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Por MARC W. HEROLD
Departamento
de Economia - Whittemore
School of Business & Economics - University of New Hampshire
VERSÃO
PARA IMPRESSÃO [WINZIP]
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Por
que os investidores estrangeiros ignoram o Afeganistão
de Karzai?
(Tradução
de Edinaldo Tebaldi)
O
Afeganistão não recebeu nenhuma operação expressiva de investimento
direto estrangeiro direcionado para o setor produtivo após o
fim da guerra que depôs o governo Taleban, apesar das frenéticas
viagens que o ministro Karzai tem realizado ao exterior procurando
investidores. Esse cenário contrasta com o Afeganistão sob o
comando do Taleban [1996-2001], quando gigantes americanas como a
UNOCAL – envolvida na construção de um gasoduto – e a Telephone
Systems International Inc., sob licença do Taleban,
empreenderam um projeto para construir uma rede de comunicação
integrada de alta tecnologia no valor de US$ 240 milhões.
Apesar de todos os erros do Taleban, eles foram capazes de gerar um
certo grau de estabilidade política e garantir o cumprimento dos
contratos firmados. Além disso, em um ano eles foram capazes de
reduzir o cultivo da papoula (papaver
somniferum) para
quase zero. Na contramão, sob o governo non failed
de Karzai, a produção de papoula cresceu significativamente e a
participação do Afeganistão no mercado mundial de heroína
aumentou de 12% em 2001, para 76% em 2003.
Até
essa data, o fluxo de investimento direto para o Afeganistão
deve-se a duas empresas de telefonia celular, duas empresas de serviços
aéreo expresso, três hotéis, quatro [pequenas] linhas aéreas
estabelecendo ligações com Cabul, uma agência chinesa de importação,
e alguns agentes privados que estabeleceram restaurantes [e.g.,
B’s Place, propriedade de um australiano, e o New Thai] e
Bares [e.g., Irish Club, propriedade de um Britânico, porém forçado
a fechar recentemente].
Garçonetes de mini-saia [substituídas em abril de 2003 por
vestidos com abertura lateral até o joelho]
servem cerveja Tsing Tao acompanhada de carne de porco assada
no Restaurante Chinês de Cabul, aberto em novembro 2002.
As empresas World Airways e Swiss Skies estabeleceram
um contrato de 30 meses totalizando US$ 102 milhões para operarem vôos
quinzenais entre o aeroporto de Dulles-EUA e Cabul. O principal alvo
deste projeto é o passageiro vinculado às grandes ONGs e às
comunidades governamentais de Washington e Genebra.
O banco britânico Standard Chartered Bank e o Banco Nacional
do Paquistão (estatal) requisitaram licença para instalarem
filiais em Cabul, as quais operariam como banco comercial.
Um investidor americano da Florida, Stephen King, comprou a empresa
estatal têxtil algodoeira Gulbahar.
Um outro investidor americano - Marc Seidner, proprietario da
Permanente Corp., juntou-se com Americanos de origem Afegã e propôs
um projeto de US$ 2 bilhões ligado a agricultura e reflorestamento
no Afeganistão, o qual:
"...
durante a próxima década... pode transformar grandes áreas desérticas
e improdutivas em férteis florestas, pomares, e granjas avícolas
(criação de frango e peru) e gerar uma renda de aproximadamente
US$ 6 bilhões por ano.”
Observa-se
também um fluxo de investimentos de menor porte para o Afeganistão
proveniente de seus vizinhos Irã e Paquistão. Afegãos que estavam
exilados também realizam investimentos no Afeganistão, os quais têm
conhecimento privilegiado sobre o país, uma compreensão melhor dos
riscos envolvidos e expectativas dos benefícios, além de retorno
imediato do investimento.
Nenhum
projeto de investimento nos setores manufatureiro, mineração, e gás
encanado foram iniciados até essa data.
