Por H. UTANAZAD
H. Utanazad é o pseudônimo de um professor universitário iraniano. Por razões que o artigo torna claras (embora as críticas possam nos parecer tão sutis e inofensivas) ele não pode dar seu nome verdadeiro, nem publicar sua foto, ou arriscaria ser preso


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Ser ou não ser um idiota

A exibição pública de ignorância é amedrontadora

H. Utanazad*

The Iranian

[Tradução de Eva Paulino Bueno]

O onze de setembro pode ter mudado muitas coisas, mas eu era tão idiota no dia 12, como era no dia 10.  Aconteceram muitas coisas desde então: houve guerras, rumores de guerra, e, naturalmente, a maior explosão de ativismo no mundo inteiro no dia 15 de fevereiro deste ano.  Mas eu continuo sendo ainda hoje o mesmo idiota que era no passado.

Já notaram como é horrível como uma vida no exílio? O desespero, a desilusão e a tristeza destroem o nosso desejo de conectar-nos, de ter alguma interação humana e otimismo. Mas, pensando bem, o exílio não é sempre sombrio. Pelo menos o exilado tem que aprender uma ou duas línguas.

Aprender uma língua estrangeira é uma coisa estranha, você não acha? Todos nós podemos lembrar-nos daquele sentimento chato de ter que olhar, mais uma vez, pela que parece a milésima vez, o significado de uma palavra diferente, apenas para ser confrontado com as mil e uma maneiras em que esta palavra está sendo usada em todo canto.

É como se apenas depois de ter olhado uma palavra no dicionário a gente nota que ela está em todos os outdoors, nos ônibus, no metrô, na imprensa, e também aparece em conversas entre nossos colegas, conhecidos, amigos e parentes. Como é que a gente pode não ter percebido que esta palavra estava presente em todos lugares? O que isso implica em termos da nossa habilidade de observação? Aprender uma língua estrangeira, podemos concluir, inevitavelmente exige que sejamos mais observadores.

Vamos deter-nos por um minuto na questão do significado de uma palavra. Geralmente há um pequeno problema associado com significados - se continuamos com esta introspecção. Não é exatamente um problema, apenas uma oportunidade. As palavras não são sempre aquilo que parecem ser.

As palavras, se forem compreendidas na constituição da sua raiz, abrem uma pequena janela para uma dimensão absolutamente encantadora que em geral não recebe nenhuma atenção. Eu não sei o que você acha disso, mas eu pessoalmente nunca aprendi a decifrar palavras quando estudava farsi. Nós aqui (no Iran) realmente não fazemos exercícios etimológicos como os estudantes de outras línguas fazem – nós simplesmente não temos experiência.

Tomemos esta mesma palavra multi-silábica como exemplo. A experiência é uma palavra engraçada quando você pausa e pensa nela. Ela está em todos lugares e todo mundo tem pelo menos um pouco dela, e aqueles que acham que não têm querem ter. Aparentemente, esta coisa "que dá forma ao ser" parece ser uma pedra fundamental da nossa cultura e da nossa identidade política.

A nossa teocracia é baseada na lei do fagih, do proverbial mujtahed - a depositária do ijtehad ou simplesmente a encarnação daquele que trabalha duro.  Mas muita gente trabalha duro toda a vida e ninguém—pelo menos dentro da linha do razoável—espera que eles dominem a nossa vida automaticamente e perpetuamente.

Nós não nos acovardamos e rendemos todos os nossos pensamentos independentes, todas nossas aspirações, desejos, esperanças, sonhos e necessidades no momento em que nos encontramos com alguém que trabalhou duro.  Logicamente, nós nos dispomos a ouvir seu conselho, e a reavaliar nosso pensamento. Mas só até aí.  Aquele que trabalha duro não tem o direito de, automaticamente, decidir a forma das nossas vidas.

As coisas não são lá tão simples, não é? A política, a religião, a história, a cultura, são todos assuntos complicados que não se abrem facilmente a serem decifrados.  Anos de trabalho são necessários para dar o direito a uma pessoa a começar a julgar coisas que afetam tão diretamente o contorno da vida de alguém.  No entanto, o fazer da experiência um fetiche parece ser, de uma maneira bastante fundamental, o centro da nossa cultura.

