Então, o onze
de setembro aqui nos Estados Unidos, assim como
no mundo inteiro, veio e foi. Enquanto eu escrevo
estas linhas, nas imagens da televisão, nas entrevistas
nos rádios, e nas fotos dos jornais ainda se vêem e ouvem ecos das comemorações
desta data. E não poderia ser de outra maneira.
Assim como para a geração anterior a pergunta de
"Onde você estava quando John Kennedy foi assassinado?"
é comum, para esta geração de jovens americanos
de hoje a pergunta tem que, necessariamente, ser
sobre onde a pessoa estava quando houve o ataque
às torres do World Trade Center. Mais que o ataque
ao Pentágono, a destruição das torres, que matou
tantos civis, brancos, negros, latino americanos,
judeus, muçulmanos, asiáticos, bombeiros, lavadores
de janelas, cozinheiros, vendedores de ações, engenheiros,
e tantos outros, é o que galvaniza a atenção. Paralelamente,
um outro lugar em que civis morreram como conseqüência
do ataque, nas redondezas de Pittsburgh na Pennsylvania,
também provoca grandes emoções.
Nas imagens das homenagens em Nova Iorque, Washington, e Pittsburgh, muita
lágrimas dos familiares, muito palavrório dos políticos.
Muitas flores, bandeiras, canções. Um menino, cujo
pai trabalhava em um escritório nas torres, leu
um poema em que fala da sua dor, que não se abate. Eu, como expectadora destas imagens, fico imaginando
a dor,o escândalo da perda, e mais o sofrimento
daqueles que sobreviveram com queimaduras, membros
despedaçados, e ainda hoje continuam em tratamentos
dolorosos, sem saber ao certo se algum dia vão voltar
a andar, a viver uma vida normal. E tem ainda
a muita discussão sobre o que fazer no local
das torres, com os familiares das vítimas insistindo
que o lugar deve ficar vazio, e outros, inclusive
os donos do terreno, insistindo que a melhor maneira
de homenagear aos que morreram ali, trabalhando,
é recuperar o lugar, dar um espaço para lembrar
o que aconteceu, mas abrir também um espaço para
que outros possam voltar a trabalhar ali. Este assunto,
ao que tudo indica, vai povoar as ondas sonoras,
as linhas escritas, os recantos virtuais por mais
algum tempo.
Mas eu quero voltar agora por um momento minha atenção a um outro onze
de setembro que passou muito mais discretamente:
o aniversário dos 30 anos do golpe militar que derrubou
o presidente Salvador Allende, no Chile. Este golpe
deu lugar a uma das ditaduras mais sangrentas da
história da América Latina: calcula-se que quatro
mil pessoas foram mortas ou "desaparecidas"
pelo aparato militar que infestou o país.
A infestação deste tipo, como nós que já éramos adultos no Brasil da ditadura
militar sabemos bem, não se restringe somente às
pessoas que morreram. A violência que estes militares
do Chile causaram ao seu povo – assim como os demais
do Brasil, da Argentina, da Bolívia, do Peru, do
Uruguai, e de outros países causaram aos seus compatriotas
– deixou marcas profundas, como cicatrizes feias
que não vão desaparecer tão facilmente.
Mas no Chile, neste aniversário macabro, pelo menos se estão retomando
as questões de como retificar os abusos aos direitos
humanos cometidos pelos militares, embora o então
presidente de 25 anos atrás – e principal responsável
pela carnificina – Augusto Pinochet, tenha há 25
anos imposto uma lei de anistia aos envolvidos.
Hoje, tanto as pessoas interessadas na discussão
dos abusos aos direitos humanos no Chile, assim
como os parentes dos mortos e desaparecidos, estão
pressionando para que o assunto seja revisto.
Logicamente, muitas feridas ainda estão abertas no Chile. Uma pessoa que
conheço em Valparaiso me contou que quando houve
o golpe, homens da polícia militar vieram até sua
casa em busca de seu pai. Ela tinha 12 anos, e tinha
dois irmãos pequenos. Os policiais estapearam todos,
inclusive a mãe dela, e exigiam que ela dissesse
onde estava o marido. O marido estava morto, há
seis meses, vítima de um ataque cardíaco. "Você
pode imaginar o que significa para uma criança ficar
feliz porque o pai estava morto?" Isto foi
o que ela me conta que sentiu naquela ocasião, porque
embora criança, já sabia o que teria acontecido
ao pai, se ele tivesse sido preso. Mas os policiais
não acreditaram nem no atestado de óbito, e vigiaram
a casa por muito tempo, esperando agarrar o pai,
um "criminoso" cujo crime tinha sido fazer
parte de um grupo de discussão no bairro.
A Argentina, por sua vez, está tomando posições fortes com relação aos
maiores criminosos da sua “guerra suja”. Desde que
o congresso argentino revogou algumas leis de anistia,
uns quarenta dos envolvidos nos crimes políticos
foram detidos. Um dia, espera-se, a justiça virá
para eles. Mas, mesmo que eles sejam condenados
e tenham que passar o resto de suas vidas na prisão,
ninguém vai trazer de volta os mortos. A história
da ditadura militar argentina, escrita com o sangue
de homens, mulheres, meninos, meninas e bebês, vai
ser um dos muitos episódios sórdidos da história
do nosso continente. Haveria alguma maneira de fazer
a dor menos intensa?
