O
senhor lembrou que, após os atos terroristas do
“11 de Setembro”, os EUA se manifestaram afirmando
que se tratava de um ataque “contra a civilização”,
ao passo que, da parte dos muçulmanos, os EUA são
considerados como o “grande demônio”. Mas por que,
se ambos falam em nome da civilização, isto só tem
servido para alimentar o ódio étnico e a guerra?
Eu penso que essa formulação é mais
ou menos conveniente, pois realmente está fundada.
Porém, eu acho que são alguns muçulmanos que chamam
os EUA de "grande demônio" – são mais
os movimentos islâmicos radicais do que os muçulmanos
em geral –, porque sei muito bem, por exemplo, que
há um milhão de muçulmanos na França, e muitos também
na África do Norte, que não compartilham dessa posição
radical. O que acontece é que existem movimentos
que se apóiam no Islã por motivos meramente políticos
porque pretendem expulsar os infiéis dos lugares
santos, como eles dizem – o que não deixa de ser,
também, um certo empreendimento imperialista, com
relação às populações muçulmanas em geral, quer
sejam árabes ou não-árabes. Então, acho que dos
dois lados se trata, realmente, de um empreendimento
imperialista. O terrorismo da Al-Qaeda é apenas
o epifenômeno da questão. Agora, é óbvio, que quando
um movimento político, uma nação, um Estado, fala,
ou pretende falar, em nome da civilização contra
a barbárie, geralmente é porque quer ver o “bem”
no “nós” e o “mal” no “eles”. E falar em nome da
luta contra o mal em geral serve, na maioria das
vezes, para negar a humanidade do outro e, portanto,
se trata apenas da cobertura ideológica do imperialismo
– de um lado, com uma cobertura religiosa e, de
outro, com a cobertura de uma ideologia, supostamente
humanista, que é a da revolução americana.
Noam Chomsky disse, no III FSM, em Porto Alegre,
que o ataque dos EUA ao Iraque, ao invés de coibir
o terrorismo, só o faria proliferar. Com isso, provavelmente,
quisesse indicar que o terrorismo é o correlato
oposto do imperialismo norte-americano, denominado
por ele, em certas ocasiões, como “terrorismo de
Estado”. Qual a sua opinião sobre essa leitura de
Chomsky?
Concordo a grosso modo, mas não totalmente.
Concordo nesse sentido de que é óbvio, na minha
opinião, de que cada empreendimento militar dos
EUA, realmente, faz proliferar o terrorismo. Por
vários motivos. Primeiro, porque o terrorismo se
apóia na religião, mas, na realidade, se nutre de
duas fontes: da miséria de alguns povos muçulmanos
e do ódio em geral pelo Ocidente. Por razões em
parte verdadeiras, em parte alimentadas pelos regimes
corruptos árabes, as massas em geral acreditam que
todos os males que elas sofrem, e que são reais,
vêm de uma única causa, que são os EUA. Agora, o
que alimenta o terrorismo – e aqui podemos distinguir
uma causa regional – é a não-solução do problema
palestino. De certa forma, os EUA abandonaram completamente
esta questão, desde a posse do presidente Bush,
porque eles pensavam que Israel poderia acabar,
sem eles, com os movimentos de libertação da Palestina.
Essa é outra fonte que alimenta o terrorismo nessa
região. É por isso que o ataque contra o Iraque,
que tinha, do ponto de vista do consumo interno
dos EUA, a motivação de lutar contra o terrorismo,
todo mundo sabe bem que não tem nada a ver com o
terrorismo, já que o regime que havia no Iraque
não tinha nenhuma ligação com a Al-Qaeda, pois se
tratava de um regime que, tanto do ponto de vista
político, como do ponto de vista religioso, era
inteiramente alheio a esse movimento. Contudo, acho
que dificilmente podemos falar, assim mesmo, de
terrorismo de Estado por parte dos EUA. Penso que
seria uma confusão. O terrorismo se manifesta justamente
pelo fato de ser completamente alheio à noção de
Estado. A forma moderna de terrorismo ultrapassa
as fronteiras dos Estados, as fronteiras ideológicas,
sendo uma coisa contra a qual é muito difícil lutar,
justo porque é uma forma não-estatal de violência,
quase inapreensível. É por isso que a resposta de
um Estado só pode ser uma resposta de Estado contra
Estado, como foram as duas guerras, no Afeganistão
e no Iraque. Mas, não se luta contra o terrorismo
da mesma maneira que se faz a guerra. Por isso a
expressão terrorismo de Estado me parece inadequada.
