Cursinhos Militantes:
Ação Coletiva pela democratização da Educação
Superior
Movimentos
sociais e as associações civis que reivindicam
direitos e cidadania aos diferentes grupos étnicos
e ou excluídos vêm se posicionando veementemente
pela criação de cotas e outros mecanismos capaz
de garantir o acesso e permanência no ensino
de terceiro grau. Pressionadas, Câmaras de Vereadores,
Assembléias Legislativas e Congressistas, apresentam
propostas projetos de reservas de vagas, flexibilização
de exames vestibulares, cotas para grupos étnicos
e outras medidas que têm como finalidade redistribuir
e ampliar as vagas de cursos de graduações,
especialmente nas instituições públicas de ensino
superior. Há polêmica quanto ao alcance e o
significado destas medidas o que não invalida
o seu mérito tanto o é que, nos últimos meses,
a grande imprensa vêm dando destaque aos debates
acerca do acesso equânime nos cursos superiores
de maneira que a opinião pública passa a tomar
posição em questões até então herméticas ao
público mais geral. Na dinâmica dessas controvérsias
a sociedade civil e política desnudam a Nova
República do pós-64, e, assim deixam à mostra
as disputas e as concepções de projetos antagônicos
de sociedades, educação e cidadania.
Em concomitância a esses debates,
os cursinhos criados por iniciativas das organizações
não-governamentais e movimentos sociais, constituem-se
numa forma de organização político-pedagógica
ainda pouco conhecida que começa ganhar credibilidade
junto à sociedade. Estas
iniciativas vêm se constituindo em micros e
pequenos empreendimentos que sobrevivem apoiadas
movimentos sociais e ou instituições, bem como
através das taxas e mensalidades cobradas dos
participantes (os valores são bastante abaixo
das cobradas no mercado, muitas delas são apenas
simbólicas).
Assim,
mais do que um empreendimento comercial, o “cursinho
militante” é o desdobramento,
no campo educacional, das lutas políticas pelo
acesso universal ao ensino superior público
e gratuito.
A expressão “cursinho militante”,
é usada, neste artigo, como síntese de um conjunto
de termos que tentam denominam os cursos preparatórios
pós-médios, sem fins lucrativos e criados no
bojo da sociedade civil, a saber cursinhos:
sociais, populares, comunitários, alternativos,
solidários etc. Assim, encontramos na palavra
“militante” uma expressão que ressalta, com
clareza e contundência, o envolvimento direto
e indireto de ativistas de movimentos sociais
e associações civis na proposta político-educacional
dos cursinhos.
O crescimento no número dos participantes
nos cursinhos militantes ocorre na proporção
em que se encaminha à universalização do ensino
fundamental, e, amplia-se o número de matrículas
no ensino médio. Por outro lado, verificamos
também o aumento no nível de formação escolar
do trabalhador, como exigência de um mercado
de trabalho cada vez mais excludente e seletivo.
Estes fatores colocam em envidência o problema
do acesso às instituições públicas de ensino
superior; as políticas educacionais do sistema
de ensino como um todo; e, as diversas ações
coletivas que buscam a inclusão de grupos e
setores populares sem oportunidades e condições
educacionais.Suas ações podem ser vistas empiricamente
no aumento de inscrições gratuitas aos exames
vestibulares em diversas instituições, na implantação
de cotas e reservas de vagas para cursos superiores,
no crescimento das vagas no período noturno
e na implanção de outras modalidades de ensino
superior como a
educação a distância. Estas ações, no
conjunto, inflamam o debate público para uma
nova universidade (im)possível, capaz de atender
em quantidade e qualidade ao crescente número
de pessoas ávidas por conhecimentos e realização
profissional.
A tangente do sistema educacional
de ensino, a existência e persistência dos cursinhos
militantes nos colocam as seguintes questões:
é possível um sistema de educação superior universal
que atenda a todos? Qual seu diferencial em
relação aos cursinhos comerciais? Eles possuem
a competência necessária para “resgatar” os
conteúdos perdidos ao logo dos caminhos e descaminhos
na educação básica? Em qual modalidade educacional
inserem-se os cursinhos militantes: formal,
não-formal e informal? Suas existências refletem
algum avanço na definição política da educação
superior? A manutenção, desenvolvimento e amplinação
dos cursinhos militantes não os convertem em
empreedimentos comerciais como os demais existentes
ou mesmo em organizações que disputam o fundo
público para auto-pagamento?