Feridas abertas, há tantas no mundo inteiro, e nenhuma receita que sirva
para aliviar a dor de todos os casos. Por exemplo,
na África do Sul, o povo decidiu que a única maneira
de fazer as pazes, chegar a um entendimento do que
passou com eles durante os anos do appartheid é
abrir um espaço para que todos, tanto as vítimas
como os vitimizadores, possam falar e confessar o mal que causaram aos outros ou que sofreram
nas mãos dos outros. Não tem sido um processo fácil,
porque muitas vezes os membros de uma família ouvem
da boca do torturador como ele matou o pai, o irmão,
a mãe, a irmã deles. Mas a idéia, para o povo da
África do Sul, é que estas confissões da verdade
vão trazer a reconciliação, no final das contas.
É uma escolha que requer muita coragem, muita força.
Neste momento em que a África do Sul está combalida
com tantas pessoas sofrendo de AIDS, o país precisa
mesmo de toda reconciliação, de todo esforço para
ajudar aos que estão doentes, ou em perigo de ficarem
doentes.
Voltando ao onze de setembro aqui nos Estados Unidos, eu me lembro de uma
discussão que ouvi no rádio durante a primeira semana
de setembro. Este ano de 2003, o número de imigrantes
ilegais do México que tentam chegar aos Estados
Unidos atravessando o deserto da região do Arizona
aumentou muitíssimo em relação aos anos passados.
E também aumentou o número dos que morreram
na tentativa, tanto no Arizona, como nos outros
estados fronteiriços. Entre as várias pessoas que
telefonaram para a rádio para tomar parte na discussão
estavam, por exemplo, um arizonense que dizia que
estes ilegais deveriam ser rechaçados a bala, um
outro que dizia que o Arizona pertencia aos mexicanos
e deveria ser deles, e outro que dizia que o ideal
seria aumentar o policiamento dos dois lados. Muitas
pessoas telefonaram e deram suas opiniões. Logicamente,
nenhum dos que telefonaram era do México, e portanto
não ficamos sabendo o que um mexicano diria desta
terrível situação que leva a estes desesperados
camponeses mexicanos a pagarem até dois mil dólares
ao "coyote" - o que os ajuda a atravessar
a fronteira – e se arriscarem a morrer de calor,
desidratação e sede, ou a serem recolhidos pela
polícia da fronteira (que os leva ao hospital, se
estão feridos ou fracos) e serem retornados ao México.
E os que conseguem chegar aqui vão viver uma vida
dificílima, sendo explorados, maltratados, sujeitos
a deportação se forem pegos.
Alguns desses ilegais que vieram há anos atrás haviam feito a viagem até
Nova Iorque, e estavam trabalhando nas torres. Para
as famílias destes, além da dor pela perda do ente
querido, está também o receio de se apresentarem
às autoridades, por medo de serem mandados de volta
(embora o governo americano tenha prometido que
tal não vá acontecer
com familiares das vítimas do ataque terrorista).
A dor destas famílias é singular: participou da
dor geral do país a cada vez que os sinos das igrejas
dobraram no dia 11 de setembro, mas não pôde se
manifestar como dor particular. A dor delas não
pôde ser representada.
Assim como não esteve representada, neste 11 de setembro, a dor dos que
já morreram em conseqüência das guerras que vieram
depois dos ataques. Quem vai chorar, por exemplo,
pelo rapaz afegão que foi morto por ser alto, magro,
e parecer com o Bin Laden? Ou pelos tantos civis
cujas casas foram destruídas por bombas, tanto no
Afeganistão como no Iraque? Pelos mortos, feridos,
amedrontados? A guerra continua, com os horrores
de sempre, a cada dia com mais notícias de mortes
de soldados americanos, de civis e militares dos
outros países. Aos poucos, já se começa a imaginar
um novo Vietnam, e paredes cheias de nomes dos mortos.
Mais uma vez, convém lembrar: a maioria dos soldados
americanos é da classe pobre, e quase todos se alistam
para poderem ter um emprego e uma bolsa de estudos.
Os subalternos de um país vão a um país subalterno,
sob as ordens de um poder político que, ao que tudo
indica, ninguém pode realmente influir diretamente,
já que a vitória eleitoral parece ser resultado
direto de quanto dinheiro o candidato consegue angariar
para pagar suas propagandas durante as eleições.
Enfim, parece que uma pessoa sem poder político
não pode fazer nada para parar esta situação, intervir
nesta matança.
E que temos nós do Brasil com tudo isto? Já não temos suficiente com que
nos preocuparmos dentro do nosso próprio país?
Às
vezes, nestes nossos tempos tão difíceis, a gente
tem que buscar inspiração, entendimento, mesmo consolo,
em palavras que vêm de outros tempos, de outros
lugares. Neste momento, as palavras de John Donne,
poeta e pastor anglicano da Catedral de São Paulo
em Londres no século XVII me parecem perfeitas: