Antecedentes
históricos
No mês de julho p.p. transcorreu
o sesquicentenário da abertura forçada
do Japão, sob a ameaça das canhoneiras
do Commodore Perry, ao comércio e as
relações internacionais. Durante 250
anos, os shoguns exerceram com
rigor e determinação uma política de
reclusão, fechando o país aos contatos
com o exterior. Ameaçados pela artilharia
da frota norte-americana, resolveram
baixar as barreiras e abrir o país ao
comércio com o mundo. Decorrido um século
e meio, o Japão se transformou em uma
potência econômica, ultrapassando os
países capitalistas tradicionais (Alemanha,
Grã Bretanha, França) e consolidou-se
como maior credor do mundo, enquanto
alcançou uma renda per capita maior
que US$ 30,000 anuais.
A história da modernidade é rica
em ensinamentos sobre a ascensão e o
declínio de impérios baseados na acumulação
irrefreada de riquezas materiais, iniciada
por conquistas militares, com a subjugação
e posterior exploração de outros povos.
Às conquistas dos portugueses e espanhóis
do século XVI seguiu-se a expansão holandesa,
crescentemente contestada até que foi,
finalmente, substituída pela dos franceses
e britânicos.
O império britânico atingiu seu
apogeu no século XIX, entrando em decadência
a partir da Primeira Guerra Mundial,
quando foi inaugurado o século de supremacia
norte-americana, contestada, sem sucesso,
pela URSS (União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas) durante aproximadamente
trinta anos.
Depois de assimilar rapidamente
a tecnologia ocidental, o Japão despontou,
no início do século XX, como potência
industrial e militar. Em 1905 derrotou
a Rússia Czarista que na época tinha
o maior exército do mundo.
Apesar da derrota e destruição
na 2ª Guerra Mundial, o ritmo de reconstrução
foi espantoso, a ponto de vários analistas
especularem: “Será o Japão a próxima
superpotência?”
A discussão nos leva a destacar
as relações sociais e políticas como
fatores determinantes da paz e da estabilidade
na trajetória de povos e sociedades...
Desigualdades gritantes e ilegítimas
levam a tensões e conflitos internos
que enfraquecem a estrutura social e
sua capacidade de resistência a conquistadores
ou competidores externos. Se alguma
lição pode ser extraída da história
antiga e contemporânea, seriam as evidências
sobre sociedades solidárias, “boas”
no sentido de solidariedade e cooperação
de seus cidadãos e que não foram necessariamente
as mais ricas. Daí é lícito inferir
que a riqueza material certamente não
será condição suficiente para construir-se
uma sociedade “boa”. Os casos de desenvolvimento
mais sustentável ou “durável” são de
sociedades que souberam construir uma
relativa união ao redor de metas e objetivos
comuns, com respaldo em valores compartilhados
que atuam como motivadores poderosos,
inspirando ações coletivas, em tempos
de guerra e de paz.
A fim de promover uma sociedade
sustentável orientada e coordenada por
lideres “virtuosos”, a meta de crescimento
econômico – fator dinâmico de transformação
social e política – deve ser combinado
com um esforço permanente de reconstrução
social, visando despertar nos membros
da “polis” (a entidade política) um
senso de pertencer e de identidade.
Assim, a população será motivada a vislumbrar
o desenvolvimento como tarefa coletiva
em que cada um(a) estará disposto a
assumir uma parte dos sacrifícios necessários.
Donde se conclui que os valores sociais,
transmitidos ao longo das gerações,
e constantemente reforçados pelos costumes,
padrões de comportamento, normas e leis
que regem o convívio social, inclusive
o sistema formal e informal de educação,
são de importância fundamental para
a análise e interpretação dos processos
políticos e culturais.
Historicamente, as tarefas de estabelecer
padrões mínimos de consumo e definir
prioridades de investimentos foram desempenhadas
pelo Estado, sustentado por uma burocracia
civil e militar com ethos próprio
e distinto do resto da sociedade. Contudo,
no mundo ocidental, com a ascensão das
grandes corporações privadas e públicas,
o Estado está perdendo seu poder de
regulador e de arbítrio dos conflitos
sociais. Seu enfraquecimento e o descalabro
da administração pública, agravados
pela perda de arrecadação e o fracasso
das políticas cambial e fiscal, fragilizaram
seu poder decisório e abriram espaço
para a disputa por posições de mando
político, aos atores sociais mais dinâmicos.
No caso do Japão, o Estado desempenhou
um papel central no processo de modernização
e industrialização, desde o período
Meiji, em meados do século XIX, demonstrando
ao resto do mundo que não era necessário
abraçar e render-se à cultura ocidental,
para transformar as bases de sua economia.