Para compreender essas e outras
questões partimos do pressuposto de que esses
cursinhos, enquanto prática de educação não-formal
(informal), expressam os valores e as concepções
liberatárias e libertadoras de movimentos sociais
e associações civis que, no campo pedagógico-educacional,
reivindicam direitos e cidadania negados. Embora
atuem à margem do sistema de educação formal,
cursinhos militantes revelam de um lado, o colapso
da escolarização e, de outro, a supreendente
capacidade da sociedade civil em resistir com
criatividade às adversidades. Os cursinhos das
“bases” transformam-se em impetuosas frentes
de luta pelo acesso e garantia da educação superior
pública, assim, não é exagero afirmar que os
mesmos indicam o grau de tomada de “consciência
para si” de forças sociais que não faz muito
tempo reivindicavam, timidamente, apenas o direito
à instrução.
O crescimento no número dos egressos
do ensino médio que recorrem ao ensino superior
é atribuído de maneira geral ao acirramento
da crise no mercado de trabalho; e, também,
pela idiossincrasia gerada pelo fetiche do diploma
universitário. A conjugação desses fatores vem
provocando uma forte demanda aos cursos de graduação,
tanto nas instituições públicas como nas privadas.
A pressão social pelo aumento da oferta de vagas
nas universidades coloca-se de maneira curiosa,
vejamos: nas públicas, os processos seletivos
enrijecem cada vez mais em decorrência dos limitados
recursos; já nas instituições privadas, ao contrário,
os processos seletivos são flexibilizados cada
vez mais, porém, na perspectiva das relações
mercantis, onde obter lucro ilimitado é um imperativo.
Entre 1992 e 1999, apesar de um aumento de 76%
das vagas no ensino superior brasileiro (o total
de estudantes saltou de 1,4 milhão para 2,5
milhões), proporcionalmente, a presença dos
mais pobres, no mesmo período, diminuiu. A participação,
entre os alunos universitários, da metade mais
pobre da população do País caiu de 8,5% para
6,9%. (Cf. INEP, 2000).
De acordo com o Relatório UNESCO
da Comissão Internacional sobre Educação para
o Século XXI em um mundo que os recursos cognitivos
são cada vez mais importantes do que os recursos
materiais a importância do ensino superior e
das suas instituições será cada vez maior. O
Relatório enfatiza ainda que: “(...) os estabelecimentos
de ensino superior são pressionados a abrirem
as suas portas a um maior número de candidatos.
À escala mundial, as inscrições mais do que
duplicaram em vinte anos, passando-se
de vinte e oito milhões de estudantes em 1970,
para mais de sessenta milhões atualmente. E
contudo continuam a subsistir desigualdades
consideráveis, tanto no acesso como na qualidade
do ensino e da investigação”. (1996:121-122).
As questões que envolvem a ampliação das vagas
no ensino superior e, também, o uso dos recursos
públicos no ensino particular vêm extrapolando
os muros acadêmicos e aos nichos parlamentares
para se instalar nas praças públicas onde diversos
setores sociais, historicamente sem acesso às
oportunidades educacionais, debatem, propõem
e reivindicam a garantia e o acesso aos direitos
que a muito lhes negados e sonegados.
O
acesso à Universidade
O processo de admissão a educação
superior revela uma zona cinzenta entre a “terminalidade”
do ensino médio e o ensino superior. Nesse terreno
viceja, sem nenhum controle e responsabilidade
social, todos os tipos de práticas e ações no
campo da educação não-formal. Paulo Nosella
observa que no acesso à universidade pública,
“os cursinhos, filhos ilegítimos dos vestibulares,
se constituíram aos poucos num imenso sistema
escolar paralelo ao legal, mais forte e ‘importante’
do que este. Mesmo assim, os cursinhos sequer
são mencionados pela atual Lei de Diretrizes
e Bases da Educação Nacional, de 1996”. (2002:165).
Os cursos preparatórios pré-vestibulares, instalaram-se
à porta da educação superior e passaram a vender
seus produtos sem menor controle e ou fiscalização
por parte do poder público, até porque os mesmos
não são parte do sistema educacional constituído.
Não obstante a isso, evoluíram a tal ponto que
acabaram se tornando empreendimentos que, direta
ou indiretamente exercer influência no curso
do ensino.
A existência e persistência dos
cursinhos na ante-sala dos sistemas de ensinos
atestam que os graves problemas (de quantidade
e qualidade) da educação básica não cessam.