Você já percebeu como raramente há pessoas com um simples primeiro nome, ou um sobrenome, em uma festa?  O que se vê, cada vez mais, é a enorme quantidade de títulos. A experiência, ao que tudo indica, uma vez que é adquirida, vai ser usada como uma medalha de honra, e automaticamente qualifica seu possuidor a recitar monólogos, o que mata a possibilidade de uma conversa real: aquele ato coletivo e atormentador em que as pessoas envolvidas podem ver e observar direções diferentes.

E não é esta habilidade a mais essencial para tornar possível o exame de uma posição, idéia ou crença?  Olhar as coisas de uma perspectiva diferente pressupõe a possibilidade de hesitar, duvidar, fazer perguntas.  Esta disposição também indica estar pronto para não aceitar completamente a resposta fácil; assim como indica que a pessoa pode admitir estar errada, pode considerar a possibilidade de começar de novo, do começo, a experimentar, e finalmente mostra o desejo de trabalhar coletivamente quando procurando soluções a problemas que confrontam a todos.

O que parece estar no centro deste encantador processo criativo são  precisamente as qualidades que não sobrevivem em uma disposição espiritual que simplesmente venera e dá razão aos especialistas, os profetas,os imams e os reis. Neste contexto, a hesitação é sinônimo de ignorância - ela revela ao público a "fraude" que o hesitador é. Isso é equivalente a ser pego com a boca na botija, a admitir e ser percebido como o não especialista, como aquele que não tem experiência.

Esta exibição pública de ignorância é amedrontadora, você não acha? Este momento embaraçoso nos custou notas baixas na escola, e nos transformou a todos em coladores. Como adultos, o medo de mostrar não saber alguma coisa nos persegue.  Nós estamos sempre fundamentalmente amedrontados  e todas as batidas no peito e agressões (matalak) e toda a violência e ataques verbais (rajaz khoon) não vão conseguir disfarçar este medo.

Mas o medo, em si mesmo, não é uma coisa saudável? Nós não deveríamos aceitar o nosso medo? Afinal, não está o medo literalmente no centro da muito venerada experiência? Não é o medo o ímpeto inicial—a motivação, aquilo que empurra pra frente e motiva—dos movimentos na direção correta?

O que está no centro da constituição da ex-PER-iência, este elemento "que dá forma ao ser", não é na realidade o medo (temor)  saudável? Não será o mesmo que se manifesta transparentemente no francês puer, ou no per do peril (perigo) em inglês—o medo da perda,o medo da calamidade e o medo que a pessoa ultrapassa quando tenta aprender  "tentando," através da experiência.

E quando analisamos o processo de aprender por tentativas, ninguém jamais se saiu melhor que os gregos. Claro que já houve persas sábios e um em particular cujo conselho era ignorado oh, há tantos séculos atrás. A família dele deve ainda viver por aqui em algum lugar, mas eles também estão perdidos porque eles também esqueceram.  Mas eu estou divagando, deixe me voltar  ao meu assunto.

Então nós temos que nos contentar com o exemplo daqueles caras atenianos - aqueles que esperavam que os seus cidadãos se envolvessem em todas as decisões que afetavam sua comunidade. Eles escutavam todos os representantes do estrangeiro e estudavam suas atitudes.  Eles discutiam, debatiam e votavam, muitas vezes com encrencas, e sempre com muito barulho, e sim, algumas vezes estupidamente e injustamente, em assuntos de guerra e paz.

Em relação à sua administração doméstica, o sistema dos gregos era tal que se esperava que cada cidadão servisse a causa pública em várias capacidades, e cada um era escolhido através de um sorteio. Este magnífico método de experimentação, esta prontidão a aprender fazendo, deu à humanidade uma das épocas mais vibrantes da história.

Aqueles gregos tinham um nome para aquele raro cidadão que se recusava a envolver-se: eles o chamavam idiotes, ou seja: a pessoa privada, aquele que não se importava com os assuntos da comunidade, ou com a política. Eu, da minha parte, hoje posso dizer, estou farto de ser um idiota.

 

H. UTANAZAD
     


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