Investidores
potenciais examinam a relação risco-retorno, garantia de
cumprimento dos contratos, e a possibilidade de retirar seus
investimentos rapidamente se necessário. Os investimentos
simplesmente não acontecerão se o país não for dotado de uma
estrutura institucional que proteja o investidor. Além disso,
outros fatores aumentam significantemente o custo de conduzir negócios
no Afeganistão, entre os quais, corrupção sistêmica, regulação
ineficiente e burocrática, ausência de um sistema bancário e de
infra-estrutura legal etc..
Investidores estrangeiros são avesso ao risco e não irão investir
centena de milhões de dólares para construir um sistema de
transmissão de gás que passe pelas províncias de Herat, Helmand e
Candahar e conecte os fornecedores do Turcomenistão ao Paquistão.
Eles também não gastarão os milhões de dólares necessários
para construir infra-estrutura e desenvolver as minas de cobre da
isolada Ainak, na província de Logar.
Em
1º de setembro de 2003, rebeldes do Taleban atacaram os guardas que
faziam a segurança da rodovia em reconstrução que liga Cabul a
Candahar, matando pelo menos seis policiais e empregados da Louis
Berger Group.
A
O.P.I.C, uma companhia de seguros do governo americano, ofereceu
cobertura de US$ 40 milhões para a Hyatt International
implementar o projeto de construção de um hotel de luxo com 205
quartos, o qual deveria ser construído, como era de se esperar, em
frente à embaixada dos Estados Unidos em Cabul.
A O.P.I.C também concedeu um empréstimo para o Berkeley Group/
World Airways.
Em 16 de junho de 2003 o Afeganistão juntou-se a agência
multilateral de garantia de investimentos do Banco Mundial [ MIGA-
sigla em Inglês ], a qual fornece seguro de risco político para
investimentos [remessa de lucros, expropriação, quebra de
contrato, danos de guerra, e distúrbio civil ].
Esses esquemas socializam o risco do investimento direto estrangeiro
no Afeganistão.
Os
investimentos diretos que ocorreram [veja a tabela 1 abaixo] foram
direcionados aos setores de prestação de serviços e
geograficamente localizados em Cabul, cidade protegida pela Força
Internacional de Assistência à Segurança (ISAF).
As companhias de telefonia celular operam em meia dúzia de cidades
relativamente importantes. O investimento dessas empresas é pequeno
e consiste basicamente em torres (bens de capital) e pessoal. Um
cyber café foi instalado no Hotel Intercontinental de Cabul pela
AWCC. Foram estabelecidas duas linhas aéreas com serviços semanais
a Cabul: World Airways/Swiss Skies ligando Washington-EUA a
Cabul e L.T.U. ligando Dusseldorf-Alemanhã a Cabul. Contudo,
o vôo semanal da L.T.U. foi condenado por uma associação
de pilotos alemães como sendo perigoso devido às minas ao lado das
pistas de decolagem e a possibilidade de lançamento de foguetes
antiaéreos contra a aeronave no aeroporto de Cabul.
A empresa aérea AZAL, uma estatal do Azerbaijão, está operando três
vôos por semana entre Cabul a Baku. Em maio de 2002 a companhia aérea
Mayan, uma empresa privada do Irã, passou a oferecer vôos entre
Teerã e Cabul duas vezes por semana usando um Airbus. A companhia aérea
Ariana pode interromper suas operações devido a um ataque
contra um Boeing 727 que decolou de Cabul em 26 de Julho de 2003. O
empreendimento das outras duas companhias aéreas de entrega
expressa é menos exposto aos problemas internos do Afeganistão. A
DHL usa um velho aparelho russo alugado (Antonov-12) para voar entre
Cabul e Bahrain, um centro de operações
da DHL no oriente médio. Em resumo, um total de aproximadamente US$
120 milhões foi investido no Afeganistão, porém 88% desse total
é devido a dois projetos de investimento realizados por um
consorcio de telefonia celular, e 75% é originário de apenas uma
fonte, o fundo de Aga Khan.
Em
11 de agosto, durante a transmissão de comando da ISAF para a OTAN
em Cabul, o ministro Karzai [mais uma vez] distinguiu-se pelo
discurso desprovido de substância. Segundo ele,
"...
hoje nós temos uma cidade verdadeiramente internacional. Hoje nós
temos uma cidade onde as pessoas podem vir e investir....nós temos
nesta cidade um restaurante Tailandês... nós temos restaurantes da
Índia e da China...."
