A suposição de existência de uma ciência neutra e livre
de condicionamentos ideológicos, como referência
para a tomada de decisões políticas, continua
atual. Diante da polêmica criada pelo plantio
ilegal da soja transgênica no Brasil, vem
crescendo o número de adeptos de um apoio
incondicional à transgenia como portadora
natural do progresso para a agricultura, e
do repúdio à assim chamada “ideologização”
do debate por parte dos críticos desta tecnologia.
A atitude é autoritária, pois não suporta
a possibilidade do pensamento diferente ou
contraditório sobre o tema. Sob o título de
ciência, os defensores da nova tecnologia
se apropriam de artifícios externos ao debate
para se qualificarem como autoridades, numa
tentativa de imposição de seus argumentos.
Ora, se o pressuposto é o científico, por
que não ouvir todas as posições? A resposta
é que a posição dos críticos da soja transgênica
seria ideológica e só prejudicaria o debate.
Mas, é possível separar ciência de ideologia?
E que critérios estão sendo usados para qualificar
uma posição de científica e a outra de ideológica?
A polêmica parece nova, mas é tão antiga quanto a idéia moderna de ciência.
Na tradição herdada do positivismo, a ciência
é concebida como autônoma e isolada dos conflitos
sociais. Sua hipótese básica é de que a sociedade
humana funciona com base em leis naturais
invariáveis, neutras e, portanto, independentes
da ação humana. As classes sociais, as posições
políticas, os valores morais e as visões de
mundo dos sujeitos envolvidos são encarados
como empecilhos à objetividade científica
e o pesquisador deve se esforçar para eliminar
estas influências do meio social na sua pesquisa.
Mas, como o pesquisador pode evitá-las, se
ele é um ser social imerso na realidade, se
a delimitação do seu objeto de estudo, as
perguntas que faz e as interpretações que
desenvolve já são influenciadas por sua história
de vida, seus valores e sua visão de mundo?
Na Alemanha há um conto infantil muito famoso do Barão de Münchhausen,
que pode servir para ilustrar essa pretensão
de neutralidade dos positivistas. Conta-se
que, certo dia, o Barão de Münchhausen, num
de seus passeios a cavalo, afundou num pântano.
Ele ia afundando cada vez mais e, como não
havia ninguém para socorrê-lo, ele teve a
brilhante idéia de puxar a si mesmo pelos
cabelos, até que conseguiu sair, juntamente
com seu cavalo, do atoleiro. Essa é a pressuposição
dos positivistas: o cientista, preso a uma
redoma de preconceitos e ilusões, consegue
isolar-se do mundo que o cerca, ficando acima
de qualquer interesse ou ideologia. O dilema
dessa concepção é o de que os preconceitos
e a visão de mundo do cientista são simplesmente
ignorados, como se não existissem. O cientista
permanece iludido, acreditando que é neutro
e reproduz valores que consciente ou inconscientemente
estão presentes, mas não devem ser encarados.
É por isso que os positivistas, mesmo quando
são sinceros na sua tentativa de se isolar
no objeto de pesquisa, não conseguem se libertar
dos seus preconceitos conservadores e acabam
servindo ideologicamente às classes dominantes
na sociedade.
A ciência não está isolada do mundo e os fenômenos sociais não podem
ser explicados por leis naturais. A especulação
científica parte de sujeitos humanos, como
tentativa de conhecimento da verdade, numa
relação com a totalidade dos aspectos sociais
e históricos. O conhecimento científico é
sempre transitório e socialmente relativo.
A ciência reflete apenas uma maneira de pensar
e, por isso, não é autônoma e não está isolada
da luta de classes. Mesmo que não haja uma
relação lógica direta entre fato e valor,
há uma relação sociológica entre ambos, pois
o conhecimento de um fato conduz a posições
morais e políticas e esses valores estarão
presentes para o pesquisador, o tempo todo,
durante o processo científico. Neste sentido,
não existe ciência de um lado e ideologia
de outro, mas diferentes pontos de vista científicos,
vinculados a diferentes pontos de vista de
classe. Como não há critério absoluto para
medir a cientificidade do conhecimento, é
através da publicidade crítica, no embate
das idéias, que os resultados de uma pesquisa
podem ser avaliados, tendo em vista sua correspondência
com a realidade. Mas, mesmo que um conhecimento
científico tenha sido aceito, ele deve permanecer
em condições de ser refutado no momento em
que outra leitura da realidade possa superá-lo.
Ele não é, portanto, sinônimo da verdade ou
um dogma, mas resultado provisório de uma
investigação humana num determinado período
histórico e social e, portanto, suscetível
a todas as idéias e valores presentes na sociedade.