Depois de absorver a cultura, a filosofia
e a tecnologia chinesas durante quase
um milênio, o reino dos Tokugawa preconizou
e praticou o isolamento completo do
resto do mundo, até 1853. Diante a superioridade
técnica dos ocidentais, as elites japonesas
resolveram que, para resistir e expulsar
os bárbaros, seria necessário apropriar-se
de seu know how técnico e prático.
O “milagre” japonês – país de desenvolvimento
tardio que chegara atrasado à repartição
do mundo entre as potências colonizadoras
européias, tem raízes em padrões sociais
persistentes ao longo de sua história,
que se tornaram relevantes para o desenvolvimento
industrial capitalista no século XIX.
O país adotou, num primeiro estágio,
políticas econômicas orientadas para
o mercado interno, com forte presença
do Estado como mentor do processo, proporcionando,
além de infraestrutura em energia e
transportes, os quadros de uma administração
pública bem preparada e eficiente.
Contradições internas e pressões
externas no processo de acumulação e
expansão levaram o Japão imperial à
participação nos dois grandes conflitos
mundiais, em busca de conquistas territoriais.
Aliado da Alemanha nazista na Segunda
Guerra, foi derrotado e totalmente destruído
pelos bombardeios norte-americanos.
Após a reconstrução, chamada inapropriadamente
de “milagre”, o Japão ocupa posição
privilegiada no Extremo Oriente e no
mundo, com sua economia dinâmica (até
1990) e sua moeda como reserva de valor
universal.
Sendo dotado de poucos recursos
naturais e fontes de energia é impossível
explicar a recuperação econômica e os
avanços significativos na estabilidade
política pelos modelos ou teorias convencionais.
Isto nos leva a formular uma hipótese
sobre o peso e a relevância do fator
humano em suas múltiplas e variadas
dimensões, particularmente a força de
trabalho, sua formação, treinamento
e disciplina, bem como os padrões de
comportamento e os valores sociais que
regem o convívio e as relações entre
os diferentes atores sociais.
O determinismo econômico tão enfatizado
pelas doutrinas marxista e neoclássica
é insuficiente para dar conta da complexidade
do sistema caracterizado pela interação
de múltiplos fatores culturais, econômicos
e políticos. Os mecanismos e valores
indutores de identidade, coesão e solidariedade
devem merecer atenção privilegiada dos
estudiosos por elucidarem os processos
de mobilização e motivação fundamentais
para as ações coletivas. Sem essa dinâmica,
o processo de desenvolvimento permanece
truncado ou desvirtuado, como demonstram
as fortunas acumuladas durante as crises
de petróleo nos anos 70, pelos países
árabes, posteriormente dissipadas por
um consumo supérfluo ou no conflito
armado entre Iraque e Irã. Não basta
induzir um crescimento vigoroso da economia
sem uma determinação férrea sobre o
aproveitamento racional do excedente
do produto social. O papel das elites
se torna fator estratégico: determinadas
a impulsionar o processo de desenvolvimento,
poupam e reinvestem seus ganhos decorrentes
das atividades comerciais e industriais
lucrativas.
O que teria funcionado como poderoso
fator de motivação nos séculos passados
(vide, por exemplo, a influência do
Protestantismo na expansão comercial
da Holanda e Grã Bretanha), poderá também
funcionar, neste início de século XXI,
em plena era de globalização e de investimentos
voláteis no espaço internacional, sem
deter-se nas fronteiras nacionais? Neste
ponto, cabe um comentário sobre o papel
das doutrinas religiosas e nacionalistas
que surgiram sob forma de fundamentalismo,
na segunda metade do século XX.
Uma retrospectiva da História mostra
que o fervor religioso em si não constitui
fator de desenvolvimento social e menos
ainda, de emancipação individual. Refletindo
as frustrações das massas diante dos
fracassos da modernização, quando não
as manipula, nelas ressuscita crenças
messiânicas ou de fim de mundo, inibindo
movimentos de libertação social e de
afirmação de autonomia individual.
Por outro lado, o desmoronamento
da ex-União Soviética nos leva a especular
sobre a educação universal gratuita
e uma forte base científico-tecnológica
que podem constituir condições necessárias
para um complexo industrial-militar,
mas certamente não serão suficientes
para a construção de uma sociedade sustentável.
Sobretudo quando o processo for controlado
e orientado por um aparato burocrático-policial,
totalitário e esmagador de iniciativas
criativas, individuais e coletivas.