Sim,
um exército internacional está em Cabul sem o qual Karzai seria
história há muito tempo. Os investidores estrangeiros
estabeleceram alguns restaurantes no Afeganistão, mas isto está
muito distante do anunciado pelo ministro do comércio de Karzai,
Sayed Kazemi, o qual disse em abril que os investidores estrangeiros
estavam se preparando para investir bilhões de dólares no país. O
primeiro restaurante chinês, Golden Lótus (lótus dourado), foi
aberto em Cabul na década de 70.
Por
sua vez, a ajuda financeira concedida pelas organizações
internacionais é significativa e totalizou US$ 1.836 milhões
[janeiro 2002 - março 2003]. Esse montante representa 42% do PIB do
país, estimado em cerca de US$ 4.4 bilhões, em 2002, pelo Banco de
Desenvolvimento da Ásia.
O
cenário descrito acima mostra claramente que os investimentos
diretos realizados no Afeganistão não requerem compromissos de
longo prazo e podem ser rapidamente retirados do país. Portanto, os
investimentos não acontecerão até que alguma evidência de
estabilidade e previsibilidade exista no Afeganistão. A existência
de um sistema legal para se fazer cumprir contratos é um elemento
crucial que não está presente no Afeganistão de Karzai.
Os
investimentos consumados até agora servem exclusivamente às
classes média-alta [exilados no estrangeiro, exilados que
retornaram ao Afeganistão, e os burocratas de Karzai] e contribuem
muito pouco para gerar estabilidade política. O salário médio em
Cabul é US$ 1/dia. Um Nokia da AWCC custa US$ 290, e um Motorola
custa cerca de US$ 350.
Uma hora no novo cyber café custa US$ 5. Vôo de ida e volta Teerã-Cabul
nas linhas aérea Mahan custa $330. Vôo de ida e volta na classe
executiva Dulles, EUA -Cabul custa US$ 7.500. Esses números dizem
muito sobre o papel do investimento estrangeiro na "reconstrução
afegã." Como tem sido apontado tanto por mim quanto por outros
autores há muito tempo, os investidores estrangeiros em atividades
não-extrativas não desenvolvem mercados, eles seguem os mercados e
tendem a produzir produtos complicados, de maneira complicada a fim
de apropriar-se dos escassos lucros.
Dado a distribuição de renda, a pobreza endêmica, e o ambiente de
elevado risco no Afeganistão, nenhum investidor racional irá se
expor aos riscos de investir seus recursos no Afeganistão do
Ministro Karzai.
O
Afeganistão é arriscado demais para investir.
Tabela
1: Investimento Direto Estrangeiro no Afeganistão de Karzai
|
Companhia
|
Data
Projeto
|
$
Invest.
|
Descrição
|
Proprietário(s)
|
|
Afghan
Wireless Communication Co. (AWCC)
|
5/2002
(1998)
|
US$ 50 milhões
|
Rede de telefonia celular (GSM); começou
a operar em Cabul (abril 2002) e em quatro outras cidades. O
maior fornecedor da AWCC é a WorldCom-EUA (proprietária da
Embratel)
|
Uma ‘joint venture’ entre um exilado
Afegão, Ehsan Bayat's TSI International [NY] e o governo de
Karzai [20%]
|
|
DHL Worldwide Express
|
3/2002
|
?
|
Serviço expresso aéreo entre
Cabul-Bahrain; usa um avião alugado AN-12, o qual tem
capacidade para 18 ton. de carga
|
A DHL tinha servido o Afeganistão até
1987
|
|
Mahan Airlines (Irã)
|
5/2002
|
?
|
Serviço aéreo duas vezes por semana
entre
Teerã e Cabul; usa um Airbus
|
Mahan Airlines é uma empresa privada
Iraniana
|
|
FedEx
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11/2002
|
?