A ideologia, entendida como visão de mundo, sempre estará presente no
processo científico e seria muito ingênuo
aceitar a hipótese de neutralidade dos intelectuais.
Mas, no decorrer da história, foram atribuídos
vários significados ao conceito de ideologia
e muitos autores o utilizam num sentido negativo.
Para Karl Marx, por exemplo, ideologia é sinônimo
de ilusão, consciência deformada da realidade
construída pela classe dominante. Para Karl
Mannheim, existem dois tipos de ideologia:
uma de caráter justificador da ordem social
(assim como para Marx) e, outra, subversiva,
com função crítica, que ele preferiu chamar
de utopia. Para Antonio Gramsci, a ciência
sempre é ideológica, porque resulta do processo
histórico de desenvolvimento das classes sociais.
Toda pretensão de verdade tem uma origem histórica
e sua validade é provisória, como parte organicamente
integrada numa estrutura social. Neste sentido,
não é possível ao intelectual escapar da ideologia,
seu conhecimento sempre estará ideologicamente
situado. Assim como o conhecimento científico
é relativo e provisório, ele também está impregnado
de valores, e o cientista, consciente desta
realidade, deve mover-se dentro dela para
buscar o conhecimento objetivo e verdadeiro.
A questão da soja transgênica é muito exemplar neste aspecto. A soja
Roundup Ready foi desenvolvida pela empresa
Monsanto, que investe enormes recursos em
pesquisa e em propaganda, com a clara intenção
de faturar com a venda de sementes (através
do pagamento de royalties pela patente da
tecnologia) e herbicidas. Assim, temos, por
um lado, os pesquisadores pagos pela Monsanto,
que atuam em seus centros de pesquisa, em
centros de pesquisa públicos e em universidades
com financiamento da empresa, interessada
em difundir sua tecnologia e dominar o mercado.
Essa é a grande questão que está em jogo na
liberação da soja transgênica no Brasil, pois
sua liberação no país pode forçar os consumidores
do mundo inteiro a consumi-la, já que, neste
caso, não haverá mais soja convencional suficiente disponível
no mundo. Somam-se, ainda, os profissionais
de uma parte da mídia, cujas empresas recebem
recursos da Monsanto vinculados ao seu programa
de marketing e propaganda. Do outro lado,
existem os cientistas que desenvolvem pesquisas
sobre o mesmo tema, mas sem receber recursos
da Monsanto, os representantes de organizações
ambientalistas e de defesa do consumidor. Dos dois lados, portanto, é produzido conhecimento,
mas com interesses opostos. Enquanto um lado
trabalha com imensos recursos e uma ampla
estrutura de pesquisa disponibilizados pelo
investimento da Monsanto, que condiciona todas
suas pesquisas a seus interesses, o outro
lado chega a resultados científicos que contradizem
todos os estudos difundidos pela empresa interessada
na venda de sementes e herbicidas. Qual dos
dois resultados é mais científico e qual é
mais ideológico?
Os agricultores são influenciados por ambos os lados e procuram adequar
o conhecimento disponível aos seus interesses.
A junção de conhecimento com interesse se
transforma em ideologia e as diversas organizações
da sociedade se posicionam de um lado ou de
outro seguindo esta mesma lógica. O governo,
que é composto por partidos políticos e procura
ampliar sua base de aliados, os quais também
se posicionam diferentemente com relação à
polêmica,
é desafiado a posicionar-se diante
de uma situação criada: parte dos agricultores
plantou a soja transgênica ilegalmente, utilizando
sementes contrabandeadas da Argentina e descumprindo
o acordo feito no ano anterior, em que a comercialização
da safra foi excepcionalmente liberada com
o compromisso, por parte dos agricultores,
de não plantá-la novamente neste ano. Diante
disso, o governo, pressionado pela mídia,
por parlamentares e governadores, por integrantes
do próprio governo, pela Monsanto, por pesquisadores
que defendem a soja transgênica e por organizações
dos agricultores que afrontaram a lei, editou
uma medida provisória, liberando o plantio
da soja contrabandeada.
Quais foram os critérios utilizados para esta decisão? O governo Lula
anunciou que sua decisão estaria baseada em
critérios científicos. Mas, quais foram os
critérios científicos utilizados que permitem
a liberação de um cultivo sem a prévia apresentação
do Estudo de Impacto Ambiental previsto legalmente
neste caso? Quais são os resultados “científicos"
apresentados pela Monsanto que já não tenham
sido cientificamente refutados pelos pesquisadores
críticos à adoção desta tecnologia? Na verdade,
ao ceder à pressão política, permitindo o
plantio da soja transgênica, este governo
ignorou o princípio da precaução e tomou sua
decisão mais ideológica até o momento que
é, por ironia, contrária ao seu programa e
à classe social que o elegeu.