A tecnologia de ponta, considerada
fator decisivo do crescimento econômico
e da eficiência militar não evitou a
derrota das forças armadas norte-americanas
diante dos soldados – camponeses descalços
– do Vietnam. Voltando ao caso do Japão:
suas elites demonstraram capacidade
de absorção, incorporação e inovação
tecnológica que proporcionava suporte
ao crescimento econômico acelerado.
Fosse somente a importação e cópia de
tecnologias alienígenas, a dinâmica
do processo seria incompleta. A semente
caiu em solo fértil, ou seja, encontrou
uma infraestrutura que viabilizou a
absorção, adaptação, incorporação e
assimilação, a partir das quais foi
possível partir para inovações autóctones.
A orientação básica de valores
de uma organização social configura
e molda o comportamento individual assegurando
a persistência das relações sociais,
mesmo em épocas de transformações e
crises econômicas. Identidade e estabilidade
social são produtos da institucionalização
de valores ou ideais sociais que podem
ser propícios ou resistentes a tentativas
de modernização.
Persistência e mudança de valores
Apontamos a seguir alguns dos padrões
e valores da sociedade japonesa que
lhe permitiram efetuar o salto para
a modernidade. De cultivadores de arroz
para lideres de indústria e de finanças
no mundo da globalização, sem romper
os elos de ligação com as normas de
conduta e os valores tradicionais.
Até que ponto persistem as vantagens
socialmente construídas do modelo japonês?
Sem dúvida, a educação formal generalizada,
a disciplina e obediência fundamentadas
num profundo respeito às autoridades
constituídas, foram favoráveis quando
postos a serviço do crescimento econômico,
contribuindo para a formação de um ethos
que reforça a identidade, orgulho e
solidariedade nacionais. Mas, as condições
objetivas da prosperidade e expansão
da economia japonesa tendem a enfraquecer
a medida em que suas maiores e mais
dinâmicas empresas forem impelidas a
multiplicar e descentralizar seus investimentos
em escala global, sobretudo nos mercados
integrados que ameaçam com barreiras
protecionistas.
Enquanto devem enfrentar a concorrência
dos conglomerados ocidentais, as exportações
de produtos japoneses passam a sofrer
a competição de late comers –
os países de industrialização tardia
cuja mão-de-obra, embora diligente e
barata, alcança níveis de produtividade
semelhantes aos dos trabalhadores japoneses.
Ademais, a abertura crescente ao mundo
externo, a redução da jornada de trabalho
e as mudanças de padrões de comportamento
induzidas pelo próprio governo, no sentido
de estimular níveis de consumo e de
lazer mais elevados tendem a reduzir
as margens de lucro e, assim, os níveis
de poupança e de investimentos que sustentaram
os esforços e a dinâmica de reconstrução
e crescimento ao longo das últimas décadas.
No período de pós-guerra, as empresas
japonesas conseguiram desenvolver um
tipo de relacionamento entre os trabalhadores
e a gerência que foi propício à obtenção
de índices crescentes de produtividade
e qualidade. Estimulou-se a lealdade
e dedicação dos empregados para com
a empresa, por meio de um conjunto de
vantagens concedidas, tais como o emprego
vitalício, melhoria dos salários e uma
participação – efetiva ou manipulada
– nas decisões que afetam a vida de
toda a organização. A necessidade de
preservar a harmonia do grupo induz
os indivíduos a esconderem seus verdadeiros
sentimentos (honne), revelando apenas
a máscara (tatemae) ao alinhar-se com
a posição dos chefes.
A união assim produzida em torno
de um projeto leva ao sentimento de
responsabilidade compartilhada, evitando
o risco de um fracasso ser atribuído
a um “bode expiatório”, com profundas
repercussões sobre o moral de toda a
organização. Essa orientação para o
coletivo manifesta-se, também, em toda
a trajetória dos trabalhadores japoneses.
Recrutados ao sair do colégio ou da
universidade, recebem um treinamento
e orientação que exige, muitas vezes,
o sacrifício da vida pessoal. São contratados,
nem tanto pelo talento ou as habilidades,
mas pela aptidão e prontidão de aceitar
e conformar-se à filosofia da empresa.
É no local de trabalho, segundo a doutrina
dominante, que se obtém auto-estima
e satisfação, e não nas realizações
pessoais.
