No
dia do velório do ex-todo-poderoso empresário
das telecomunicações vários
ex-combatentes da luta pela democratização
do país declararam publicamente seu pesar
pelo falecimento daquele senhor que havia sido
um verdadeiro nacionalista, alguém que
amara o seu país mais do que todos, e que
foi um dos principais artífices da democratização
e da integração nacional, um grande
defensor da cultura e da liberdade de expressão.
Vi
e ouvi depoimentos com o conteúdo acima
pronunciados por alguns companheiros que ocupam
postos importantes no governo com o mesmo constrangimento
que de vez em quando, por força do ofício
de professor, revejo algumas gravações
de depoimentos de militantes torturados em épocas
passadas (não estou mais seguro de que
tenha ocorrido nesse passado não tão
distante algo que possa ser nomeado como "ditadura
militar", ou mesmo de que o empresário
falecido tenha se beneficiado do apoio que dava
ao regime ditatorial), que eram levados a público
em rede de televisão para se declararem
arrependidos pelo envolvimento em atividades subversivas
contra a pátria e denunciarem ex-companheiros
que continuavam realizando ações
terroristas.
Penso
que chega a ser uma obrigação ética
de quem não foi torturado absolver de qualquer
culpa os arrependidos que renegavam a própria
trajetória em um depoimento à televisão
para escapar da dor provocada pelas sessões
de tortura e salvar a vida. Apesar disso, depois
desses episódios, como forma de autopunição,
vários arrependidos fugiram para o esquecimento
e se transformaram em sombras de si mesmos.
Talvez tenhamos também o dever de relevar
as palavras e gestos afoitos dos companheiros
ocupantes de postos importantes no governo. Mesmo
que esses atuais arrependidos não estejam
sofrendo ameaças à sua integridade
física. É possível que num
futuro não muito distante os seus nomes
sequer sejam lembrados, pois acho que eles estão
se transformando em sombras de si mesmos. Mas
é provável que nesse mesmo futuro
seja muito bem lembrado e estudado nas escolas
o nome e a obra do grande empresário das
telecomunicações que entrou para
a História como o artífice da democratização
e da integração nacional do país,
um grande defensor da cultura e da liberdade de
expressão.
P.S.:
Para escrever sobre um país que reinventa
diariamente o seu passado não é
necessário citar nomes de pessoas, lugares
ou datas que acabarão no esquecimento.