Agricultores
alemães são contra transgênicos
Uma
pesquisa do Instituto Wickert, de Hildesheim,
na Alemanha, especializado em pesquisas de opinião
e de mercado, confirma uma tendência que já
se apresentava entre os consumidores alemães:
70% dos agricultores da Alemanha são contrários
ao cultivo de transgênicos. A pesquisa, encomendada
e divulgada pelo Greenpeace de Hamburgo, foi
realizada, representativamente, com 1.031 agricultores
de todo o território alemão, procurando identificar
sua opinião com relação ao uso da transgenia
na agricultura. Além da negativa com relação
ao cultivo de transgênicos, a pesquisa
também revela que a maioria dos agricultores
alemães descarta o uso de ingredientes derivados
de plantas transgênicas na ração animal. Além
disso, a maioria dos entrevistados exige ser
informada em
caso de plantio de transgênicos em áreas vizinhas
às suas propriedades e, havendo contaminação
de suas lavouras, reivindicam a reparação econômica
dos possíveis prejuízos.
O Eurobarômetro, instrumento oficial da FAO para pesquisas de opinião
na União Européia, já havia constatado e divulgado,
em final de 2002, a tendência de 70,9% de rejeição
dos consumidores europeus com relação aos alimentos
geneticamente modificados. O estudo demonstra
que na Alemanha, França, Holanda e Itália a
rejeição inclusive aumentou em comparação ao
levantamento realizado em 1999, sendo que na
União Européia como um todo houve uma leve diminuição
da rejeição. Na opinião pública alemã dominava
a idéia de que os agricultores seriam majoritariamente
favoráveis aos transgênicos, já que a associação
dos produtores alemães “Deutscher Bauernverband” várias vezes se pronunciou publicamente a favor
da questão. A pesquisa encomendada pelo Greenpeace
é o segundo levantamento com agricultores sobre
o tema e os seus resultados vêm a confirmar
novamente, em números, o que outras pesquisas
de opinião pública vinham constatando como média
da posição dos alemães com relação ao tema.
Quando perguntados sobre a intenção de futuramente virem a plantar transgênicos,
44% responderam que não (absolutamente); 26%
tendem a não plantar; 17% tendem a plantar e
13% manifestam indecisão nesta questão. Em 1997,
o Greenpeace encomendou a mesma pesquisa ao
Instituto Emnid, de Bielefeld, onde os agricultores
foram submetidos à mesma pergunta. Naquela ocasião,
70% se manifestavam contrários ao cultivo de
transgênicos, 16% estavam indecisos e 14% favoráveis.
Isto significa que, após cinco anos, a rejeição
se manteve constante, os indecisos diminuíram
e os favoráveis aumentaram minimamente. No que
se refere ao uso de ração rotulada indicando
a presença de ingredientes de plantas transgênicas,
a atual pesquisa revela que 72% dos agricultores
com criação de animais não a comprariam; 17%
estão indecisos e apenas 11% não vêem problema
no consumo desta ração (2% comprariam e 9% tenderiam
a comprar). Mas, até o momento, as regras de
rotulagem não incluem a comercialização de ração
para animais, o que impossibilita os agricultores
de diferenciá-la no mercado.
Um outro problema relativo aos transgênicos é a impossibilidade de sua
coexistência com os cultivos tradicionais. Esta
é uma das principais críticas de organizações
de agricultores alemães à recomendação da União
Européia sobre o tema, de julho deste ano, a
qual, conforme também declara a ministra da
agricultura da Alemanha Renate Künast, apenas
transfere a responsabilidade da liberação ou
proibição para as instâncias locais. Sobre esta
questão, a atual pesquisa mostra que 72% dos
agricultores consideram importante que, se futuramente
houver a liberação do cultivo, estes sejam informados
no momento em que nas proximidades de suas propriedades
venha a ter plantio de transgênicos. Se houver
problema de contaminação das lavouras e não
for mais possível comercializar a safra de produtos
como convencional, 41% dos agricultores entende
que o Estado deve assumir a responsabilidade
de ressarcimento dos prejuízos; 27% processaria
as empresas que venderam as sementes e 16% cobrariam
os eventuais prejuízos do próprio vizinho. Apenas
8% declaram que não estariam agindo juridicamente
em caso de prejuízo por contaminação e 8% se
manifestam indecisos.
Sobre a posição da Deutscher Bauernverband, 53% consideram ruim o fato
da entidade ter assumido uma postura favorável
à liberação do cultivo de transgênicos; e a
política desta organização teria somente 26%
de aprovação por parte dos agricultores entrevistados.