Na organização da sociedade japonesa
prevalece o padrão hierárquico de “senioridade”,
diferente das sociedades ocidentais
baseadas no princípio do mérito e do
status atribuído. A unidade básica
da sociedade é o lar da família e cada
empresa se considera como uma família
extensa da qual partilham todos os empregados,
sendo o empresário ou o executivo seu
chefe natural. O grupo assim formado
se caracteriza pela homogeneidade e
exclusivismo, o que gera entre seus
membros sentimentos de identidade, segurança
e auto-valorização, ancorados numa conscientização
de “nós” contra os “outros”, refletida
também no conceito desfrutado pela empresa.
O prestígio e a reputação dos empregados
não são determinados por fatores econômicos
apenas (faturamento, lucros ou ativos),
mas até um operário não qualificado
ganha status como empregado de um prestigioso
conglomerado.
Assim, o prestígio social de um
grupo ou organização de trabalho tem
peso decisivo na determinação do status
pessoal de seus membros na sociedade
mais ampla.
A competição entre as pessoas e
entre as empresas é travada horizontalmente,
em todos os níveis, entre os pares que
operam no mesmo ramo ou setor. Assim,
enquanto se estimula o antagonismo contra
os “outros” da mesma classe ou nível,
ficam fortalecidos a hierarquia e os
laços de solidariedade em nível vertical,
em cada organização ou unidade do vasto
sistema produtivo e social. Cria-se
um clima de harmonia e de responsabilidade mútua nas empresas e na sociedade que contribui
poderosamente para o “ésprit de corps”
coletivo, enquanto se alimenta uma hostilidade
mal disfarçada em muitos aspectos da
vida social. Segundo a socióloga Chie
Nakane (1985), as mudanças decorrentes
da urbanização e industrialização não
teriam afetado a estrutura tradicional
e as relações informais.
Em um lar japonês tradicional,
opiniões e decisões de seus membros
são tidas como unânimes, ou seja, todos
aceitam a opinião do chefe e qualquer
contradição será considerada imprópria,
por perturbar a ordem e a harmonia do
grupo. Transferido para o âmbito da
empresa, empregado e empregador consideram
a relação como totalmente envolvente
(marugakae), semelhante à família.
Ainda segundo Nakane, essa característica
se verifica desde o período Meiji até
o presente, o que explicaria o imobilismo
do trabalhador japonês.
O sistema de emprego vitalício
- introduzido no período pós-guerra,
com o beneplácito do Estado - revela
vínculos estreitos e características
estruturais e ideológicas com a administração
dos lares e das empresas e forma a base
para o envolvimento e a participação
dos indivíduos, enfatizando-se a maior
importância de atitudes morais e patrióticas.
O sentido de coesão e unidade grupal
forma a base para o envolvimento e a
participação emocional dos indivíduos
no grupo, construindo um mundo à parte,
ao lado e em oposição aos de “fora”.
Mais do que em outras culturas, na sociedade
japonesa as relações com os “outros”
são vistas como opostos dificilmente
conciliáveis.
Convém frisar que as vantagens
conquistadas pelas empresas japonesas
no setor industrial não se basearam
apenas em tecnologias “duras” (hardware)
superiores. Quase todas as inovações
revolucionárias das últimas décadas
se originaram em pesquisas básicas realizadas
fora do Japão. Mas, as empresas japonesas
demonstraram uma capacidade incomum
de aplicar tecnologias pesquisadas e
desenvolvidas alhures, e uma habilidade
de lucrar mais rapidamente com a utilização
das mesmas. Em retrospectiva e, à luz
dos resultados, essa foi certamente
uma política tecnológica “apropriada”
para a sobrevivência e a competitividade
das empresas japonesas nos mercados
internacionais.
A infra-estrutura tecnológica é
fruto de um clima social propício à
inovação e ao trabalho criativo realizado
por uma força de trabalho bem treinada
e disciplinada que encara as tarefas
manuais e técnicas com orgulho e satisfação
profissionais.
O ambiente social, ou a estrutura
das relações sociais na família, na
escola, nas empresas e nas instituições
reforça atitudes de responsabilidade
no serviço e de lealdade à empresa ou
à organização. Dificilmente operários
ou funcionários mudam de empresa em
busca de melhores salários ou de carreira
mais rápida. Simplesmente, mais do que
uma relação contratual, o emprego é
carregado de uma ligação emocional,
como se fosse uma extensão da vida no
lar, com todas as conotações de aprovação
moral e social. No ocidente, o indivíduo
que infringe as normas sociais é considerado
perturbado ou desajustado emocionalmente.
Na sociedade japonesa, fundamentada
na ética de trabalho em grupo, do indivíduo
que perde esses vínculos sociais se
diz que “não pertence”.