Na
intenção de construir a convivência pacífica entre
as diversas culturas, surgiu a teoria do relativismo.
No que diz respeito ao entendimento da questão da
barbárie, qual é, na sua opinião, o limite fundamental
desta posição teórica?
Sem
dúvida, o relativismo cultural sempre teve uma grande
importância prática, ou seja, lutar contra o etnocentrismo,
o imperialismo e o colonialismo, dizendo, afinal
de contas, que todas as culturas têm o mesmo direito
de viver e, portanto, de serem preservadas. Eu não
tenho nada a objetar contra essa noção puramente
prática do relativismo cultural, que é uma maneira
de defender a igual dignidade de todas as culturas.
Mas, do ponto de vista teórico e, conseqüentemente,
de alguns pontos de vista práticos, o relativismo
tem três limites que estão inter-relacionados. O
primeiro limite é que para o relativismo cultural
tudo é cultura. Ou seja, um ato, uma prática, ou
um valor, desde que seja feito ou exprima algo que
pertença a um determinado povo, e apareça como uma
expressão da cultura dele, a partir desse momento,
então, você não pode mais julgar, porque isso faz
parte da cultura desse povo. Podemos tomar um exemplo
muito simples: a mutilação das meninas em muitos
países africanos, que se chama excisão [do clitóris]
– você vai considerar que é um culto particular
de uma cultura e, sendo assim, não se pode ter nada
contra. O segundo limite é que, justamente, o relativismo
cultural leva ao relativismo moral, isto é, tudo
se equivale – o bem e o mal, o fato da mutilação,
de vender crianças como mercadorias, etc. – porque,
se faz parte da tradição de um povo, então é uma
boa maneira de defendê-la, e ponto final. Aí o relativismo
moral conduz a uma espécie de relativismo político,
porque você não pode agir contra algo de uma cultura
determinada, já que faz parte da cultura deles.
O terceiro limite é que o relativismo cultural não
leva em conta que, em qualquer sociedade, em qualquer
momento da história, existem contradições dentro
dessa sociedade, dentro dessa cultura. Uma prática
que pode ser, para nós, uma pura expressão da cultura
deles, na realidade, nessa mesma cultura, pode ser
contestada de vários modos. Mas como as críticas
internas a essa cultura poderiam ter o nosso apoio
se, para nós, se trata apenas de um relativismo
cultural!?
Para
além das posições do etnocentrismo cultural, para
quem o bárbaro é sempre aquilo que caracteriza a
outra cultura diferente, e para além das posições
do relativismo, que impedem qualquer juízo moral
sobre outras culturas, como, então, no seu entendimento,
é possível e correto definir o bárbaro?
À
primeira vista, podemos simplesmente dizer que é
bárbaro quem não acredita na barbárie. Igualmente,
é bárbaro quem acredita que existe uma oposição
absoluta entre a civilização, que ele mesmo representa,
e a barbárie, que é o outro. Então, acreditar numa
noção absoluta de barbárie, oposta à civilização,
já é o começo da barbárie. No entanto, isso pode
muito bem levar ao relativismo cultural. E como
escapar disso? Só existe uma maneira de definir
a civilização e, portanto, a barbárie. A civilização
é a possibilidade de uma cultura conviver com uma
outra cultura. Ou seja, um momento histórico, ou
uma sociedade, são civilizados quando podem aceitar
a diversidade de culturas dentro do seu próprio
modo de representação interna, e levando em conta
que elas podem conviver com outras. O grande momento
da civilização européia foi a Andaluzia [província
da Espanha], no século X, quando conviviam as três
culturas: a judaica, a muçulmana e a cristã. Este
foi um grande momento da civilização, porque foi
um momento de mestiçagem cultural, mas, ao mesmo
tempo, um momento de criação literária e musical
muito grande, que era dado na possibilidade do diálogo.
De tal forma que as noções de cultura e civilização
não se colocam no mesmo nível. A civilização é,
meramente, a possibilidade da existência da diversidade
de culturas. Quanto ao bárbaro, ele é aquele que
não pode suportar a existência de uma outra forma
de humanidade – que não seja a que ele conhece –,
ou seja, tudo o que não é absolutamente parecido
com ele mesmo não é humano. Essa seria a definição
da barbárie e se aplica aos conquistadores, por
exemplo, que não acreditavam que os índios poderiam
ser homens; se aplica aos nazistas, que acreditavam
que os judeus ou os ciganos não eram homens. Essa
é a única forma absolutamente incontestável de barbárie,
na minha opinião.