|
Entrega aérea expressa e serviço de
transportes rodoviário em Cabul
|
FedEx
associada com a Afghan Express Ltd.
|
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Hotel Intercontinental de Cabul
|
2002
|
US$ 8 milhões
|
Renovação de um velho hotel de 200
quartos
|
Alugado por 15 anos pelo grupo Dubai's Al
Yaqoub. O InterCon hotel é agora propriedade da rede de hotéis
Six Continents Hotel
|
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Companhia Indiana
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9/2002
|
US$ 0.25 milhões
|
Manufatura de gases industriais
|
Anunciado como uma ‘joint venture’
|
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Azerbaijan Airlines (AZAL)
|
1/2003
|
?
|
Vôos três vezes por semana pela AZAL
entre Cabul e Baku
|
Propriedade da AZAL (100%), usando um
Boeing 727-200
|
|
Aga Khan Fund para o Desenvolvimento
Economico
|
2003
|
US$ 25 milhões
|
Renovar /expandir um velho hotel de cinco
estrelas em Cabul Serena
|
100% propriedade do grupo Agha Khan.
Construção iniciada
|
|
Hyatt Regency Cabul
|
Planejado
|
US$ 40 milhões
|
Construir um hotel cinco estrelas com 205
quartos em frente à embaixada americana
|
Ainda na fase de planejamento pela Hyatt,
3 empresas Turcas de construção e a companhia de reconstrução
do Afeganistão
|
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Standard Chartered Bank
|
Planejado 2003
|
US$ 1.5 milhões
|
Estabelecer um banco comercial em Cabul;
Aguardando licença.
|
100% britânico. Banco com uma forte
presença regional
|
|
China
Merchandise Trade Center Ltd.
|
7/2003
|
US$ 1.2 milhões
|
Firma de importação de produtos
estabelecida em Cabul
|
100% propriedade chinesa
|
Fonte:
Compilada pelo autor
Continua
Tabela
1: Investimento Direto Estrangeiro no Afeganistão de Karzai -
Continuação
|
Companhia
|
Data
Projeto
|
$
Invest.
|
Descrição
|
Proprietário(s)
|
|
World
Airways Inc.-The Berkeley Group and Swiss Skies
|
|
US$ 2.1 milhões, empréstimo da O.P.I.C
|
Serviço aéreo quinzenal entre Dulles
Washington-Genebra – Cabul; usa um MD-11
|
Swiss Skies é propriedade do The
Berkeley Group, Wash.D.C., o qual tem um contrato com a World
Airways para executar os serviços. Waleed Youssel é o
diretor presidente da Swiss Skies.
|
|
Consorcio internacional, Telecom Dev.
Corp. Afeganistão lança novo serviço chamado Roshan
|
7/2003
|
US$ 55 milhões
|
Uma segunda rede de telefones celulares
in 6 cidades -Cabul, Herat, Candahar, Mazar, Kunduz,
Jalalabad
|
Aga Khan Fund (51%), Monaco Telecom Int'l
(35%), MCT (9%), e Alcatel (5%)
|
|
Luftransport-Unternehmen
(L.T.U.)
|
8/2003
|
|
Serviço aéreo semanal entre
Dusseldorf-Cabul; usa um Airbus 330
|
100% propriedade da
companhia aérea alemã
|
|
The Chinese Restaurant
|
11/2002
|
US$ 0.16 milhões
|
Restaurante chinês em Cabul
|
Propriedade
de Wong Wentian (75%)
e do governo do Afeganistão (25%)
|
|
Três companhias
|
2002-3
|
|
Companhias que produzem sistemas de
freio, água mineral, e produtos homeopáticos
|
Capital chinês
|
|
Investidor da Florida - EUA, Stephen King
|
7/2003
|
$ 2.5 milhões
|
Comprou o complexo têxtil algodoeiro de
Gulbahar
|
Investidor americano (100%)
|
Fonte:
Compilada pelo autor
Paul Watson, "Afghan Aid Faces Hurdles," Los
Angeles Times (September 1, 2003).
In this article, Watson notes that Seidner has never managed an
agricultural mega-project.
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