Sobre vantagens e desvantagens dos transgênicos,
39% dos agricultores entrevistados prevêem desvantagens
econômicas com o uso desta tecnologia, 34% vêem
nela uma vantagem econômica e 27% estão indecisos.
A pesquisa também procurou identificar, nos
agricultores, se há alguma perspectiva de valorização
da terra, em caso de venda ou arrendamento,
após um suposto cultivo de transgênicos. Os
resultados: 37% não souberam responder; 31%
não esperam nenhuma mudança neste aspecto; 27,5%
prevêem uma desvalorização no valor de venda
e de arrendamento e apenas 4,5% acreditam que
o cultivo de transgênicos venha a valorizar
a terra.
Os resultados da pesquisa nos remetem a algumas reflexões sobre o tema
na comparação com o debate no Brasil. Em primeiro
lugar, há no Brasil o argumento de que os contrários
ao cultivo de transgênicos sejam, por ideologia,
apenas partidários do PT e ecologistas. Na Alemanha
não há um partido que possa ser comparado ao
PT; uma esquerda organizada praticamente não
existe e a maioria dos agricultores têm sido,
historicamente, identificada com a direita (em
especial, com a CDU/CSU – União Democrática
Cristã/União Social Cristã). Quanto à ecologia,
a agricultura ecológica na Alemanha, apesar
do incentivo do atual governo, representa oficialmente
apenas 3,5% das propriedades agrícolas e não
se pode afirmar que a preservação ambiental
está no centro das preocupações dos agricultores
alemães. A idéia de que não estejam suficientemente
informados ou que não façam uso de tecnologia
moderna também não confere com a realidade,
já que é exatamente o alto nível de tecnificação
que permite as elevadas produtividades responsáveis
pela crescente redução dos estabelecimentos
agrícolas na Alemanha. Com uma população de
82 milhões de habitantes há, em todo o país,
cerca de 300.000 agricultores.
O argumento de que a existência de subsídios agrícolas na Alemanha poderia
levar a uma acomodação dos agricultores em relação
a inovações e à recusa dos transgênicos também
não procede. Países como Estados Unidos e Canadá,
que mantêm altos subsídios agrícolas, são líderes
mundiais na introdução de transgênicos na agricultura.
Além disso, são exatamente os subsídios
agrícolas que permitem a manutenção de propriedades
com os altos custos de produção ocasionados
pelo cultivo de transgênicos nestes países,
em função do monopólio das sementes e insumos
agrícolas e o conseqüente pagamento de royalties
às empresas donas das patentes da tecnologia.
Como se explicaria, então, que os agricultores alemães são contrários
aos transgênicos? Em primeiro lugar, há uma
lógica econômica cercando esta questão: se a
maioria dos consumidores europeus rejeita os
alimentos geneticamente modificados, por que
os agricultores se interessariam em produzí-los?
A maioria dos agricultores entrevistados
também manifesta que não vê vantagem econômica
nos transgênicos. Pelo contrário, consideram
essa tecnologia desvantajosa. Em segundo lugar,
há uma questão cultural que cumpre um papel
importante. A sociedade alemã desenvolveu muito
fortemente a idéia de precaução, de evitar riscos,
o que tem raízes históricas e, inclusive climáticas
(os longos períodos de escassez no inverno,
as guerras, as doenças, etc.). Todo o debate
envolvendo os riscos da energia nuclear, os
recentes problemas de contaminação dos alimentos,
o caso da vaca louca e a forte organização de
movimentos ambientalistas e de defesa dos direitos
do consumidor também influenciam no comportamento
do povo alemão. Os agricultores, por sua vez,
não estão isolados de toda essa problemática
e não devemos estranhar que seu comportamento
seja semelhante ao dos demais consumidores.
Por isso, mesmo que hajam tentativas constantes
de caracterizar como ideológica essa opção,
há uma racionalidade que serve de explicação
ao fenômeno da rejeição européia aos alimentos
transgênicos.
Nesta perspectiva, a polêmica dos transgênicos apresenta uma questão
crucial: é melhor errar ao abdicar de possíveis
benefícios evitando danos potenciais, ou, vale
a pena arriscar-se para ter acesso aos possíveis
benefícios? Para a sociedade alemã está claro
a primeira alternativa: havendo evidência de
riscos, a precaução antecede a curiosidade e
os possíveis ganhos. E, mesmo que não haja evidência
do risco, a ausência de evidência não pode ser
tomada como evidência da ausência.