Lições e perspectivas do Japão
No período pós-guerra, os japoneses
aprenderam com seus concorrentes ocidentais
e introduziram profundas transformações
nas linhas de produção e nos processos
de trabalho de seu país, entre as quais
se destacam: a flexibilização das linhas
de produção; o controle de qualidade
total; a introdução do kanban
(suprimento de insumos em tempo real,
eliminando a necessidade de se manter
grandes estoques) e a modificação das
relações humanas nas empresas, com base
num paternalismo benevolente e num sistema
de consulta aos empregados. Mas, a História
não se desenvolve em linha reta: o que
foi vantagem em um dado período pode
criar tensões e conflitos em um novo
contexto emergente.
O sistema de administração japonês,
após mais de três décadas de sucessos
invejáveis, passou a sofrer fortes pressões
por mudanças. O envelhecimento da força
de trabalho, a valorização do iene em
relação ao dólar, a crise persistente
da economia mundial e a fragilidade
do setor financeiro japonês, tudo pressiona
no sentido de mudar os padrões de conduta
do povo japonês num mercado internacional
extremamente competitivo e perturbado
por movimentos especulativos.
O cenário pós-guerra viu emergir
um novo paradigma técno-econômico baseado
na microeletrônica, com unidades de
produção flexível, sistemicamente integrados
e dinamizados por inovações incrementais,
o que parecia representar uma combinação
bem sucedida de tecnologia “dura” (hardware)
com uma série de inovações organizacionais
e administrativas (software) que resultaram
em processos de trabalho mais eficientes.
Seria isso suficiente para resistir
aos impactos da globalização dos mercados,
dos fluxos transnacionais de investimentos,
da mobilidade do capital industrial
e financeiro, numa corrida irrefreável
por mercados estratégicos?
Convém lembrar que a opção pela
grande organização industrial não tem
favorecido o avanço dos direitos individuais.
Discussões públicas sobre as decisões
tomadas pelas autoridades são fenômenos
raros, pois, segundo estudiosos, ”o
japonês, desde seu nascimento, está
sendo treinado para não virar a mesa”.
Entretanto, em conseqüência da
relativa afluência econômica e dos níveis
educacionais alcançados, começam a surgir
manifestações de individualismo. Ao
contrário de seus pais, que ainda colocam
a estabilidade no emprego como meta
prioritária, os jovens procuram atividades
profissionais capazes de lhes proporcionar
satisfação pessoal.
Surge, também, uma nova consciência
social, clamando por direitos dos idosos,
das mulheres, das crianças e dos deficientes
físicos e mentais, como expressão de
uma aspiração generalizada e crescente
por justiça social e defesa dos direitos
humanos, em
todos os setores da sociedade.
Iniciamos este texto com uma reflexão
sobre a trajetória histórica e política
do Japão, cuja população vivia em isolamento
total do resto do mundo, até meados
do século XIX. Analisando seus avanços
espetaculares no processo de integração
à economia mundial capitalista, atingindo
a posição de segunda potência industrial
e financeira, no final do século XX,
verifica-se que o Japão logrou essa
façanha apesar de sua pouca extensão
territorial e a ausência de recursos
naturais e energéticos.
Em vez de um determinismo econômico
pouco elucidativo, abrimos espaço para
uma abordagem interdisciplinar, privilegiando
as variáveis psíco-sociais. As normas
e padrões de conduta, as relações de
mando e poder tradicionais, constantemente
reforçados pelo processo de socialização
e o sistema de educação formal baseados
em um conjunto de valores que asseguram
a lealdade dos indivíduos ao grupo com
o qual se identificam (ou, ao qual “pertencem”),
resultando em adesão e solidariedade
em todos os níveis da vida coletiva.
A combinação desses fatores com
a conjuntura internacional e seus desafios;
a capacidade, competência e dedicação
da força de trabalho; a política de
inovações incrementais procurando induzir
melhorias graduais de design,
processo, equipamentos, acabamento,
etc, sem imobilizar vultosos recursos
na pesquisa da fronteira científica
e tecnológica; e a aliança tácita entre
os sindicatos dos trabalhadores e a
poderosa Keidanren (a associação dos
dirigentes das empresas), devidamente
sancionada pelo MITI – Ministério de
Indústria e Comércio Internacional;
todos esses elementos foram decisivos
para o crescimento econômico e a elevação
da qualidade de vida da população japonesa.
Seria isso suficiente para assegurar
uma transição tranqüila para o novo
contexto da globalização, no limiar
do século e milênio? Vantagens conquistadas
num período da História podem tornar-se
obstáculos para vencer novos desafios,
para os quais soluções e respostas fundamentadas
em valores tradicionais mostram-se inadequadas.