Diante disso, os cursinhos pré-vestibulares
tornaram-se uma “necessidade” para ingresso
no terceiro grau, especialmente aos candidatos
ao ensino superior provenientes de escolas de
ensino médio e de suplência onde geralmente
as condições objetivas para uma formação de
qualidade deixam a desejar. Não obstante a isso,
os processos seletivos nas instituições superiores
queiram ou não reforçam uma educação em que
a preocupação maior é pelo acúmulo de dados
e informações de caráter enciclopédico ou tão-somente
de macetes para solução de “pegadinhas” elaboradas
para induzir candidatos incautos ao erro.
Incapazes de pagar as mensalidades
em instituições de terceiro grau privadas, pretendentes
e ou reprovados de exames vestibulares de instituições
públicas, recorrem a muitos desses cursinhos
pré-vestibulares na esperança de resgatarem
um saber negado ou sonegado ao longo do processo
de escolarização. Na ausência de qualquer opção
ao término do ensino médio, os cursinhos tornam-se
única forma de preparação para exames de ingresso
ao terceiro grau, sobretudo para determinados
cursos de graduação. A despreocupação e a conseqüente
"acomodação" de setores do meio acadêmico
diante dessa situação têm levado a uma aceitação
explícita (pela falta de ousadia em mudanças)
e implícita (pela aceitação acrítica de ideologias
meritocráticas excludentes), do binômio cursinho-vestibular
como uma única forma de ingresso na educação
superior. Paulo Nosella é enfático ao afirmar
que: “a universidade, ao delegar aos cursinhos
a preparação imediata dos jovens que ingressam
nas faculdades, simplesmente pratica um crime
de lesa-educação contra a juventude”. (2002:171-172).
Essa situação é bastante grave, pois revela
a ausência da crítica sobre o sentido e o significado
desse binômio no sistema educacional como um
todo e, também desconsidera o acesso à educação
superior enquanto direito social.
O
cursinho militante
As ações coletivas que agitam a
sociedade por uma educação inclusiva não são
um acidente na história brasileira: as campanhas
contra o analfabetismo que remontam ao século
19; os movimentos pela instrução elementar,
no início do século 20; a mobilização dos educadores
pela escola pública e estatal (até primeira
metade do século passado); e as campanhas pela
educação popular nas às décadas de 50 e 60;
e, nos dias de hoje, as reivindicações e lutas
por mais quantidade e qualidade nas escolas
fazem parte de um longo processo histórico social
onde a conquista da educação escolar só se tornou
possível mediante a pressão e mobilização dos
diferentes setores sociais.
A evolução do acesso à escola elementar
e básica ao longo desses processos vem trazendo
uma nova e crescente procura pelo ensino superior.
Ela surge no horizonte de milhares de egressos
do ensino médio como uma possibilidade. O movimento
estudantil dos anos 60 já apontava nessa direção,
sobretudo com as reividicações dos chamados
excedentes do ensino superior público, que travaram
uma dura queda de braço com o Governo Militar
Pós-64, pela expansão das vagas nos cursos superiores.
Os propósitos que desencadearam
o movimento dos excedentes do ensino superior
ainda anos 60, e, os cursinhos militantes dos
diais de hoje, configuram cada um a sua maneira,
mobilizações sociais de maior importância para
compreender a questão do acesso à educação superior
na perspectiva da sociedade civil. Estes movimentos
podem fornecer importantes lições de como as
forças sociais são capazes de fazer valer seus
interesses, mesmo sob as mais implacáveis situações.
Os cursos preparatórios para ingresso
na educação superior desenvolvidos pelos movimentos
sociais e associações civis, constituem numa
curiosa forma de mobilização da sociedade civil
em luta pelo direito à educação em todos os
níveis. Em virtude de suas autonomias em relação
ao aparato buracrático-institucional do sistema
educacional, os cursinhos militantes realizam
um cem números de ações pedagógicas-educacionais
sob forte orientação político-idelológica das
bases que os sustentam. Essas ações ultrapassarem
aos aspectos técnico-pedagógicos presentes em
programas e currículos convencionais, assim,
a pedagogia e o conteúdo político-ideológico
dos cursinhos ainda são desconhecidos, no entanto
permitem inferir que, dadas as forças sociais
envolvidas no planejamento e execução (sindicatos,
partidos políticos, igrejas, ONGs, organizações
estudantis entre outras), criam-se às condições
para uma consistente oposição às políticas excludentes
vigentes no sistema educacional institucionalizado.
Estas ações coletivas, seguem uma
tendência que começou no final dos anos de 1980
e vem se proliferando nas décadas seguintes.
Embora não haja um levantamento complento que
mostre a expansão dessas iniciativas até os
dias atuais, estima-se que existam centenas
de cursinhos alternativos e comunitários espalhados
pelo Brasil. Segundo a Revista Caros Amigos