quase inexpressivo: 32% dos estudantes das mais variadas
universidades, incluindo as de excelência, não compram nenhum
livro durante o ano, ao passo que 28% deles adquirem de
1 a 4 exemplares.
Há
um feixe infernal de temas nessa questão. Um deles diz respeito
ao problema dos direitos autorais, que também se manifesta
no campo da música, depois que os mecanismos de cópia pela
Internet se generalizaram. Calcula-se que é monumental o
prejuízo dos autores, editores e livreiros. Muitas das cópias
facilitam, também, a manipulação do pensamento dos autores,
já que são feitas a partir de trechos selecionados sem muito
rigor e nem sempre acompanhados da indicação de autoria.
Seriam
pirataria essas práticas? Ou elas apenas expressam as condições
em que veiculam e se consomem as obras intelectuais em nossa
era de reprodutibilidade técnica radicalizada?
Particularmente
no terreno do livro universitário, a xerografia reflete
um sistema de produção de conhecimentos por conta-gotas,
em que se maximiza o valor dos artigos, das pesquisas pontuais,
das referências protocolares e das citações em cadeia. O
pesquisador é hoje um catador de referências espalhadas
em inumeráveis publicações e em diversas línguas. O sistema
mesmo dissemina procedimentos didáticos que incentivam a
formação de pastas de textos, não de uma biblioteca.
E quanto
ao alto preço do livro?
A gritaria é recorrente e muitas vezes desprovida de esforços
comparativos mais sérios. Afinal, o livro virou mercadoria
e pode ser mesmo equiparado, enquanto preço, ao valor de
uma cerveja. Se está desvalorizado, por que as pessoas deixariam
de ir ao cinema para comprar um livro? Aqui se abraça um
conhecido círculo vicioso: o livro é caro porque o consumo
é baixo e as tiragens são limitadas, e o consumo é baixo
porque o preço é alto.
Dá
para defender algum tipo de restrição à cópia de livros
ou capítulos de livros, mas não faz sentido fazer o mesmo
com artigos de revista, até porque a maioria dos periódicos
científicos disponibiliza seus conteúdos pela Internet.
Também é insensato incluir no “veto” as obras esgotadas,
fora de catálogo ou importadas e de difícil acesso. É preciso
seguir um critério consistente para se falar em pirataria
ou clonagem.
Ainda
que não se possa absolutizar a questão dos direitos autorais,
é justo que se tente encontrar alguma forma de proteger
autores, livreiros e editores. Afinal, o retorno financeiro
da operação é, ao menos em parte, um fator que realimenta
o próprio sistema de produção de conhecimentos.
De
qualquer forma, será pouco eficaz o apelo à aplicação cega
da Lei 9610/98, que coíbe a cópia indiscriminada do livro.
Os poderosos e sofisticados sistemas reprográficos não serão
muito afetados, nem os hábitos acadêmicos se alterarão de
modo significativo.
Uma
ampla campanha de valorização do livro – que ponha o livro
no caminho do leitor, que dê destaque à integralidade das
obras, à dimensão ética e estética do livro, ao seu significado
como parte do patrimônio cultural de um povo – ajudará bastante,
mas perderá força se se combinar com a condenação cabal
das cópias e apostilas, cuja utilidade pedagógica parece
pouco questionável.
Uma
demonstração de que há espaço para soluções criativas nesse
terreno vem do próprio presidente da ABDR, o editor José
Xavier Cortez. Para ele, seria possível montar um sistema
de acompanhamento e controle dos serviços de reprografia,
de modo a acrescentar, ao preço da cópia, um valor a ser
recolhido a título de direitos autorais, mais ou menos como
se faz quando um livro é vendido na livraria. Seria certamente
um sistema complexo e custoso, mas não propriamente inviável.
A discussão,
em suma, deveria encorpar e ser ampliada, até para que idéias
e opções possam ser apresentadas. É uma briga pelo livro,
e por ele vale a pena brigar.